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2009-02-23

Uma pausa para conversar

Infelizmente os nossos trabalhos e preocupações aumentaram devido à doença do nosso caseiro que tem estado impossibilitado de nos dar o apoio costumeiro e por isso a nossa falta de tempo para prosseguirmos este blog.
O tempo chuvoso que se prolongou por muitas semanas foi muito bem vindo por ter ressuscitado pequenos veios de água que emergiram da terra dando-nos a alegria de tornar a ouvir pequenos riachos saltitando de pedra em pedra na descida em busca do rio.
Não sabemos ainda como orientar os imensos trabalhos do início da primavera que vão depender da saúde e disponibilidade dos nossos auxiliares. Mas, enquanto não arranjamos tempo para estar calmamente a preparar um tema para publicar neste blog, resolvemos ir dando algumas notícias deste cantinho.

Começamos por vos apresentar os novos residentes:

A Camila, uma Serra-da-Estrela bébé no dia em que a deixaram aqui

Ficámos muito preocupados porque sempre ouvimos dizer que são cães com um feitio muito independente e um bocado teimosos, sendo uma dor de cabeça durante a aprendizagem. Mas como é a primeira vez que convivemos com esta raça, vamos a ver o que nos sai na rifa :))

Na foto abaixo, agora com 3 meses já se consegue ver a sua preocupação em fazer uma boa guarda. Daqui a pouco tempo vai passar a dormir com o rebanho para se tornar numa protectora das ovelhas e principalmente dos borregos


O outro novo residente é o Tobias, um faisão prateado que tem o pomposo nome cientifico de Nycthemerus argentatus. Dizem que em cativeiro pode viver até 20 anos.


O Tobias quando está enervado ataca o tratador que já entra à defesa por saber que ele investe voando e com as patas para a frente. Mas o que mais nos diverte é um dos seus sons que consiste num gargalhar baixo e continuado que mais parece estar a gozar com todos nós

Aqui vai uma outra foto para mostrar a sua cabeça com um penteado todo moderno:


E por último o casal Afónico, sempre sorridente, de feitio calmo mas preocupados com a nova postura de Primavera, seguida de choco e evitando problemas com os gansos seus companheiros conhecidos pelo mau-feitio nesta altura do ano.



Depois de fazer esta necessária apresentação, vamos falar sobre a evolução de um dos presentes do Pai Natal:

Este ano fomos surpreendidos com 3 ofertas para produzirmos cogumelos comestíveis:
A primeira tratava-se de um saco coberto de plástico com a indicação de não lhe mexermos e apenas esperar que os cogumelos aparecessem. Passados poucos dias, apareceram 4 formações pequenas que cresciam visivelmente todos os dias até ficarem com este aspecto




São os Repolga - Pleurotus ostreatus que embora já devesssem ter sido colhidos antes de chegar a este ponto, poucas horas depois já estavam no prato...




... por terem sido passados num pouco de azeite onde se fritaram uns dentes de alho, acompanhados por couves-de Bruxelas salteadas e azeitonas da quinta. Falta o toque de cor da betterraba crua ralada, também temperada com um fio de azeite, alho picado e sumo de limão.

Como todos já sabem, o nosso contacto com cogumelos limita-se aos de lata ou congelados. Mas podem crer que foi uma enorme e agradável surpresa saborear o paladar destes (destas?) repolgas.

Ainda temos outro saco para fazer uma mistura e experimentar ter cogumelos em canteiros e ainda um outro tipo de cultivo que depois vamos fotografar os vários passos e que consiste em fazer vários furos com determinadas espessuras em troncos de carvalho e introduzir uma espécie de "buchas" cheias de esporos que são enfiadas nesses orifícios e depois esperar uns meses até aparecerem os cogumelos que neste caso serão os Flammulina velutipes e os Shitake, qualquer deles assustadores só de olhar para as fotos :))

E por último vou falar de uma tarefa que neste caso foi de minha autoria para aproveitar os dias de chuva. Estava perante uns sacos cheios de peúgas a já não merecerem o tempo que seria necessário para cobrir os inúmeros buracos com linhas que os disfarçassem. Poderia simplesmente agarrar naquilo tudo e enviar para o lixo mas de repente ocorreu-me uma forma divertida de reciclar.

Com uma tesoura abri a peúga de alto a baixo dos dois lados, formando uma tira comprida, estreita e só com uma face e depois dei um ponto ou dois para a ligar à meia seguinte também aberta e assim fui fazendo um longo “fio” de meias que fui enrolando, e passado pouco tempo já fazia tiras de camisas velhas e outros trapos:

A seguir imaginei que os meus dedos fariam o trabalho de uma agulha grande de crochet e fui passando o “fio” como se se tratasse de uma renda gigante. Ficou um tapete engraçado:




E fiz mais uma série deles, rectangulares e ovais que pus nas camas dos meus cães. Ficam pesados e a maior vantagem que têm é quando nos cansarmos deles poder dar-lhes sumiço e fazer outros novos. O trabalho mais aborrecido é abrir as peúgas e ligá-las porque depois o tapete faz-se num abrir e fechar de olhos.

E vamos terminar prometendo publicar outro post em breve.

