2006-10-30

Quem canta... seus males espanta



A Farrusca a preparar-se para a nova versão do "Chuva de Estrelas".

2006-10-27

Cabeças, Corações e Rabos

Ok... então vamos continuar...

No sábado passado choveu todo o dia. A manhã passou-se de volta dos animais, como costume, deixando-nos as roupas encharcadas e o chão todo patinhado. Depois do almoço começou a apetecer ficar em casa, confortavelmente sentados, a ver um bom filme, espreguiçando-nos pela tarde fora até ao momento de se beber um chá bem quente e comer uns choux acabadinhos de fazer, recheados com chantilly, enquanto lá fora a chuva caía forte. Mas alguém se lembrou que nos tinhamos esquecido de mexer as maçãs cortadas, já prensadas. Guardámo-las em vasilhames grandes enquanto fermentam e bem tapadas para evitar as montanhas de mosquitos que são tão gulosos e tenazes na procura do álcool como algumas pessoas que conhecemos. Resolvemos ir imediatamente despachar este serviço para depois, e aí sim, darmos o nosso trabalho por terminado, já que aos fins de semana estabelecemos fazer só os serviços mínimos, que quer dizer, o mínimo possível. Espreitámos a sidra mas como ainda suspirava, deixámo-la de novo sossegada. Estamos à espera que dê o último suspiro para então a engarrafarmos que é como fazem algumas pessoas mais práticas do que nós. Abrimos os dois vasilhames que têm a maçã cortada e demos uma mexida naquela massa. Mas quando abrimos aquele onde tem estado a fermentar a pêra rocha, reparámos que já não fervia. Se deixou de ferver é altura de ser "queimada" que é o preceito que usamos quando fazemos a medronheira. Bem, foi uma corrida! Demos uma limpeza rápida à alquitarra (tipo de utensílio que veio para Portugal trazido pelos mouros, embora já fosse usado pelos povos orientais. É óptimo porque permite uma destilação mais lenta). Colocámos o pote da alquitarra em cima do fogareiro a gás, vazámos a pêra fermentada lá para dentro (era pouco, só chegou a metade), encaixámos o capacete que parece uma bacia e que tem no seu interior uma espécie de câmara semiesférica onde se juntam vapores e no seu topo a área de condensação, onde colocamos água que deve ser constantemente mudada para se manter fria. Os vapores condensam sendo encaminhados por um tubo que os faz entrar na serpentina que se encontra noutro reservatório também cheio de água fria. O destilado sai então pela biqueira, sendo recolhido. Mexemos um bocado de farinha com água e com ela isolámos as junções da alquitarra para evitar a fuga dos vapores etílicos.
A imagem de uma caneca fumegante ao lado de um prato com bolinhos que pairava por cima das nossas cabeças, fez "Ploff!!" no ar e desapareceu.
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O processo da destilação divide-se em 3 fases: Cabeças, Corações e Rabos.
As Cabeças são constituídas pelas substâncias mais voláteis que são as primeiras a sair. Trata-se de substâncias como acetona, metanol (perigoso para a saúde podendo causar cegueira) e vários ésteres que devem ser separados e deitados fora ou então aproveitados para adicionar a outra destilação. Tem uma cor ligeiramente azulada. Normalmente separam-se os primeiros 50 ml por cada 25 litros de destilado.
Os Corações são facilmente reconhecidos pela sua transparência e aroma. Trata-se do etanol. É a fase nobre da destilação.
Os Rabos contêm uma grande quantidade de compostos com um ponto de ebulição elevado, tais como os álcoois mais elevados e os furfuróis. Estes componentes podem estragar o sabor do espírito se a recolha de produto destilado for demasiadamente prolongada. É uma aguardente aguada e esbranquiçada. Normalmente, os rabos são guardados para serem adicionados na próxima destilação, pois deste modo recupera-se uma considerável quantidade de etanol.

