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2012-09-28

A Gaivota

Sem forças e meio entontecida, a gaivota cabeceava de olhos fechados, com as patas a afundarem-se na areia, arrastada pelo recuo das pequenas ondas denunciadoras das grandes que cresciam atrás.
 
 
Parecia que alguma coisa de grave se passava com ela porque estava quase imóvel e em perigo de ser embrulhada na agitação da maré que crescia.
Ao pressentir que alguém caminhava na sua direcção, acordou daquela apatia e foi desferindo golpes com o bico, agarrando e torcendo a pele do braço que se aproximava para a recolher.
Mas esse alguém estava determinado a perceber o que se passava e sem se amedrontar com todo aquele ataque defensivo, pegou cuidadosamente no seu corpo.
E a gaivota parou de bicar, confundida com aquela estranha sensação de se ver embalada nos braços de um ser humano que a levava, sem esforço, como se ondulasse sobre o mar.
Encostada a esse corpo morno, apercebeu-se que se estava a afastar do mar e isso perturbou-a tentando arrancar com o bico aqueles dedos-tentáculos que se aproximavam várias vezes para lhe acariciar a cabeça e o corpo.
Foi transportada assim, por alguns minutos, apavorada com o caminho desconhecido e por ouvir o som do mar cada vez mais longe.
Por fim pararam e sentiu que a poisavam sobre qualquer coisa macia.
 
.
… e foram-na virando, abrindo as penas, inspeccionando o seu corpo, esticando e encolhendo as patas, erguendo-a no ar enquanto ela batia as asas para se equilibrar, abriram-lhe o bico e uns olhos, que lhe devem ter parecido enormes, aproximaram-se e espreitaram para dentro da garganta procurando algo que a estivesse a prejudicar. Mas nada foi encontrado.
E ela sempre na defensiva, atacando tudo o que lhe era desconhecido
 
 
Por fim puseram-na em frente de peixe fresco e vendo o seu desinteresse, obrigaram-na a comer, abrindo o bico à força e metendo um pedaço do peixe que empurraram para dentro, uma vez que ela não queria deglutir.
 
Talvez por isso não insistiram mais e ela deixou de repelir à bicada a mão que se aproximava, por se sentir com menos forças a cada minuto que passava e, ao ver que permanecia naquele ambiente estranho, sem mar e sem areia, começou a entrar em pânico, estrebuchando naquele colo e batendo as asas que não conseguiam elevá-la para a viagem de regresso.
 
 

Mas, adivinhando a sua angústia, pegaram nela de novo e recomeçaram a caminhar, sentindo de novo o ondular do corpo encostado ao seu, e, de olhos semi-cerrados, percebeu pelos sons e aromas conhecidos, que estava a ser levada para a sua praia.
Caminharam assim imenso tempo, até que a poisaram na areia, virada para o mar.
 

 
Alguém misturou os sons de um cântico com o som do mar e a mão aproximou-se, desta vez sem ser repelida, para a colocar numa posição mais confortável, ajeitar-lhe as asas e as penas.
 
E certamente reparou na despedida respeitosa que não evitou um ligeiro estremecer da areia onde estava deitada.


Abriu um pouco os olhos e deve ter-se apercebido do encher da maré…


E quem sabe se desejou a chegada das ondas amigas em que erguendo-a delicadamente da areia  a levassem consigo para a ilha paradisíaca a meio do oceano onde os peixes eram muitos e variados, o mar calmo, o sol sempre quente e onde iria encontrar as gaivotas suas amigas que tinham partido antes dela.

2011-05-04

Adeus Tanit Amiga!...


A Tanit entrou na nossa família mais o seu irmão gémeo Thor em 1997 ao colo do Pai Natal.

Cresceram cheios de energia e num instante tornaram-se nos nossos guardas pessoais.


Todos os cães são dedicados aos seus donos. Mas estes eram de uma dedicação e de uma obediência impressionantes.

Não permitiam que ninguém mexesse em nada no nosso espaço quando não estávamos presentes e nem pensar em sair da quinta sem autorização dos donos, principalmente se entravam de mãos vazias e saíam com algum saco ou embrulho :)

Se chegava alguém que desconheciam, ficavam inquietos, rondando-o de sobrolho franzido e muito atentos ao nosso tom de voz.