Um abraço e um muito obrigado a todos os amigos que nos escreveram preocupados com o nosso silêncio

2008-12-17

A azeitona nossa amiga

Primeiro um pouco de história:
Presume-se que em 3.000 aC já existiam oliveiras por todo o Crescente Fértil. Terão sido os gregos que as expandiram por toda a Europa Mediterrânica. Mais tarde foram os portugueses e os espanhóis que nas suas expedições marítimas as levaram até ás Américas e aos poucos foram-se espalhando por todas as partes do mundo com clima favorável.
Os gregos e os romanos eram grandes apreciadores de azeite que utilizavam na cozinha mas também como combustível para iluminação, medicamento, perfumes, bálsamo, lubrificante de alfaias, impermeabilizante de tecidos, etc.
As coroas e grinaldas que identificavam os vencedores eram feitas com ramos e folhas de oliveira. Com a sua madeira eram construídos ceptros reais.
A oliveira sempre foi considerada símbolo de sabedoria, paz, abundância e glória.
Sobre saúde:
O azeite tem efeitos muito benéficos sobre o organismos, favorecendo a mineralização óssea, estimulando e crescimento e favorecendo a absorção do cálcio. Ao reduzir a formação de radicais livres, combate o envelhecimento dos tecidos e órgãos em geral ajudando a prevenir alguns tipos de cancro. Contribui para o bom funcionamento da vesícula biliar, do estômago e pâncreas actuando também a nível intestinal. Ajuda a prevenir doenças cardiovasculares. Tem um efeito protector e tónico da epiderme. Melhora as funções metabólicas e previne a diabetes.
Aqui vai a sua composição segundo elementos retirados da Net:
Vitamina A - 250 U.l.
Vitamina B1 (
Tiamina) - 10 mcg
Vitamina B2 (
Riboflavina) - 15 mcg
Vitamina C (
Ácido ascórbico) - 6 mg
Potássio - 1530 mg
Sódio - 130 mg
Cálcio - 100 mg
Fósforo - 15 mg
Silício - 6 mg
Magnésio - 5 mg
Cloro - 4 mg
Ferro - 1 mg
Agora a nossa aventura:
Este ano colhemos a azeitona que felizmente tivemos em quantidade e de belíssima qualidade ao contrário do ano passado que nem deu para se aproveitar.
Aqui seguem as fotos que melhor explicam as várias fases:


Nesta foto vê-se o pessoal a apanhar a azeitona nos panais verdes depois de ter sido ripada (passar com a mão pelos ramos de forma a fazer cair os frutos) ou varejada nas zonas mais altas, o que se evita ao máximo para não prejudicar as árvores. Também se vêem muitos ramos cortados no chão devido às podas que se fizeram na mesma altura para deixar as arvores menos densas. Na verdade não seria agora a melhor altura para as fazer. Mas é costume aproveitar, uma vez que andam empoleirados, para fazer as podas mais ou menos razoáveis.


A seguir despejam baldes de azeitona no erguedor eléctrico que com deslocação de ar separa as folhas (mais leves) depositando-as num monte, das azeitonas (mais pesadas) que são depositadas num local oposto


Nesta foto mostra parte das azeitonas colhidas e limpas. No reboque já estão caixas de plástico com ranhuras para deixar escorrer a água das azeitonas que esperam a viagem para o lagar


Os potes mais pequenos reservámos para fazer conserva. Este ano optámos por outro processo e não as retalhámos, deixando as azeitonas numa salmoura de 1 quilo de sal por cada 10 litros de água, temperada com rodelas de limão e laranja, folhas de louro, ramos de orégãos, dentes de alho, e molhinhos de erva-azeitoneira. Ficam assim por um ou dois meses até perderem o amargo e depois pode-se começar a consumir retirando apenas as necessárias de cada vez .
E agora seguem as fotos com as várias fases por onde passaram as azeitonas até se extrair o azeite.
São necessários 5 a 6 quilos de azeitonas para se fazer 1 litro de azeite


Assim que as caixas chegaram ao lagar fez-se a pesagem


A seguir descarregaram-se aqui as azeitonas para serem lavadas



Depois da lavagem subiram por este tubo para o moinho onde foram esmagadas


Esta foto mostra o moinho ao fundo à direita. A pasta feita com polpa, peles e caroços passou para a máquina da esquerda com vários tabuleiros


Aqui vê-se um dos tabuleiros onde essa massa foi batida lentamente com aquecimento para se soltarem as gotas de azeite


Depois fez-se a separação da parte líquida: azeite e águas residuais, da parte sólida: o bagaço (que nada tem a ver com o outro bagaço “digestivo” feito a partir dos cachos de uvas).
Este bagaço misturado com azeite dá origem a alguns óleos alimentares


E nesta foto vê-se o azeite a ser misturado com água quente e a ser centrifugado…


… para finalmente se concluir o processo e podermos recolher o azeite das nossas azeitonas, com uma cor e aroma fora de série.
Na sequência das pesquisas feitas para desenvolver este tema, ficámos a saber que existe uma empresa espanhola que utiliza os caroços de azeitona para produzir biomassa e alimentar caldeiras. Uma matéria prima limpa, renovável e oito vezes mais barata do que os combustíveis derivados do petróleo. Segundo esta empresa, 2,5 milhões de toneladas de caroços será suficiente para gerar energia para 1,5 milhões de casas.
Aqui fica mais esta novidade.

