2007-10-22

Quando os homens da ciência também falam de compotas…

Há umas semanas atrás, recebemos um mail de um senhor chamado Mário Portugal que explicou ter-nos conhecido através do post de Março deste ano onde falamos do cientista Bettencourt Faria... e que era seu irmão.
As grandes surpresas da blogosfera !
A partir desse momento iniciou-se uma troca diária de mails.
O Mário é uma pessoa extremamente delicada e generosa, fazendo parte da grande família de radioamadores. Tem um saber imenso sobre múltiplos assuntos relacionados com a ciência. Uma curiosidade desmedida sobre o funcionamento de tudo o que é novo. Um gosto enorme pela vida e uma alegria que transpira em tudo o que escreve Os seus mails lêem-se e relêem-se absorvendo todas as informações e memórias que ele adora partilhar.
Entre tanta informação variadíssima, fomos surpreendidos pela gentileza do envio de uma receita ainda manuscrita pela sua falecida mulher.
Em sua homenagem demos-lhe o nome de “Doce de Figo da D. Alice”
Como a nossa figueira ainda tinha uns figos meio maduros, resolvemos experimentar a receita de imediato. É facílima de fazer e posso garantir-lhes que é um doce de comer e chorar por mais. Para os interessados (e estamos a pensar no Luciano) aqui segue a receita.

Primeiro lavam-se os figos e depois faz-se em cada um, 2 ou 3 furinhos com um palito.
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A seguir pesam-se e põem-se num tacho, juntando igual peso em açúcar. Cobrem-se com água e deixa-se ficar a descansar de um dia para o outro.
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No dia seguinte põe-se o tacho ao lume e vai-se deixando ferver lentamente mexendo com cuidado por uma hora ou mais
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de forma a ficar um caramelo não muito espesso.
Se por acaso engrossar demasiado, como nos aconteceu, junte um pouco de água com precaução porque vai espirrar pela certa.
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Depois de pronto é só deixar arrefecer e pôr em frascos de boca larga
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Comem-se assim inteirinhos e bem regados de caramelo.
Se ainda têm alguns figos maduros ou meio maduros nas vossas figueiras, não hesitem e experimentem. Depois agradeçam esta partilha ao cientista Mário Portugal :))

2007-10-03

Os nossos cachorros

Depois de uma ausência justificada por algum cansaço e falta de imaginação para o exercício da escrita, voltámos ao vosso convívio para vos mostrar as fotos dos novos residentes na quinta.
 