Afastavam-se quando percebiam que todos estavam calmos ou quando nos ouviam dizer que era amigo, palavra que conheciam muito bem o significado.

Uma vez tivemos que mandar fazer umas obras que iam durar alguns dias. Como o pessoal entrava muito cedo para adiantar os trabalhos, demos a chave do portão a um deles para poderem entrar e começar antes de aparecermos.

Não nos lembrámos que o Thor e a Tanit iriam achar muito estranho uma invasão daquelas e acabaram por impossibilitar o avanço do trabalho por se terem sentado em cima da pilha de tijolos e dos sacos de cimento, rosnando sempre que os homens se aproximavam do material.

Nunca morderam ninguém, limitando-se a avisar as pessoas que estavam ali como guardas das pessoas e bens da casa.

As histórias são imensas e lembro-me de uma vez em que caçaram uma galinha que se tinha evadido da capoeira na nossa ausência.

Quando chegámos, nenhum deles apareceu para nos receber e mantiveram-se deitados dentro do canil. Por acharmos estranho o comportamento que não indiciava nada de bom,  demos uma volta perto da casa e ao passarmos em frente da capoeira, vimos uma galinha morta colocada junto à porta de rede, sem um rasgão ou dentada mas completamente nua, sem uma pena por mais pequena que fosse em qualquer parte do corpo.

A brincadeira devia ter sido divertida para eles e quando se aperceberam que o animal já não se mexia, trataram de o pôr à porta da capoeira talvez na esperança que ele se erguesse e se juntasse aos outros, livrando-os do castigo que sabiam merecer.

Em Setembro de 2006 publiquei uma crónica de saudade quando o Thor partiu na sua derradeira viagem e hoje, passados quase 5 anos, aqui estou a escrever sobre a partida da sua irmã.

Quando chegaram os gémeos Dongo e Nanã, também Leões da Rodésia, e que apresentei neste blog há uns 4 anos atrás, a Tanit adoptou imediatamente o Dongo, acompanhando-o para todo o lado, sempre preocupada com ele e principalmente com a sua apresentação.



A Tanit agora já com 14 anos era bastante idosa. Mas comportava-se ainda como cachorra gostando de brincar e de sorriso estampado no focinho.




Os cães vivem relativamente pouco tempo e por isso vamos assistindo às suas partidas sempre com o coração apertado.

O imenso carinho que sentimos pelos nossos cães, obriga-nos a decidir a pôr fim a uma vida colhida por uma doença incurável e que irá evoluir para um enorme sofrimento.

A doença só foi visível numa fase adiantada e em poucos dias assistimos à perda de apetite, aos ganidos surdos que indicaram o início das dores, à impossibilidade de se erguer da cama…

Como não conseguia erguer-se, transportámo-la para a clínica dentro da sua cama que foi colocada em cima da marquesa. 

Puseram-na a soro e de passo em passo fomos aproximando-nos rapidamente do momento da despedida.

Fiquei junto a ela sorrindo-lhe, fazendo-lhe festas e cantarolando-lhe pequenas palavras no tom de mimo que ela tanto apreciava. Ficou sonolenta com o medicamento que lhe deram e, quando começou a respirar de uma forma bastante calma, fiz sinal à médica para prosseguir, engolindo os soluços que me subiam pela garganta.

A Tanit fitou-me com os seus olhos meigos, num olhar que foi perdendo lentamente o brilho e assim partiu devagarinho e sem sofrimento. 


Adeus, minha linda!



2011-02-13

Para o Mário, com muito carinho

Como todos já sabeis, o nosso querido amigo Mário Portugal partiu na sua última viagem na passada sexta-feira, dia 4 de Fevereiro.

Desligou-se da vida sem sofrimento, sem aviso e no meio de uma conversa, tal como sempre desejara.

O Mário era um companheiro sempre presente na Net, a qualquer hora do dia e todos os dias da semana, o que lhe permitia uma vida extremamente ocupada, contactando com os seus amigos e familiares, desenvolvendo as suas teorias, escrevendo artigos diversos, respondendo a todos os mails que recebia, com uma juventude de espírito que por vezes não se encontra em pessoas muito mais jovens.