Depois desta explicação, vamos continuar com os nossos procedimentos:
Acendemos o fogareiro a gás. Dali a pouco começou a ferver. Mais cedo do que esperavamos começou a sair a aguardente de pêra perfumando (e de que maneira) a salinha onde trabalhavamos. A primeira que saíu não aproveitámos por poder ter arrastado resíduos depositados na alquitarra desde a última utilização e também porque é o tal produto a que chamam de Cabeças. Medimos o destilado referente aos Corações que saíu a 45º e tivemos que o ir recolhendo, dividindo-o em vários lotes conforme o grau de álcool. De vez em quando tínhamos que abrir a torneira do capacete, tirar a água demasiado quente e substituí-la por fria. No início da noite começou a sair a 20º. A esta aguardente mais fraquinha, chamam aqui de "flama". Recolhemos também um pouco dessa flama para fazermos depois as misturas até conseguirmos abrandá-la, atingindo uma percentagem de álcool que nos agrade. Infelizmente não conseguimos encontrar normas que informem sobre a percentagem aconselhada de álcool para este tipo de aguardente. A seguir saíram os Rabos que também não aproveitámos. Deitámo-nos tarde mas foi um esforço compensador. Para a semana ou daqui a 2 semanas, já a maçã deverá estar pronta para levar esta mesma volta (hic!).
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2006-10-20

Um Parêntesis

Hoje também vou fazer um parêntesis nesta série de posts que temos vindo a escrever sobre a quinta, suas plantas e seus animais.
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Certamente já se interrogaram sobre a razão de ser desta fotografia. É muito simples! Apresento-vos os meus pais, o famoso e internacional ilusionista Princ e a sua partenaire Juliette. Pois é verdade, sou filha de artistas de circo! Eram anos difíceis. Milhares de desempregados (sem subsídios), dificuldades várias e muita fome à mistura. O meu pai resolveu enveredar pela vida artística e preparou-se nesta arte. A internacionalidade dele só era verdadeira se pensarmos nos distantes ascendentes espanhóis, pois que nem sequer em Espanha tinha posto os pés. A minha mãe Julieta, alentejaníssima, só conseguia passar por francesa, com a sua tez morena e cabelo frisado, nas tournées pela província onde ainda nem se sonhava que um dia iria aparecer uma coisa chamada televisão.
O convívio com as práticas do ilusionismo fez de mim uma mulher céptica que nem sempre acredita no que os seus olhos vêem (e muito menos no dos outros), precisamente por saber que nem sempre vêem o que está a acontecer realmente.
Eu era muito miúda e desses tempos apenas tenho curtos momentos memorizados. Lembro-me de dormirmos num palheiro numa das viagens em que o dinheiro não dava nem para uma pensão rasca. Lembro-me de ver o meu pai a passar pelo público e a tirar moedas do nariz das pessoas que ficavam boquiabertas e que logo a seguir se punham a apertar de novo a ver se saíam mais algumas. Lembro-me do desaparecimento da varinha mágica (muito diferente das que usamos no cozinha) e dias depois o seu regresso, atirada pela janela aberta do quarto onde dormiamos nessa noite. Lembro-me da aflição da minha irmã ao fazer trabalhos escolares que não iria entregar por ter que mudar de escola no dia seguinte. Lembro-me da criação de rolas, pombos e coelhos, igualmente artistas até no momento em que apareciam estufadinhos à mesa. Lembro-me do Prof. Karma que na altura era o palhaço Raulito (as voltas que a vida dá!...). Lembro-me da azáfama da montagem do circo: os trabalhos de elevação das orcas que depois eram espiadas ao chão, os gradins que fixavam as tábuas dos lugares da geral, o "rôdo" em chapa envolvendo o circo e protegendo a bancada da geral. Por fim o chapitou - a cobertura em lona, a armação do palanque onde iria actuar a orquestra, a preparação da pista, a colocação das cadeiras para os que tinham mais dinheiro. Lembro-me das tardes mornas em que os trapezistas treinavam por cima da minha cabeça. Memórias curtas que relampejam quando estou triste. Mas o que me ficou mais gravado e que hoje ainda me emociona, foi aquela noite em que esperava que os meus pais arrumassem o material que tinham acabado de usar e fui dar uma volta por entre as roulottes estacionadas de uma forma organizada. Uma delas tinha luz e fui espreitar. Lá dentro estava o Barnabé, o meu palhaço mais querido, o que só fazia disparates levando grandes tabefes do outro e que nos fazia rir até às lágrimas. Aquele que passava por nós - pela miudagem - com um sorriso de orelha a orelha e fazia festas nas nossas caras enlevadas. O meu ídolo, pronto! Pois o Barnabé estava sentado dentro da roulotte e de costas para a porta. Subi o degrau devagarinho e fiquei a espreitá-lo. Ele estava em frente de um espelho a olhar-se. Levou a mão à cara e tirou o nariz encarnado. Acreditam que sempre pensei que ele tinha o nariz assim mesmo? Que as pessoas eram escolhidas para palhaços precisamente por terem nascido com aqueles narizes que davam vontade de rir? Fiquei pasmada quando ele levou a mão ao cabelo, devagar, e tirou o cabelo ruivo, exibindo uma calvície por entre o cabelo fraquinho e escuro. Afinal o cabelo ruivo também não era dele! A seguir pegou num pano que molhou em qualquer coisa e foi passando pela cara esborratando aquele sorriso magnífico com que sempre o vi. Nesses minutos tão breves, foi entre lágrimas que vi o Barnabé evaporar-se para sempre do meu imaginário. O espanto sacudiu-me o corpo e o soalho gemeu. O Barnabé... não, não era o Barnabé. Aquele homem esquisito virou-se para trás e ao ver-me gritou: "Fora daqui, escanzelada!! Desaparece!!!"
Fugi dele a soluçar. Acabara de assistir pela primeira vez ao esfarrapar de uma ilusão. Tantas máscaras que continuei a ver cair desde então e sempre com o mesmo desgosto. Enrijeci. Hoje farejo a máscara à distância. E o curioso é que à medida que crescemos (ou que envelhecemos), deixamos de ver palhaços queridos a transformarem-se em pessoas banais, para vermos algumas pessoas que consideravamos queridas a transformarem-se em banais palhaços.

