2007-06-08

Farinelli e os castrati

Este fim de semana estivemos a rever o filme “Farinelli” de Gerard Corbiau que conta a vida do célebre cantor castrado baptizado com o nome de Carlo Broschi, nascido em Andria-Nápoles em1705 e tendo morrido em Bolonha em 1782.
Embora muitos estudiosos ficassem decepcionados com o filme por entenderem que a aparência do Farinelli seria muito diferente da do actor Stefano Dionisi e, que ao contrário da maioria dos cantores castrados com sucesso, seria uma pessoa muito humilde, com uma postura diferente da representada e sem interesse pelo sexo, vale a pena ver o filme que nos dá uma ideia muito aproximada do ideal estético da época barroca.
A castração já era praticada na Antiguidade por povos vitoriosos para evitar a reprodução dos inimigos capturados, em alguns cultos pagãos que exigiam a auto-emasculação dos seus sacerdotes, como punição por crimes de violação, no mundo árabe que se servia dos eunucos para guarda das mulheres do sultão, pelo Império bizantino utilizando-os nos cânticos das igrejas, etc
Perante a proibição pelo Vaticano das mulheres cantarem no coro sacro, seguindo à letra uma epístola de S. Paulo que diz que as mulheres devem permanecer em silêncio na igreja, houve necessidade de resolver a falta de vozes agudas que não era totalmente preenchida com as vozes das crianças com menos vigor por não terem um corpo maduro, pelo pouco tempo que conseguiam mantê-la e pela falta de expressividade impossível de se manifestar nestas idades.
A solução encontrada foi a de mutilar infelizes rapazinhos entre os 7 e os 11 anos, de forma a evitar a puberdade e assim manterem o timbre de voz.
No período compreendido entre os séculos XVII e XVIII, fizeram-se cerca de 4.000 castrações/ano só em Itália que via nos castrados também um produto de exportação.
Muitas famílias pobres e com uma prole numerosa aceitavam a castração de um dos seus filhos, quando o mestre de capela achava que a criança tinha uma voz promissora, tentando libertá-lo de uma vida de miséria ao mesmo tempo que poderiam vir a receber rendas por conta dos ganhos do futuro cantor.
Mas a grande maioria das crianças castradas, perdia-se no anonimato, numa vida infeliz plena de complexos de inferioridade e de fracasso, perdendo mesmo a voz ou cantando em pequenos coros de igrejas locais.
Segundo algumas estimativas, apenas 10 a 15% das crianças castradas conseguiam subsistir à custa da sua voz. E destas, apenas 1% é que atingia o sucesso.
Estas cirurgias eram desempenhadas mais frequentemente pelos barbeiros da terra e podemos facilmente imaginar as condições em que eram feitas.
Para anestesia usava-se uma bebida de ópio (por vezes fatal devido a uma dosagem demasiadamente elevada) ou então pressionando as carótidas de forma a deixar a criança inconsciente. A imersão em leite facilitava o amolecimento dos tecidos e a água gelada adormecia um pouco mais a sensação de dor além de evitar as grandes hemorragias.
A intervenção podia consistir simplesmente no esmagamento dos testículos até os romper, não sendo necessário nenhum golpe cirúrgico, no corte dos cordões espermáticos originando o atrofiamento dos testículos ou extraindo estes por uma incisão feita na virilha, cortados com uma faca e ligando seguidamente os canais. Este último processo dava origem a uma maior mortandade devido a graves hemorragias e septicemias.
A ablação dos testículos impedia a puberdade e por isso o desenvolvimento normal da laringe masculina que não descia, mantendo o registo normal de uma voz infantil. Dava origem também ao desenvolvimento do tórax, criando uma apreciável caixa de ressonância com cordas vocais de pequena dimensão.
Mas as transformações não eram apenas na voz: Os castrados tinham uma estatura superior à normal uma vez que as cartilagens continuavam a funcionar por mais tempo dando origem ao aumento do tamanho dos ossos. Não tinham maçã-de-adão. A obesidade depositava-se tal como no corpo das mulheres. Não tinham barba mas o cabelo era forte e espesso. A pilosidade no corpo era quase inexistente, desenvolvendo-se mais na região púbica. Podiam ter erecções e até emissão de plasma seminal uma vez que mantinham outras glândulas em funcionamento, mas obviamente sem espermatozóides.
Aqueles que conseguiam recuperar da cirurgia, iam para conservatórios durante 10 anos onde trabalhavam a voz de uma forma intensíssima e com uma disciplina extremamente rigorosa.
A Igreja não permitia as castrações, uma vez que havia uma lei do direito canónico e civil que proibia a amputação deliberada de qualquer parte do corpo, mas paradoxalmente, aceitava os castrados para cantarem nos seus coros. O próprio Papa Clemente VIII autorizava a castração desde que fosse feita para a glória de Deus.
Normalmente não se confessava a verdadeira razão que iria alterar o desenvolvimento físico do adolescente. A desculpa era quase sempre uma doença grave, um acidente, uma hérnia, qualquer pretexto acobertado pelo médico, evitando a excomunhão, convencendo a sociedade local e até o próprio que a maior parte das vezes desconhecia o porquê do seu problema físico.
O gosto pelo virtuosismo, fazia com que houvesse um fascínio generalizado pelos cantores castrados que tinham uma voz assexuada a que chamavam “angelical” e que interpretavam personagens de deuses e heróis, tanto em papéis masculinos como em femininos.
Hoje é difícil saber como seria realmente o tipo de voz de um cantor castrado. Existem gravações do último castrado Alessandro Moreschi (1858-1922) que não são agradáveis de ouvir devido ao facto do cantor já não estar na sua melhor forma quando a técnica permitiu as gravações e também devido à precariedade da mesma que originava muitas distorções no som
No filme Farinelli conseguiu-se por digitalização, fundir as vozes do contratenor Derek Lee Ragin com a da soprano Ewa Mallas-Godlewska para atingir uma tessitura de três oitavas, impossível de se conseguir actualmente de uma forma natural mas que ao que parece era possível em alguns castrados. Muitas das peças escritas na época para eles, são impossíveis de se cantar pelos cantores actuais. Conta-se que Farinelli conseguia emitir 250 notas num minuto e sem respirar. Conta-se também que numa actuação em Londres, os músicos da orquestra não conseguiam concentrar-se nas suas partituras, impressionados com o seu extraordinário virtuosismo
Deixamos aqui um pequeno registo do filme Farinelli no momento em que Handel vingativamente o esclarece sobre a sua castração (momento também duvidoso), seguindo-se a interpretação da ária “Lascia Ch'io Pianga” (Deixa que eu chore) da ópera Rinaldo composta pelo próprio Handel