Perdi aquele amigo que me considerava uma pessoa rara, como o dizia aos quatro ventos, o que me deixava verdadeiramente incomodada. Mas esta afirmação revelava que não considerava os defeitos dos amigos, valorizando apenas as qualidades de cada um, ainda que exagerando-as a seu bel-prazer. Esta lindíssima atitude na amizade extrema que sentia pelos seus amigos, era uma das coisas que mais me impressionava no Mário, pelo qual senti sempre um enorme carinho.

Era também um leitor assíduo deste blogue e quando os temas lhe eram desconhecidos, obrigava-me a explicações extras através de mails ou do telefone.

Tenho andado a reler a sua imensa correspondência como forma de o sentir e manter ainda próximo e, nestas voltas pelas pastas do Pc, aconteceu ter esbarrado com um texto começado há uns tempos e que esperava algumas fotos para anexar e depois publicar no blogue.

Sabia que seria um texto que iria provocar uma forte risada no Mário - o que me encantava - e que daria azo a uma série de mails logo após a publicação.

Resolvi terminá-lo e publicá-lo agora, imaginando-o a rir na sua salinha e que noutras circunstâncias o levaria a pegar no telefone para me dizer qualquer coisa no género:

- Ó jóia, já me fez soltar umas boas gargalhadas logo pela manhã! Essa de dar banho à burra, só mesmo da cabeça da Ana!

Por isso, Mário, aqui vai o texto da Rita e que lhe provoque sonoras gargalhadas que só lamento já não as poder ouvir.





A Rita Branquinha


Há vários anos, ao passar de carro por uma aldeia próxima, vi um pequeno burro numa cerca. O animal estava num estado lastimoso, com camadas de esterco seco agarradas ao pêlo, os ossos a quererem furar a pele e um olhar tão triste que me fez doer o coração.


Parei o carro e perguntei ao homem quanto custava o burro, não por precisar de um, mas com dó do pobre bicho.


O homem ao aperceber-se da minha inexperiência sobre o preço de um burro e vendo a vontade que eu demonstrava em o adquirir, fez-me o preço exorbitante de 30 contos (na altura ainda não se sonhava com o euro), como se fosse um animal de raça.

Fiquei a saber que era uma burra e que tinha apenas 2 anos.

Para eu ter uma ideia de que o burro, ou melhor, a burra valia bem o dinheiro, o homem montou-a, prendeu-a a um arado e outras tarefas que ela desempenhava obedientemente mas dando mostras do medo que tinha de ser castigada.

Acabei por pagar o preço pedido e o comerciante até a transportou de imediato numa carrinha de caixa aberta, deixando-a à porta do nosso estábulo onde ela ficou sem se mexer, apavorada com a viagem e com o ambiente que desconhecia.



 Quando fiquei a sós com ela e reparei no seu olhar tão triste, resolvi dar-lhe um banho e retirar aquelas camadas de porcaria que escondiam a cor do pêlo.

Com um balde de água morna, uma esponja e champô dos cães, comecei uma tarefa que achei que iria ser muito difícil mas que afinal foi facílima porque o animal ficou sempre imóvel e deixou-me fazer o trabalho sem protestar.

Depois de lavada, exibia um pêlo bem branquinho. Mas como tempo estava um pouco fresco, começou a tremer cheia de frio e para a secar rapidamente socorri-me de um secador de cabelo que ela mirava com curiosidade e a seguir cobri-a com uma manta.

Na altura tinha aqui um homem a fazer um trabalho nas terras e que perdido de riso ainda me gritou: - Ó minha senhora, isso é um burro… não é uma pessoa!!

Levei-a para uma box livre que já tinha mandado preparar com uma boa cama de palha e com a manjedoura cheia de feno fresco e ela ficou ás voltas, surpreendida com este tratamento VIP.


Não tendo nunca convivido com burros (refiro-me aos animais), fiquei a saber que envelhecem muito e repentinamente, uma vez que ela após duas ou três semanas de estar connosco, passou de 2 anos para 15 !! :))




A burra que de início se chamou Branquinha e mais tarde passou a Rita, levou algum tempo a adaptar-se à liberdade do pasto grande e à perseguição da Joaninha, a nossa égua ciumenta, que não gostou que as nossas atenções se alargassem a mais um elemento..

