2007-06-26

Vermelhos resplandecentes

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Aproveitámos estes últimos dias sem chover para colhermos alguns frutos. Começámos pelos pêssegos de S. João que já estão a abandonar a árvore-mãe fazendo as delícias dos ouriços-caixeiros nos seus piqueniques nocturnos. Depois dos pêssegos seguiram-se os morangos que têm um perfume e sabor deliciosos. Já nos íamos embora quando reparámos na groselheira que dava nas vistas com as suas bagas faiscando ao sol da tarde.
Preparámos um prato para ir à mesa e ficou tão bonito que não resistimos a tirar uma foto para vos mostrar.
A maioria dos pêssegos vão ser comidos ao natural, outros vão ser cortados aos bocados e postos na máquina de sumos com leite e mel, fazendo um delicioso batido para o pequeno almoço ou lanche. Outros ainda depois de cortados em pedaços vão ser mergulhados num bom vinho tinto adoçado com açúcar amarelo (tem que se deixar embebedar os pêssegos por algumas horas). E se tivermos tempo e paciência talvez ainda nos aventuremos na compota e no licor
Os morangos serão comidos ao natural, servidos em batidos feitos da mesma forma como os de pêssego, ou mergulhados em chantilly, ou em iogurte, ou em vinho do Porto ou em chocolate derretido (huummm). Não serão suficientes para o doce que é magnífico e ainda menos para o licor que felizmente ainda temos do ano passado, pela simples razão de nem sempre ir à mesa pôr o ponto final numa boa refeição.
Agora o busílis eram as bagas de groselha. Que fazer com elas? Os batidos entraram logo na lista. Devem ser tão bons quanto os de framboesa que este ano não temos, devido ao falecimento do framboeseiro. Como nos disse o Filipe “Comer a groselha em estado natural, é uma bela maneira de não gostar de groselha, a maior parte é realmente muito ácida, tem que se deixar macerar em açúcar ou então fazer sumos. Tem um alto teor em vitamina C. Em compota também resulta muito bem”
Portanto restava macerá-las em açúcar já que eram poucas para compota.
Um amigo falou-me entretanto da cidade francesa Bar-le-Duc que ao que parece tem orgulho de fabricar a melhor geleia de groselha do mundo sendo servida desde o séc. XIV nas mesas mais distintas e exigentes, tendo um preço proibitivo.
Ainda hoje preparam as bagas de groselha da mesma maneira artesanal, extraindo as sementes com o bico de uma pena de pato ou de ganso, sem perderem uma gotinha de sumo. São mulheres especializadas neste trabalho chamadas “épépineuses” que conseguem preparar um quilo de bagas ao fim de 3 horas de trabalho minucioso mas veloz.

Quando voltávamos para casa com pouca luz do dia, reparámos numas coisinhas minúsculas que saltavam diante dos nossos pés. Eram sapinhos bebés às dezenas… às centenas! A partir dali mal conseguíamos caminhar, apavorados com a possibilidade de esmagarmos aquelas simpáticas criaturas. Aproveitámos e tirámos também uma foto a um dos sapinhos que depois da sessão fotográfica foi de novo colocado no mesmo local de onde o tínhamos recolhido.