2008-11-02

Salamandras e Jeropigas

Dizem aqui na terra que quando se vêem salamandras é sinal que vai chover.
Pois há dias ao abrir a porta da cozinha quase ia tropeçando nesta lindíssima salamandra que erguida nas patas dianteiras e com a cabeça bem levantada, me vinha anunciar a chuva para breve. Só que deve ter vindo de muito longe e ao chegar aqui já chovia torrencialmente :)

- Obrigadinha, D. Salamandra! Mas não valia a pena incomodar-se tanto!...

A salamandra comum é um anfíbio Salamandra salamandra, ovovivípara, possui corpo negro com manchas amarelas por vezes avermelhadas de diversas formas e cauda longa. É animal nocturno, vive em locais de matas húmidas e frescas no nosso país, com necessidade da proximidade de água para a fêmea pôr as suas larvas (20 a 40) dentro de água. No entanto, depois de adulta perde a capacidade de nadar. Pode viver até aos 30 anos.
Perseguida desde sempre pelo homem que receia a peçonha ou a mordedura, no entanto não morde e a secreção cutânea irritante que usa para se defender dos predadores não nos afecta mesmo quando a seguramos na mão.
A da fotografia fartou-se de andar de mão em mão e embora enervada tentando sempre fugir, não deixou nenhuma irritação na pele.
Os antigos acreditavam que a salamandra era um animal demoníaco movimentando-se naturalmente por entre as chamas.
Ainda hoje é possível ver aparecer uma salamandra por entre as labaredas de uma lareira. Não por ser o seu habitat mas porque gosta de procurar durante o dia a frescura no interior de troncos velhos. E quando estes são apanhados e lançados na fogueira, as pobres tratam de fugir tendo realmente alguma resistência que se julga ser devido à tal secreção cutânea que as protege um pouco da queimadura das chamas.
O nome de salamandra que se dá aos aquecedores a lenha feitos em ferro, tem a ver precisamente com esta associação
É uma pena que seja tão detestada pelo homem uma vez que é utilíssima por se alimentar de moscas, mosquitos, caracóis, lesmas, centopeias, formigas, etc.

E agora sobre jeropiga:
Há umas semanas atrás comentava com o meu pessoal que tinha pena de não termos feito jeropiga. Primeiro porque não sabemos fazer, segundo porque não temos vinha e terceiro porque todos os vizinhos já tinham vindimado e a jeropiga é feita com o sumo de uva antes de fermentar. Mas um dos nossos auxiliares, homem prestável e sempre atento a estes pequenos desejos, andou a vindimar numa vinha abandonada e apareceu no dia seguinte, todo satisfeito com dois sacos cheios de cachos de uva branca e preta.
Ofereceu-se para ser ele mesmo a fazer e assim ensinar-nos.
Como era pouca quantidade decidiu-se espremer os cachos na prensa.



Depois de umas valentes espremedelas - porque é preciso ter força para esmagar os cachos - começámos a obter o sumo de uva, conhecido por mosto.



Obtivemos 9 litros de mosto ao qual se juntou 3 litro de aguardente (é esta a proporção). Mexeu-se muito bem e deixou-se descansar por algum tempo dentro de garrafões por não termos nenhum barril de madeira.
Na semana passada vimos que estava límpida e com um monte de borras depositado no fundo. Devia estar mais tempo sem ser mexida para ir ganhando mais sabor. Mas estávamos apressados para a preparar para o feriado de Todos-os-Santos e por isso enchemos duas garrafas e filtrámos o líquido usando um filtro dos de café..
Quisemos experimentar a clarificação natural que se usa no fabrico de licores e que consiste em juntarmos uma casca de ovo partida e uma clara ao licor, mexendo bem e deixando em repouso por 24 horas até se filtrar novamente
Deitámos uma clara de ovo e a casca esmagada à mão para dentro de uma das garrafas e deixámos a descansar.
No dia seguinte depois de tornarmos a filtrar, reparámos com alguma tristeza que tinha ficado demasiadamente baça o que nos desencorajou e nos levou a arrumar a garrafa e esquecermo-nos dela.
Ontem resolvemos fotografar as nossas bebidas e foi com satisfação que vimos que estavam ambas com um belíssimo aspecto.
Aqui vai a foto para verem a mesma jeropiga com o aspecto natural (a mais escura) e a clarificada com a clara de ovo, notando-se ainda algum depósito no fundo da garrafa




Mas como disse, foi apenas uma experiência. Na verdade apreciamos mais a sua cor natural que depende do tipo de uvas utilizado.
É muito agradável bebericá-la enquanto se vai saboreando um prato de castanhas assadas… ou cozidas… ou fritas e polvilhadas com canela :))

2008-01-28

O tremoço, este nosso amigo

Há poucas semanas andavamos em arrumações e descobrimos um saco de tremoços esquecido numa prateleira, já com 3 anos e que ainda por cima esteve em tempos numa arca frigorífica para os defender do bicho. Tudo indicava que teriam perdido a sua capacidade germinativa e por isso fizemos um teste e embrulhámos alguns em algodão molhado como fazíamos na escola. Passados 3 dias tinham este belo aspecto e por isso resolvemos lançá-los à terra para obtermos alguma produção.
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Dissemos lançar à terra e não semear, porque na verdade o tremoço não gosta de ser enterrado. Se o fizermos, ele torna à superfície, teimosamente, devido à sua maneira de ser que exige ser ele a escolher a forma de se agarrar à terra. Por isso a primeira fase foi esta:
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Como se seguiram dias de chuva persistente, num instante os tremoços perderam a sua secura, incharam e escolheram a melhor forma para se segurarem à terra
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Poucos dias depois já estavam mais crescidos e incomodados com o chapéu protector ...
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... e num instante começaram a livrar-se deles mostrando com alguma cautela a plantinha que vinha a emergir.