Para ti José que já conheces este lamento, fica a promessa de continuar a tentar escrever esta história da qual ainda não consigo distanciar-me o suficiente para a poder contar ao teu público. Dá-me tempo!

(Dedicado à minha prima Anica, uma mulher feita de paixões e de sonhos)


2006-10-18

Detesto Borboletas!!

Vou então explicar a razão de ser do post do Ezequiel que fala de gafanhotos enquanto ainda digeriamos o ratatouille. Ontem, vi a foto de uma Danaus plexippu, também conhecida por borboleta monarca no blog Jardinagens com o título "Foi-se o tempo das borboletas" e ao ler isto escrevi o seguinte comentário:
"Pois é, foi-se o tempo das borboletas e eu acrescentaria: Ainda bem! Sei que me arrisco a ser condenada ao fuzilamento, mas ainda assim vou ter que dizer: Detesto Borboletas!! Quando vejo toda essa beleza esvoaçante, hesitando entre esta e aquela flor, criando a ambiência necessária para qualquer postal romântico, eu antecipo logo a visão de centenas de lagartas a destruirem os órgãos respiratórios das plantinhas que acreditam em mim e na minha capacidade de as proteger. Fico furiosa quando vejo as minhas plantas reduzidas a uns talinhos nus e enfezados. Poupam-se as borboletas e depois envenenam-se as lagartas."
O Ezequil leu, riu e comentou o facto de às vezes pouparmos alguns bichos para mais tarde tentarmos eliminá-los.
De aparência tão frágil, ninguém diria que muitas espécies de borboletas já existiam no tempo dos dinossauros. A sua actividade é muito importante para a polinização e servem de alimento a um sem número de animais.
Pertencem à ordem dos Lepidópteros por terem asas membranosas cobertas de escamas sobrepostas (aquele pó que se desprende das asas quando lhes tocamos, são pedacinhos minúsculos dessas escamas) e armadura bucal com uma "tromba", o probóscis, enrolado em espiral, através do qual podem sugar o néctar das flores e as gotas de orvalho.
Há as diurnas, as Rhopaloceras, com antenas longas e filiformes que são as mais conhecidas (todos devem reconhecer esta malandra, responsável pelas nossas couves horrivelmente esburacadas. É a Pieris brassicae)
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E há as nocturnas, as Heteroceras com antenas denticuladas (com saliências em forma de dentes) ou pectinadas (em forma de pente)
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A foto mostra a maior borboleta que vive em Portugal, podendo atingir os 16 cm. É uma Saturnia Pyri, também conhecida por Grande Pavão Nocturno. Reparem nas antenas. Certamente será um macho uma vez que as fêmeas não possuem antenas tão "farfalhudas". Não é esquisita na alimentação já que as lagartas comem folhas de pessegueiros, cerejeiras, nogueiras, carvalhos, choupos, salgueiros e outras mais.

