2007-01-19

Os Sentidos da Memória

Conhecia perfeitamente aquela dificuldade em respirar, aquela força invisível que lhe apertava dolorosamente o peito. E lembrou-se da menina com olhos inocentes que imaginava o seu mundo grandioso, perfumado, doce, macio e melodioso, e daquele dia/noite, em que esse mundo magnífico foi invadido pelo espanto e pelo medo, ficando para sempre corrompido. Reconhecia estes tentáculos que desde então emergiam do fundo de si, torturando-a durante dias até se desvanecerem lentamente. Olhava frequentemente o relógio, ansiando pelo momento da saída.
Ao chegar à rua viu-o no carro, esperando-a: Desculpa mas estou muito em baixo, só me apetece desaparecer daqui. Vou para casa.
E ele disse apenas: Eu levo-te!
Sentou-se no carro, fechou os olhos e seguiram calados. Passado algum tempo, o carro parou...


Ela abriu os olhos sentindo um cheiro forte no ar: Onde estamos? No Guincho!- respondeu ele - Vem que tenho uma surpresa para ti.
Estava um cair de tarde agradável com um vento morno que vinha do mar e se roçava em tudo e em todos. Ele abriu a porta e baixando-se tirou-lhe os sapatos. Foi ao porta bagagens e pegou numa mochila que pôs às costas. Deu-lhe a mão e escorregaram pelas dunas de areia, de pés descalços em direcção ao mar. Este com os seus ímpetos revoltos desabava toneladas de água que faziam estremecer o solo. Ela parou ao vê-lo andar para a frente e para trás como se procurasse algo. De repente ele disse: Ficamos aqui!
Pôs-se de joelhos, começou a escavar a areia, depois amontoou-a e alisou-a por cima fazendo uma espécie de banca. Abriu a mochila tirou uma toalha branca guarnecida com pequenas cerejas vermelhas bordadas à mão que estendeu sobre a mesa de areia, passando-lhe a mão por cima. E disse: Senta-te! E ela sentou-se esboçando o primeiro sorriso desse dia.
Tornou a abrir o saco e tirou duas chávenas de porcelana branca com uma grinalda de folhinhas verdes e douradas pintada no topo, colocou-as em cima dos pires e estes em frente de cada um deles. A seguir apareceu um açucareiro de vidro com cubos de açúcar, duas colherzinhas, uma lata azul com biscoitos de canela, a depois um rádio a pilhas que sintonizou na Antena 2.


…e por fim um termo que continha um chá fumegante que verteu em cada uma das chávenas. Um aroma jovial entrou pelas suas narinas. Que chá é este, tão perfumado? É chá de Príncipe! Bebe e vais sentir-te feliz!
E ficaram os dois calados, olhando o mar grandioso, sorvendo pequenos goles de chá que exalava um perfume cítreo, saboreando a doçura dos bolinhos, com os pés enterrados na areia macia e ouvindo o Amanhecer de Peer Gynt com um sorriso enorme desenhado em cada um dos nossos rostos.

(Dedicado ao meu amigo Didi)

23 comentários:

Anónimo disse...

também sorri agora.

josé

Anónimo disse...

Sorte tem o Didi ...em ter uma amiga como tu.

Anónimo disse...

Já nos habituaste aos teus posts de muito boa qualidade.
O de hoje deixou-me com um grande sorriso, pois é muito agradável poder ler e ouvir coisas tão bonitas.

Bom fim de semana.
Beijinho

anag

Anónimo disse...

Quem me dera um Didi assim, mas olha que, com a tua descrição, até senti a brisa salgada do Guincho!
Um beijo
anete

Anónimo disse...

Eu também adoro chá. Nestes dias em que ando tão constipada tem sido o meu melhor amigo.

Beijinhos

Anónimo disse...

Tenho a certeza de que o Didi merece toda esta demonstração de afecto!
(vinha queixar-me de que não havia nenhum novo "post" e... que grande produção e cuidado na apresentação!)
Tem uma boa semana!
Beijinhos

Anónimo disse...