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Agora vamos ter que esperar uns meses para criarem vagem e depois o amadurecimento da semente para ser colhida, malhada, escolhida e ensacada.
O tremoço pertence à família Fabaceae e à espécie Lupinus
O seu nome teve origem na palavra árabe al-turmus. Na vizinha Espanha é conhecido por altramuz, tramúz, entremozo e chocho.
As primeiras referências a esta planta surgem no Egipto há cerca de 3.000 anos.
O tremoço é utilizado na alimentação humana e na dos animais, no enriquecimento dos solos, na indústria farmacêutica e na fitoremediação
Sempre pensámos que os tremoços eram péssimos para a saúde devido aos resquícios na memória de uma lenda repetidamente ouvida nos nossos tempos de criança em que teriam sido amaldiçoados pela Nossa Senhora.
Fugia a Sagrada Família no seu burrico quando, ao passarem por um campo de tremoceiros já maduros, estes chocalharam ao serem pisados e empurrados pelas patas do animal, denunciando o local de fuga aos seus perseguidores. A santa não lhes perdoou a fraqueza e lançou uma maldição que consistia em nunca matarem a fome a quem os comesse, o que se tornou num bem para as cervejarias e tascas que sabedoras desse castigo continuam a servir pires com tremoços que não matam a fome a ninguém e bem salgadinhos ainda têm a virtude de provocar mais sede e assim aumentarem o consumo das bebidas.
Algumas pessoas não sabem que os tremoços que comemos, foram primeiramente cozidos e depois cobertos de água mudada com frequência por diversos dias até perderem o seu amargo original. Se não houver este procedimento, são completamente intragáveis e altamente tóxicos.
Esse amargor é devido à presença de vários alcalóides como a anagirina (usada como cardiotónica e teratogénica), a esparteína (usado como ocitócico e antiarrítmico) a lupanina, (influenciando os centros respiratórios e vasomotores), a luteona e a wighteona. A intoxicação identifica-se por náuseas, vómitos, tonturas, dores abdominais, mucosas secas, hipotensão, retenção urinária, taquicardia.
Esta toxicidade desaparece após a fervura e o demolhar por vários dias, tornando o tremoço doce e um alimento de eleição beneficiando as pessoas e animais que se alimentem dele.
O tremoço é um excelente adubo em verde quando enterrado nas terras porque tem a faculdade de fixar o nitrogénio do ar, absolutamente necessário para o crescimento de novas plantas o que o torna também responsável pelo aparecimento de novos ecossistemas. As suas raízes conseguem descompactar e reduzir a erosão dos solos, ajudando à infiltração de água. Óptimo para melhorar a estrutura física dos solos. Resistente às geadas, gosta de Invernos húmidos e Verões secos
O tremoço é uma leguminosa tal como o feijão, a fava, o chícharo, o grão de bico, a ervilha, a lentilha, as giestas, os tojos, as olaias, etc
Tem o dobro das proteínas do que a maioria de outras leguminosas. É rico em ferro, fósforo, vitamina E, vitaminas do complexo B, biotina e ácido pantoténico
Estudos feitos na União Europeia, comprovam a sua acção no controlo dos níveis de açúcar no sangue, na redução do apetite, na diminuição da quantidade de colesterol no sangue, nos efeitos sobre a obstipação intestinal e por último ajudando a evitar o aumento da obesidade.
Costumam também ser referidas as suas propriedades emolientes, diuréticas e cicatrizantes, o combate a parasitas intestinais e também o seu estímulo na renovação das células favorecendo a regeneração da pele.
Em França existe um produto comercializado para o fortalecimento capilar utilizando peptídeos, vitaminas e oligoelementos retirados ao tremoceiro.
Há uma série de tratamentos caseiros que aconselham a ingestão de um ou mais tremoços amargos com a água de demolhar (ambos tóxicos) todas as manhãs em jejum para baixar o colesterol, os valores glicémicos ou as dores artríticas, mas nem nos arriscamos a divulgar aqui por ignorarmos o seu impacto nos organismos de cada um.
Depois de várias pesquisas, não conseguimos encontrar muitas receitas utilizando os tremoços. Apenas um rizotto que passamos para aqui:
Derreta manteiga e junte cebola e bacon, até ficarem fritos sem queimar. Junte depois os tremoços, o arroz e refogue bem. Acrescente um pouco de vinho e deixe evaporar. Deite um cubo de caldo de carne e a água suficiente para cozinhar o arroz. Quando estiver cozido, junte um pouco de nata e queijo ralado. Deixe arrefecer um pouco e acrescente um ovo apenas desmanchado.
E uma outra de bolinhos utilizando farinha de tremoço que desconhecemos se é comercializada em Portugal:
Misture muito bem 50 gr de açúcar com 90 gr de manteiga. Junte 100 gr de farinha de tremoço e 50 gr de amêndoas bem trituradas. Mexa energicamente até formar uma pasta homogénea. Faça pequenas bolinhas e coloque em tabuleiro untado. Leve ao forno por 20 a 30 minutos
Também vimos sugestões para introduzir tremoços nas saladas de alface, tomate, agrião ou misturados nas verduras que acompanham o bacalhau, o salmão fumado, com alguns cozidos de carne ou a acompanhar pratos de queijo.
Não queríamos finalizar este texto sem nos referirmos ao grupo de investigadores pertencente ao departamento de Botânica e Engenharia Biológica do Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa que conseguiu criar um fungicida natural de toxicidade nula a partir de uma proteína do tremoço germinado, designada de BLAD (Banda de Lupinus Alpus Doce).
O produto denominado Problad além de uma forte actividade fungicida tem um poderoso efeito bioestimulante sobre as plantas. Pode ser utilizado na vinha, nos relvados desportivos, nas culturas de estufa propícias à proliferação de fungos, na agricultura biológica em geral.
Como pode ser ingerido pelo homem, evita o cumprimento do intervalo de segurança exigido por lei no uso de pesticidas químicos. É um produto completamente inovador a nível internacional e está a ser objecto de homologação nos Estados Unidos e na União Europeia, esperando-se que ainda este ano comece a ser lançado no mercado mundial.