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Apaixonámo-nos por estes dois manos Leões da Rodésia assim que vimos a ninhada com um belíssimo aspecto denunciando um tratamento cuidado, assim como os seus progenitores.
Leão da Rodésia é uma raça africana, óptima para guarda e que era usada em matilha na caça ao leão.
Nós somos um pouco indiferentes ao pedigree dos cães porque sempre tivemos rafeiros, encontrados abandonados. Mas compreendemos que alguns comportamentos são mais previsíveis em determinadas raças. Não somos muito entendidos no assunto mas há duas delas que fazem parte da nossa paixão. A primeira é o Cão de Castro Laboreiro, uma raça portuguesa muito antiga, que mantém características lupinas. Autóctone de Castro Laboreiro, freguesia no extremo norte de Portugal, pertencente ao concelho de Melgaço, esteve em vias de extinção. Só os esforços de algumas pessoas interessadas na divulgação da raça com características de guarda e pastoreio é que evitaram que tal tivesse acontecido. Foram ao ponto de distribuir cachorros por pastores da zona para tentarem implementar o uso deste tipo de cão. Há muitos anos que temos um enorme carinho por esta raça e esforçamo-nos por os termos na nossa companhia. Com a morte do Odin a que me referi no post “Será que vale a pena?” ficámos apenas com o Baco, aquele cão grande de olhar atento que está deitado aos meus pés esperando que me levante da sesta, no post “É só por um bocadinho”. É um cão de aparência feroz para estranhos mas de uma total dedicação ao dono e muito afectuoso para com as crianças, como bem pode dizer a pequena Leonor que o tem como confidente, abraçando-se ao seu pescoço, enquanto se lastima em grandes prantos, perante a imobilidade e o olhar compreensivo de uma alma canina que percebe o desgosto e lhe dá o apoio da companhia serena.
O Baco não é um cão de pastoreio porque não o soubemos preparar, ignorando que havia a necessidade de o introduzir no estábulo onde deveria comer e dormir para aprender a conviver com as ovelhas desde pequenino. Por isso, sofre do impulso de caçar borregos, muito estimulantes nos seus saltinhos e pequenas correrias. Não vale a pena insistir porque não consegue resistir. Inicia a perseguição com melhor ou pior resultado e a seguir mete-se no canil com um ar muito comprometido. A única forma de evitar esta situação é ter o rebanho afastado das vistas e sempre que possível em pastos protegidos por rede ovelheira.
Depois do Castro Laboreiro, a nossa paixão vai para o Leão da Rodésia ao qual estamos muito ligados desde que tivemos o Thor, a quem dediquei um post de saudade em Setembro do ano passado e a sua irmã Tanit que ainda é viva embora já a ficar velhota e com vários problemas de artrose. Chamava-lhes a minha guarda pessoal.
Os Castros passavam o tempo rondando a quinta por dentro e por fora e as casas, preocupados com todo o movimento estranho. Os Leões pouco se afastavam, preocupados com a guarda dos donos. Quando fazíamos nós as rondas, o Thor ia sempre colado a mim, a Tanit ao meu marido, calados e atentos a todos os ruídos. Faziam uma guarda excessiva aos bens dos donos. Não os podia ter à solta enquanto trabalhavam os homens das obras porque se sentavam em cima da pilha de tijolos e dos sacos de cimento e rosnando impediam que alguém utilizasse os nossos materiais. Outra mania que tinham era a de não aparecerem, embora estivessem atentos, quando alguém entrava na quinta mas presentes, e bem presentes quando saía. E o pior é que carros e bicicletas, depois de entrarem aqui, já não podiam sair… talvez por acharem que passavam a pertencer-nos. Bem, e se a pessoa entrava de mãos vazias e saía com embrulhos, então é que perdiam mesmo a cabeça.
Identificam-se facilmente pela crista no dorso formada por pêlos que crescem no sentido da cauda para a cabeça, ao contrário do que sucede com a restante pelagem e por isso o nome original de Rhodesian Ridgeback como podem reparar na foto abaixo
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E então, nós que só íamos ver o aspecto de uma ninhada, acabámos por vir para casa, não com um mas sim com dois cachorros, um casalinho de manos que parecia serem muito unidos.
Aos poucos vão sendo aceites pela matilha residente. Na foto abaixo podemos reparar nas suas brincadeiras perante a indiferença do Baco que se comporta como o líder e da Tanit que já estava cansada de brincar com eles, na sua preocupação de os preparar para futuros guardas.
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Apenas a Pandora, que já conhecem do texto “É só por um bocadinho” estando deitada à direita da foto e que gosta de caçar coelhos que oferece depois ao nosso caseiro, é que não está para aturar estas tropelias constantes e ignora-os simplesmente.
Alguém nos disse que era comum dar nomes africanos aos cães desta raça e como temos a mania de dar nomes de deuses antigos, andámos a pesquisar a mitologia africana. Foi difícil mas acabámos por nos decidir por Dongo, o deus do trovão e do fogo e Nanã Buluku (utilizamos só o primeiro nome), divindade hermafrodita, deusa da chuva, protectora dos doentes e idosos.
Na foto abaixo pode-se ver a preocupação deles perante o afastamento dos donos.
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O Dongo, que só tem 4 meses, já me acompanha nas caminhadas, com o focinho colado a mim, tal como fazia o saudoso Thor.
São tão traquinas e têm uma tal vitalidade que parece termos o diabo à solta aqui na quinta.

Post-Scriptum: Soubemos hoje que 3 manas desta mesma ninhada ainda esperam por donos dedicados.

