2006-12-26

O Pai Natal mudou de perfume













Para todos os amigos que nos escreveram a perguntar como foi o Natal deste ano, aqui fica uma foto que mostra o simpático Pai Natal que encantou todas as crianças com as suas graças e os seus presentes.
Até nós, os adultos, ficámos rendidos à sua simpatia e aos magníficos presentes com que nos mimoseou.
Ah, e desta vez não cheirava a vick mas sim a lavanda :)), o que era muito mais agradável.
Obrigada a todos os amigos que nos seguem com tanta atenção e carinho. Esperamos que todos vós também tenham tido um Natal na companhia de quem mais gostam e num ambiente de Paz e Amor
Um grande abraço

2006-12-18

Parêntesis de Natal

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Na minha casa de infância não se vivia o Natal religioso. Era um Natal pagão com a figura do Pai Natal que premiava igualmente as boas acções mas nunca sendo mãos largas por muito bonzinhos que fossemos.
As recordações mais antigas, a partir dos meus 3 ou 4 anos, não me trazem a imagem do velho de vermelho e longas barbas. Éramos pobres e sem dinheiro para este tipo de disfarces. Não havia Ceia de Natal e jantávamos simplesmente como todos os dias, os mesmos de sempre: eu, a minha irmã e os meus pais. O jantar era um momento de grande tensão: eu era muito vagarosa a comer por nunca ter apetite e, naquelas noites com a perspectiva da visita de tão ilustre personagem, a comida ainda mais demorava a passar pela garganta. Os meus pais andavam de volta de mim já desesperados, ameaçando com a ausência do velhinho face à minha lentidão a comer. Quanto mais diziam, mais me enervavam e menos conseguia engolir… Por fim, rendidos à minha falta de energia, tiravam-me o prato da frente e mandavam-nos para o quarto. Ali ficávamos com o coração aos pulos até ouvir aqueles murros na porta de entrada e uma voz rouco-esganiçada a perguntar se era ali que morava a menina Ana e a menina São. A minha mãe respondia que sim. E elas têm-se portado bem? Sim, sim, senhor Pai Natal! Bom, trago-lhes aqui algumas coisas e digam à menina Ana que se continuar a comer como come, se calhar para o ano não apareço por cá!.
Depois quando ouvíamos fechar a porta com estrondo, saíamos do quarto a correr. Os presentes eram normalmente coisas que precisávamos: uma camisola que chegava aos joelhos para acompanhar o nosso rápido crescimento ou uns sapatos dois números acima pelas mesmas razões. Mas havia sempre qualquer coisinha que fazia os meus encantos: um pato bebé que passava a ser a minha companhia diária, dormindo comigo e tomando banho no mesmo alguidar que eu, fugindo de casa logo que estava grande e gordo, não conseguindo relacionar o desaparecimento do bicho e a canjinha oferecida nesse mesmo dia… ou um ratinho cinzento olhando para mim dentro da caixa de sabão, ainda meio esfalfado pela correria que teve que fazer no corredor da casa tentando evitar ser capturado.
Mais tarde, a partir dos meus 5 anos, já aparecia o velhinho todo marreco, vestido de vermelho, de barbas brancas meias descoladas que cheirava a Vick Vaporub que tresandava (substância pastosa que serve para fixar o algodão por breves minutos). Eu mantinha-me respeitosamente a alguma distância, respondendo às perguntas que ele me fazia, tentando ver se reconhecia as mãos que, talvez por isso, estavam sempre escondidas por umas luvas pretas. De vez em quando aproximava a cabeça meia confundida por reconhecer nele o cheiro do corpo da minha mãe.. outras vezes do corpo do meu pai. Mas a dúvida assim como aflorava também se dissipava logo a seguir. Horas depois era um deles que continuava a cheirar a vick. Sabe-se lá porquê.
Hoje temos muitas crianças na família, felizmente. E, ao jantar, ouço-as combinar entre si o que vão fazer: apalpar-lhe a roupa para ver se a barriga é a sério… puxar-lhe as barbas para ver se são verdadeiras... ameaças proferidas entre risos pelas mais velhas causando admiração e respeito das mais novitas. Mas quando vêem lá ao longe uma figura a caminhar por entre as árvores da mata com uma lanterna na mão e a repenicar uma sineta, a casa mergulhada numa penumbra expectante como convém e em que o único som instalado é o de Händel: Joy to the World… todas permanecem em silêncio e de boca aberta quase deixando ouvir os seus coraçõezinhos a bater desordenadamente. E o vulto a caminhar meio desorientado procurando a casa no meio da escuridão, ora aproximando-se, ora afastando-se mais, o que faz o desespero da criançada. Depois quando finalmente ele assoma à janela com as barbas erguendo-se ao vento e apontando para cada um de nós com o feixe de luz da lanterna, o nervosismo dos miúdos é tal que nem se atrevem a abrir-lhe a porta, quanto mais apalpá-lo ou puxar-lhe pelas barbas. A seguir, à luz das velas, somos todos chamados um a um, recebemos uma festa na cabeça, um conselho que é adaptado ao problema de cada e um presente. Dizia o mais pequenito no ano passado: - Ó Pai-Natal, mas não faças ho-ho-ho porque eu tenho muito medo!
E ele não fez.
Saber que afinal o Pai Natal não existe, não é motivo de traumas. Quando se informa o mais crescido que o Pai Natal somos todos nós e que ele foi o escolhido para representar esta figura no próximo ano. A alegria é enorme e começa logo a magicar no que irá fazer para enganar os outros miúdos. As interpretações cénicas são tão bem feitas e divertidas que obrigam os adultos a fazer um esforço danado para não desatarem a rir perante o ar espantado dos mais novinhos.

É tão bom acreditarmos no Pai Natal que não nego essa alegria aos miúdos, antes pelo contrário. Sei que um dia se irão recordar destas cenas com muita saudade, tal como eu.

A todos os nossos amigos, companheiros e visitantes anónimos, os desejos de um Bom e Feliz Natal.

