2008-06-02

Maio, o mês das trovoadas

Há algum tempo que andamos a pensar em escrever um pequeno texto sobre as trovoadas. Esperámos que elas ocorressem para tornar o trabalho mais oportuno mas fomos desconsiderados pois nem uma se fez ouvir durante o mês que agora terminou. Por isso resolvemos publicar mesmo assim.
As nossas mães, ambas oriundas de zonas rurais ricas em mitos que eram aceites como verdades científicas, tinham pavor às trovoadas. Crescemos a ouvir relatos tão assustadores que acabavam por provocar o riso porque vivendo próximo das grandes cidades, atulhadas de pára-raios, o nosso conhecimento sobre as trovoadas limitava-se à visualização dos relâmpagos e à audição dos trovões e sem nada de relevante acontecer às pessoas a não ser alguns pequenos problemas nos electrodomésticos.
Quando viemos para esta quinta, as coisas mudaram um pouco de figura. Sendo uma zona com muito minério, segundo alguns entendidos, altamente arborizada e sem pára-raios, as trovoadas estacionam sobre nós durante muitas horas e algumas vezes regressando vários dias seguidos.
Há uns anos estava eu num campo aberto perto da casa com uma tesoura na mão a cortar flores para enfeitar a cozinha. Ouvia-se um trovejar ligeiro e continuei o meu trabalho completamente despreocupada, uma vez que estava uma tarde de sol.
Mas a dada altura, enquanto escolhia as flores, ouvi um zumbido sobre mim e senti os cabelos e os pêlos dos braços a erguerem-se puxados por uma força repentina e estranhíssima dando uma sensação esquisita à pele. Ao erguer os olhos vi a imponência de um raio que ziguezagueando indeciso sobre mim resolveu no último segundo trocar-me por um poste de alta tensão que se encontrava a uns 100 metros e ao qual se abraçou num gemido alto, contorcendo-se num paroxismo orgástico.
Escusado será dizer que fiquei completamente aterrorizada ao aperceber-me do que me poderia ter acontecido caso não houvesse aquele poste felizmente muito mais sedutor que eu.
A partir daí começámos obviamente a ter muito mais respeito às trovoadas. Encontrámos na Net uma explicação que considerámos interessantíssima:
Algumas nuvens conseguem gerar poderosas cargas eléctricas. No topo da nuvem forma-se uma carga positiva e na base da mesma uma carga negativa que vai dar origem ao raio. No início desta formação há uma descarga piloto que partindo da nuvem desce em ziguezague até ao chão a uma velocidade de 100 Km/seg, ionizando um mini túnel que abre no seu trajecto, tornando-o um bom condutor de electricidade e ligando assim o solo à nuvem. O solo envia a seguir um impulso positivo a uma velocidade próxima de um décimo da velocidade da luz, aproveitando o mesmo túnel com poucos milímetros de diâmetro aberto pela descarga piloto. O ar torna-se subitamente incandescente subindo a temperatura a cerca de 30.000ºC, criando uma onda de choque que dá origem ao estrondo do trovão.
Em algumas zonas do país era costume, durante a trovoada, as pessoas enrolarem-se em cobertores de papa. Estes cobertores eram fabricados de uma forma artesanal com fios de lã pura e por isso um bom isolante para as descargas eléctricas.
Ainda hoje se benzem raminhos de oliveira, alecrim, louro, no Domingo de Ramos que se queimam depois em dias de tempestade com o intuito de se afastar os raios.
Na zona onde vivemos também soubemos pelos mais antigos que era bom envolverem-se em mantas de cor vermelha, coisa que nos intrigou. Ao fazermos várias pesquisas descobrimos que nas festas dedicadas a Santa Bárbara, é costume os seus devotos vestirem-se de encarnado e branco, principalmente no Brasil. No entanto nas imagens que procurámos da santa, aparece vestida com estas duas cores mas também com outras muito diferentes.
Santa Bárbara é protectora contra as tempestades, trovões e raios (competindo com S. Jerónimo) e também protege aqueles que trabalham com fogo e explosões como os artilheiros, mineiros, pirotécnicos, metalúrgicos, e ainda padroeira dos arquitectos, pedreiros e outros.
Em dias de trovoada foi muitas vezes arrancada ao seu confortável altar e exposta na rua, à chuva, para a obrigar a agir e a terminar com a tempestade ao mesmo tempo que se repenicavam os sinos da igreja.
Os seus atributos são a torre, a espada, o cálice com a hóstia, o livro, a palma. Como é difícil fazer uma imagem que mostre a santa a carregar todos estes objectos, normalmente segura apenas dois à escolha.
Segundo reza a história, esta santa foi encerrada numa torre pelo pai, com o intuito de a deixar protegida durante uma viagem que este teve de fazer. Durante esse tempo ela decidiu tornar-se cristã o que enfureceu o seu progenitor quando regressou. Acabou por ser condenada à morte, acto desempenhado pelo seu pai. Quando a cabeça rolou por terra, um raio fulminou-o.
Segundo os mais idosos, é bom em dias de grande invernia e forte trovoada, fazer a seguinte reza para ficarmos protegidos pela santa:
“Santa Bárbara bendita, que no céu estais escrita, com papel e água benta, livrai-nos desta tormenta”
Mas, não vá a santa estar demasiadamente atarefada para nos atender, aqui ficam algumas normas de segurança que devemos respeitar:

Em casa:
Feche portas e janelas para evitar que os raios sigam as correntes de ar; desligue os electrodomésticos e a antena da televisão das tomadas; afaste-se das portas e janelas fechadas, assim como das chaminés; uma vez que as linhas telefónicas podem atrair os raios, use o telefone só em caso de emergência; evite tomar banho; não manipule nenhum condutor metálico (instalações de água, gás ou electricidade)


Fora de casa :
Abrigue-se em edifícios protegidos por pára-raios; não se aproxime de postes eléctricos ou telefónicos; não caminhe em campo aberto; não permaneça perto ou dentro de água; suspenda qualquer actividade desportiva; não mexa em estendais de arame, cercas, tendas, linhas telefónicas ou qualquer estrutura metálica assim como máquinas ou tractores que reboquem equipamentos metálicos; afaste-se do cume das montanhas antes do meio dia (a maioria das trovoadas ocorrem no princípio e no fim da tarde); evite andar de barco com trovoada, assim como a proximidade de praias, piscinas, lagoas; não se abrigue debaixo de árvores, nem se aproxime de troncos e raízes; se estiver num local isolado com um grupo de pessoas, devem dispersar para evitar atrair os raios e que a corrente eléctrica passe de uma pessoa para outra sem se tocarem; não ande de bicicleta ou de cavalo; se estiver num sítio isolado e sem possibilidade de se resguardar, ponha-se de cócoras com os pés bem juntos e não toque com as mãos no chão; não permaneça junto de rebanhos de ovelhas; não manipule materiais inflamáveis em recipientes abertos; não corra contra o vento, mas sempre a favor, para evitar a electrização do atrito; ao correr, evite colocar os dois pés ao mesmo tempo no chão; solte os animais presos a correntes ou arames e tire-lhes as coleiras de metal; não use chapéu de chuva cuja ponta metálica pode atrair o raio; se sentir a carga eléctrica que se caracteriza por eriçamento do cabelo e formigueiro na pele, atire-se para o chão; se estiver dentro do carro, feche as janelas e fique tranquilo pois está bem protegido. Saia só quando tiver a certeza que a tempestade passou completamente.
Em caso de acidente é necessário agir imediatamente tentando a reanimação com respiração boca-a-boca ou massagem cardíaca.
Como os batimentos cardíacos são estimulados por impulsos eléctricos de pequena intensidade, a descarga eléctrica de alta intensidade do raio pode provocar uma sobrecarga que leve à paragem cardíaca seguida de paragem respiratória, interrompendo a irrigação sanguínea do cérebro e levando a pessoa à morte.
Agindo rapidamente com as técnicas de reanimação referidas ou utilizando o desfibrilador, pode salvar-se uma vida.

28 comentários:

pinguim disse...

Como é teu hábito, um tema bem esmiuçado e do qual retirei muitos ensinamentos; mas se já tinha algum respeito por trovoadas, esse respeito aumentou agora.
Beijinhos.