Gostei de tudo o que descreveste...só não posso opinar sobre o chá de Príncipe porque nunca o provei e na realidade para mim chá só preto e verde.
Quanto ao som das ondas adorei!
Fez-me recordar o "meu" Guincho de antigamente, com os nossos filhos ainda miúdos, outros tempos, outras gentes. Aquela Guincho de agora já não é bem o "meu"!
Eu também serei outra...com os encontrões que a vida me foi dando ou melhor as pessoas me vão dando.
Podes continuar, cá fico à espera.
Bjs.

Maria

Dulce disse...

Lindo Ana. Gestos como esse podem mudar a vida.
Beijos grandes

Anónimo disse...

Aqui está uma maneira curiosa de nos levares a mergulhar na tua memória. Muito conseguido e muito bonito.

Fernando

Osvaldo Simões disse...

Além do texto apreciei bastante o SOM ESTEREOFÓNICO da "mensagem" do mar e bem concluída com o "Peer Gynt" bem adequado para o ambiente do Guincho.
Cumprimentos do Osvaldo

Anete disse...

Este nunca seria o som do mar da Madeira, mas reconheço o daí, do Continente.
Quando aí vivia, uma das coisas de que tinha saudades era do marulhar das ondas madeirenses. Principalmente no cais da cidade. É tão diferente o bater da onda no calhau!
bjs

Anónimo disse...

É no Guincho.
Gostei de te ler neste teu Guincho.
m.

Ana Ramon disse...

Este texto foi elaborado com a preocupação de conseguir transportar o leitor e introduzi-lo no interior da cena. É uma história verídica e não conseguimos encontrar nela nenhum exagero ficcional. Um abraço grande ao josé companheiro da noite, ao anónimo que nem precisa de pôr o nome para ser reconhecido :), à anag sempre presente e simpática, à anete e à sua explicação sobre as diferenças de som das vagas que se abatem sobre o areal do continente ou sobre o cascalho da Madeira, à badala que já nos tem dito o quanto adora chá (eu também), ao ez que anda tão fugido destas visitas mas que encontra sempre uma palavra simpática para deixar aqui, à maria,velha companheira dos domingos no Guincho , à Dulce que troca comigo emoções através dos nosso blogs, ao Fernando que foi uma surpresa encontrá-lo aqui, ao Osvaldo antigo companheiro de secretária, à amiga m. que confirma que a foto que tem no seu belíssimo post "A Fronteira" é realmente da praia do Guincho. A todos vós o desejo que tenham gostado tanto de ler este texto como nós ao escrevê-lo.
Ficámos esgotados. Vamos levar alguns dias a recuperar.
Um abraço muito forte para todos

Ver disse...

Eles destes não são fáceis de encontrar. :)))

Pablo disse...

No es sólomente esta historia la que está cargada de sentidos sino que es tu página entera la que nos acaricia y nos envuelve en un mundo mágico. Nos sentimos como si fuéramos "tu amigo Didi" porque compartes con todos nosotros tus vivencias y esos momentos tan especiales. Gracias por regalarnos esta oportunidad.

gato-azul disse...

Wow!

marta disse...

Até me vieram as lágrimas aos olhos.

Peciscas disse...

Maravilha!

Osvaldo Simões disse...

Ja desapareceu a gravaçao sonora do mar ? Evaporou-se?! Eh pena !!!

Cumprimentos

greentea disse...

lindissimo este texto e a música entrou-me em casa na hora certa.

que bom ter amigos assim !!

um beijo

ez disse...

Já há muito que suspeitava de que iria gostar muito de ti!
mostras-me muito do que quero ainda aprender!
Beijo!

antonio disse...

É impressionante como conseguiste que mergulhassemos na tua memória como se fosse nossa.
Afinal, tal como eu pensava, escreves muito bem e tens óptimas ideias.
Um beijo

Ana Ramon disse...

Tive que publicar de novo este post para conseguir reintroduzir a alteração dos códigos que permitem o acesso ao som do mar e ao extracto de Peer Gynt. Como entretanto os comentários não passaram automaticamente, tive o cuidado de os repôr o que deu origem a que as horas indicadas para cada um deles, sejam muito próximas.
Para que os amigos mais atentos não estranhem este pormenor, fica aqui o devido esclarecimento
:))
Beijinhos para todos e mais uma vez obrigada pelas simpáticas palavras