Das 165.000 espécies conhecidas a nível mundial, mais de 1.000 espécies actuam em Portugal, umas autóctones e outras imigrantes. No entanto há uma diminuição enorme nas populações devido às alterações dos ecossistemas, como a diminuição dos habitats, a poluição, o uso desenfreado de pesticidas, etc.
As mais ameaçadas são as espécies monófagas por se alimentarem só de um tipo de plantas e por isso mais sujeitas à quantidade maior ou menor desse alimento. Como esta Charaxes jasius. É a maior borboleta diurna nas nossas paragens podendo medir 8 cm de envergadura
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Habita zonas florestais de pinheiros e carvalhos onde normalmente existe em abundância o seu alimento preferido: o medronheiro. Procura além dos medronhos bem maduros, também excrementos de animais. As lagartas têm uns “cornos” avermelhados e alimentam-se das folhas do medronheiro. Com o desaparecimento de parte da zona florestal envolvente devido aos incêndios deste ano, tenho que me preparar para estas visitas indesejadas que vão sacrificar de novo os meus desgraçados medronheiros.

As pessoas optimistas dirão "Aquela lagarta voraz um dia tornar-se-à numa lindíssima borboleta!" As pessimistas, e neste caso eu também, dirão "Esta linda borboleta vai dar origem a centenas de lagartas vorazes!"

Grrrrr!! Detesto borboletas!!

(Algumas das fotos foram retiradas dos sites: http://pdubois.free.fr e www.fond-ecran-image.com. Os meus agradecimentos)

2006-10-14

Dia de ratatouille

Hoje fomos visitar a horta que temos deixado ao abandono nestas últimas semanas. As couves rábano já estavam a ficar grandinhas (mostramos a foto para quem não conhece). O problema é não sabermos qual o momento ideal para serem colhidas. Apanhámos uma porção de beringelas, tomate (plantámos já muito tarde) e courgettes. Quando estavamos a preparar a fotografia, dissemos: "Estes legumes não são os que entram no ratatouille?" E eram!
E então vá de ir para a cozinha e preparar um ratatouille sem ser dos que se vendem congelados. Cortámos as courgettes e as beringelas aos quadrados e pusemos num prato fundo borrifadas com sal. Depois pusemos outro prato fundo em cima de maneira a pressioná-las e pusemos um peso em cima deste para a pressão ser maior. Dali a uns 20 minutos, pusemos ao lume um tacho com um bocado de azeite ainda da colheita de há 2 anos, partimos uma cebola grande e esborrachámos alguns dentes de alho que fizemos murchar no azeite quente. Juntámos tirinhas de pimento vermelho que tinham ficado na arca desde o ano passado. Depois escorremos a água que se formou na mistura de courgetes com as beringelas, secámos com um pano e juntámos à cebola. Fomos buscar uns cheiros ao jardim e trouxemos tomilho e salva que cortámos para dentro do tacho. Quando estava a ficar mole, juntámos tomate maduro partido aos bocados, pimenta e corrigimos o sal. Ficou uma maravilha. Ainda fizemos um pouco de arroz branco. Acompanhou bifinhos aos quadradinhos com molho de cogumelos. Para beber, uma garrafa de tinto da Casa de Santar e para sobremesa ameixas grandes, cor de vinho, das tardias (nunca sei o nome desta ameixa :( ) descascadas e partidas aos bocados, salpicadas com um nico de açúcar e borrifadas com Porto. Por fim, para lavar os dentes e favorecer a digestão, uma caneca de chá branco aromatizado com chá de
framboesa. Bom proveito!

