2006-12-10

As bênçãos do senhor Francisco

Posted by Picasa O senhor Francisco era um homem conhecido num raio de acção de muitas dezenas de quilómetros. Tudo nele era singular. Usava o cabelo caído pelos ombros, uma barba grande que esvoaçava sobre o peito, um terço gigante que trazia pendurado ao pescoço. Sempre que passava por uma igreja ou capela, saía da sua bicicleta, entrava e passava uns minutos em oração. Nas missas dominicais antecipava-se ao padre, só se mantendo em silêncio nas homilias que ouvia respeitosamente. Comungava todo nu, escondendo as suas partes pudibundas num cobertor que enrolava em volta de si. Vivia numa pobreza extrema, habitando numa barraquita de madeira e com partes forradas a chapa de alumínio para evitar a entrada do vento e da chuva, dividindo o seu espaço com uma burra sua companheira de solidão, uma vez que tinha sido abandonado pela mulher e filhos. Era um homem doce. Quando me via ao longe acenava-me cheio de alegria, chamando pelo meu nome e, ao aproximar-me, via-o erguer a mão à minha frente, formando uma cruz com a qual me benzia. Sentia-me bem quando o encontrava porque me dizia coisas magníficas: “Ai que bom é vê-la senhora dona Ana, uma senhora tão linda e tão boa!” E depois baixando os olhos dedicava-me um padre-nosso ou ave-maria conforme as circunstâncias ou a inspiração do momento.
Várias vezes lhe dei trabalho na quinta e nunca quis receber o dinheiro. Apenas aceitava roupa e comida, desde que não fosse carne que recusava por muita fome que tivesse.
Um dia apareceu aqui à hora do almoço. Perguntei-lhe se já tinha almoçado e disse-me que sim. Conhecendo a delicadeza do senhor, disse-lhe que então ia almoçar outra vez comigo o que ele não rejeitou. Apareceu também o meu filho que vinha comer à pressa para depois sair e continuar com as suas tarefas profissionais. Quando pus a comida nos pratos, o senhor Francisco baixou a cabeça e começou uma oração de graças que respeitámos ainda que nenhum de nós fosse religioso. Mas a oração foi sendo cada vez mais aumentada e abrangente. Da comida passou para os donos da casa, para os filhos dos donos da casa, para os familiares, para os amigos, para os animais, para as pessoas da cidade, para a paz no mundo e sucediam-se padres-nossos, aves-marias, salvé rainhas, credos… quase o tempo de uma missa. A comida arrefeceu no prato. O meu filho olhava discretamente para o relógio, até que por fim ouvimos o amém final e pudemos começar a comer. Terminada a refeição assustámo-nos quando o senhor Francisco baixou de novo a cabeça mas foi apenas um curto agradecimento pela refeição. Estava uma tarde de imenso calor e ele vestido com um fato grosso e por cima um sobretudo que eu lhe tinha oferecido há uns meses atrás. O que tapa do frio, tapa do calor! Era a sua afirmação. Levou umas sandes para o lanche, despediu-se de mim com as bênçãos do costume e no final com os olhinhos a brilhar insistiu: “Ai que senhora tão linda!” E foi a última vez que me visitou. Uma tarde vi-o a pedalar pela estrada fora e buzinei-lhe. Ele acenou-me e pelo espelho retrovisor consegui aperceber-me do sinal da cruz desenhado no ar, o qual agradeci levantando o braço.
Passados alguns meses perguntei por ele às senhoras que trabalham aqui nas terras.
- Ah, não sabe? O senhor Francisco morreu!
- Oh!.. morreu? Coitadito… não sabia! Mas morreu de quê?
- Olhe, morreu todo queimado. Acendeu uma fogueira dentro da barraca para se aquecer, deve ter adormecido e o fogo agarrou-se às vestes, às barbas. Ainda saiu aos gritos mas quando os vizinhos chegaram já estava todo queimado e a morrer.

Fiquei sem saber o que dizer. Durante muitos dias fartei-me de pensar na morte horrível que teve e na sua vida tão miserável apenas iluminada quando encontrava alguém amigo ou quando recolhia em oração. Gostava das suas visitas e das atenções que tinha para comigo, que mais não fosse por aquela mão erguida oferecendo bênçãos.
Tenho saudades daquele “Ai que senhora tão linda!” que me animava o coração

16 comentários:

Anónimo disse...

Não há dúvida que és uma pessoa linda e abençoada!
:) Boa semana!

dulce disse...

Fico sem palavras depois de ler a tua prosa. Imagino o teu choque, se até eu fiquei impressionada com uma morte tão horrível.
Gosto muito de te ler. Voltei um pouco atrás para ler tb a tua conversa com o empregado da loja de fotografia :-) Realmente ... não percebi se ele tinha algum sentido de humor ou se era apenas parvinho :-))
Beijos para ti e uma boa semana.

Anónimo disse...

Obrigada pela visita! Também gostei do teu canto. Quanto ao teu comentário, acredita, ao fim de um certo numero de "pancadas" da vida, acabamos por fazer dela o que queremos... ou pelo menos a não deixar que ela faça de nós o que quer...

maria diegues disse...

Já conhecia este episódio da tua vida mas gostei de o ler e relembrar o acontecimento.
Gostei do comentário de "cas" acerca das pancadas da vida!
Quanto ao "linda mulher", já sabes que o és!
Bjs.