2006-12-13

A Nabada do Convento de Semide

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Semide é uma freguesia pertencente ao Concelho de Miranda do Corvo, distrito de Coimbra. Esta povoação nos finais do séc. XI pertencia a D. Anião da Estrada, fidalgo das Astúrias e senhor de Góis. Este teve 3 filhos: D. João de Anaia que foi bispo de Coimbra, D. Martin Anaia que foi cavaleiro nas lutas pela independência e D. Maria Anaia. Os irmãos Anaia, com os bens que dispunham, resolveram construir um mosteiro cuja carta de doação foi passada por D.Afonso Henriques em Abril de 1154 e que se destinava aos monges beneditinos. Em 1183 passou a convento de freiras para receber as descendentes de Martin Anaia. Em Agosto de 1896 extinguiu-se a comunidade beneditina de Santa Maria de Semide com a morte da última freira e as instalações acabaram por ser aproveitadas mais tarde para a Escola Profissional de Agricultura. Deste convento primitivo já nada resta. A parte mais antiga que ainda existe, é o claustro quinhentista, construído em 1540. Infelizmente este monumento foi muito castigado pela série de incêndios que sofreu: o primeiro foi em 1664 destruindo a maior parte do edifício. Os mais recentes foram em 1964 que destruiu a parte poente do convento, depois em 1987 devido a um curto-circuito e o último em 1990 que destruiu o Claustro Velho, a Casa do Capítulo, a sacristia e também vários livros e documentos de valor incalculável. De todo o conjunto é de salientar actualmente a Igreja com um retábulo e cadeiral em madeira dos finais do século XVII, altar-mor também do século XVII, azulejos policromáticos do séc. XVIII, esculturas dos séc. XVII e XVIII e o órgão da segunda metade do séc. XVIII.
Em 2000, durante a empreitada de consolidação das paredes do convento foi descoberta a fornalha de um fogão primitivo embutida no chão em que a combustão se efectuava através de um túnel em tijoleira e que remonta aos séc. XVII e XVIII. Entretanto, devido aos contínuos adiamentos das obras, uma parte do claustro quinhentista abateu não aguentando os sucessivos temporais em Outubro último. E assim com todos estes protelamentos do início das obras de recuperação (a última adiada para 2007), vai desaparecendo aos poucos um monumento que deveria ser urgentemente revisto, como tantos outros em situações idênticas ou ainda piores.
Nas instalações do convento funciona actualmente o CEARTE (Centro de Formação Profissional do Artesanato) com cursos na área da cerâmica, têxteis, carpintaria, marcenaria, encadernação, serralharia artística, restauro de mobiiliário e arte sacra, talha, embutidos, jardinagem, apicultura, doçaria, cestaria, reparação de electrodomésticos, gestão e marketing, formação pedagógica e técnica, etc
E agora que já vos falei um pouco do convento e da sua história, vou então entrar no assunto que me trouxe aqui. Como estamos em plena quadra natalícia e gostamos sempre de apresentar uma mesa com doçaria diversa, aqui vai um doce espectacular que penso que a maioria de vós não conhece: a Nabada do Convento de Semide, um dos doces conventuais mais antigos.
As freiras que eram excelentes doceiras, inventaram um doce feito com nabos cozidos e que é um verdadeiro espanto. A receita mais antiga ainda usa o almíscar, a água de rosas, mas nós fizemos o doce usando uma mais simples e que ficou uma delícia. Para os corajosos, aqui vai a receita:

Nabos – 1 Kg
Açúcar – 500 gr (+/-)
Amêndoas descascadas e raladas- 50 gr

Descascam-se e cortam-se os nabos às rodelas que vão a cozer em água ligeiramente temperada com sal. Depois de cozidos e escorridos, colocam-se as rodelas num recipiente com água fria durante 4 dias, mudando a água diariamente (isto é que tem mesmo que ser. Chama-se a este processo “corar”)
Ao fim dos 4 dias, escorrem-se e espremem-se num pano, pisando depois num almofariz e retirando os fios e partes duras.
Pesa-se este puré que deve rondar os 500 gr.
Põe-se um tachinho ao lume com igual quantidade de açúcar, junta-se um copo de água e ferve até formar ponto de cabelo que é quando escorre da colher em fios fininhos o que deve acontecer quando a temperatura atinge os 105º (é fácil para quem tem um pesa-xaropes: ao atingir os 32º Baumé estamos em pleno ponto de cabelo. Como não tenho, vai mais ou menos a olho, logo que passe a fase anterior de calda fraca)
Quando estiver no ponto, junta-se o puré de nabo e as amêndoas raladas.
Deixa-se o doce ferver até ver o fundo ao tacho quando se passa com a colher de pau.
Depois guarda-se como a marmelada, em tigelas tapadas com papel vegetal molhado em aguardente.
Acreditem que é muito bom
Outro dia falo-vos da chanfana, prato típico das Beiras mas dando azo a grandes discussões sobre a sua origem. Muitos defendem que também surgiu aqui no Convento de Semide. Mas como este post já vai longo, as lendas e as confecções da chanfana ficam para outra altura.