2007-09-16

Negros frutos

Nesta tarde cinzenta enquanto bebíamos uma mistura de chá príncipe com flores de tília e saboreávamos uns biscoitos de canela acabadinhos de sair do forno, estivemos a ouvir dois Cd’s da Billie Holiday. Billie Holiday nasceu a 7 de Abril de 1915 em Baltimore, no seio de uma família pobre. Seus pais tinham 15 e 13 anos quando ela nasceu e naturalmente sem maturidade necessária para a educar. O pai abandonou a família quando Eleanora, seu nome de baptismo, era ainda bebé. Teve uma infância e adolescência miseráveis sendo violada em menina e cravando os dentes no fel da vida através da prostituição, prisões e drogas. Começou a cantar com 15 anos nos bares nocturnos de Nova Iorque, tendo acompanhado mais tarde os famosos Bessie Smith, Duke Ellington, Count Bessie, Lester Young e outros. Mesmo no auge da sua carreira, foi sujeita a actos de segregação racial, não podendo frequentar os mesmos hotéis dos brancos quando acompanhava a banda nas suas tournées e sendo obrigada a usar elevadores de serviço para não incomodar os clientes brancos. Casou-se diversas vezes e essas ligações apenas serviram para a afundar mais no lado negro da vida por se ver trocada por outras mulheres, por ser roubada, por ser espancada e por ser levada a experimentar drogas cada vez mais fortes. A sua voz tinha uma tessitura de uma oitava só. Mas essa limitação vocal era compensada com um intenso dramatismo, com uma tal expressividade que a tornava única. Morreu em Nova Iorque a 17 de Julho de 1959 por não ter conseguido resistir aos efeitos do álcool e das drogas e deixou uma autobiografia intitulada “Lady sings the blues” Um dos seus maiores êxitos foi a canção “Strange Fruits” escrita por um professor judeu que ao ver uma foto de negros enforcados e pendurados nas árvores por brancos racistas, baloiçando como se fossem frutos horrendos, resolveu escrever uma canção de protesto denunciando a opressão exercida sobre os negros dos EUA. Conta-se que Billie Holiday chorava sempre que a cantava, também ela perseguida pela cor da sua pele. Aqui fica o registo de uma das suas interpretações. Se quiserem saber um pouco mais sobre o que motivou a letra desta canção, podem aceder por aqui: http://www.youtube.com/watch?v=isU_OjY94NY

2007-09-10

A visita

Ainda estava naquela indolência de deixar passar os minutos, as horas, a olhar para tudo como se o tempo tivesse parado e não houvesse nada urgente para fazer quando fui surpreendida pelo ciciar de uma sombra, um sopro quase etéreo, uma sensação estranhamente indefinida, arrastando a incerteza que algo tivesse acontecido. Alheei-me da leitura que fazia e fiquei suspensa esperando que alguma coisa se repetisse. Passaram uns segundos e de novo a sombra, sim porque foi uma sombra que perpassou por mim, volteando, silenciosa mas pesada. Só podia ser um pássaro, pensei. E de novo sulcou o ar quase roçando o meu rosto. Desta vez consegui segui-lo com os olhos entrando na salinha onde poisou no velho sofá. Fui buscar a máquina fotográfica. Não era nenhum pássaro como poderão ver na foto, mas sim um surpreendente morcego (para mim são sempre surpreendentes estes mamíferos alados). Poderia tentar mais fotos mas o facto de saber que não são cegos e que havia a possibilidade de voar de salto ao assustar-se com a minha aproximação, acrescida da possibilidade de embater na minha cara podendo provocar uma histeria que não me é muito comum, foi perfeitamente dissuasor. Por isso apenas uma foto e já está muito bem.
 