2006-10-10

Fujam da parteira!...

Ainda não vos disse que as minhas origens são muito citadinas. Nasci a dois passos de Lisboa, ou melhor, a duas braçadas já que a minha terra de infância fica do outro lado do rio. Cresci sempre perto do mar e passava as férias com o meu pai, sulcando o Tejo num barco à vela. Quando me casei, mudei de zona e fiquei novamente junto ao mar. Trabalhei na Baixa de Lisboa onde chegavam os aromas da maresia e as sombras das gaivotas. Um dia resolvemos abandonar a grande cidade e partir para terras da Beira, mudando todo um estilo de vida. Passámos a ser agricultores e criadores de gado por opção. E desde então tem sido uma vida intensa, cheia de emoções. Cada manhã promete um dia diferente dos anteriores. Acabou-se a rotina, os bocejos, os dias cinzentos. Apenas sentimos duas faltas: o cheiro do mar e os gritos das gaivotas.
Esta explicação era devida a quem nos lê para perceber porque é que nos apresentamos sempre tão ignorantes de tudo. Alguns dos nossos êxitos só acontecem depois de uma quantidade imensa de insucessos.
Agora já podemos continuar: ontem nasceram dois borreguinhos. Melhor dizendo, um casalinho. São bonitos e bem amados pela mãe verdadeira.
Deixei de lhes dar nomes porque já me apercebi que não consigo fixar 40 nomes diferentes para cada elemento do rebanho. O macho mais velho é que mantém o mesmo desde a 14º. a 17º. geração e que é o de Jacob.
De manhã ao abrir o estábulo ouvi logo aquele borregar de recém-nascido e disse: -Olá! Já há cá gente nova!
Normalmente os partos são fáceis e a maioria ocorre durante a noite.
O ano passado estava no pasto a tratar da Branquinha, a nossa burra inteligente, e vi uma ovelha deitada e com contracções. Percebi logo que ia parir e fui ajudá-la. A ovelha levantou-se e dirigiu-se para o estábulo, presumi que seria para parir de uma forma mais recatada. Reparei que já tinha uma coisa a aparecer na vagina. Segui-a e deitei-a no chão. Tentei puxar por aquilo mas era surpreendentemente duro. Comprimi-lhe mais a enorme barriga para ajudar o borrego a descer. Sentei-me em cima dela. E a ovelha com contracções umas atrás das outras e nada a sair lá de dentro. Fui espreitar novamente e tornei a puxar por aquele pedaço de carne que teimava em resistir-me.
Sem saber mais o que fazer, telefonei para o veterinário, contei-lhe a história da bicha, do esforço que estava a fazer para parir, e do meu de não conseguir puxar aquilo para fora. O veterinário ia fazendo-me mais esta e aquela pergunta e a dada altura disse-me assim:
-Olhe, Dona Ana! Não puxe mais por isso. Faça o contrário. Empurre, empurre para dentro! É que a ovelha está a fazer um prolapso da vagina!!
Calculo que devo ter sido motivo de chacota durante muito tempo na clínica veterinária.
Mas então o problema do prolapso tinha que ser resolvido!
Todos os dias empurrava aquele pedaço de carne para dentro e no dia seguinte já estava de fora. Passei a empurrar encharcando a vagina com vinagre e açúcar (já nem sei quem é que me deu esta receita) e tornava a sair à mesma. E uma manhã tive uma daquelas ideias malucas: pedi ao caseiro para segurar a ovelha com força, fui buscar agulha e linha e vá de costurar, unindo e por isso diminuindo a "boca" da vagina. A ovelha queixou-se um bocado mas ficou um trabalho perfeito. Nunca mais apareceu aquela carne de fora. E entretanto pariu ontem, sem problemas :))))
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2006-10-09

Bolinhos de alfazema?