2006-12-10

As bênçãos do senhor Francisco

Posted by Picasa O senhor Francisco era um homem conhecido num raio de acção de muitas dezenas de quilómetros. Tudo nele era singular. Usava o cabelo caído pelos ombros, uma barba grande que esvoaçava sobre o peito, um terço gigante que trazia pendurado ao pescoço. Sempre que passava por uma igreja ou capela, saía da sua bicicleta, entrava e passava uns minutos em oração. Nas missas dominicais antecipava-se ao padre, só se mantendo em silêncio nas homilias que ouvia respeitosamente. Comungava todo nu, escondendo as suas partes pudibundas num cobertor que enrolava em volta de si. Vivia numa pobreza extrema, habitando numa barraquita de madeira e com partes forradas a chapa de alumínio para evitar a entrada do vento e da chuva, dividindo o seu espaço com uma burra sua companheira de solidão, uma vez que tinha sido abandonado pela mulher e filhos. Era um homem doce. Quando me via ao longe acenava-me cheio de alegria, chamando pelo meu nome e, ao aproximar-me, via-o erguer a mão à minha frente, formando uma cruz com a qual me benzia. Sentia-me bem quando o encontrava porque me dizia coisas magníficas: “Ai que bom é vê-la senhora dona Ana, uma senhora tão linda e tão boa!” E depois baixando os olhos dedicava-me um padre-nosso ou ave-maria conforme as circunstâncias ou a inspiração do momento.
Várias vezes lhe dei trabalho na quinta e nunca quis receber o dinheiro. Apenas aceitava roupa e comida, desde que não fosse carne que recusava por muita fome que tivesse.
Um dia apareceu aqui à hora do almoço. Perguntei-lhe se já tinha almoçado e disse-me que sim. Conhecendo a delicadeza do senhor, disse-lhe que então ia almoçar outra vez comigo o que ele não rejeitou. Apareceu também o meu filho que vinha comer à pressa para depois sair e continuar com as suas tarefas profissionais. Quando pus a comida nos pratos, o senhor Francisco baixou a cabeça e começou uma oração de graças que respeitámos ainda que nenhum de nós fosse religioso. Mas a oração foi sendo cada vez mais aumentada e abrangente. Da comida passou para os donos da casa, para os filhos dos donos da casa, para os familiares, para os amigos, para os animais, para as pessoas da cidade, para a paz no mundo e sucediam-se padres-nossos, aves-marias, salvé rainhas, credos… quase o tempo de uma missa. A comida arrefeceu no prato. O meu filho olhava discretamente para o relógio, até que por fim ouvimos o amém final e pudemos começar a comer. Terminada a refeição assustámo-nos quando o senhor Francisco baixou de novo a cabeça mas foi apenas um curto agradecimento pela refeição. Estava uma tarde de imenso calor e ele vestido com um fato grosso e por cima um sobretudo que eu lhe tinha oferecido há uns meses atrás. O que tapa do frio, tapa do calor! Era a sua afirmação. Levou umas sandes para o lanche, despediu-se de mim com as bênçãos do costume e no final com os olhinhos a brilhar insistiu: “Ai que senhora tão linda!” E foi a última vez que me visitou. Uma tarde vi-o a pedalar pela estrada fora e buzinei-lhe. Ele acenou-me e pelo espelho retrovisor consegui aperceber-me do sinal da cruz desenhado no ar, o qual agradeci levantando o braço.
Passados alguns meses perguntei por ele às senhoras que trabalham aqui nas terras.
- Ah, não sabe? O senhor Francisco morreu!
- Oh!.. morreu? Coitadito… não sabia! Mas morreu de quê?
- Olhe, morreu todo queimado. Acendeu uma fogueira dentro da barraca para se aquecer, deve ter adormecido e o fogo agarrou-se às vestes, às barbas. Ainda saiu aos gritos mas quando os vizinhos chegaram já estava todo queimado e a morrer.

Fiquei sem saber o que dizer. Durante muitos dias fartei-me de pensar na morte horrível que teve e na sua vida tão miserável apenas iluminada quando encontrava alguém amigo ou quando recolhia em oração. Gostava das suas visitas e das atenções que tinha para comigo, que mais não fosse por aquela mão erguida oferecendo bênçãos.
Tenho saudades daquele “Ai que senhora tão linda!” que me animava o coração

2006-12-05

O estorninho-malhado


Há dias estava entretida a varrer o pátio quando me apercebi de um ruído repetitivo a bater numa vidraça. Fui ver o que se passava. Era um passarito que insistia em passar pelo vidro de uma janela desconhecendo os mistérios dos materiais usados pelos humanos. Estava tão empolgado nessa tentativa que nem se deu conta da minha aproximação e num instante viu-se apanhado por uma coisa estranha que o envolveu e que não o deixava fugir. Não percebo muito de pássaros. Nesta altura do ano vejo-os em bandos de centenas de indivíduos, pousados nos fios da luz e do telefone. Com este desenho nas penas foi fácil identificá-lo com a ajuda de um amigo bom entendedor de passarada. Tratava-se de um estorninho-malhado, mais precisamente um Sturnus vulgaris com a sua roupagem de Inverno, já que no Verão tem as penas mais escuras e brilhantes. É uma espécie muito abundante, gregária fora da época de reprodução, formando enormes bandos. A sua vocalização é variada, incluindo muita imitação de outros cantos e, ao fazer este blog, aprendi que a palavra pissitar se refere ao canto do estorninho. Medem cerca de 20 a 23 cm, vivem perto de jardins, pântanos, sebes e bosques. O bico amarelo no Verão escurece no Inverno. As patas são avermelhadas. Faz o ninho nos buracos das árvores, nos rochedos ou nas caixas-ninho. A fêmea pôe cerca de 7 ovos azuis na Primavera e ao fim de 12 a 15 dias nascem as crias indefesas e penugentas saindo do ninho ao fim de 22 dias. Comem insectos, sementes e, para minha arrelia, também frutos.
Este estava desejoso de se ver livre da minha mão que o aterrorizava.
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Mas depois de muitas carícias e das minhas canções (que têm um efeito hipnógeno-calmante - que o diga a pequena Leonor), acabou por confiar e deixou-se ficar tranquilamente pousado numa mantinha enquanto durou a sessão fotográfica que o viria a tornar num estorninho famoso na blogosfera. Foi uma manhã muito cansativa para um pássaro-modelo e por isso resolvemos restituir-lhe a liberdade, soltando-o ao vento e vendo-o partir num voo forte e directo, rumo ao seu mundo.
Boa sorte, amiguinho!

2006-11-29

Verídica :))

Saí de casa com a intenção de procurar máquinas fotográficas digitais. Pretendia saber preços de uma máquina com zoom - já que a minha não tem - e com a possibilidade de usar lentes macro.
Gostava de conseguir fotos com a espectacularidade de pormenores como as que vejo em alguns blogs.
Talvez devido à linguagem usada e denunciadora da minha falta de experiência em coisas deste género, o empregado perguntou-me o que é que eu pretendia fotografar com uma máquina deste tipo.
- Olhe, queria tirar fotos a flores e a insectos mas de forma a captar pormenores que escapem à vista normal.
O empregado ficou uns segundos a pensar e depois disse com o ar de quem ainda não emergiu totalmente do pensamento:
- Huuummm... estou a perceber... mas olhe que não vai conseguir tirar fotos dessas... quero dizer, consegue tirar às flores... agora aos insectos... acho que não!...
- Ah sim? E porquê??
- Então, pense bem... quando a senhora se aproximar com a máquina, o insecto foge!...
Não é que não tinha pensado nisto? E se amarrar o insecto por uma pata??