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Tentei descobrir de que espécie seria mas foi completamente impossível. De asas abertas talvez atingisse a envergadura de uns 15 a 20 cm. Pedi ajuda mas, com uma foto tão limitada, também ninguém o conseguiu fazer. Abri a janela, acendi a luz no exterior e deixei-o sozinho. Dali a pouco ao entrar cautelosamente e com as mãos à frente da cara, percebi que ele já se tinha orientado seguindo o seu caminho.
Os morcegos existem há mais de 40 milhões de anos, podem viver entre 10 a 30 anos conforme as espécies e constituem bandos mais ou menos numerosos com comportamentos muito curiosos. Uma das coisas que nos surpreende é a forma de dormir pendurados de cabeça para baixo. Algumas teorias defendem que isso se deve ao facto de terem os dedos demasiadamente grandes das patas dianteiras, as que se transformaram em duas membranas funcionando como asas. Outras defendem que é pelo facto de terem patas traseiras tão pequenas e subdesenvolvidas que não suportam o peso sobre elas, embora aguentem a suspensão. E outras ainda pelo facto de ser mais fácil iniciarem o voo a partir desta posição uma vez que dificilmente conseguem voar a partir do chão pela falta de impulso das suas asas. Para ficarem suspensos de cabeça para baixo, não necessitam de nenhum esforço adicional. O próprio peso do corpo força a fechar os tendões que estão ligados às garras, não precisando de contrair nenhum músculo, por isso não cairá caso morra nessa posição :)) Quando quiser iniciar o voo é que necessitará de movimentar alguns músculos que abrirão as suas garras. Todos sabemos que se orientam nas suas caçadas nocturnas através de um sistema de ecolocação que consiste na localização das suas presas através dos ecos que recebem depois de emitirem ultra-sons pela boca ou pelo nariz e daí pensar-se que seriam cegos. Mas alguns até têm uma visão excelente. Normalmente têm só uma cria cuja gestação leva entre 2 a 7 meses conforme a espécie e são amamentadas com o leite materno. Caso haja o risco da cria nascer num período em que os alimentos sejam demasiado escassos, conseguem interromper o crescimento embrionário, para poderem hibernar e garantirem que o nascimento ocorra numa altura em que o alimento seja mais abundante. Nos primeiros dias, as crias são transportadas pelas mães nas saídas nocturnas, no saco interfemoral. Quando começam a ficar pesadas passam a ficar numa espécie de creche onde se juntam todos os bebés do bando. No regresso da caçada, as mães conseguem localizar os sinais sonoros dos seus filhotes entre milhares. No tempo frio, enrolam-se nas asas para se manterem quentes. Conta-se também que quando um morcego adoece e não pode sair para caçar, outros elementos do mesmo bando encarregam-se de obter comida para ele. Existem cerca de 1.000 espécies em todo o mundo e quase 30 em Portugal, a maioria em vias de extinção ou em risco. Os seus alimentos são diferentes de espécie para espécie, havendo os que comem insectos (um bando consegue devorar toneladas de insectos durante um ano, sendo óptimos para controle de pragas), os que comem néctar e pólen (importantes para a polinização das flores nocturnas), os que comem fruta (responsáveis pelo reflorestamento de algumas áreas através das sementes que caem com os seus excrementos), os que comem aves e pequenos mamíferos, incluindo morcegos de outras espécies, os que comem peixes e crustáceos e outros que se alimentam de sangue (apenas 3 espécies e nenhuma em Portugal).

E já agora conto-vos uma pequena história: Quando era menina, um amigo ofereceu-me um morcego preto, já morto. Podem estranhar a oferta mas eram outros tempos e tudo era divertido. Com o animal na mão – e sem pensar nas várias doenças com que me poderia infectar só pelo facto de o manusear sem luvas – resolvi embalsamá-lo. Tinha lido um pequeno livro sobre esta técnica e embora não tivesse nem instrumentos nem produtos necessários para o fazer, ainda assim, na minha ligeireza mental de adolescente, resolvi meter mãos à obra. Abri-o de lado com uma lâmina de barbear Nacet, com uma pinça puxei para fora todas as vísceras, lavei-o por dentro com água e sal, depois enchi-o com bolinhas de algodão que modificaram um pouco o formato inicial do seu corpo. No fim de tudo isto, cosi-o. Tirei-lhe os olhos e no seu lugar coloquei duas pequenas bolinhas de vidro de um velho ursinho de peluche. Procurei uma tábua envernizada que estava esquecida no quintal e coloquei-o em cima dela, de asas abertas, presas com preguinhos pequenos. Podem não acreditar mas ficou bonito.
E tudo ficaria por aqui se não entendesse que o deveria oferecer à minha escola para o colocarem na vitrina das ciências naturais. Mostrei-o ao meu professor de Português que era também o director da escola e que ficou tão encantado com o meu trabalho que foi logo colocá-lo na tal vitrina ao lado de outros pequenos animais metidos em frascos com formol. Foi um dos meus grandes sucessos na escola. Toda a gente parava para admirar o morcego de asas abertas até que a curiosidade esmoreceu e o morcego foi caindo no esquecimento. Meses mais tarde fui rever o meu trabalho. Estava esticado como eu o deixara mas com uma aparência um bocado estranha. Os olhos de vidro tinham-se afundado na cabeça, o pêlo outrora brilhante estava baço, o corpo tinha perdido a graça anterior e reparei numa aguadilha estranha que escorria manchando a tábua. Percebi que quando abrissem a vitrina deveria soltar-se um cheiro nauseabundo que iria destruir definitivamente o prestígio que eu adquirira. Felizmente era o último dia em que iria frequentar aquela escola.

