2007-07-28

O sorriso da Albizia

Ao consultarmos um livro com fotos de árvores de jardim, ficámos rendidos a uma belíssima Albizia julibrissin, também conhecida por Acácia-de-Constantinopla ou Árvore-da-Seda. Não descansámos enquanto não comprámos uma jovem árvore que plantámos no relvado. Ficou meia esquecida e foi crescendo modestamente, sem exigir tratamento nenhum especial. Um dia ficámos intrigados ao vermos uma pena rosada que se encontrava presa na folhagem. Que pássaro teria penas cor-de-rosa? E ao aproximarmo-nos pudemos constatar que não se tratava de uma pena, mas sim de uma frágil flor, a primeira, que a acácia nos oferecia. Tornou-se numa árvore adulta mimoseando-nos nestes últimos anos com uma floração muito abundante, o que nos dá um enorme prazer. A madeira é muito macia e os ramos partem-se facilmente se sujeitos ao peso dos garotos nas suas brincadeiras e tropelias.
 
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Tudo nesta árvore é gracioso: o porte, a folhagem idêntica à dos fetos, as flores de perfume suave, compostas por tufos de fios de seda rosados e cremes, de uma delicadeza extraordinária.
Pertence à extensa família das Leguminosas e à divisão das Mimosoideae, tal como a acácia-mimosa. Começámos a ficar um pouco apreensivos ao vermos surgir algumas novas acácias nos canteiros e no próprio relvado. Lemos mais tarde o post do Pedro na Sombra Verde que informa não estar a Acácia de Constantinopla referenciada como invasora, embora o seja nos Estados Unidos da América, nos estados do Sudeste onde foi introduzida no séc. XVIII. Vamos ver como é que as coisas evoluem..


Entretanto enquanto escrevíamos este post, recebemos um mail com várias fotos de bonsais. Uma delas parecia ser mesmo de uma albizia julibrissin o que nos deu uma tristeza enorme. Só quem não nos conhece é que pode pensar que temos algum prazer perante o espectáculo de um bonsai. Não conseguimos suportar a contemplação de árvores de grande porte condenadas à miniaturização em que o grande feito é torná-la o mais minúscula possível. Ver um bonsai dá-nos uma sensação de angústia e claustrofobia. Não conseguimos sentir a obra de arte, mas sim o acto em que se sacrifica a árvore, condenada a viver num vaso ridículo, ainda que a receber atenções extremas com grande frequência. Por incapacidade nossa, não conseguimos acompanhar o misticismo que dizem envolver o bonsai e não conseguimos evitar o espanto quando ouvimos dizer que a “arte” necessária para fazer um bonsai exige um grande amor pelas plantas e o respeito pela natureza. Aos nossos amigos que são apaixonados por esta técnica (e que já conhecem sobejamente este nosso discurso) diremos, mais uma vez, que para nós, o amor e o respeito pela Natureza são completamente estranhos a este tipo de práticas.


