2006-11-29

Verídica :))

Saí de casa com a intenção de procurar máquinas fotográficas digitais. Pretendia saber preços de uma máquina com zoom - já que a minha não tem - e com a possibilidade de usar lentes macro.
Gostava de conseguir fotos com a espectacularidade de pormenores como as que vejo em alguns blogs.
Talvez devido à linguagem usada e denunciadora da minha falta de experiência em coisas deste género, o empregado perguntou-me o que é que eu pretendia fotografar com uma máquina deste tipo.
- Olhe, queria tirar fotos a flores e a insectos mas de forma a captar pormenores que escapem à vista normal.
O empregado ficou uns segundos a pensar e depois disse com o ar de quem ainda não emergiu totalmente do pensamento:
- Huuummm... estou a perceber... mas olhe que não vai conseguir tirar fotos dessas... quero dizer, consegue tirar às flores... agora aos insectos... acho que não!...
- Ah sim? E porquê??
- Então, pense bem... quando a senhora se aproximar com a máquina, o insecto foge!...
Não é que não tinha pensado nisto? E se amarrar o insecto por uma pata??

2006-11-24

Figueiredo das Donas e o crocus romano

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Fomos visitar Figueiredo das Donas pertencente ao concelho de Vouzela. Tirámos várias fotos às ruínas de uma casa senhorial e a seguir fomos procurar a via romana que liga Carregal, Figueiredo das Donas, Bandavises e Fataúnços que foi o que motivou a nossa visita. Este troço fazia parte de uma estrada romana que ligava a cidade (civitas) de Viseu ao litoral. O caminho estava em muito bom estado e ainda era utilizado pelos locais nas suas deslocações. Tinha uns 3 metros de largura e como era costume nestas zonas, devido à abundância, era calcetado com o aproveitamento das rochas de granito que emergiam da terra.
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Estavamos sentados num murete (muito mais recente) a usufruir do perfume do ar e do silêncio quando reparámos neste crocus que luzia por entre a folhagem. Perguntámo-nos se seria um Crocus sativus ou um Crocus autumnale, que é como quem diz um Colchicum autumnale. Não chegámos a conclusão nenhuma pois não somos nenhuns entendidos. Mas talvez a segunda hipótese. O Crocus sativus, já conhecido e usado pelos gregos e romanos, é donde se extrai o verdadeiro açafrão a partir dos estigmas e estiletes secos da flor, percebendo-se a razão de ser do seu preço elevadíssimo. Digo verdadeiro açafrão porque o que costumamos comprar a um preço acessível é feito a partir do rizoma de uma planta da família do gengibre e por isso de cor amarelada enquanto que o verdadeiro é vermelho alaranjado.
E este post terminaria aqui, se não tivéssemos andado a pesquisar outras informações sobre a origem de Figueiredo das Donas. Ficámos a saber que as ruínas às quais tirámos algumas fotos, Posted by Picasa tinham a seguinte história:

No séc. VIII, um cavaleiro chamado Guesto Ansur e natural da zona de Lafões, juntamente com outros cavaleiros, tentaram libertar 6 donzelas que levadas pelos mouros iam ser entregues ao Emir de Córdova, fazendo parte de um pacto em que este emir receberia 100 donzelas todos os anos. O confronto deu-se num figueiral ou figueiredo, tendo o cavaleiro Ansur continuado a luta com uma pernada de figueira ao ficar sem a sua espada. Os mouros acabaram por fugir deixando as donzelas. Daí o nome de Figueiredo das Donas. Ansur acabou por casar com uma delas que já seria sua noiva e construíram um paço: as ruínas fotografadas. Posted by Picasa














No site Figueiredo das Donas encontrámos uma cantiga de amor supostamente escrita por Ansur e dedicada à sua amada:

No figueiral figueiredo
a no figueiral entrey,
seis ninas encontrara
seis ninas encontrey
para ellas andára
para ellas andey
lhorando as achára
lhorando as achey
................
las ninas furtára
las ninas furtey
La que a mi falára
nalma la chantey

2006-11-18

Theo Jansen, a criatura e o vento

Há dias falaram-me do artista plástico holandês Theo Jansen que eu não conhecia. Disseram-me que fazia “esculturas cinéticas” e eu não conseguia imaginar que tipo de movimento é que teriam. Simpaticamente enviaram-me alguns vídeos para eu ter uma ideia do tipo de trabalho desse artista. As estruturas são feitas com tubos plásticos levíssimos que quando sujeitas à força do vento ganham uma dinâmica que as fazem movimentar. Parecem criaturas inteligentes graças a sensores que as afastam de obstáculos ou fixando-se ao solo quando se aproxima um vento forte demais. Por ter ficado tão deslumbrada com esta ligação da arte e a técnica, não resisti a publicar um dos vídeos para quem tal como eu ainda não tenha esbarrado com esta maravilha.