2006-11-24

Figueiredo das Donas e o crocus romano

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Fomos visitar Figueiredo das Donas pertencente ao concelho de Vouzela. Tirámos várias fotos às ruínas de uma casa senhorial e a seguir fomos procurar a via romana que liga Carregal, Figueiredo das Donas, Bandavises e Fataúnços que foi o que motivou a nossa visita. Este troço fazia parte de uma estrada romana que ligava a cidade (civitas) de Viseu ao litoral. O caminho estava em muito bom estado e ainda era utilizado pelos locais nas suas deslocações. Tinha uns 3 metros de largura e como era costume nestas zonas, devido à abundância, era calcetado com o aproveitamento das rochas de granito que emergiam da terra.
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Estavamos sentados num murete (muito mais recente) a usufruir do perfume do ar e do silêncio quando reparámos neste crocus que luzia por entre a folhagem. Perguntámo-nos se seria um Crocus sativus ou um Crocus autumnale, que é como quem diz um Colchicum autumnale. Não chegámos a conclusão nenhuma pois não somos nenhuns entendidos. Mas talvez a segunda hipótese. O Crocus sativus, já conhecido e usado pelos gregos e romanos, é donde se extrai o verdadeiro açafrão a partir dos estigmas e estiletes secos da flor, percebendo-se a razão de ser do seu preço elevadíssimo. Digo verdadeiro açafrão porque o que costumamos comprar a um preço acessível é feito a partir do rizoma de uma planta da família do gengibre e por isso de cor amarelada enquanto que o verdadeiro é vermelho alaranjado.
E este post terminaria aqui, se não tivéssemos andado a pesquisar outras informações sobre a origem de Figueiredo das Donas. Ficámos a saber que as ruínas às quais tirámos algumas fotos, Posted by Picasa tinham a seguinte história:

No séc. VIII, um cavaleiro chamado Guesto Ansur e natural da zona de Lafões, juntamente com outros cavaleiros, tentaram libertar 6 donzelas que levadas pelos mouros iam ser entregues ao Emir de Córdova, fazendo parte de um pacto em que este emir receberia 100 donzelas todos os anos. O confronto deu-se num figueiral ou figueiredo, tendo o cavaleiro Ansur continuado a luta com uma pernada de figueira ao ficar sem a sua espada. Os mouros acabaram por fugir deixando as donzelas. Daí o nome de Figueiredo das Donas. Ansur acabou por casar com uma delas que já seria sua noiva e construíram um paço: as ruínas fotografadas. Posted by Picasa














No site Figueiredo das Donas encontrámos uma cantiga de amor supostamente escrita por Ansur e dedicada à sua amada:

No figueiral figueiredo
a no figueiral entrey,
seis ninas encontrara
seis ninas encontrey
para ellas andára
para ellas andey
lhorando as achára
lhorando as achey
................
las ninas furtára
las ninas furtey
La que a mi falára
nalma la chantey

2006-11-18

Theo Jansen, a criatura e o vento

Há dias falaram-me do artista plástico holandês Theo Jansen que eu não conhecia. Disseram-me que fazia “esculturas cinéticas” e eu não conseguia imaginar que tipo de movimento é que teriam. Simpaticamente enviaram-me alguns vídeos para eu ter uma ideia do tipo de trabalho desse artista. As estruturas são feitas com tubos plásticos levíssimos que quando sujeitas à força do vento ganham uma dinâmica que as fazem movimentar. Parecem criaturas inteligentes graças a sensores que as afastam de obstáculos ou fixando-se ao solo quando se aproxima um vento forte demais. Por ter ficado tão deslumbrada com esta ligação da arte e a técnica, não resisti a publicar um dos vídeos para quem tal como eu ainda não tenha esbarrado com esta maravilha.


E se quiserem ter mais informações podem aceder aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=gx6fiGwmfzI

2006-11-12

E tu? Tens os braços do mesmo tamanho?

Ontem estava à espera da minha vez num consultório médico. Na sala só estava eu e uma senhora de meia idade que me olhava frequentemente. Como sou muito distraída, tornei a olhar para ela atentamente, não fosse alguém conhecido e que assim à primeira não estivesse a reconhecer.
Percebi depois que era o sinal que a senhora esperava. Fez um grande sorriso e disse-me assim:
- A gente passa tanto tempo enfiada nestes sítios. Mas tem que ser. A saúde está primeiro que tudo.
- Sim, isso é verdade! - e tentei escolher uma revista diferente daquelas que têm os cantos inferiores das páginas mais escuros, moles e meio enrolados pelo passar de centenas de dedos sebentos e molhados com cuspo..
- Olhe, eu já tenho a minha conta em médicos e hospitais. Inda agora vim da farmácia. Tenho ali uma sacada de remédios que eu sei lá. E nem tive dinheiro para os pagar. A minha sorte é ser conhecida e as pessoas confiarem em mim. Mas já passei muito nesta vida. Estive em Lisboa, sabe? Tive um cancro. Entrei na máquina 30 vezes para ser queimada. Mas sempre tive muita fé na Virgem e foi ela que me salvou!
Sorri para a senhora abanando a cabeça, num sinal de compreensão.
Li as letras gordas de uma notícia sobre o divórcio de uma artista portuguesa qualquer. Mas, ao perceber que a senhora não me ia largar mais, pousei a revista.
- Sabe? Eu sou uma pessoa muito boa e tenho muita fé na Virgem. E também uso os meus poderes para tratar das pessoas!..
Achei estranha esta afirmação uma vez que estavamos as duas no consultório médico à espera de sermos atendidas. Comecei a interessar-me e alimentei a conversa:
- Ah, não sabia! E trata as pessoas de quê ?
- Olhe, trato do buchinho revirado, da espinhela caída…
Espantei-me com os termos.
- Buchinho revirado? Nunca ouvi falar! O que é isso?
A senhora olhou para mim com o sobrolho franzido tentando perceber se eu estava a gracejar ou se realmente era uma ignorante destes males.
- Não sabe o que é o buchinho revirado? Atão, é aquilo que dá nas crianças pequenas. Começam a gomitar e nada lhes pára no estômago!
- Palavra que nunca tal tinha ouvido. E como é que a senhora sabe que a criança tem o bucho dessa maneira?
- Ora essa, levanto a criança no ar segurando-a por baixo dos braços. Por acaso ultimamente nem tenho tido muita força nos meus. Vê-se logo aquele alto por cima da barriga. Não há que enganar!
Preocupada com o assunto, perguntei a medo:
- E como é que a senhora trata desses bebés?
- Com rezas, minha filha! O tratamento é feito com rezas porque eu tenho muita fé nos santos.
- Ah, ainda bem! – respondi aliviada – Mas falou-me noutro problema que também consegue curar!
- Sim. Também trato da espinhela caída. Mas isso acontece mais aos crescidos. São maus-jeitos que se dão, percebe?
- E como é que a senhora sabe que o doente tem a espinhela caída?
Sacudindo os ombros, naquele gesto que quer dizer “Aparece-me cada uma!...” respondeu-me lentamente a marcar bem as sílabas, a pretender fazer-me sentir completamente burra.
- Mando levantar os braços das pessoas, com os polegares assim (e por pouco espetava-me os polegares nos olhos). Os braços têm que ter o mesmo tamanho, não é verdade? Se um estiver mais pequeno que o outro é sinal que tem a espinhela caída. Entendeu?
Acenei que sim enquanto olhava para ela com os braços esticados ao alto. Depois pousou as mãos sobre a mala e continuou:
- Uma vez dei um jeito à minha espinha e pensei que não me ia mexer mais. Pedi ao meu filho e ele ajudou-me a levantar e a segurar-me à parte de cima da porta do meu quarto. Fiquei pendurada e pedi-lhe para me puxar um pouco para baixo para aliviar a dor. Mas olhe, até parece que ouvi um estalinho. Tive muito azar. Acabei por ficar de cama durante 3 meses com duas hérnias discais. Passei bem mal dessa vez!...