2007-08-29

É só por um bocadinho

Não estamos de férias. Estamos apenas a gozar o prazer de estarmos num período mais calmo e sem grandes preocupações. Regressamos muito em breve
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2007-08-15

Agosto e o ruibarbo

O facto de termos a casa cheia de gente, a criançada barulhenta e traquinas, os serões com montes de histórias para ouvir e contar, a permanência mais longa na cozinha experimentando pitéus, pratos novos, doces diversos no meio de risadas que se soltam daqui e dali, faz com que o mês de Agosto seja sempre muito divertido e enriquecedor com tanta experiência nova.

Enquanto pensamos se devemos fazer um post sobre a festa do pepino, vamos explicar-vos como se faz um doce rápido de ruibarbo. Não há pesos nem medidas.. é tudo feito “a olho”.,

Primeiro a apresentação da planta de ruibarbo com as suas grandes folhas no centro da foto
 
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Escolheram-se as folhas com melhores caules
 
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Depois descascaram-se os talos
 
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Aproveitou-se o momento para se dar a provar aos mais pequenos que parece não terem ficado grandes clientes desta fase
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A seguir partiram-se em pedaços e deitou-se açúcar (passe a publicidade)…
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… um pequeno gole de água…
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… e deixou-se ferver. Os pedaços de ruibarbo foram deitando mais líquido e desfazendo-se aos poucos.
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No final ficou com este aspecto
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E já havia gulosos apressados para molhar o pão no doce
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Atenção que o tipo de confecção descrito aqui não é o de um doce para ser guardado muito tempo. A intenção é a de ser comido na altura, quentinho ou frio conforme o gosto. Mas pode-se guardar no frigorífico por algumas semanas. Espero que gostem porque tem um leve toque de acidez que é uma delícia. Os nossos agradecimentos à Lieve por nos ter preparado um lanche diferente com sabor e aroma aos campos da Bélgica.

2007-07-28

O sorriso da Albizia

Ao consultarmos um livro com fotos de árvores de jardim, ficámos rendidos a uma belíssima Albizia julibrissin, também conhecida por Acácia-de-Constantinopla ou Árvore-da-Seda. Não descansámos enquanto não comprámos uma jovem árvore que plantámos no relvado. Ficou meia esquecida e foi crescendo modestamente, sem exigir tratamento nenhum especial. Um dia ficámos intrigados ao vermos uma pena rosada que se encontrava presa na folhagem. Que pássaro teria penas cor-de-rosa? E ao aproximarmo-nos pudemos constatar que não se tratava de uma pena, mas sim de uma frágil flor, a primeira, que a acácia nos oferecia. Tornou-se numa árvore adulta mimoseando-nos nestes últimos anos com uma floração muito abundante, o que nos dá um enorme prazer. A madeira é muito macia e os ramos partem-se facilmente se sujeitos ao peso dos garotos nas suas brincadeiras e tropelias.
 
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Tudo nesta árvore é gracioso: o porte, a folhagem idêntica à dos fetos, as flores de perfume suave, compostas por tufos de fios de seda rosados e cremes, de uma delicadeza extraordinária.
Pertence à extensa família das Leguminosas e à divisão das Mimosoideae, tal como a acácia-mimosa. Começámos a ficar um pouco apreensivos ao vermos surgir algumas novas acácias nos canteiros e no próprio relvado. Lemos mais tarde o post do Pedro na Sombra Verde que informa não estar a Acácia de Constantinopla referenciada como invasora, embora o seja nos Estados Unidos da América, nos estados do Sudeste onde foi introduzida no séc. XVIII. Vamos ver como é que as coisas evoluem..


