Há umas semanas atrás resolvemos aproveitar o domingo para visitar o Parque Natural do Douro Internacional que fica entre Barca de Alva e São João das Arribas.
A paisagem era deslumbrante com os seus maciços rochosos, bosques de carvalho negral e cerquinho, manchas amarelas de giesta, terrenos de granito e xisto, zonas rurais agrícolas com enormes extensões de laranjeiras, amendoeiras em flor pintando a paisagem de tons rosa e branco, olivais a perder de vista, assim como plantações de vinha que segundo dizem fazem parte da mais antiga região demarcada do mundo com vinhos premiados em Portugal e no estrangeiro.
Parámos em Freixo de Espada à Cinta, onde nasceu Guerra Junqueiro, com a intenção de visitar a torre de menagem de um antigo castelo gótico, conhecida também por Torre do Galo ou Torre do Relógio e tentarmos visitar as criações de bicho da seda que dão origem a uma produção de seda artesanal exportada para o estrangeiro. Pretendíamos ainda visitar a aldeia de Mazouco para vermos o “Cavalo de Mazouco” que pertence a uma série de vestígios da arte rupestre do Paleolítico Superior ao ar livre, dos primeiros a ser identificados na Europa .
Mas, devido a um imprevisto, o nosso passeio terminou em Freixo de Espada à Cinta e tivemos que regressar.
Ficou a determinação de voltarmos ainda nesta Primavera para tentar fazer um percurso de 8 horas numa extensão de 140 km com visitas guiadas a vários centros de interesse entre Barca de Alva e Aldeia Nova, sempre com o rio Douro ao lado, um dos maiores rios da Península Ibérica que escavou arrebatada e apaixonadamente as rochas ao longo de milhões de anos e que desliza agora apático, aprisionado pelas barragens, no fundo de perigosas escarpas. Por ali ainda se pode avistar a águia-real e a cegonha-negra que estão em vias de extinção, o abutre do Egipto com dificuldades na sobrevivencia da espécie e a rara águia de Bonelli assim como o falcão peregrino, entre outras.
E este post terminaria aqui se não tivessemos ficado intrigados com uma espécie de moinhos sem mastros que salpicavam a paisagem de branco. Ficámos a saber que se tratava de pombais e daí a explicação para uma série de aberturas visíveis por baixo do beirado dos telhados.
Embora na Idade Média já aparecessem pombais nos terrenos feudais, foi com o Renascimento que começaram a ser intensamente construídos por toda a zona agrícola da Europa Ocidental.
Os pombais tradicionais contribuíam fortemente para a economia familiar fornecendo carne de pombo ou borracho e o estrume, chamado “pombinho” fertilizante natural que ajudava a enriquecer os solos pobres para o cultivo da vinha, olival, laranjal, hortas, etc.
Existem pombais em quase todo o país. Mas só na zona do Nordeste conta-se com cerca de 3.500! A maioria tem planta circular ou em ferradura, lembrando formas arquitectónicas castrejas, com paredes construídas em pedra de granito e xisto, bem grossas para permitir edificação de patamares, buracos e prateleiras por dentro para os pombos nidificarem. No interior tem normalmente uma mesa onde é depositado alimento e água, principalmente nos períodos de maior escassez. A porta construída muito acima do nível do solo, mais parecendo uma janela baixa, serve para evitar a entrada de predadores como fuinhas, ginetos, gatos, doninhas, ratos, cobras e também para permitir a acumulação no chão do esterco das aves, não dificultando a abertura da porta. Esta está colocada de frente para a povoação ou para outro local que permita a vigilância frequente da população ou do dono. O telhado tanto é circular, como pode ter uma ou duas águas cobertas com telha ou placas de ardósia, posssuindo muitas vezes estatuetas e pinocos no cimo das cumeeiras.
Na foto abaixo, retirada da Net, pode ver-se o interior de um pombal em ruínas

O pombo-das-rochas que nidifica nos penedos do vale do rio Douro, acaba por ser atraído para estes pombais construídos nas proximidades e onde vai encontrar alimento e um óptimo abrigo, o mesmo se passando com outras aves mais pequenas, como o pardal.
A partir da década de 60 uma grande parte da população rural do toda a região interior do norte, emigrou. Os que ficaram, foram modernizando as suas culturas e reduzindo o cultivo de cereais. Os pombais perderam a utilidade de outrora, começaram a ser esquecidos e entraram em degradação. Os caçadores ignorando a legislação da caça, abateram milhares de pombos muitas vezes aproveitando a localização dos pombais. Os pombos por sua vez, perante a falta de alimento e segurança, aproximaram-se dos centros urbanos onde passaram a ser alimentados pela população nos jardins públicos.
Entretanto o Instituto da Conservação da Natureza através do Parque Natural do Douro Internacional, considerado Área Protegida, deu início a um projecto pioneiro na recuperação de pombais tradicionais, valorizando a paisagem e contribuindo para melhorar os recursos alimentares de diversas aves de rapina em vias de extinção.
Presentemente já há uma forte sensibilização nas povoações e por isso foi possível fotografar um desses pombais, bem cuidado e habitado por bastantes pombos que fugiram em debandada perante a nossa aproximação. O terreno estava de tal maneira encharcado, cheio de marcas das lagartas de um tractor, que dificultou imenso o acesso.

Aqui fica a sugestão para um passeio extremamente interessante.