Felizmente ouvi chamar pelo meu nome e consegui sair a tempo de esconder um sorriso divertido que ameaçava alargar-se pela cara toda

2006-11-09

Cantinhos do meu jardim

Não tenho aparecido porque ando um bocado enchirida (nem sei como escrever o diabo desta palavra tão vulgar aqui na zona) o que quer dizer que ando assim meia tristita, adoentada e sem vontade para nada. O tempo disponível ocupo-o a ler os blogs dos amigos que são de tal maneira interessantes que me limito a usufruir do prazer da leitura. Mas, para não deixar este blog mais tempo parado o que já começa a preocupar os amigos mais próximos, resolvi publicar algumas fotos tiradas no meu jardim.

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Um castanheiro generoso


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Uma abelha no Callistemon
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Salva (Salvia officinalis)
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Mangericão (Ocimum basilicum)
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Erva-cidreira (Melissa officinalis)   Posted by Picasa








Poejos em flor (Mentha pulegium)

2006-11-02

A estrela dos lagos

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Hoje tivemos o prazer de sermos orientados pelo prof. Jorge Paiva numa visita ao Jardim Botânico de Coimbra, uma divulgação feita pelos responsáveis do site Dias-com-Árvores correspondendo ao convite feito pelo prof. Mário Tomé.
O entusiasmo do prof. Paiva contagiou o grupo que pôde ver atentamente todas as raridades do jardim como a Erythrina crista-galli, Cryptomeria japónica, Cunninghamia sinensis, a colecção de Eucalyptus, a Ginkgo biloba, a sequóia gigante da Califórnia, as várias palmeiras, a figueira da Austrália, os plátanos, choupos, ulmeiros, as cores que começam a pintar o Acer japonicum, o Liquidambar sytraciflua, o ambiente de penumbra poética criado pelo magnifico bambuzal de grande porte de Phyllostachys bambusoides e ainda com uma visita final ao Museu Botânico.
Mas como decidimos falar apenas de uma planta, escolhemos por unanimidade a Victoria amazonica ou Victoria régia. É uma planta aquática flutuante, pertencente à família das Nymphaeacea, originária da zona equatorial da América do Sul.
As suas folhas que parecem bandejas redondas podem atingir os 2m de diâmetro. Possui nervuras na sua parte inferior, ajudando-a a flutuar, tendo uma borda de 5 a 10cm que evita a entrada da água que poderia provocar o seu apodrecimento. Para evitar encher-se com a água das chuvas, possui um canal a meio da folha que orienta a água até 2 fendas que tem na borda. Possui também uma série de espinhos na parte inferior da folha para evitar assim os predadores, como os peixes e crocodilos.
Agora o curioso é termos podido ver uma das suas flores aberta. É que ela fora do seu ambiente natural só floresce uma vez por ano e a flor só dura 48 horas.
A flor é branca abre a meio da tarde até à manhã seguinte, exalando um perfume que atrai os besouros polinizadores. Depois fecha aprisionando os insectos que só tornam a sair a meio da tarde desse dia quando ela tornar a abrir com uma cor rósea e já devidamente polinizada. No terceiro dia adquire uma cor mais escura, a flor fecha, mergulha e o fruto amadurece na água, cerca de seis semanas depois da floração.
Existe uma história lindíssima entre os índios da Amazónia que explica o aparecimento da Victoria amazonica. Conta a lenda que uma índia chamada Naiá apaixonou-se por Jaci, a lua. Acreditava que Jaci em noites de lua cheia, descia à terra procurando uma virgem, transformando-a depois em estrela para lhe fazer companhia. Naiá queria a todo o custo tornar-se também numa estrela para brilhar ao lado de Jaci.
Atraídos pela sua beleza, os homens tentavam cortejá-la na esperança de virem a ser escolhidos. Naiá a todos recusava apenas preocupada em ser escolhida por Jaci. Passava as noites sentada mirando a lua e quando amanhecia, corria no sentido oposto ao sol para tentar alcançá-la. Mas uma noite, exausta, acabou por adormecer à beira de um lago. Quando acordou, exultou de felicidade ao ver a lua reflectida e julgando ser o momento tão esperado, mergulhou nas águas profundas acabando por se afogar.
Jaci, ao ver o sacrifício de Naiá, resolveu fazer-lhe a vontade e transformá-la numa estrela, mas uma estrela dos lagos: a bela Victoria régia, abrindo as suas pétalas ao luar para finalmente reflectir a luz de Jaci. Posted by Picasa

2006-10-30

Quem canta... seus males espanta



A Farrusca a preparar-se para a nova versão do "Chuva de Estrelas".

2006-10-27

Cabeças, Corações e Rabos

Ok... então vamos continuar...