Entretanto enquanto escrevíamos este post, recebemos um mail com várias fotos de bonsais. Uma delas parecia ser mesmo de uma albizia julibrissin o que nos deu uma tristeza enorme. Só quem não nos conhece é que pode pensar que temos algum prazer perante o espectáculo de um bonsai. Não conseguimos suportar a contemplação de árvores de grande porte condenadas à miniaturização em que o grande feito é torná-la o mais minúscula possível. Ver um bonsai dá-nos uma sensação de angústia e claustrofobia. Não conseguimos sentir a obra de arte, mas sim o acto em que se sacrifica a árvore, condenada a viver num vaso ridículo, ainda que a receber atenções extremas com grande frequência. Por incapacidade nossa, não conseguimos acompanhar o misticismo que dizem envolver o bonsai e não conseguimos evitar o espanto quando ouvimos dizer que a “arte” necessária para fazer um bonsai exige um grande amor pelas plantas e o respeito pela natureza. Aos nossos amigos que são apaixonados por esta técnica (e que já conhecem sobejamente este nosso discurso) diremos, mais uma vez, que para nós, o amor e o respeito pela Natureza são completamente estranhos a este tipo de práticas.


Aqui fica outra foto da nossa Albizia, uma árvore feliz

 
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2007-07-08

O Monstro de Fogo

Nestes últimos dias de intenso calor, não conseguimos evitar a preocupação de virmos a sofrer novamente a devastação dos incêndios.
A primeira vez que deparámos com uma calamidade destas, estávamos completamente desprevenidos. Vimos, uma hora antes, uma coluna de fumo negro ao longe e sem nos dar tempo a pensar como agir, assomou à nossa porta, entrando e devastando mais de metade da floresta. Dezenas de vizinhos apareceram a correr com as caras tapadas com lenços sujos de cinza, amarrados atrás das orelhas e munidos com o que havia à mão: moto-serras, enxadas, ramos de árvore, etc. Todos eles, assim como o meu marido e os filhos entravam naquela cortina negra e desapareciam deixando-nos numa angústia atroz. Desesperada por não saber o que estava a acontecer fora das nossas vistas, entrei também naquele inferno de chamas e fumo negro.
Lá dentro, os gritos dos homens que orientavam outros, tinham um soar diferente e estranho. A luz do dia desaparecera para dar lugar a uma luminosidade irreal. O ar que se respirava era insuficiente. O calor era insuportável.
Dirigi-me com dificuldade a um vulto e, entre lágrimas, balbuciei-lhe para desistirem... que deixassem arder... que não queria ver ninguém morrer ali...
O vulto pôs-me a mão no ombro e gritou para sair. Que eles sabiam o que estavam a fazer e que ajudaria muito se fosse para junto da casa e estivesse atenta às fagulhas que podiam dar origem a novos incêndios.
As chamas altas dilaceravam as pobres árvores que gemiam, deixando cair os ramos incandescentes no chão abrasador. O fogo estacou diante de mim tentando seduzir-me na sua resplandecência. Mirámo-nos olhos nos olhos. De repente deu um urro, um urro animalesco e saltou por cima das copas dos pinheiros, começando a devorar tudo atrás de nós, cercando-nos com mãos de chamas. O vulto, que nunca cheguei a saber de quem era, agarrou-me por um braço e arrastou-me com ele conseguindo fugir por entre as árvores transformadas em tochas. Os pêlos dos braços, as sobrancelhas, os cabelos, encolheram-se e encaracolaram-se crespos, queimados pelo calor intenso. O pensamento de que poderíamos ficar ali estendidos a qualquer momento, perseguiu-me durante a fuga em que fui chocando com outros corpos meio cegos que também tentavam desesperadamente sair daquela armadilha. Felizmente todos conseguimos sair ilesos.
Quando recuperei desses momentos de terror, segui o conselho e com uma mangueira na mão, perto de casa, fui afogando as fagulhas que mal caíam começavam logo a morder fosse o que fosse. O fogo arrastava o vento consigo e o vento ajudava o fogo a mudar de direcção, ora esquivando-se, ora encurralando, como no jogo do gato e do rato
Foi um dia de aflição, de pânico, de impotência, de raiva!
À noite, o incêndio estava extinto, diziam… mas os buracos denunciadores das árvores ausentes, chispavam com o vento e reacendiam pequenas fogueiras aqui e ali como se houvesse ainda alguma coisa para devorar. De madrugada ainda transportavamos, completamente exaustos, vasilhas com água e vertíamos dentro desses buracos de fogo que conseguia resistir-nos.