Não confundir os cantores castrados com os contratenores que têm um timbre muito parecido com o das mulheres, graças a uma técnica especial na emissão da voz. Já existiam no período barroco mas o fascínio na época pela voz dos castrados não permitia o sucesso daqueles.
Em 1902, o Papa Leão XIII proíbe definitivamente a presença dos castrados no canto sacro.
As árias escritas na época para cantores castrados, são hoje cantados por contratenores ou sopranistas (homens) ou mezzo sopranos (mulheres)
Uma tarde em que estávamos a conversar sobre os cantores castrados, nem nos apercebemos da presença do Pedrinho, um menino com 10 anos que nos ouvia atentamente. A seguir estivemos a ouvir um Cd de árias antigas interpretadas pela Cecília Bartoli e fomos surpreendidos com a sua pergunta:
- E a este? Também lhe arrancaram os tomates?!
Para finalizar, fica aqui mais um vídeo que nos deixa a pensar no que poderia suceder a esta criança se tivesse vivido na época atrás referida



Consultas: “História dos Castrados” de Patrick Barbier; http://www.kindsein.com/es/8/educacion/227/?ST1=Full_text&ST_T1=Article&ST_PS1=6&ST_AS1=0&ST_LS1=0&ST_max=1
http://marianmus.wordpress.com/2007/04/03/contratenores-y-castrati/
http://atacada.wordpress.com/2007/01/21/farinelli-il-castrato/
http://www.npdi.dcc.ufmg.br/workshop/wti2001/pdf/nazario.pdf
http://www.geocities.com/operacalli/i_castrati.htm


33 comentários:

bettips disse...