Eira-Velha disse...

Mais um tema muito pedagógico e superiormente tratado, como vem sendo habitual. Eu ainda sou do tempo em que não havia electricidade e em que ciclicamente as trovoadas causavam danos enormes nas pessoas, nos animais e nas árvores de grande porte.
Durante as trovoadas, as mulheres ocultavam os artefactos de ouro que sempre ostentavam nas orelhas e/ou ao pescoço e após cada ribombar do trovão exclamava-se "S. Jerónimo, Santa Bárbara, a virgem...".
Beijinho, amiga!

gintoino disse...

Bem, que sorte q o poste estava mesmo ali ao lado! Muito bom texto, como sempre.
Abraço

Ricardo disse...

Ana
mais uma vez termino de ler maravilhado. Criastes algumas imagens belíssimas.
Além de queimar os ramos bentos, lembro de minha avó cobrir os espelhos (não me pergunte o motivo) e também de pedir a Santa Barbará.


Mas, é como bem dizes: fia-te na Virgem e não corras...

Beijos e boa semana!

Tozé Franco disse...

A propósito da trovoada e do poste mais um excelente post.
Li com atenção e retirei alguns ensinamentos.
Um abraço.

Manuel Anastácio disse...

Engraçado... que sábado, último dia de Maio, estava eu numa caminhada nos campos em volta do Mosteiro de Pombeiro, apanhei, desprevenido, uma molha e assisti ao impressionante espectáculo da trovoada em campo aberto...

Paulo disse...

Curioso, Ana. Este ano não me calhou ir para as tuas bandas, mas lembro-me de muitos Maios em que apanhava sempre as trovoadas entre Castro d'Aire e Viseu. São de respeito! Saía de Lamego com sol e, chegado a Colo de Pito, lá estavam as nuvens negras a atirar fúrias cá para baixo.

Anónimo disse...

Oi Ana, que bom poder ler o seu magnifico artigo sobre os raios!
Como você se consegue informar, é espantoso ! Parabéns mais uma vez.
Não estava à espera de tão perfeita e valiosa interpretação !
Como sempre, admirável !

Mário

Oris disse...

Já era hoje quando passei por aqui. Estive a ler atentamente o teu texto e depois fui pesquisar a oração a Sta Bárbara que me lembrava ser diferente (maior) do que a tua...depois....apaguei-me!!!

Agora, cá estou de novo...

Lembro-me do cobertor de papa e do medo que tínhamos das trovoadas. Metiam respeito, como dizia uma tia. As de Maio eram terríveis...

Excelente texto.

Beijitos, Ana

Dulce disse...

... e eu que nunca tive medo de trovoadas, fiquei agora um pouco mais atenta!
Beijinhos

Tongzhi disse...

Adorei o teu post!
Eu sou um apaixonado por trovoadas. Então quando são sobre o mar, não consigo deixar de estar à janela ou no terraço a olhar para elas. Sempre fui assim. Quando era miúdo, a minha não me deixava estar à janela e obrigava a apagar a televisão, afastar das portas e janelas e, claro, rezar em conjunto a Sta Barbara bendita...

poetaeusou . . . disse...

*
que tema,
o que foste postar,
,
lá tenho que dormir
debaixo da cama,
mesmo sabendo
que o mar
atrai as faiscas,
,
conchinhas de um eterno
ceu sem nuvens, deixo-te
,
*

Sei que existes disse...

Mas que pesquiza e conselhos tão sábios!Obrigada!
Beijo grande

Espaço do João disse...

Olá Ana .
Muito se aprende com os credos do povo sabedor. No entanto no teu último parágrafofaltou uma coisa que é importantíssimo.
Vale mais estar longe dum pára raios do que estar perto deles. Se o pára raios não estiver bem montado seremos apanhados pelo dito ráio que sua potência é elevadíssima. São milhões de Volts multiplicado por milhões de Amperes. Isto é a sua potência aparente mas que é suficiente para nos deixar completamente carbonizados.De qualquer forma foi uma boa explicação para os mais incautos.

Ana disse...