No sábado passado choveu todo o dia. A manhã passou-se de volta dos animais, como costume, deixando-nos as roupas encharcadas e o chão todo patinhado. Depois do almoço começou a apetecer ficar em casa, confortavelmente sentados, a ver um bom filme, espreguiçando-nos pela tarde fora até ao momento de se beber um chá bem quente e comer uns choux acabadinhos de fazer, recheados com chantilly, enquanto lá fora a chuva caía forte. Mas alguém se lembrou que nos tinhamos esquecido de mexer as maçãs cortadas, já prensadas. Guardámo-las em vasilhames grandes enquanto fermentam e bem tapadas para evitar as montanhas de mosquitos que são tão gulosos e tenazes na procura do álcool como algumas pessoas que conhecemos. Resolvemos ir imediatamente despachar este serviço para depois, e aí sim, darmos o nosso trabalho por terminado, já que aos fins de semana estabelecemos fazer só os serviços mínimos, que quer dizer, o mínimo possível. Espreitámos a sidra mas como ainda suspirava, deixámo-la de novo sossegada. Estamos à espera que dê o último suspiro para então a engarrafarmos que é como fazem algumas pessoas mais práticas do que nós. Abrimos os dois vasilhames que têm a maçã cortada e demos uma mexida naquela massa. Mas quando abrimos aquele onde tem estado a fermentar a pêra rocha, reparámos que já não fervia. Se deixou de ferver é altura de ser "queimada" que é o preceito que usamos quando fazemos a medronheira. Bem, foi uma corrida! Demos uma limpeza rápida à alquitarra (tipo de utensílio que veio para Portugal trazido pelos mouros, embora já fosse usado pelos povos orientais. É óptimo porque permite uma destilação mais lenta). Colocámos o pote da alquitarra em cima do fogareiro a gás, vazámos a pêra fermentada lá para dentro (era pouco, só chegou a metade), encaixámos o capacete que parece uma bacia e que tem no seu interior uma espécie de câmara semiesférica onde se juntam vapores e no seu topo a área de condensação, onde colocamos água que deve ser constantemente mudada para se manter fria. Os vapores condensam sendo encaminhados por um tubo que os faz entrar na serpentina que se encontra noutro reservatório também cheio de água fria. O destilado sai então pela biqueira, sendo recolhido. Mexemos um bocado de farinha com água e com ela isolámos as junções da alquitarra para evitar a fuga dos vapores etílicos.
A imagem de uma caneca fumegante ao lado de um prato com bolinhos que pairava por cima das nossas cabeças, fez "Ploff!!" no ar e desapareceu.
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O processo da destilação divide-se em 3 fases: Cabeças, Corações e Rabos.
As Cabeças são constituídas pelas substâncias mais voláteis que são as primeiras a sair. Trata-se de substâncias como acetona, metanol (perigoso para a saúde podendo causar cegueira) e vários ésteres que devem ser separados e deitados fora ou então aproveitados para adicionar a outra destilação. Tem uma cor ligeiramente azulada. Normalmente separam-se os primeiros 50 ml por cada 25 litros de destilado.
Os Corações são facilmente reconhecidos pela sua transparência e aroma. Trata-se do etanol. É a fase nobre da destilação.
Os Rabos contêm uma grande quantidade de compostos com um ponto de ebulição elevado, tais como os álcoois mais elevados e os furfuróis. Estes componentes podem estragar o sabor do espírito se a recolha de produto destilado for demasiadamente prolongada. É uma aguardente aguada e esbranquiçada. Normalmente, os rabos são guardados para serem adicionados na próxima destilação, pois deste modo recupera-se uma considerável quantidade de etanol.

Depois desta explicação, vamos continuar com os nossos procedimentos:
Acendemos o fogareiro a gás. Dali a pouco começou a ferver. Mais cedo do que esperavamos começou a sair a aguardente de pêra perfumando (e de que maneira) a salinha onde trabalhavamos. A primeira que saíu não aproveitámos por poder ter arrastado resíduos depositados na alquitarra desde a última utilização e também porque é o tal produto a que chamam de Cabeças. Medimos o destilado referente aos Corações que saíu a 45º e tivemos que o ir recolhendo, dividindo-o em vários lotes conforme o grau de álcool. De vez em quando tínhamos que abrir a torneira do capacete, tirar a água demasiado quente e substituí-la por fria. No início da noite começou a sair a 20º. A esta aguardente mais fraquinha, chamam aqui de "flama". Recolhemos também um pouco dessa flama para fazermos depois as misturas até conseguirmos abrandá-la, atingindo uma percentagem de álcool que nos agrade. Infelizmente não conseguimos encontrar normas que informem sobre a percentagem aconselhada de álcool para este tipo de aguardente. A seguir saíram os Rabos que também não aproveitámos. Deitámo-nos tarde mas foi um esforço compensador. Para a semana ou daqui a 2 semanas, já a maçã deverá estar pronta para levar esta mesma volta (hic!).
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2006-10-20