Eia! Mudou para verde esperança! Nem te conhecia. E com um artigo de fundo - do qual tinha conhecimento geral - mas que descreves magnificamente bem!
Melhor estou, com borboletas (estufa de criação, Lagartagis, no J. Botânico de Lisboa, onde fui uns dias) e muitas fotografias de plantas e bichinhas dóceis! Já agora: tu pareces melhor... como vão os animais amigos? Bjinho

Paulo disse...

Ana! Que bom estares de volta. Fiquei tão contente quando vi que tinhas voltado aos posts. E logo com um artigo de grande fôlego...
Também gostei muito do filme, pouco me importando com a veracidade histórica de alguns factos. Penso que o filme dá uma ideia do que era a vida musical na época barroca e podemos pelo menos perceber o que levava homens e mulheres a desfalecerem perante a exuberância de Farinelli e outros "castrati". E a música de Haendel é sempre maravilhosa, nomeadamente esta ária, que provavelmente também conheces na versão da Bartoli do disco "Opera proibita": "Lascia la spina".
Um compositor que pode ter sido castrado e nunca conheceu o estrelato como cantor é Gregorio Allegri (1582-1652), mas as informações são contraditórias. O Miserere é a sua obra mais célebre. Gosto muito de uma versão com um rapaz-soprano, Roy Goodman, que felizmente não há-de ter sido castrado e, provavelmente, perdeu a voz...
Obrigado pela descrição dos detalhes técnicos, arrepiantes, mas muito esclarecedores.
Um grande beijinho.

AnaG. disse...

Duplos parabéns Ana...pelo teu regresso e pelo excelente post.

Já tinha saudades de te ler e de aprender contigo. Saboreei as tuas palavras e os vídeos.

Muito bom, mesmo!!

Beijinho e bom fim-de-semana

poetaeusou disse...

///
ana
,
A D O R E I
,
xi
///

bom dia isabel disse...

Uma história interessantíssima para quem não a conhece. Gostei muito.
Bem vinda.
Beijinhos

Manuel Anastácio disse...

Junto-me ao coro para celebrar este maravilhoso post que consegue passar dos mais arrepiantes pormenores físicos ao mais descontraído dos sorrisos (e risos, já agora). Já conhecia o exercício vocal desse último miúdo... Quanto aos vídeos: não te preocupes, neste contexto, com os direitos de autor... Aqui estás apenas a divulgar. Os autores agradecem...

maria disse...

Estou contente por voltares e por teres mudado de cor,pois tinha dificuldade em ler com fundo preto!
Não conheço o filme de que falas. É recente?
Também não consigo ver os vídeos mas amanhã na escola vou fazê-lo: o meu computador não funciona, trouxe um portátil emprestado da escola - ainda há algumas coisas boas com o governo da Milú- mas não me permite essas larguezas.
Não sabia que a prática da castração para os fins mencionados se tivesse efectuado até tão tarde, claro que o papel da Santa madre nisso tudo é o costumeiro.
Até breve

pin gente disse...

não vi o filme, fiquei com curiosidade de o fazer.
gostei imenso de ler o texto, apesar da dureza do assunto. muita crueldade "se fez" por esse mundo fora.
O final foi fantástico, neste caso ainda bem que os tempos mudaram.
um abraço
luísa

anete joaquim disse...

Bem! Que mais dizer para além de que levas tempo a aparecer, mas vale sempre a pena esperar. Já andava à espera da próxima produção, pois sei que mesmo doente e com tanto problema com os bichinhos, lá arranjarias tempo para mais uma das tuas fantásticas histórias. Esta, algo arrepiante, diga-se de passagem. Ainda se diz que hoje é que há crianças maltratadas!!!
beijos e bom regresso.

Anónimo disse...

Esta Srª não pára de me surpreender!!!

Boa Dª Ana!!!
Como sempre um excelente post!!!
Um abraço do MV amigo

sonhadora disse...

Boa semana.
Beijinhos embrulhados em abraços

Bichodeconta disse...

Ora aqui está um antinho tão airoso, tão apatecível onde prometo voltar sempre que possivel.. INTERESSANTE o que escreve.. Aquele abraço.. boa semana..

Jardinando disse...