Eu tambem cresci a ouvir essas historias. Ainda hoje quando ha trovoadas digo uma oracao muito antiga que a minha avo me ensinou.
Nunca tive medo de trovoadas ate vir morar para aqui, como vivo perto de grandes florestas e o clima de Verao eh muito quente e humido as trovoadas sao de arrebentar. Um dia estava na garagem do meu sogro num desses dias de trovoada, ouvimos um estrondo enorme corremos apavorados para ver o que era, um raio entrou pelas canalizacoes abertas na rua (havia obras camararias) e saiu pela sanita, foi incrivel a sanita ficou feita em pedacos.
Imagina que estava la sentada!!

Pandora disse...

Mais uma vez aprendi algo que não sabia.
Ainda bem que o poste era masi atrativo do que tu... que susto.
beijos e bom fds.

eu disse...

Foi com a trovoada que aprendi a velocidade do som para calcular a distancia a que nos encontravamos da tempestade. E uma boa tactica para afastar os medos quando somos criancas. Tambem me lembro da minha avo tapar os espelhos de casa com uma pano preto. Mas nao sei a razao de tal procedimento.
Um abraco

pin gente disse...

stª bárbara nos proteja

gosto de ver a trovoada no mar ou no rio... dentro de casa, bem protegidinha. quando ela vinha forte, lá ficavamos às escuras e havia a dança da vela.

aprendi... como sempre aqui

abraço
luísa

Rita Lemos disse...

Sempre gostei de ir para a janela ver as trovoadas, e confesso que quanto mais forte ela fosse mais eu gostava. Mas realmente é preciso ter-lhes muito respeito, um post a respeitar, portanto :)

Ricardo disse...

Conforme prometido, perguntei à avó o motivo de se cobrir espelhos em dias de trovoada, e ela me explicou que assim faziam porque espelhos atraem raios. Não sei até que ponto isso é verídico, mas suponho que seja pelo metal que proporciona o reflexo ao vidro.
Sabe-se lá...

Beijos!

scaramouche disse...

gostei.
abraço,
scaramouche.

elsa nyny disse...

Olá!

Passei por cá!
Informações muito uteis!!!
Gostei, voltarei!

Bjtssss

Jardineira aprendiz disse...

Caramba, que aventura! A propósito das propriedades protectoras da lã lembrei-me que uma colega da universidade oriunda de uma zona rural me contou que quando guardava o rebanho da família e uma trovoada a apanhava, se protegia debaixo de uma ovelha. Na altura achei piada, mas agora fiquei a pensar se ela não teria alguma razão!

Muito interessante a informação sobre a formação dos raios, não conhecia todo esse pormenor.

Beijos

bettips disse...

... fiquei apreensiva, eu que até gosto de olhar os relâmpagos e as trovoadas (abrigada e ao longe, claro!). Mas impressionante foi a experiência que viste acontecer perto de ti. Li, não sei bem o que hei-de fazer porque os conselhos são muitos e variados, sei lá do que me lembro na hora do "raio"! O melhor é mesmo apegar-me à santa, just in case!
Bjinho

TINTA PERMANENTE disse...

Trovões de Janeiro, nem bom prado nem bom celeiro.
...
E aforismos à parte, aqui achei uma bela dissertação sobre as trovoadas!...

abraços!

Duarte disse...

Bons conselhos. Claro, nem todo o mundo sabe de electricidade, e nem todos somos B. Franklim. Todas as precauções são poucas, com tudo aquilo que tem que ver, com o que tão bem expões.
Parabéns pela capacidade pedagógica empregada.

Ana, em Amigos de Portugal o tema sobre a "Casa Museo Enrique Ginés", está tratado muito mais amplamente.

Abraços

redonda disse...

Assustador. Ler este texto fez-me lembrar de quando era criança e em noite de raios e trovões, tentava fazer crer às minhas irmãs que não tinha medo.

catrineta disse...

Só agora passo por aqui.
Sou do zona de Chaves, onde passava sempre as férias grandes.
Era tempo de muito calor e as trovoadas secas eram frequentes.
Metiam medo e nós bem embrulhadas em cobertores de papa, até a trovoada passar. Com o calor que fazia, não era fácil...mas o medo era muito!
Beijos