E se quiserem ter mais informações podem aceder aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=gx6fiGwmfzI

2006-11-12

E tu? Tens os braços do mesmo tamanho?

Ontem estava à espera da minha vez num consultório médico. Na sala só estava eu e uma senhora de meia idade que me olhava frequentemente. Como sou muito distraída, tornei a olhar para ela atentamente, não fosse alguém conhecido e que assim à primeira não estivesse a reconhecer.
Percebi depois que era o sinal que a senhora esperava. Fez um grande sorriso e disse-me assim:
- A gente passa tanto tempo enfiada nestes sítios. Mas tem que ser. A saúde está primeiro que tudo.
- Sim, isso é verdade! - e tentei escolher uma revista diferente daquelas que têm os cantos inferiores das páginas mais escuros, moles e meio enrolados pelo passar de centenas de dedos sebentos e molhados com cuspo..
- Olhe, eu já tenho a minha conta em médicos e hospitais. Inda agora vim da farmácia. Tenho ali uma sacada de remédios que eu sei lá. E nem tive dinheiro para os pagar. A minha sorte é ser conhecida e as pessoas confiarem em mim. Mas já passei muito nesta vida. Estive em Lisboa, sabe? Tive um cancro. Entrei na máquina 30 vezes para ser queimada. Mas sempre tive muita fé na Virgem e foi ela que me salvou!
Sorri para a senhora abanando a cabeça, num sinal de compreensão.
Li as letras gordas de uma notícia sobre o divórcio de uma artista portuguesa qualquer. Mas, ao perceber que a senhora não me ia largar mais, pousei a revista.
- Sabe? Eu sou uma pessoa muito boa e tenho muita fé na Virgem. E também uso os meus poderes para tratar das pessoas!..
Achei estranha esta afirmação uma vez que estavamos as duas no consultório médico à espera de sermos atendidas. Comecei a interessar-me e alimentei a conversa:
- Ah, não sabia! E trata as pessoas de quê ?
- Olhe, trato do buchinho revirado, da espinhela caída…
Espantei-me com os termos.
- Buchinho revirado? Nunca ouvi falar! O que é isso?
A senhora olhou para mim com o sobrolho franzido tentando perceber se eu estava a gracejar ou se realmente era uma ignorante destes males.
- Não sabe o que é o buchinho revirado? Atão, é aquilo que dá nas crianças pequenas. Começam a gomitar e nada lhes pára no estômago!
- Palavra que nunca tal tinha ouvido. E como é que a senhora sabe que a criança tem o bucho dessa maneira?
- Ora essa, levanto a criança no ar segurando-a por baixo dos braços. Por acaso ultimamente nem tenho tido muita força nos meus. Vê-se logo aquele alto por cima da barriga. Não há que enganar!
Preocupada com o assunto, perguntei a medo:
- E como é que a senhora trata desses bebés?
- Com rezas, minha filha! O tratamento é feito com rezas porque eu tenho muita fé nos santos.
- Ah, ainda bem! – respondi aliviada – Mas falou-me noutro problema que também consegue curar!
- Sim. Também trato da espinhela caída. Mas isso acontece mais aos crescidos. São maus-jeitos que se dão, percebe?
- E como é que a senhora sabe que o doente tem a espinhela caída?
Sacudindo os ombros, naquele gesto que quer dizer “Aparece-me cada uma!...” respondeu-me lentamente a marcar bem as sílabas, a pretender fazer-me sentir completamente burra.
- Mando levantar os braços das pessoas, com os polegares assim (e por pouco espetava-me os polegares nos olhos). Os braços têm que ter o mesmo tamanho, não é verdade? Se um estiver mais pequeno que o outro é sinal que tem a espinhela caída. Entendeu?
Acenei que sim enquanto olhava para ela com os braços esticados ao alto. Depois pousou as mãos sobre a mala e continuou:
- Uma vez dei um jeito à minha espinha e pensei que não me ia mexer mais. Pedi ao meu filho e ele ajudou-me a levantar e a segurar-me à parte de cima da porta do meu quarto. Fiquei pendurada e pedi-lhe para me puxar um pouco para baixo para aliviar a dor. Mas olhe, até parece que ouvi um estalinho. Tive muito azar. Acabei por ficar de cama durante 3 meses com duas hérnias discais. Passei bem mal dessa vez!...