Hello Ana. Brrrrrrrr, desculpa mas faz-me arrepios esta história. Pobres rapazes. Os homens são capazes de grandes crueldades, até em nome de ideias de perfeição, como na arte e na política. E infelizmente ainda continua a haver práticas parecidas, como a excisão. Fiquei também a pensar que essa história comprova, com mais um exemplo, que muitas das situações degradantes (mais do que por causas demográficas e sociais) só acontecem porque têm a cumplicidade e são alimentadas por outras pessoas muito bem colocadas no sistema. E como se pode aproveitar a Bíblia para ser tão pouco cristão! Felizmente, temos caminhado para melhor e espero que continuemos. With a little help from my friends....

asn disse...

Nunca tinha sido confrontado com informação tão profunda sobre este tema.
Face às barbaridades de que o Homem é capaz fica-se sem palavras.
Umas bestas é o que sempre fomos e continuamos a ser. Alguns de nós cá vamos fazendo um esforço no sentido de colmatar os nossos defeitos natos, mas a Humanidade está recheada de exemplares de brutalidade e indiferença aos problemas do seu semelhante.
Como os ideais são fruto da época e do local onde se vive/eu!
Espero que esteja tudo a correr melhor por esses lados!
Um beijinho
António

Dulce disse...

Quando os fins justificam os meios ... e para terminar esta lição, o riso pela observação do Pedrinho (podia ser o Carlitos :-))
Beijinhos

jnavarro disse...

Já cá dei um salto.
A ver se o Pedro espreita o blog :)
Beijinhos

AnaG. disse...

Passa pelo meu canto...Deixei-te lá uma "Batata Quente".

Faz o que entenderes...

Beijinho

TINTA PERMANENTE disse...

A verdade é que saio mais sábio!...
E agradecido pela aula!
Abraço!

D. Maria e o Coelhinho disse...

TOU TÃO CHATEADA !!

D. MARIA

poetaeusou disse...

/
passei
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Tongzhi disse...

Não conheço o filme mas fiquei com bastante curiosidade!
Será fácil encontrar?
Beijos

PS. Vou cumprir o que prometi!!!!

Ricardo disse...

Que post mais, digamos, dolorido! rs

Bom vê-la novamente, não nos abandone mais!

Jardineira aprendiz disse...

É estranha a relação do homem com a arte, que devia ser o melhor da alma humana...

Realmente isto é muito interessante como facto histórico, é difícil perceber como é que as famílias permitiam uma coisa destas. Não sabia que ainda se faziam castrações no séc XIX!

Gostei deste novo ar fresco e obrigada por este post tão interessante!

Beijo

Lu disse...

OH Ana... mas que história. A crueldade do Homem não tem limites.

Beijinhos.

Ligeia disse...

hermosas fotografías...

redonda disse...

Vi o filme há algum tempo. Então e agora impressionou-me e chocou-me o que faziam às crianças (postei uma tela, penso que em Abril, mas não é nada de especial mesmo, e pode ser que um destes dias faça um novo post com os meus dois únicos quadros até à data :).
Um beijinho para ti e o resto de uma boa semana

Joao Soares disse...

Vi o filme...é lindissimo e com a tua descrição, um extra!!Agora que eu faço uma pausa, posso vir mais vezes, com muito apreço.
Obrigado pelas tuas palavras de estímulo.
Abraços
BioTerra

poetaeusou disse...

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passei
,
xi
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ez disse...

...Obrigado!

rosa dourada/ondina azul disse...

Que barbaridades se fizeram ao longo da história, é arrepiante, mas gostei de ler o artigo.

Também gosto muito da música de Haendel.

Fica um grande beijinho de reconhecimento,

jnavarro disse...

Foi bom estarmos juntos em Lx.
Obrigado pela visita!
Um beijo

Júlio da Costa Gomes disse...

Gostei deste blog. Beijos

Anónimo disse...

olá, Ana...

sou da Bahia/Brasil..

numa pesquisa sobre os "castrati" e o filme Farinelli, os seus escritos sobre o assunto foram o que melhor encontrei, em termos de riqueza de informações e sequência de idéias.

muito obrigado pela gentileza de compartilhar uma pesquisa tão refinada.

um abraço,

Jéferson Bispo