2007-09-10

A visita

Ainda estava naquela indolência de deixar passar os minutos, as horas, a olhar para tudo como se o tempo tivesse parado e não houvesse nada urgente para fazer quando fui surpreendida pelo ciciar de uma sombra, um sopro quase etéreo, uma sensação estranhamente indefinida, arrastando a incerteza que algo tivesse acontecido. Alheei-me da leitura que fazia e fiquei suspensa esperando que alguma coisa se repetisse. Passaram uns segundos e de novo a sombra, sim porque foi uma sombra que perpassou por mim, volteando, silenciosa mas pesada. Só podia ser um pássaro, pensei. E de novo sulcou o ar quase roçando o meu rosto. Desta vez consegui segui-lo com os olhos entrando na salinha onde poisou no velho sofá. Fui buscar a máquina fotográfica. Não era nenhum pássaro como poderão ver na foto, mas sim um surpreendente morcego (para mim são sempre surpreendentes estes mamíferos alados). Poderia tentar mais fotos mas o facto de saber que não são cegos e que havia a possibilidade de voar de salto ao assustar-se com a minha aproximação, acrescida da possibilidade de embater na minha cara podendo provocar uma histeria que não me é muito comum, foi perfeitamente dissuasor. Por isso apenas uma foto e já está muito bem.
 
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Tentei descobrir de que espécie seria mas foi completamente impossível. De asas abertas talvez atingisse a envergadura de uns 15 a 20 cm. Pedi ajuda mas, com uma foto tão limitada, também ninguém o conseguiu fazer. Abri a janela, acendi a luz no exterior e deixei-o sozinho. Dali a pouco ao entrar cautelosamente e com as mãos à frente da cara, percebi que ele já se tinha orientado seguindo o seu caminho.
Os morcegos existem há mais de 40 milhões de anos, podem viver entre 10 a 30 anos conforme as espécies e constituem bandos mais ou menos numerosos com comportamentos muito curiosos. Uma das coisas que nos surpreende é a forma de dormir pendurados de cabeça para baixo. Algumas teorias defendem que isso se deve ao facto de terem os dedos demasiadamente grandes das patas dianteiras, as que se transformaram em duas membranas funcionando como asas. Outras defendem que é pelo facto de terem patas traseiras tão pequenas e subdesenvolvidas que não suportam o peso sobre elas, embora aguentem a suspensão. E outras ainda pelo facto de ser mais fácil iniciarem o voo a partir desta posição uma vez que dificilmente conseguem voar a partir do chão pela falta de impulso das suas asas. Para ficarem suspensos de cabeça para baixo, não necessitam de nenhum esforço adicional. O próprio peso do corpo força a fechar os tendões que estão ligados às garras, não precisando de contrair nenhum músculo, por isso não cairá caso morra nessa posição :)) Quando quiser iniciar o voo é que necessitará de movimentar alguns músculos que abrirão as suas garras. Todos sabemos que se orientam nas suas caçadas nocturnas através de um sistema de ecolocação que consiste na localização das suas presas através dos ecos que recebem depois de emitirem ultra-sons pela boca ou pelo nariz e daí pensar-se que seriam cegos. Mas alguns até têm uma visão excelente. Normalmente têm só uma cria cuja gestação leva entre 2 a 7 meses conforme a espécie e são amamentadas com o leite materno. Caso haja o risco da cria nascer num período em que os alimentos sejam demasiado escassos, conseguem interromper o crescimento embrionário, para poderem hibernar e garantirem que o nascimento ocorra numa altura em que o alimento seja mais abundante. Nos primeiros dias, as crias são transportadas pelas mães nas saídas nocturnas, no saco interfemoral. Quando começam a ficar pesadas passam a ficar numa espécie de creche onde se juntam todos os bebés do bando. No regresso da caçada, as mães conseguem localizar os sinais sonoros dos seus filhotes entre milhares. No tempo frio, enrolam-se nas asas para se manterem quentes. Conta-se também que quando um morcego adoece e não pode sair para caçar, outros elementos do mesmo bando encarregam-se de obter comida para ele. Existem cerca de 1.000 espécies em todo o mundo e quase 30 em Portugal, a maioria em vias de extinção ou em risco. Os seus alimentos são diferentes de espécie para espécie, havendo os que comem insectos (um bando consegue devorar toneladas de insectos durante um ano, sendo óptimos para controle de pragas), os que comem néctar e pólen (importantes para a polinização das flores nocturnas), os que comem fruta (responsáveis pelo reflorestamento de algumas áreas através das sementes que caem com os seus excrementos), os que comem aves e pequenos mamíferos, incluindo morcegos de outras espécies, os que comem peixes e crustáceos e outros que se alimentam de sangue (apenas 3 espécies e nenhuma em Portugal).