Também fiquei a saber que aqueles esgares que ela fazia de tempos a tempos e que eu pensava que seria de algum problema na garganta, eram afinal indicadores de que estava com o cio que pelos vistos deve ser horrível nestes animais porque lhes dá um ar terrível, recolhendo os beiços e mostrando, aflitivamente, os dentes enormes.

A Rita Branquinha desde que veio para aqui, deixou de trabalhar e apenas contribui para estrumar as terras e para embelezar a paisagem.

Ficou muito grata à nossa adopção, tornando-se um animal muito ternurento, sempre pronto para pedir um mimo que tanto pode ser uma festinha no nariz, uma folhinha verde ou um torrão de açúcar.




Ao contrário da égua, os seus cascos crescem muito e por isso de vez em quando tem que ir à "manicure”.










E como podem reparar nas fotos, é um trabalho cansativo e bastante incómodo para ambas as partes.




Na foto acima já está com os pés e mãos devidamente arranjados, vendo-se a Joaninha ao longe muito atenta aos nossos movimentos.






E aqui está ela exibindo um lindíssimo sorriso, só possível nos animais felizes.






Obrigada Mário pela excelente amizade e companheirismo que sempre me dedicou. Nunca o irei esquecer!






2009-04-30

Perdendo pedaços de mim...

Foi com estupefacção que tive conhecimento da tua morte através do curto mail enviado pela tua companheira que nunca conheci. Ficava assim esclarecido o teu silêncio nestes últimos meses, a falta de resposta aos meus telefonemas, a ausência das palavras amigas no dia do meu aniversário.

Fechei os olhos e as recordações foram emergindo...

A primeira vez que nos vimos foi num treino de judo em Almada. Eras iniciado e o mestre escolheu-me para tua parceira avisando-me para começar no chão. Ensinei-te a posição do Hon-kesa-gatame. Deitaste-te de barriga para cima e eu sentei-me ao lado com as costas juntas ao teu corpo, pernas afastadas à frente, passei o meu braço em volta do teu pescoço, encostei a minha cabeça à tua e disse-te: - Agora vê se sais daí! E tu esperneavas, tentavas virar-te, davas esticões com o corpo e não conseguias sair da imobilização. De repente tive a ideia de te surpreender com um nami-juji-jime. Deslizando sobre ti, sentei-me sobre o teu tronco, de joelhos no chão e apertando-te com as coxas meti as mãos no gola do teu quimono, apertei de forma a bloquear ligeiramente as carótidas e disse-te: - Agora não vais conseguir sair daí. Bate com a mão no chão! E tu com voz sumida: - Para quê? -Para dizeres que desistes! -Não desisto! Mas que bruta!! E eu apertei um pouco mais: -Bate!! - Não bato!! E o grito do mestre: Soremade!! Larguei-te logo. O mestre a correr para nós: - Mas que disparate é esse, ó Ana?!! Nunca senti o tal espírito de judoca que o mestre apregoava e não gostava de estar a ensinar novatos. Mas mais tarde quando o mestre gritava “Randori!” e os novatos podiam escolher os graduados com que queriam lutar, quando levantava os olhos depois de ter ajeitado o quimono e o cinto, já sabia que te ia ter à minha frente de sorriso espalhado no rosto, fazendo a saudação e caminhando decidido para mim dando início ao combate e não permitindo a repetição daquele primeiro dia.

... a pulseira em aço batido, feita por ti e que usei durante anos para te manter junto a mim...

No alto das escarpas da Fonte da Telha, deitados sobre as ervas secas, observávamos as nuvens que deslizavam suavemente fundindo-se umas nas outras. - Aquela ali é um cavalo! – dizias tu de dedo espetado para o céu - Está a transformar-se... olha agora é um barco... estás a ver? E eu acenava que sim -E agora... espera... espera... ah, agora é um pássaro, viste? - E que pássaro? –perguntava eu - Deixa-me ver bem... é um tentilhão! E soltávamos gargalhadas adolescentes que voavam ligeiras em direcção ao mar -Diz-me mais nomes de pássaros… - Milheiras…. felosas… piscos… cachapins…. sabes que passarinho é este que está a cantar? - Um melro! - Oh não! Ainda não aprendeu a reconhecer o rouxinol? E de novo as gargalhadas esvoaçavam sobre nós até se sumirem levadas pela brisa

... as pardelhas que procuravas só para me fazer feliz...