Aqui fica outra foto da nossa Albizia, uma árvore feliz

 
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2007-07-08

O Monstro de Fogo

Nestes últimos dias de intenso calor, não conseguimos evitar a preocupação de virmos a sofrer novamente a devastação dos incêndios.
A primeira vez que deparámos com uma calamidade destas, estávamos completamente desprevenidos. Vimos, uma hora antes, uma coluna de fumo negro ao longe e sem nos dar tempo a pensar como agir, assomou à nossa porta, entrando e devastando mais de metade da floresta. Dezenas de vizinhos apareceram a correr com as caras tapadas com lenços sujos de cinza, amarrados atrás das orelhas e munidos com o que havia à mão: moto-serras, enxadas, ramos de árvore, etc. Todos eles, assim como o meu marido e os filhos entravam naquela cortina negra e desapareciam deixando-nos numa angústia atroz. Desesperada por não saber o que estava a acontecer fora das nossas vistas, entrei também naquele inferno de chamas e fumo negro.
Lá dentro, os gritos dos homens que orientavam outros, tinham um soar diferente e estranho. A luz do dia desaparecera para dar lugar a uma luminosidade irreal. O ar que se respirava era insuficiente. O calor era insuportável.
Dirigi-me com dificuldade a um vulto e, entre lágrimas, balbuciei-lhe para desistirem... que deixassem arder... que não queria ver ninguém morrer ali...
O vulto pôs-me a mão no ombro e gritou para sair. Que eles sabiam o que estavam a fazer e que ajudaria muito se fosse para junto da casa e estivesse atenta às fagulhas que podiam dar origem a novos incêndios.
As chamas altas dilaceravam as pobres árvores que gemiam, deixando cair os ramos incandescentes no chão abrasador. O fogo estacou diante de mim tentando seduzir-me na sua resplandecência. Mirámo-nos olhos nos olhos. De repente deu um urro, um urro animalesco e saltou por cima das copas dos pinheiros, começando a devorar tudo atrás de nós, cercando-nos com mãos de chamas. O vulto, que nunca cheguei a saber de quem era, agarrou-me por um braço e arrastou-me com ele conseguindo fugir por entre as árvores transformadas em tochas. Os pêlos dos braços, as sobrancelhas, os cabelos, encolheram-se e encaracolaram-se crespos, queimados pelo calor intenso. O pensamento de que poderíamos ficar ali estendidos a qualquer momento, perseguiu-me durante a fuga em que fui chocando com outros corpos meio cegos que também tentavam desesperadamente sair daquela armadilha. Felizmente todos conseguimos sair ilesos.
Quando recuperei desses momentos de terror, segui o conselho e com uma mangueira na mão, perto de casa, fui afogando as fagulhas que mal caíam começavam logo a morder fosse o que fosse. O fogo arrastava o vento consigo e o vento ajudava o fogo a mudar de direcção, ora esquivando-se, ora encurralando, como no jogo do gato e do rato
Foi um dia de aflição, de pânico, de impotência, de raiva!
À noite, o incêndio estava extinto, diziam… mas os buracos denunciadores das árvores ausentes, chispavam com o vento e reacendiam pequenas fogueiras aqui e ali como se houvesse ainda alguma coisa para devorar. De madrugada ainda transportavamos, completamente exaustos, vasilhas com água e vertíamos dentro desses buracos de fogo que conseguia resistir-nos.
Os dias seguintes foram de desolação ao ver a quantidade de árvores desaparecidas ou completamente negras e sem vida. Coelhos mortos e quase irreconhecíveis. No terreno ao lado, um javali jazia numa posição estranha.
A partir dessa altura, passámos a ter mais preocupação com a limpeza do terreno: lavrar uma faixa em toda a volta, junto à vedação com uns 8 metros de largura; limpar todo o mato seco ou verde dentro da quinta; pedir licença (por vezes sem ela por não se saber a quem pertencem alguns terrenos) e limpar também os restos de mato pelo lado de fora; substituir por carvalhos, sobreiros e outras, os pinheiros e eucaliptos mortos; ter pontos de água em locais mais castigados pelo fogo e mangueiras iguais às dos bombeiros, resistentes ao calor das chamas e preparadas para molharem a pessoa que as maneja, refrescando-a e protegendo-a do ambiente intensamente quente.
O próximo passo é adaptarmos um jipe velho para poder transportar água até às zonas onde as mangueiras não conseguem chegar.
Passada uma semana deste grande incêndio, vi uma pequena coluna de fumo a sair dum monte de terra onde tinha andado o fogo. Preocupada, agarrei num garrafão de água e fui até lá. Subi o monte e senti os pés quentes. Atirei com a água e levantou-se uma nuvem grossa de vapor. Percebi que o fogo continuava a desenvolver-se por baixo do chão, lentamente, teimosamente, procurando alguma coisa que o animasse a sair de novo. Com as solas dos ténis meias derretidas e a colarem-se ao chão, levei uma mangueira até lá e passei a tarde a encharcá-lo, a tentar exterminá-lo. E consegui.
Há 2 anos, com a quinta limpa daquilo que nos parecia combustível, o fogo conseguiu arrastar-se por 20 Km até chegar aqui. Queria ajustar contas connosco. Desta vez entendi-o bem. Apareceu à nossa beira, soberbo, cheio de força, como um gigante de poder imenso.
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Na foto podem ver a sua magnificência, a diabólica forma como se apresentou diante de nós. A casinha que está à direita é uma eira que todos pensávamos que iria desaparecer mas que felizmente conseguiu-se proteger mantendo-se tão branca como está na foto. Do lado esquerdo consegue-se ver um telhado por entre as árvores que é o estábulo onde se guardavam alguns animais e também uma centena de fardos de palha que foram empapados em água para evitar a acção das fagulhas.
Nós já o esperávamos com o coração apertado, o estômago contorcido mas decididos na contenda. Tínhamos as mangueiras estendidas, zonas alagadas, a ajuda de uma dezena de pessoas que aqui se encontravam para um almoço de família e pouco depois a vinda de dezenas e dezenas de vizinhos, sempre generosos, preparados para o que desse e viesse.
As terras lavradas pouco antes, tinham algum restolho que embora baixo foi o suficiente para permitir que ele se arrastasse como um verme e atingisse a zona de pinhais. Onde não conseguiu chegar arrastando-se, ergueu-se e saltou de copa em copa, rugindo como um monstro feroz. O vento ajudava-o na façanha.
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Foi outra luta enraivecida. Os homens combatendo as chamas e as mulheres na retaguarda, protegendo as zonas menos perigosas. Estávamos constantemente a mudar de local os animais aterrorizados, conforme a evolução da situação. A égua e a burra corriam em pânico de um lado para o outro com pequenas chamas sobre o pêlo que se ateavam mais com a correria e que eram provenientes de chispas que caíam a arder em cima delas, felizmente sem perigo. Quando conseguíamos enfraquecer o fogo numa zona, logo se fortalecia noutra, qual Hefesto sempre renascido. Felizmente as mangueiras em zonas estratégicas evitaram o pior. Nem as casas, nem os animais foram prejudicados. A meio da noite, a fera desistia da peleja, mudando de rumo e caminhando para outro povoado, ainda que debilitada e cheia de mazelas. Entretanto deixou uma série de bocas rosnando e chispando nos buracos que nós enchíamos de água, enfraquecendo-as até conseguirmos eliminá-las.
No dia seguinte o mesmo espectáculo consternador. Um cheiro a cinzas e a morte.
Mas sabemos que ele vai tentar de novo. Não vai desistir de avançar na sua destruição. Assim o desleixo e os interesses mesquinhos dos homens o permitam!