E já agora conto-vos uma pequena história: Quando era menina, um amigo ofereceu-me um morcego preto, já morto. Podem estranhar a oferta mas eram outros tempos e tudo era divertido. Com o animal na mão – e sem pensar nas várias doenças com que me poderia infectar só pelo facto de o manusear sem luvas – resolvi embalsamá-lo. Tinha lido um pequeno livro sobre esta técnica e embora não tivesse nem instrumentos nem produtos necessários para o fazer, ainda assim, na minha ligeireza mental de adolescente, resolvi meter mãos à obra. Abri-o de lado com uma lâmina de barbear Nacet, com uma pinça puxei para fora todas as vísceras, lavei-o por dentro com água e sal, depois enchi-o com bolinhas de algodão que modificaram um pouco o formato inicial do seu corpo. No fim de tudo isto, cosi-o. Tirei-lhe os olhos e no seu lugar coloquei duas pequenas bolinhas de vidro de um velho ursinho de peluche. Procurei uma tábua envernizada que estava esquecida no quintal e coloquei-o em cima dela, de asas abertas, presas com preguinhos pequenos. Podem não acreditar mas ficou bonito.
E tudo ficaria por aqui se não entendesse que o deveria oferecer à minha escola para o colocarem na vitrina das ciências naturais. Mostrei-o ao meu professor de Português que era também o director da escola e que ficou tão encantado com o meu trabalho que foi logo colocá-lo na tal vitrina ao lado de outros pequenos animais metidos em frascos com formol. Foi um dos meus grandes sucessos na escola. Toda a gente parava para admirar o morcego de asas abertas até que a curiosidade esmoreceu e o morcego foi caindo no esquecimento. Meses mais tarde fui rever o meu trabalho. Estava esticado como eu o deixara mas com uma aparência um bocado estranha. Os olhos de vidro tinham-se afundado na cabeça, o pêlo outrora brilhante estava baço, o corpo tinha perdido a graça anterior e reparei numa aguadilha estranha que escorria manchando a tábua. Percebi que quando abrissem a vitrina deveria soltar-se um cheiro nauseabundo que iria destruir definitivamente o prestígio que eu adquirira. Felizmente era o último dia em que iria frequentar aquela escola.

2006-10-27

Cabeças, Corações e Rabos

Ok... então vamos continuar...