Um Parêntesis

Hoje também vou fazer um parêntesis nesta série de posts que temos vindo a escrever sobre a quinta, suas plantas e seus animais.
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Certamente já se interrogaram sobre a razão de ser desta fotografia. É muito simples! Apresento-vos os meus pais, o famoso e internacional ilusionista Princ e a sua partenaire Juliette. Pois é verdade, sou filha de artistas de circo! Eram anos difíceis. Milhares de desempregados (sem subsídios), dificuldades várias e muita fome à mistura. O meu pai resolveu enveredar pela vida artística e preparou-se nesta arte. A internacionalidade dele só era verdadeira se pensarmos nos distantes ascendentes espanhóis, pois que nem sequer em Espanha tinha posto os pés. A minha mãe Julieta, alentejaníssima, só conseguia passar por francesa, com a sua tez morena e cabelo frisado, nas tournées pela província onde ainda nem se sonhava que um dia iria aparecer uma coisa chamada televisão.
O convívio com as práticas do ilusionismo fez de mim uma mulher céptica que nem sempre acredita no que os seus olhos vêem (e muito menos no dos outros), precisamente por saber que nem sempre vêem o que está a acontecer realmente.
Eu era muito miúda e desses tempos apenas tenho curtos momentos memorizados. Lembro-me de dormirmos num palheiro numa das viagens em que o dinheiro não dava nem para uma pensão rasca. Lembro-me de ver o meu pai a passar pelo público e a tirar moedas do nariz das pessoas que ficavam boquiabertas e que logo a seguir se punham a apertar de novo a ver se saíam mais algumas. Lembro-me do desaparecimento da varinha mágica (muito diferente das que usamos no cozinha) e dias depois o seu regresso, atirada pela janela aberta do quarto onde dormiamos nessa noite. Lembro-me da aflição da minha irmã ao fazer trabalhos escolares que não iria entregar por ter que mudar de escola no dia seguinte. Lembro-me da criação de rolas, pombos e coelhos, igualmente artistas até no momento em que apareciam estufadinhos à mesa. Lembro-me do Prof. Karma que na altura era o palhaço Raulito (as voltas que a vida dá!...). Lembro-me da azáfama da montagem do circo: os trabalhos de elevação das orcas que depois eram espiadas ao chão, os gradins que fixavam as tábuas dos lugares da geral, o "rôdo" em chapa envolvendo o circo e protegendo a bancada da geral. Por fim o chapitou - a cobertura em lona, a armação do palanque onde iria actuar a orquestra, a preparação da pista, a colocação das cadeiras para os que tinham mais dinheiro. Lembro-me das tardes mornas em que os trapezistas treinavam por cima da minha cabeça. Memórias curtas que relampejam quando estou triste. Mas o que me ficou mais gravado e que hoje ainda me emociona, foi aquela noite em que esperava que os meus pais arrumassem o material que tinham acabado de usar e fui dar uma volta por entre as roulottes estacionadas de uma forma organizada. Uma delas tinha luz e fui espreitar. Lá dentro estava o Barnabé, o meu palhaço mais querido, o que só fazia disparates levando grandes tabefes do outro e que nos fazia rir até às lágrimas. Aquele que passava por nós - pela miudagem - com um sorriso de orelha a orelha e fazia festas nas nossas caras enlevadas. O meu ídolo, pronto! Pois o Barnabé estava sentado dentro da roulotte e de costas para a porta. Subi o degrau devagarinho e fiquei a espreitá-lo. Ele estava em frente de um espelho a olhar-se. Levou a mão à cara e tirou o nariz encarnado. Acreditam que sempre pensei que ele tinha o nariz assim mesmo? Que as pessoas eram escolhidas para palhaços precisamente por terem nascido com aqueles narizes que davam vontade de rir? Fiquei pasmada quando ele levou a mão ao cabelo, devagar, e tirou o cabelo ruivo, exibindo uma calvície por entre o cabelo fraquinho e escuro. Afinal o cabelo ruivo também não era dele! A seguir pegou num pano que molhou em qualquer coisa e foi passando pela cara esborratando aquele sorriso magnífico com que sempre o vi. Nesses minutos tão breves, foi entre lágrimas que vi o Barnabé evaporar-se para sempre do meu imaginário. O espanto sacudiu-me o corpo e o soalho gemeu. O Barnabé... não, não era o Barnabé. Aquele homem esquisito virou-se para trás e ao ver-me gritou: "Fora daqui, escanzelada!! Desaparece!!!"
Fugi dele a soluçar. Acabara de assistir pela primeira vez ao esfarrapar de uma ilusão. Tantas máscaras que continuei a ver cair desde então e sempre com o mesmo desgosto. Enrijeci. Hoje farejo a máscara à distância. E o curioso é que à medida que crescemos (ou que envelhecemos), deixamos de ver palhaços queridos a transformarem-se em pessoas banais, para vermos algumas pessoas que consideravamos queridas a transformarem-se em banais palhaços.

Para ti José que já conheces este lamento, fica a promessa de continuar a tentar escrever esta história da qual ainda não consigo distanciar-me o suficiente para a poder contar ao teu público. Dá-me tempo!

(Dedicado à minha prima Anica, uma mulher feita de paixões e de sonhos)


2006-10-18

Detesto Borboletas!!

Vou então explicar a razão de ser do post do Ezequiel que fala de gafanhotos enquanto ainda digeriamos o ratatouille. Ontem, vi a foto de uma Danaus plexippu, também conhecida por borboleta monarca no blog Jardinagens com o título "Foi-se o tempo das borboletas" e ao ler isto escrevi o seguinte comentário:
"Pois é, foi-se o tempo das borboletas e eu acrescentaria: Ainda bem! Sei que me arrisco a ser condenada ao fuzilamento, mas ainda assim vou ter que dizer: Detesto Borboletas!! Quando vejo toda essa beleza esvoaçante, hesitando entre esta e aquela flor, criando a ambiência necessária para qualquer postal romântico, eu antecipo logo a visão de centenas de lagartas a destruirem os órgãos respiratórios das plantinhas que acreditam em mim e na minha capacidade de as proteger. Fico furiosa quando vejo as minhas plantas reduzidas a uns talinhos nus e enfezados. Poupam-se as borboletas e depois envenenam-se as lagartas."
O Ezequil leu, riu e comentou o facto de às vezes pouparmos alguns bichos para mais tarde tentarmos eliminá-los.
De aparência tão frágil, ninguém diria que muitas espécies de borboletas já existiam no tempo dos dinossauros. A sua actividade é muito importante para a polinização e servem de alimento a um sem número de animais.
Pertencem à ordem dos Lepidópteros por terem asas membranosas cobertas de escamas sobrepostas (aquele pó que se desprende das asas quando lhes tocamos, são pedacinhos minúsculos dessas escamas) e armadura bucal com uma "tromba", o probóscis, enrolado em espiral, através do qual podem sugar o néctar das flores e as gotas de orvalho.
Há as diurnas, as Rhopaloceras, com antenas longas e filiformes que são as mais conhecidas (todos devem reconhecer esta malandra, responsável pelas nossas couves horrivelmente esburacadas. É a Pieris brassicae)
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E há as nocturnas, as Heteroceras com antenas denticuladas (com saliências em forma de dentes) ou pectinadas (em forma de pente)
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A foto mostra a maior borboleta que vive em Portugal, podendo atingir os 16 cm. É uma Saturnia Pyri, também conhecida por Grande Pavão Nocturno. Reparem nas antenas. Certamente será um macho uma vez que as fêmeas não possuem antenas tão "farfalhudas". Não é esquisita na alimentação já que as lagartas comem folhas de pessegueiros, cerejeiras, nogueiras, carvalhos, choupos, salgueiros e outras mais.

Das 165.000 espécies conhecidas a nível mundial, mais de 1.000 espécies actuam em Portugal, umas autóctones e outras imigrantes. No entanto há uma diminuição enorme nas populações devido às alterações dos ecossistemas, como a diminuição dos habitats, a poluição, o uso desenfreado de pesticidas, etc.
As mais ameaçadas são as espécies monófagas por se alimentarem só de um tipo de plantas e por isso mais sujeitas à quantidade maior ou menor desse alimento. Como esta Charaxes jasius. É a maior borboleta diurna nas nossas paragens podendo medir 8 cm de envergadura
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Habita zonas florestais de pinheiros e carvalhos onde normalmente existe em abundância o seu alimento preferido: o medronheiro. Procura além dos medronhos bem maduros, também excrementos de animais. As lagartas têm uns “cornos” avermelhados e alimentam-se das folhas do medronheiro. Com o desaparecimento de parte da zona florestal envolvente devido aos incêndios deste ano, tenho que me preparar para estas visitas indesejadas que vão sacrificar de novo os meus desgraçados medronheiros.