Felizmente ouvi chamar pelo meu nome e consegui sair a tempo de esconder um sorriso divertido que ameaçava alargar-se pela cara toda

2006-11-09

Cantinhos do meu jardim

Não tenho aparecido porque ando um bocado enchirida (nem sei como escrever o diabo desta palavra tão vulgar aqui na zona) o que quer dizer que ando assim meia tristita, adoentada e sem vontade para nada. O tempo disponível ocupo-o a ler os blogs dos amigos que são de tal maneira interessantes que me limito a usufruir do prazer da leitura. Mas, para não deixar este blog mais tempo parado o que já começa a preocupar os amigos mais próximos, resolvi publicar algumas fotos tiradas no meu jardim.

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Um castanheiro generoso


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Uma abelha no Callistemon
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Salva (Salvia officinalis)
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Mangericão (Ocimum basilicum)
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Erva-cidreira (Melissa officinalis)   Posted by Picasa








Poejos em flor (Mentha pulegium)

2006-11-02

A estrela dos lagos

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Hoje tivemos o prazer de sermos orientados pelo prof. Jorge Paiva numa visita ao Jardim Botânico de Coimbra, uma divulgação feita pelos responsáveis do site Dias-com-Árvores correspondendo ao convite feito pelo prof. Mário Tomé.
O entusiasmo do prof. Paiva contagiou o grupo que pôde ver atentamente todas as raridades do jardim como a Erythrina crista-galli, Cryptomeria japónica, Cunninghamia sinensis, a colecção de Eucalyptus, a Ginkgo biloba, a sequóia gigante da Califórnia, as várias palmeiras, a figueira da Austrália, os plátanos, choupos, ulmeiros, as cores que começam a pintar o Acer japonicum, o Liquidambar sytraciflua, o ambiente de penumbra poética criado pelo magnifico bambuzal de grande porte de Phyllostachys bambusoides e ainda com uma visita final ao Museu Botânico.
Mas como decidimos falar apenas de uma planta, escolhemos por unanimidade a Victoria amazonica ou Victoria régia. É uma planta aquática flutuante, pertencente à família das Nymphaeacea, originária da zona equatorial da América do Sul.
As suas folhas que parecem bandejas redondas podem atingir os 2m de diâmetro. Possui nervuras na sua parte inferior, ajudando-a a flutuar, tendo uma borda de 5 a 10cm que evita a entrada da água que poderia provocar o seu apodrecimento. Para evitar encher-se com a água das chuvas, possui um canal a meio da folha que orienta a água até 2 fendas que tem na borda. Possui também uma série de espinhos na parte inferior da folha para evitar assim os predadores, como os peixes e crocodilos.
Agora o curioso é termos podido ver uma das suas flores aberta. É que ela fora do seu ambiente natural só floresce uma vez por ano e a flor só dura 48 horas.
A flor é branca abre a meio da tarde até à manhã seguinte, exalando um perfume que atrai os besouros polinizadores. Depois fecha aprisionando os insectos que só tornam a sair a meio da tarde desse dia quando ela tornar a abrir com uma cor rósea e já devidamente polinizada. No terceiro dia adquire uma cor mais escura, a flor fecha, mergulha e o fruto amadurece na água, cerca de seis semanas depois da floração.
Existe uma história lindíssima entre os índios da Amazónia que explica o aparecimento da Victoria amazonica. Conta a lenda que uma índia chamada Naiá apaixonou-se por Jaci, a lua. Acreditava que Jaci em noites de lua cheia, descia à terra procurando uma virgem, transformando-a depois em estrela para lhe fazer companhia. Naiá queria a todo o custo tornar-se também numa estrela para brilhar ao lado de Jaci.
Atraídos pela sua beleza, os homens tentavam cortejá-la na esperança de virem a ser escolhidos. Naiá a todos recusava apenas preocupada em ser escolhida por Jaci. Passava as noites sentada mirando a lua e quando amanhecia, corria no sentido oposto ao sol para tentar alcançá-la. Mas uma noite, exausta, acabou por adormecer à beira de um lago. Quando acordou, exultou de felicidade ao ver a lua reflectida e julgando ser o momento tão esperado, mergulhou nas águas profundas acabando por se afogar.
Jaci, ao ver o sacrifício de Naiá, resolveu fazer-lhe a vontade e transformá-la numa estrela, mas uma estrela dos lagos: a bela Victoria régia, abrindo as suas pétalas ao luar para finalmente reflectir a luz de Jaci. Posted by Picasa