Cá estamos de novo depois de um atarefado fim de semana prolongado festejando o aniversário da nora e com a casa cheia da alegria dos netos. Foi uma excitação abrirmos o ninho de vespas gigantes (entretanto afogadas) que todos os miúdos quiseram fotografar dando livre curso à sua veia artística (e que vai ter direito a um post alargado quando tivermos mais informações)
Hoje de manhã estivemos finalmente a cuidar da sebe de alfazemas que abanava as hastes secas frente aos nossos olhos, desiludida com o nosso desleixo. Tinhamos muitas dúvidas se deveriamos podá-la fora de tempo ou se seria preferível deixá-la como está e esperar por Abril. A decisão final foi de não a podarmos mas cortarmos apenas as hastes feias dando-lhe um aspecto mais arranjado. A foto mostra o nosso trabalho quase concluído.
A alfazema gosta que lhe façam duas podas por ano: uma em Abril e outra em Julho depois da floração ou durante a mesma. Não se deve ter medo de cortar muito curto. Se a planta ficar entregue a ela mesma, vai-se desguarnecendo aos poucos a partir da base e quase deixa de florir. No entanto durante a poda tem que se ter o cuidado de deixar um rebento verde, porque as alfazemas não conseguem rebentar a partir da madeira seca. Com cortes regulares obtém-se uma floração muito abundante.
Iamos também falar da variedade da nossa alfazema mas ficámos perdidos perante a lista enorme e as fotos muito idênticas às 2 florinhas que insistiam em fazer a sua aparição na sebe. Vimos fotos da lavandula augustifolia, vera, dentata, hidcote e por aí fora, numa lista quase interminável e desistimos de classificar a nossa. Pelo menos por enquanto. A maior parte dos autores consultados indicam a sua origem na bacia mediterrânica. Contém até 3% de óleo essencial perfumado. Há quem a queime lentamente para perfumar a casa, quem a ponha em saquinhos também para perfumar a roupa e afastar a traça, quem ponha o óleo nos vaporizadores para acalmar a tosse, as dores de cabeça e os disturbios nervosos, quem deite umas gotinhas na almofada para dormir melhor ou num lencinho para respirar melhor, serve para afugentar insectos se se esfregar o óleo na pele descoberta. Faz parte de quase todos os Pot-pourris.
Mas também se pode usar (e era este momento que estavamos à espera mal iniciámos o texto) na confecção de bolachinhas. Foi esta receita que encontrámos no livro: Plantas e Ervas Medicinais. E reza assim:
Aquecer o forno a 180º. Bata 150 gr de manteiga com 115 gr de açúcar até ficar em creme e em seguida junte 1 ovo e torne a mexer. Adicione 170 gr de farinha e flores de alfazema. Unte um tabuleiro e distribua colheres de massa. Leve ao forno durante 15 a 20 minutos até alourarem. Servem-se as bolachinhas decoradas com folhas e flores frescas de alfazema.
Se é bom? Não fazemos ideia. Ainda não experimentámos.

2006-10-04

Identificação do "príncipe"

Depois de ter pedido ajuda aos técnicos da naturlink, recebi esta informação:
"O sapo fotografado é um exemplar de Sapo-comum, de nome científico Bufo bufo.
Poderá aceder a informação sobre esta espécie consultando a respectiva ficha que temos publicada em:
http://www.naturlink.pt/canais/Artigo.asp?iArtigo=2491&iLingua=1

Trata-se de uma espécie relativamente comum em jardins e quintas de áreas razoavelmente húmidas, não sendo necessário que existam pontos de água muito próximos para que ocorra.
Alimenta-se de invertebrados, pelo que é uma ajuda bem-vinda para o hortelão.
Com excepção de situações em que o animal esteja manifestamente em risco (como dentro de uma galocha :-) ), o melhor mesmo é não lhes mexer, dado que quando vagueia pela quinta está na sua actividade normal.
De qualquer modo, se for necessário afastá-lo de algum local mais perigoso o melhor é colocá-lo entre tufos de vegetação mais húmida. "

Obrigada pela informação


2006-10-03

... e se lhe der um beijinho?