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2007-06-08

Farinelli e os castrati

Este fim de semana estivemos a rever o filme “Farinelli” de Gerard Corbiau que conta a vida do célebre cantor castrado baptizado com o nome de Carlo Broschi, nascido em Andria-Nápoles em1705 e tendo morrido em Bolonha em 1782.
Embora muitos estudiosos ficassem decepcionados com o filme por entenderem que a aparência do Farinelli seria muito diferente da do actor Stefano Dionisi e, que ao contrário da maioria dos cantores castrados com sucesso, seria uma pessoa muito humilde, com uma postura diferente da representada e sem interesse pelo sexo, vale a pena ver o filme que nos dá uma ideia muito aproximada do ideal estético da época barroca.
A castração já era praticada na Antiguidade por povos vitoriosos para evitar a reprodução dos inimigos capturados, em alguns cultos pagãos que exigiam a auto-emasculação dos seus sacerdotes, como punição por crimes de violação, no mundo árabe que se servia dos eunucos para guarda das mulheres do sultão, pelo Império bizantino utilizando-os nos cânticos das igrejas, etc
Perante a proibição pelo Vaticano das mulheres cantarem no coro sacro, seguindo à letra uma epístola de S. Paulo que diz que as mulheres devem permanecer em silêncio na igreja, houve necessidade de resolver a falta de vozes agudas que não era totalmente preenchida com as vozes das crianças com menos vigor por não terem um corpo maduro, pelo pouco tempo que conseguiam mantê-la e pela falta de expressividade impossível de se manifestar nestas idades.
A solução encontrada foi a de mutilar infelizes rapazinhos entre os 7 e os 11 anos, de forma a evitar a puberdade e assim manterem o timbre de voz.
No período compreendido entre os séculos XVII e XVIII, fizeram-se cerca de 4.000 castrações/ano só em Itália que via nos castrados também um produto de exportação.
Muitas famílias pobres e com uma prole numerosa aceitavam a castração de um dos seus filhos, quando o mestre de capela achava que a criança tinha uma voz promissora, tentando libertá-lo de uma vida de miséria ao mesmo tempo que poderiam vir a receber rendas por conta dos ganhos do futuro cantor.
Mas a grande maioria das crianças castradas, perdia-se no anonimato, numa vida infeliz plena de complexos de inferioridade e de fracasso, perdendo mesmo a voz ou cantando em pequenos coros de igrejas locais.
Segundo algumas estimativas, apenas 10 a 15% das crianças castradas conseguiam subsistir à custa da sua voz. E destas, apenas 1% é que atingia o sucesso.
Estas cirurgias eram desempenhadas mais frequentemente pelos barbeiros da terra e podemos facilmente imaginar as condições em que eram feitas.
Para anestesia usava-se uma bebida de ópio (por vezes fatal devido a uma dosagem demasiadamente elevada) ou então pressionando as carótidas de forma a deixar a criança inconsciente. A imersão em leite facilitava o amolecimento dos tecidos e a água gelada adormecia um pouco mais a sensação de dor além de evitar as grandes hemorragias.
A intervenção podia consistir simplesmente no esmagamento dos testículos até os romper, não sendo necessário nenhum golpe cirúrgico, no corte dos cordões espermáticos originando o atrofiamento dos testículos ou extraindo estes por uma incisão feita na virilha, cortados com uma faca e ligando seguidamente os canais. Este último processo dava origem a uma maior mortandade devido a graves hemorragias e septicemias.
A ablação dos testículos impedia a puberdade e por isso o desenvolvimento normal da laringe masculina que não descia, mantendo o registo normal de uma voz infantil. Dava origem também ao desenvolvimento do tórax, criando uma apreciável caixa de ressonância com cordas vocais de pequena dimensão.
Mas as transformações não eram apenas na voz: Os castrados tinham uma estatura superior à normal uma vez que as cartilagens continuavam a funcionar por mais tempo dando origem ao aumento do tamanho dos ossos. Não tinham maçã-de-adão. A obesidade depositava-se tal como no corpo das mulheres. Não tinham barba mas o cabelo era forte e espesso. A pilosidade no corpo era quase inexistente, desenvolvendo-se mais na região púbica. Podiam ter erecções e até emissão de plasma seminal uma vez que mantinham outras glândulas em funcionamento, mas obviamente sem espermatozóides.
Aqueles que conseguiam recuperar da cirurgia, iam para conservatórios durante 10 anos onde trabalhavam a voz de uma forma intensíssima e com uma disciplina extremamente rigorosa.
A Igreja não permitia as castrações, uma vez que havia uma lei do direito canónico e civil que proibia a amputação deliberada de qualquer parte do corpo, mas paradoxalmente, aceitava os castrados para cantarem nos seus coros. O próprio Papa Clemente VIII autorizava a castração desde que fosse feita para a glória de Deus.
Normalmente não se confessava a verdadeira razão que iria alterar o desenvolvimento físico do adolescente. A desculpa era quase sempre uma doença grave, um acidente, uma hérnia, qualquer pretexto acobertado pelo médico, evitando a excomunhão, convencendo a sociedade local e até o próprio que a maior parte das vezes desconhecia o porquê do seu problema físico.
O gosto pelo virtuosismo, fazia com que houvesse um fascínio generalizado pelos cantores castrados que tinham uma voz assexuada a que chamavam “angelical” e que interpretavam personagens de deuses e heróis, tanto em papéis masculinos como em femininos.
Hoje é difícil saber como seria realmente o tipo de voz de um cantor castrado. Existem gravações do último castrado Alessandro Moreschi (1858-1922) que não são agradáveis de ouvir devido ao facto do cantor já não estar na sua melhor forma quando a técnica permitiu as gravações e também devido à precariedade da mesma que originava muitas distorções no som
No filme Farinelli conseguiu-se por digitalização, fundir as vozes do contratenor Derek Lee Ragin com a da soprano Ewa Mallas-Godlewska para atingir uma tessitura de três oitavas, impossível de se conseguir actualmente de uma forma natural mas que ao que parece era possível em alguns castrados. Muitas das peças escritas na época para eles, são impossíveis de se cantar pelos cantores actuais. Conta-se que Farinelli conseguia emitir 250 notas num minuto e sem respirar. Conta-se também que numa actuação em Londres, os músicos da orquestra não conseguiam concentrar-se nas suas partituras, impressionados com o seu extraordinário virtuosismo
Deixamos aqui um pequeno registo do filme Farinelli no momento em que Handel vingativamente o esclarece sobre a sua castração (momento também duvidoso), seguindo-se a interpretação da ária “Lascia Ch'io Pianga” (Deixa que eu chore) da ópera Rinaldo composta pelo próprio Handel

Não confundir os cantores castrados com os contratenores que têm um timbre muito parecido com o das mulheres, graças a uma técnica especial na emissão da voz. Já existiam no período barroco mas o fascínio na época pela voz dos castrados não permitia o sucesso daqueles.
Em 1902, o Papa Leão XIII proíbe definitivamente a presença dos castrados no canto sacro.
As árias escritas na época para cantores castrados, são hoje cantados por contratenores ou sopranistas (homens) ou mezzo sopranos (mulheres)
Uma tarde em que estávamos a conversar sobre os cantores castrados, nem nos apercebemos da presença do Pedrinho, um menino com 10 anos que nos ouvia atentamente. A seguir estivemos a ouvir um Cd de árias antigas interpretadas pela Cecília Bartoli e fomos surpreendidos com a sua pergunta:
- E a este? Também lhe arrancaram os tomates?!
Para finalizar, fica aqui mais um vídeo que nos deixa a pensar no que poderia suceder a esta criança se tivesse vivido na época atrás referida



Consultas: “História dos Castrados” de Patrick Barbier; http://www.kindsein.com/es/8/educacion/227/?ST1=Full_text&ST_T1=Article&ST_PS1=6&ST_AS1=0&ST_LS1=0&ST_max=1
http://marianmus.wordpress.com/2007/04/03/contratenores-y-castrati/
http://atacada.wordpress.com/2007/01/21/farinelli-il-castrato/
http://www.npdi.dcc.ufmg.br/workshop/wti2001/pdf/nazario.pdf
http://www.geocities.com/operacalli/i_castrati.htm