As pessoas optimistas dirão "Aquela lagarta voraz um dia tornar-se-à numa lindíssima borboleta!" As pessimistas, e neste caso eu também, dirão "Esta linda borboleta vai dar origem a centenas de lagartas vorazes!"

Grrrrr!! Detesto borboletas!!

(Algumas das fotos foram retiradas dos sites: http://pdubois.free.fr e www.fond-ecran-image.com. Os meus agradecimentos)

2006-10-14

Dia de ratatouille

Hoje fomos visitar a horta que temos deixado ao abandono nestas últimas semanas. As couves rábano já estavam a ficar grandinhas (mostramos a foto para quem não conhece). O problema é não sabermos qual o momento ideal para serem colhidas. Apanhámos uma porção de beringelas, tomate (plantámos já muito tarde) e courgettes. Quando estavamos a preparar a fotografia, dissemos: "Estes legumes não são os que entram no ratatouille?" E eram!
E então vá de ir para a cozinha e preparar um ratatouille sem ser dos que se vendem congelados. Cortámos as courgettes e as beringelas aos quadrados e pusemos num prato fundo borrifadas com sal. Depois pusemos outro prato fundo em cima de maneira a pressioná-las e pusemos um peso em cima deste para a pressão ser maior. Dali a uns 20 minutos, pusemos ao lume um tacho com um bocado de azeite ainda da colheita de há 2 anos, partimos uma cebola grande e esborrachámos alguns dentes de alho que fizemos murchar no azeite quente. Juntámos tirinhas de pimento vermelho que tinham ficado na arca desde o ano passado. Depois escorremos a água que se formou na mistura de courgetes com as beringelas, secámos com um pano e juntámos à cebola. Fomos buscar uns cheiros ao jardim e trouxemos tomilho e salva que cortámos para dentro do tacho. Quando estava a ficar mole, juntámos tomate maduro partido aos bocados, pimenta e corrigimos o sal. Ficou uma maravilha. Ainda fizemos um pouco de arroz branco. Acompanhou bifinhos aos quadradinhos com molho de cogumelos. Para beber, uma garrafa de tinto da Casa de Santar e para sobremesa ameixas grandes, cor de vinho, das tardias (nunca sei o nome desta ameixa :( ) descascadas e partidas aos bocados, salpicadas com um nico de açúcar e borrifadas com Porto. Por fim, para lavar os dentes e favorecer a digestão, uma caneca de chá branco aromatizado com chá de
framboesa. Bom proveito!

2006-10-10

Fujam da parteira!...

Ainda não vos disse que as minhas origens são muito citadinas. Nasci a dois passos de Lisboa, ou melhor, a duas braçadas já que a minha terra de infância fica do outro lado do rio. Cresci sempre perto do mar e passava as férias com o meu pai, sulcando o Tejo num barco à vela. Quando me casei, mudei de zona e fiquei novamente junto ao mar. Trabalhei na Baixa de Lisboa onde chegavam os aromas da maresia e as sombras das gaivotas. Um dia resolvemos abandonar a grande cidade e partir para terras da Beira, mudando todo um estilo de vida. Passámos a ser agricultores e criadores de gado por opção. E desde então tem sido uma vida intensa, cheia de emoções. Cada manhã promete um dia diferente dos anteriores. Acabou-se a rotina, os bocejos, os dias cinzentos. Apenas sentimos duas faltas: o cheiro do mar e os gritos das gaivotas.
Esta explicação era devida a quem nos lê para perceber porque é que nos apresentamos sempre tão ignorantes de tudo. Alguns dos nossos êxitos só acontecem depois de uma quantidade imensa de insucessos.
Agora já podemos continuar: ontem nasceram dois borreguinhos. Melhor dizendo, um casalinho. São bonitos e bem amados pela mãe verdadeira.
Deixei de lhes dar nomes porque já me apercebi que não consigo fixar 40 nomes diferentes para cada elemento do rebanho. O macho mais velho é que mantém o mesmo desde a 14º. a 17º. geração e que é o de Jacob.
De manhã ao abrir o estábulo ouvi logo aquele borregar de recém-nascido e disse: -Olá! Já há cá gente nova!
Normalmente os partos são fáceis e a maioria ocorre durante a noite.
O ano passado estava no pasto a tratar da Branquinha, a nossa burra inteligente, e vi uma ovelha deitada e com contracções. Percebi logo que ia parir e fui ajudá-la. A ovelha levantou-se e dirigiu-se para o estábulo, presumi que seria para parir de uma forma mais recatada. Reparei que já tinha uma coisa a aparecer na vagina. Segui-a e deitei-a no chão. Tentei puxar por aquilo mas era surpreendentemente duro. Comprimi-lhe mais a enorme barriga para ajudar o borrego a descer. Sentei-me em cima dela. E a ovelha com contracções umas atrás das outras e nada a sair lá de dentro. Fui espreitar novamente e tornei a puxar por aquele pedaço de carne que teimava em resistir-me.
Sem saber mais o que fazer, telefonei para o veterinário, contei-lhe a história da bicha, do esforço que estava a fazer para parir, e do meu de não conseguir puxar aquilo para fora. O veterinário ia fazendo-me mais esta e aquela pergunta e a dada altura disse-me assim:
-Olhe, Dona Ana! Não puxe mais por isso. Faça o contrário. Empurre, empurre para dentro! É que a ovelha está a fazer um prolapso da vagina!!
Calculo que devo ter sido motivo de chacota durante muito tempo na clínica veterinária.
Mas então o problema do prolapso tinha que ser resolvido!
Todos os dias empurrava aquele pedaço de carne para dentro e no dia seguinte já estava de fora. Passei a empurrar encharcando a vagina com vinagre e açúcar (já nem sei quem é que me deu esta receita) e tornava a sair à mesma. E uma manhã tive uma daquelas ideias malucas: pedi ao caseiro para segurar a ovelha com força, fui buscar agulha e linha e vá de costurar, unindo e por isso diminuindo a "boca" da vagina. A ovelha queixou-se um bocado mas ficou um trabalho perfeito. Nunca mais apareceu aquela carne de fora. E entretanto pariu ontem, sem problemas :))))
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