No sábado passado choveu todo o dia. A manhã passou-se de volta dos animais, como costume, deixando-nos as roupas encharcadas e o chão todo patinhado. Depois do almoço começou a apetecer ficar em casa, confortavelmente sentados, a ver um bom filme, espreguiçando-nos pela tarde fora até ao momento de se beber um chá bem quente e comer uns choux acabadinhos de fazer, recheados com chantilly, enquanto lá fora a chuva caía forte. Mas alguém se lembrou que nos tinhamos esquecido de mexer as maçãs cortadas, já prensadas. Guardámo-las em vasilhames grandes enquanto fermentam e bem tapadas para evitar as montanhas de mosquitos que são tão gulosos e tenazes na procura do álcool como algumas pessoas que conhecemos. Resolvemos ir imediatamente despachar este serviço para depois, e aí sim, darmos o nosso trabalho por terminado, já que aos fins de semana estabelecemos fazer só os serviços mínimos, que quer dizer, o mínimo possível. Espreitámos a sidra mas como ainda suspirava, deixámo-la de novo sossegada. Estamos à espera que dê o último suspiro para então a engarrafarmos que é como fazem algumas pessoas mais práticas do que nós. Abrimos os dois vasilhames que têm a maçã cortada e demos uma mexida naquela massa. Mas quando abrimos aquele onde tem estado a fermentar a pêra rocha, reparámos que já não fervia. Se deixou de ferver é altura de ser "queimada" que é o preceito que usamos quando fazemos a medronheira. Bem, foi uma corrida! Demos uma limpeza rápida à alquitarra (tipo de utensílio que veio para Portugal trazido pelos mouros, embora já fosse usado pelos povos orientais. É óptimo porque permite uma destilação mais lenta). Colocámos o pote da alquitarra em cima do fogareiro a gás, vazámos a pêra fermentada lá para dentro (era pouco, só chegou a metade), encaixámos o capacete que parece uma bacia e que tem no seu interior uma espécie de câmara semiesférica onde se juntam vapores e no seu topo a área de condensação, onde colocamos água que deve ser constantemente mudada para se manter fria. Os vapores condensam sendo encaminhados por um tubo que os faz entrar na serpentina que se encontra noutro reservatório também cheio de água fria. O destilado sai então pela biqueira, sendo recolhido. Mexemos um bocado de farinha com água e com ela isolámos as junções da alquitarra para evitar a fuga dos vapores etílicos.
A imagem de uma caneca fumegante ao lado de um prato com bolinhos que pairava por cima das nossas cabeças, fez "Ploff!!" no ar e desapareceu.
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O processo da destilação divide-se em 3 fases: Cabeças, Corações e Rabos.
As Cabeças são constituídas pelas substâncias mais voláteis que são as primeiras a sair. Trata-se de substâncias como acetona, metanol (perigoso para a saúde podendo causar cegueira) e vários ésteres que devem ser separados e deitados fora ou então aproveitados para adicionar a outra destilação. Tem uma cor ligeiramente azulada. Normalmente separam-se os primeiros 50 ml por cada 25 litros de destilado.
Os Corações são facilmente reconhecidos pela sua transparência e aroma. Trata-se do etanol. É a fase nobre da destilação.
Os Rabos contêm uma grande quantidade de compostos com um ponto de ebulição elevado, tais como os álcoois mais elevados e os furfuróis. Estes componentes podem estragar o sabor do espírito se a recolha de produto destilado for demasiadamente prolongada. É uma aguardente aguada e esbranquiçada. Normalmente, os rabos são guardados para serem adicionados na próxima destilação, pois deste modo recupera-se uma considerável quantidade de etanol.

Depois desta explicação, vamos continuar com os nossos procedimentos:
Acendemos o fogareiro a gás. Dali a pouco começou a ferver. Mais cedo do que esperavamos começou a sair a aguardente de pêra perfumando (e de que maneira) a salinha onde trabalhavamos. A primeira que saíu não aproveitámos por poder ter arrastado resíduos depositados na alquitarra desde a última utilização e também porque é o tal produto a que chamam de Cabeças. Medimos o destilado referente aos Corações que saíu a 45º e tivemos que o ir recolhendo, dividindo-o em vários lotes conforme o grau de álcool. De vez em quando tínhamos que abrir a torneira do capacete, tirar a água demasiado quente e substituí-la por fria. No início da noite começou a sair a 20º. A esta aguardente mais fraquinha, chamam aqui de "flama". Recolhemos também um pouco dessa flama para fazermos depois as misturas até conseguirmos abrandá-la, atingindo uma percentagem de álcool que nos agrade. Infelizmente não conseguimos encontrar normas que informem sobre a percentagem aconselhada de álcool para este tipo de aguardente. A seguir saíram os Rabos que também não aproveitámos. Deitámo-nos tarde mas foi um esforço compensador. Para a semana ou daqui a 2 semanas, já a maçã deverá estar pronta para levar esta mesma volta (hic!).
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2006-09-21

Afinal a bebida não é cidra mas sim sidra

Antes de começar a descrever as nossas peripécias no fabrico desta bebida, queriamos pedir desculpa por termos insistido em escrever cidra para a designarmos. Depois de algumas incertezas, resolvemos atacar o problema de vez. No dicionário da Porto Editora, cidra é o fruto da cidreira e sidra é o vinho de maçãs. Podíamos ter ficado por aqui mas quisemos saber mais sobre a cidra e consultámos a Wikipédia: cidra é uma fruta originária da Ásia, também conhecida por toranja ou laranja-toranja. Tem o nome científico de citrus medica. Ficámos confundidos quando ao pesquisarmos toranja também na Wikipédia, passámos a saber que é uma citrus x paradisi. Então são diferentes, ou não? Para os mais curiosos, conseguimos uma foto do fruto da citrus medica, retirada do site http://jouet.roger.free.fr/

Mas o que nos interessa neste momento é falar sobre a sidra e sobre as nossas ilusões e desilusões.
Esmagámos no aparelho eléctrico, 120 a 130 quilos de maçã de variedade desconhecida. A maçã esmagada ficou uma noite a descansar. No dia seguinte, esprememo-la na prensa manual e recolhemos 45 litros de sumo. Deixámos a descansar por uma semana e começou a formar-se uma espuma castanha esbranquiçada, o que aumentou a nossa expectativa. Só então é que pudemos medir a densidade (altura em que recebemos o densímetro pelo correio) e ficámos desiludidos com o valor de 1010, muito mais baixo que os 1016 a 1020 com que deveria ser engarrafada. Fizemos uma transfega nesse dia e outra dois dias depois. Medimos o álcool e era inexistente. Convictos do nosso insucesso, ainda assim acabámos por engarrafar. Pode ser sempre aproveitada quando passar a vinagre. Mas não desistimos perante este primeiro desaire e resolvemos repetir a operação agora com outra maçã que veio logo a seguir. Esmagámos mais ou menos a mesma quantidade. Recolheu-se menos sumo mas com uma densidade de 1060 (tinhamos recebido a informação de que uma densidade de 1045 é pobre em açúcar e 1065 é de excelente qualidade) e com um valor provável de álcool na ordem dos 7º. Desta vez começámos melhor. Agora está na fase de fermentação que vai dar origem à tal camada de espuma que deverá ser castanha. Sob a acção das leveduras, os açúcares são transformados em álcool e a densidade baixa. Neste momento é esse controlo que estamos a fazer para iniciarmos as transfegas. Entretanto a maçã que foi esmagada e prensada está a fermentar para mais tarde ser destilada no alambique. Temos também pera rocha nas mesmas condições para fazermos aguardente de pera.
Vamos continuar a dar notícias sobre a sidra. Esta explicação já era devida aos nossos amigos que estavam preocupados com o nosso silêncio