Manuel Anastácio disse...

Sensibilidade pura. Um texto magnífico para uma história tão triste quanto bela.

Badala disse...

Ai Ana, nem sei o que te dizer... Grande senhor Francisco. Tanta gente boa que passa tanto sofrimento... porquê?

josé disse...

Vida miserável no nosso conceito. No dele não seria......Ao contrário de outros que são tão pobres,mas tão pobres, que só têm dinheiro.

Quanto à autora: Igual a si própria. Sem comentários.

Beijos

Besnico di Roma disse...

Dramático, triste. Não sei o que dizer...
Beijitos meus... não consolam pois não?...

AnaG. disse...

Leio-te sempre com muito interesse.
A história do senhor Francisco impressionou-me bastante. Ao menos, o fim, podia ser diferente. Lido muito mal com a morte, mesmo sabendo que é o fim que todos teremos.
Beijinho e boa semana.

Ricardo disse...

Bem diz minha avó que pobreza maior é a de espírito. Assim sendo, que magnífico Morgado nos saiu esse Dom Francisco, hein?
E se ele afirmava ser tão linda a senhora Dona Ana, quem há de contradizê-lo? Pura verdade.
Um abraço e obrigado pelas visitas e comentários!

Chauffeur Navarrus disse...

Mas deixa lá...
Tens aqui uma bonita homenagem!
Um beijo grande
CN

anete joaquim disse...

Hás-de encontrar sempre alguém que, mesmo não o dizendo, há-de pensar: "Ai que linda senhora!"
Tens muito jeito para crónicas e reportagens e consegues transmitir toda a emoção que te vai na alma.
Um beijão

Ana Ramon disse...

As minhas palavras:
Ao ez agradeço as amáveis palavras e leva aqui mais um empurrão a ver se continua de volta dos seus quadros.
À dulce direi que foi tremendo para mim saber que um homem tão bom e com uma vida tão diferente da maioria tivesse o fim mais horroroso que eu conheço. Quanto ao empregado, tinha um rosto condizente com a palavra. Mas podemos dar-lhe o crédito dessa dúvida. Obrigada pelas tuas visitas.
À cas agradeço ter passado por cá. Gosto de ler a sua escrita solta e sincera. Um beijinho
À maria diegues, companheira de viagem, digo que gosto sempre de a encontrar aqui, ainda que nos encontremos noutros lugares.
Ao manuel anastácio agradeço as generosas palavras com que nos vem brindando desde que nos cruzámos por aqui. Qualquer dia ainda nos tornamos manelo-dependentes :)) Gosto de te ver por aqui. Um abraço
À Badala digo que é precisamente uma reflexão que faço muitas vezes. Para quem acreditava e servia o seu Deus, deve ter sido com espanto que viu a morte chegar com aquele aspecto atroz. Beijinho
Ao josé digo que também acho que o senhor Francisco não se sentiria miserável. Devia sentir-se feliz por ter tantos amigos (dos sinceros, já que nada tinha para lhe ser tirado) e por ser livre na sua acepção da palavra.
Ao besnico digo que gostei de o ver entrar aqui mais calmo. Os beijinhos não ajudam muito mas sempre reconfortam um pouco. Obrigada.
À anag digo que tenho a convicção de que as pessoas lidam melhor com a morte no campo do que na cidade. Aqui está muito mais presente. Na cidade evita-se falar do assunto e escondem-se os seus doentes para não se verem morrer. Há que a encarar como um movimento da Natureza. Mas concordo contigo: a morte é a morte mas há umas mesmo terríveis. Mas não penses muito nisso. Não se consegue viver a vida se estivermos permanentemente assustados com a morte. Um grande beijinho
Ao Ricado digo que fiquei contente por o ver de novo aqui. Eu entro muitas vezes no seu blog, embora só publique uma vez por semana, e gosto de ler o que escreve com tanto carinho. Um abraço
Ao Chauffeur agradeço o beijinho. Tal como a maria diegues também já conhecia a história por eu não a ter conseguido calar na altura, tal foi o meu horror.
À anete agradeço as visitas diárias e as simpáticas palavras. Como sempre :)
O meu grande abraço para todos vós

greentea disse...

que lindo e que triste fim que ele teve!!

hoje fui lá abaixo ao mercado fazer umas compras, ouviam-se as sirenes ali perto , seria uma ambulancia. Não sabe ? ... Morreu o senhor da Papelaria,,, foi arrumar os jornais, como era costume , de manhã cedo e à 9 h qd chegou a mulher deu com ele já morto ... Estão à espera do Delegado.

Fica-se sem fala! Coitado do sr Francisco...e da pobre da burra que terá tido a mesma sorte...

Larissa Dias disse...

Olá Ana, li tua crônica no site do poeta Lima Coelho. Fiquei emocionada. Tu és um ser humano lindo.

Anónimo disse...

Acabei de descobrí-la. Pedi ao google receita de morango e o meu anjo levou-me a ti.
Muitas as coencidencias, comprei um tremoço pensando em plantá-lo. Moro em São Roque há 60km de São Paulo, Brasil.
Não sabia nada sobre o tremoço além do consumo em bares como você citou.
Achei maravilhoso seu blog....Vou lhe conhecer melhor.
Obrigada por seu trabalho.
Marcia