Hoje acordei triste, tal como o dia, ainda debaixo da comoção do texto da véspera. Por minha vontade, ficava na cama só a assistir ao aceno dos eucaliptos lá ao longe. Mas tinha os meus animais impacientes pela refeição da manhã e por isso não tive outro remédio senão levantar-me, lavar-me e vestir-me. Preparei o pequeno almoço esperando que a chuva torrencial abrandasse um pouco. Não abrandou muito mas já permitia que se saísse de casa. Vesti o fato impermeável e fui calçar as galochas que estavam do lado de fora. Calcei uma e ao meter o pé dentro da outra, senti uma coisa fria e mole. Virei a galocha, abanei-a e ... surpresa!
Aos meus pés caíu um magnífico príncipe encantado

As saudades de um amigo

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Hoje senti muitas saudades tuas, Thor. Há já uns meses que fizemos a nossa última viagem. Deixaste de dormir no teu canil com os outros companheiros da matilha para viveres a meu lado, noite e dia, deitado na tua cama e atento a todos os meus movimentos dentro de casa. Julgo que foste muito feliz nessas últimas semanas em que finalmente pudeste guardar-me durante 24 horas. De manhã levantavas o focinho e acordavas-me com o beijinho de bons-dias. Eu arranjava-me em frente ao teu olhar vigilante e depois empurrava a tua cama até à porta para te ajudar a levantar e poderes sair, cheirar o ar e as ervas e fazeres as tuas necessidades em posições cada vez mais difíceis devido à amputação da pata. Poderiamos ter evitado essa operação mas o prognóstico era tão pessimista desde que te foi detectado o sarcoma ósseo, que para evitar abreviar-te a vida sem sabermos se seria cedo demais e esperançados na cirurgia e quimioterapia, resolvemos tentar tudo por tudo para te salvar. Recuperaste bem da intervenção e aprendeste a andar com as 3 patas, saltitante. A quimioterapia também não te deitou abaixo e viamos-te com ar sossegado, sem dores e feliz por estares perto de nós. Foram semanas de ligação diária muito forte. Passavas o dia deitado perto de mim, interessado em tudo o que eu fazia, dando uns suspiros de satisfação que me davam um grande bem estar. Á noite dava-te o jantar na cama e depois arrastava-a para o meu quarto para dormires ao meu lado. Sempre que acordava, perguntava-te baixinho: "Tudo bem, Thor?" E ouvia a cauda a responder alegremente. Mais tarde começaste a ressentir-te de uma das patas traseiras. Mudança de tratamento e melhoria nos movimentos. Mas foi sol de pouca dura. Uma noite ao virares-te na cama, não conseguiste virar o corpo por igual e acordei com os teus ganidos. Ajudei-te na posição mas percebi que tudo se estava a complicar. Todas as manhãs era um esforço enorme para mim e para ti, tirar-te da cama para te colocar no jardim. Passei a arrastar o cobertor contigo em cima, arrastando os teus 40 e tal quilos pela relva, tentando não magoar-te. Mas a dada altura já te queixavas de qualquer movimento e falei para o veterinário que foi muito claro: a partir dali não ia haver melhorias e irias passar a sofrer. Não era nada disso que queria para ti, meu amigo. Por isso preparei-te um pequeno almoço de leite com nestum que tu lambeste sôfrego de prazer. Pedi ajuda e metemos-te com a cama no carro. Ias satisfeito porque já tinhas percebido que a ida ao veterinário te melhorava sempre de qualquer mal-estar. Era um sábado cheio de sol. O médico e a menina ajudaram-me a levar-te para a marquesa. Puseram-te a soro. Todos falavamos contigo como sempre o fizemos e com muitas carícias. Sei que já consideravas aqueles profissionais como grandes amigos esperando sempre o biscoito de prémio. Estavas muito sereno, segundo o médico me disse depois de te ter auscultado. Abracei-te e pousaste a cabeça no meu braço como fazias sempre que iamos ao tratamento. Cantarolei baixinho uma cantiga de ninar. O médico começou a anestesiar-te e tu fechaste os teus olhos doces, suspiraste e partiste. Só nesse momento permiti-me chorar.
Adeus Thor! Tenho tantas saudades tuas