Os dias seguintes foram de desolação ao ver a quantidade de árvores desaparecidas ou completamente negras e sem vida. Coelhos mortos e quase irreconhecíveis. No terreno ao lado, um javali jazia numa posição estranha.
A partir dessa altura, passámos a ter mais preocupação com a limpeza do terreno: lavrar uma faixa em toda a volta, junto à vedação com uns 8 metros de largura; limpar todo o mato seco ou verde dentro da quinta; pedir licença (por vezes sem ela por não se saber a quem pertencem alguns terrenos) e limpar também os restos de mato pelo lado de fora; substituir por carvalhos, sobreiros e outras, os pinheiros e eucaliptos mortos; ter pontos de água em locais mais castigados pelo fogo e mangueiras iguais às dos bombeiros, resistentes ao calor das chamas e preparadas para molharem a pessoa que as maneja, refrescando-a e protegendo-a do ambiente intensamente quente.
O próximo passo é adaptarmos um jipe velho para poder transportar água até às zonas onde as mangueiras não conseguem chegar.
Passada uma semana deste grande incêndio, vi uma pequena coluna de fumo a sair dum monte de terra onde tinha andado o fogo. Preocupada, agarrei num garrafão de água e fui até lá. Subi o monte e senti os pés quentes. Atirei com a água e levantou-se uma nuvem grossa de vapor. Percebi que o fogo continuava a desenvolver-se por baixo do chão, lentamente, teimosamente, procurando alguma coisa que o animasse a sair de novo. Com as solas dos ténis meias derretidas e a colarem-se ao chão, levei uma mangueira até lá e passei a tarde a encharcá-lo, a tentar exterminá-lo. E consegui.
Passaram-se uns anos e com a experiência adquirida, com a quinta limpa daquilo que nos parecia combustível, um novo incêndio surgiu na zona e o fogo conseguiu arrastar-se por 20 Km até chegar aqui. Queria ajustar contas connosco. Desta vez entendi-o bem. Apareceu à nossa beira, soberbo, cheio de força, como um gigante de poder imenso.
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Na foto podem ver a sua magnificência, a diabólica forma como se apresentou diante de nós. A casinha que está à direita é uma eira que todos pensávamos que iria desaparecer mas que felizmente conseguiu-se proteger mantendo-se tão branca como está na foto. Do lado esquerdo consegue-se ver um telhado por entre as árvores que é o estábulo onde se guardavam alguns animais e também uma centena de fardos de palha que foram empapados em água para evitar a acção das fagulhas.
Nós já o esperávamos com o coração apertado, o estômago contorcido mas decididos na contenda. Tínhamos as mangueiras estendidas, zonas alagadas, a ajuda de uma dezena de pessoas que aqui se encontravam para um almoço de família e pouco depois a vinda de dezenas e dezenas de vizinhos, sempre generosos, preparados para o que desse e viesse.
As terras lavradas pouco antes, tinham algum restolho que embora baixo foi o suficiente para permitir que ele se arrastasse como um verme e atingisse a zona de pinhais. Onde não conseguiu chegar arrastando-se, ergueu-se e saltou de copa em copa, rugindo como um monstro feroz. O vento ajudava-o na façanha.
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Foi outra luta enraivecida. Os homens combatendo as chamas e as mulheres na retaguarda, protegendo as zonas menos perigosas. Estávamos constantemente a mudar de local os animais aterrorizados, conforme a evolução da situação. A égua e a burra corriam em pânico de um lado para o outro com pequenas chamas sobre o pêlo que se ateavam mais com a correria e que eram provenientes de chispas que caíam a arder em cima delas, felizmente sem perigo. Quando conseguíamos enfraquecer o fogo numa zona, logo se fortalecia noutra, qual Hefesto sempre renascido. Felizmente as mangueiras em zonas estratégicas evitaram o pior. Nem as casas, nem os animais foram prejudicados. A meio da noite, a fera desistia da peleja, mudando de rumo e caminhando para outro povoado, ainda que debilitada e cheia de mazelas. Entretanto deixou uma série de bocas rosnando e chispando nos buracos que nós enchíamos de água, enfraquecendo-as até conseguirmos eliminá-las.
No dia seguinte o mesmo espectáculo consternador. Um cheiro a cinzas e a morte.
Mas sabemos que ele vai tentar de novo. Não vai desistir de avançar na sua destruição. Assim o desleixo e os interesses mesquinhos dos homens o permitam!