2006-08-09

Merci Monsieur Massart

Hoje de manhã fizemos a cresta do mel e há pouco terminámos a extracção, filtragem e armazenamento. O ano passado apenas tinhamos uma colmeia e este ano pelo facto de termos adquirido mais duas, pensavamos que a produção iria ser muito maior. Mas tal não se verificou.Quase todos os apicultores da zona se queixam da elevada quebra de produção que ao que parece terá a ver com os gigantescos incêndios que devastaram toda esta zona no ano passado. Se se conseguiu salvar as abelhas, o mesmo não foi possível em relação às matas que protegiam e permitiam a recolha do pólen. Mas o que interessa agora é que o assunto do mel já está resolvido (ou averiguado como se diz por aqui). Agora tornam-se a colocar as alças nas colmeias para as abelhas aproveitarem os restos de mel que ficaram agarrados aos favos e depois recolhem-se e guardam-se até à Primavera, para os ninhos se poderem defender melhor do frio do Inverno.
Poderia agora descansar destas proezas amadoras e aproveitar as tardes de calor agreste para actualizar as minhas leituras, ouvir alguma coisa do que se anda por aí a fazer ou ver um ou outro dvd que vou armazenando à espera de tempo. Mas ainda não vai ser desta.
O celeiro está cheio de maçãs que tenho andado a apanhar paulatinamente, teimosamente, ao despique com os ouriços-caixeiros que esperam escondidos pela noite para se banquetearem com elas. Mas são tantas, que dá para todos e ainda sobra.
São deliciosas. Um prazer para os sentidos. Têm uma casca muito fina e macia, de cor bem vermelha que se torna brilhante ao ser acariciada e exalando um perfume doce que activa a secreção das glândulas salivares. Muito sumarentas e com aquele travozinho de acidez que se mescla na perfeição com o sabor açucarado da polpa. Não sei que qualidade é, porque não a vejo nos mercados. Com este calor, é um prazer comê-las à dentada, bem frias. Mas também as passo na máquina para fazer sumo, juntando um pouco de água e sumo de limão para liquefazer, uma colherada de açúcar, engarrafo e guardo no frigorífico para ir bebendo à medida que a sede aperta. Tenho uma panelada delas cozidas para comer ao pequeno almoço ou lanche. Tenho potinhos com doce de maçã aos quais juntei nozes raladas nuns, amêndoas raladas noutros ou simplesmente aromatizado com canela noutros. Uso maça aos cubinhos nas saladas verdes. Faço couve roxa estufada com maçã (Rot Khol) para alguns acompanhamentos. E todos os bolos e tartes acabam por levar pedaços do mesmo fruto. Palavra que já não sei mais o que fazer. Um colega contou-me que a mãe cortava a maçã ás rodelas, depois enfiava-as num cordel e punha a secar. E eles comiam essas rodelas de maçã desidratada quase todo o ano. Já experimentei mas não tive sorte nenhuma. Encheram-se de mosquitos e apodreceram num instante.
Até que dei de caras com o site "Pour en savoir plus" do sr Massart. Trocámos mails e foi tal o entusiasmo e a gentileza deste senhor que resolvemos avançar para outra proeza: fazer cidra!
E esta tarde estamos a preparar todo o material necessário para começar esta tarefa interessante para quem gosta de repetir gestos ancestrais embora adoptando toda uma série de preceitos muito actuais.
Vamos ter que esmagar as maçãs num aparelho de metal próprio, prevenindo-nos (ainda não sei bem como) contra uma coisa chamada casse férrica, que é um gosto a ferro que a cidra pode ganhar, uma vez que o ácido málico da maçã ataca o metal. Depois de serem esmagadas e ficarem a descansar umas horas, têm que ser prensadas e guardado o sumo extraído, por uma semana até aparecer uma espuma castanha a cobrir o líquido. Se for castanha é porque estamos no bom caminho. Se for branca, temos que desistir da cidra e avançar então para a aguardente ou para o vinagre de maçã. A preocupação maior é a temperatura que está demasiadamente alta. O sr Massart trabalha com 4º.C e o nosso melhor depois de termos a zona refrigerada com um aparelho de ar condicionado, são os habituais 18º.C .
Mas se têm curiosidade em provar um copo de cidra, ou se querem matar saudades dos países por onde passaram e que fazem cidra de uma forma artesanal, então desejem-nos sorte. Vamos precisar. E de muita.