2007-01-05

A Passagem de Ano e a Sombra do General

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Desta vez não nos apeteceu fazer a Passagem de Ano com os amigos, conversando, comendo, bebendo, dançando, tudo festejado com grandes sorrisos e francas risadas. Queríamos estar calmos, em reflexão, pensando na vida e naqueles que recentemente se ausentaram em definitivo da nossa companhia. Resolvemos sair de casa e passar o ano sozinhos num sítio simpático. Escolhemos o Hotel Astória em Coimbra, um hotel antigo, modesto mas com uma cozinha divinal. Não havia Réveillon. Jantámos numa sala cheia de pessoas com as mesmas aspirações que nós. O jantar foi óptimo como era esperado e, enquanto conversavamos sobre tudo, íamos saboreando os pitéus, calmamente, até chegar a meia-noite e recebermos as passas e o espumante para assim entrarmos no Novo Ano como manda a tradição. Depois de um brinde geral, viemos até à rua e estranhámos que Coimbra não comemorasse esta passagem, nem com fogo de artifício, nem com nada. Uma cidade completamente alheada do momento festivo. A nós que também estávamos pouco festivos, não incomodou. Mas via-se o desconsolo na cara das pessoas que jantaram connosco e que esperavam qualquer coisa com luz, cor e estrondo.
Ficámos no quarto 109 do hotel, um quarto pequeno, que segue o contorno arredondado do edifício. Que tem de especial o quarto 109? Nada que pareça de muito interesse, a não ser o facto de ter sido neste quarto que o General Humberto Delgado descansou antes de falar ao povo de Coimbra em plena campanha de 1958. Do lado de fora do edifício e por baixo da estreita varanda que serve este quarto, tem uma placa que diz assim: Desta varanda, Humberto Delgado falou à população de Coimbra em 31 de Maio de 1958.
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Estava-se em plena campanha eleitoral. O General Craveiro Lopes terminara o seu mandato. Salazar deixou de confiar nele e resolveu apoiar a candidatura do Almirante Américo Tomás. Humberto Delgado decidiu candidatar-se como independente à Presidência. Foi uma campanha ferozmente perseguida e reprimida pela PIDE e as manifestações de apoio eram massacradas pela PSP e GNR.
No seu programa como candidato, H. Delgado propunha vários pontos com evidentes marcas liberais: reintegração dos funcionários afastados do serviço por motivos políticos, liberdade de expressão e de associação, amnistia a todos os presos políticos, eleições gerais livres a curto prazo e moralização dos costumes políticos e da administração pública.
As eleições presidenciais tiveram lugar a 8 de Junho de 1958. Américo Tomás foi eleito, embora muita gente acreditasse que teria sido à custa de actos fraudulentos. Entretanto começaram a surgir represálias cada vez mais apertadas. H. Delgado pede asilo político ao Brasil, o que lhe foi concedido. Mais tarde entra clandestinamente em Portugal acompanhado pela secretária Arajaryr Moreira Campos com a intenção de se juntar aos conspiradores que preparavam uma revolta em Beja na passagem do Ano. Fracassada a revolta, H. Delgado conseguiu fugir para Espanha, mais tarde parte para a Checoslováquia e depois para Argel. Entretanto a PIDE começou a organizar uma armadilha, aliciando indivíduos que se fizessem passar por exilados políticos para assim ganharem a confiança de H. Delgado. Este não se apercebeu do logro e marcou uma reunião em Badajoz para 13 de Fevereiro de 1965. H .Delgado saiu de Argel com Arajaryr e dirigiram-se para o local de encontro hospedando-se num hotel. Entretanto saiu um carro de Lisboa com destino também a Badajoz e com 4 elementos da PIDE. Quando os dois carros se encontraram num ponto isolado da estrada entre Badajoz e Olivença, H. Delgado saiu do carro, confiante, sendo imediatamente abatido com um tiro na cabeça. A seguir mataram a secretária. Os corpos foram metidos nos porta-bagagens dos carros, levados para uma zona próxima de Villanueva del Fresno e depois de despidos e despojados de documentação, lançados a uma vala, cobertos com cal viva, regados com ácido sulfúrico e enterrados.

Mais tarde, em 1990 foi nomeado a título póstumo, Marechal da Força Aérea e os seus restos mortais, vindos de Villanueva del Fresno, depositados no Panteão nacional.

11 comentários:

dulce disse...

Vale sempre a pena recordar H. Delgado, não esquecendo assim esses tempos de opressão que nos estão ainda tão próximos.
Quanto à tua passagem de ano, vejo que foi à medida dos teus desejos. A minha tb o foi. Com ou sem fogo de artifício o que importa é q possamos ser felizes, e q à nossa volta a conjuntura melhore para que de novo possamos comemorar com fogo de artifício.
Beijos.

anete joaquim disse...

Vejam só no que deu quererem passar um dia afastados do Mundo! Um simples quarto. Um número. Cai-lhes a placa, a História em cima e ali vai ela à busca do passado.
Tu, de facto, és uma mulher de várias e belas Histórias! Gostei! Já pensaste numa colaboração num jornal, numa revista? Estou a falar a sério. Escreves melhor do que muitos jornalistas. Aí na zona não há nenhum?
bjs

joao navarro disse...

Ana,
Subscrevo as palavras da Anete.
Porque não uma rúbrica semanal?
Gostei de conhecer melhor esta história :)
jnavarro

Anónimo disse...

A vergonha mora sempre mais perto de nós do que aquilo que poderíamos desejar!
Infelizmente, ainda há muitos lugares no mundo onde o poder político tem garras em vez de mãos e olhos de predador.
É um prazer ler-te!

Tongzhi disse...

Conheço bem esse hotel e é de facto muito acolhedor. Desconhecia a história de Humberto Delgado ter la ficado. Quanto à narrativa também gostei. Gostei de saber mais sobre o que aconteceu a Humberto Delgado de uma forma simples e directa. Gostei da forma como escreves. Mas, tal como já outros disseram, não me espanta. Todos os teus posts são de uma clareza impressionante!
Parabéns!

Ricardo disse...

Que linda foto do hotel. E espero que teu ano comece assim, calmo, porque isso de foguetório e explosões tem hora que cansa...

Obrigado pelos comentários sempre gentis, e que 2007 fique marcado como um ano pleno de boas coisas pra recordar e escrever.

Anónimo disse...

Uma Passagem de Ano é um evento que quase sorrateiramente acontece como que uma evasão no sentido da liberdade e ponderação.
Tendo a Ana a lúcida faculdade de perceber isso, fez convergir a sua consciência interior com a mais bela e grandiosa história de prova de liberdade comparada.
Obrigamo-nos dever Abril a H.Delgado.

José

Manuel Anastácio disse...

Serenidade... Belo texto, como sempre. Abraço grande.

Anónimo disse...

Não conhecia nada dessa história. Obrigada por a partilhares connosco.

Uma passagem de ano cheia de História.

Beijinhos.

AnaG. disse...

Quando passar pelo hotel Astória, de certeza que os meus olhos o irão ver de outra maneira.
Grande lição de história...
Gostava de ter tido uma professora assim.
Beijinho

Tozé Franco disse...

Nasci e cresci numa casa nas traseiras do Hotel Astória. Gostei de recordar isso, quer com as fotos, quer relendo a história de Humberto Delgado e da sua estadia no Hotel que já conhecia.
Um abraço.