Teste de tuberculina positivo. O médico ligou o radioscópio e quis que eu visse a sombra que se espalhava sobre o teu pulmão. Depois de um abraço carregado de medos, partiste para as terras quentes do teu Alentejo, donde regressaste depois de uma eternidade, mais forte... mais homem

... o pequeno tear que construíste para eu aprender a tecer com junco...

Numa manhã fria e chuvosa, aguardavas a minha passagem meio escondido debaixo de um toldo escuro. O cabelo desgrenhado e a barba escura no teu rosto gelado de lábios arroxeados eram estranhos aos olhos incendiados pela alegria de me ver aparecer. O teu corpo tremia e receei que desmaiasses ali, sem saber o que sentias e o que pretendias. Sentámo-nos à mesa de uma pastelaria e pedimos bebidas quentes. Não disseste nada e eu também não. Pegaste nas minhas mãos e depuseste um beijo morno. Levantaste-te e partiste

...os cestos miniatura que concebias para eu aprender cestaria...

Os teus olhos baixaram comovidos sobre a mesa quando coloquei no teu pulso a minha velha pulseira de prata. Ao nosso lado, a empregada varria o chão atirando para a frente beatas, pacotinhos de açúcar, guardanapos, caricas… - É para usar sempre? - perguntaste. E o rosto iluminou-se com o teu sorriso lindo quando te disse que sim

...os órfãos ouricinhos cacheiros para eu acabar de criar...

Parados no cais com os olhos afundados no Tejo, disseste: - Gostava de fazer uma viagem no meu barco, sem tempo, nem destino. Queres vir comigo? Só os dois? Fixei os teus olhos fundos que se prenderam nos meus numa carícia entristecida e senti no teu abraço quente, um pedido de desculpa.

... a tua insistência para eu reparar na beleza das flores minúsculas que espreitavam dos prados...

Estendidos sobre a relva, olhávamos para uma joaninha que hesitava caminhar sobre a tua mão ou a minha. Preferiu a tua e acelerada trepou o dedo que mantinhas espetado. Com as cabeças juntas cantarolámos baixinho: - Joaninha, avoa.. avoa… E ela abrindo as asas partiu esvoacejando, tal como tu fizeste recentemente levando contigo uma parte de mim que nunca mais irei recuperar.

Post Scriptum: Em Outubro de 2006 num texto que publiquei aqui com o nome “As saudades de um amigo”, terminaste deste modo o teu comentário “Ainda assim tomara que alguém escreva um texto tão bonito quando eu morrer como o que escreveste sobre o Thor”

Sinto uma tristeza imensa por não ter conseguido escrever à altura do que mereces, Fernando. Mas deixo aqui expresso o enorme carinho que sempre senti por ti e o desgosto desmedido por teres partido definitivamente da minha vida, apenas suavizado por tão doces recordações

2008-11-17

Não te esqueci, meu amigo

No meu tempo de adolescente uma das maneiras para se iniciar correspondência com alguém desconhecido era ler vários anúncios publicados nos jornais diários.
Foi assim que um dia resolvi responder a um pedido de um jovem brasileiro que pretendia corresponder-se com uma menina de Portugal dando início a um contacto que em breve daria origem a uma grande amizade que se prolongou por uns vinte anos.
Entrámos praticamente juntos na crise de uma adolescência partilhando todas as nossas alegrias e decepções.
Relia à noite as suas enormes cartas em que comentava a situação do Brasil de então, as dificuldades para se arranjar um emprego, os seus problemas para se manter na faculdade.
Imaginava-o fechado no seu quarto, ao entardecer, escrevendo-me cartas e postais enquanto contemplava distraído o evolar do fumo do seu cigarro.
Tratava-me carinhosamente por Emi e no meu aniversário, mais semana, menos semana, recebia um postal bonito e as palavras quentes de quem se sente ligado pelo coração.
Sujeitávamo-nos ao roubo constante de pequenos nadas que enviávamos dentro dos sobrescritos que eram continuamente violados, nunca percebi se aqui em Portugal ou lá no Brasil.
Chamava-se Meinardo, nome de flor, e foi sempre um companheiro presente, através de carta, nos grandes momentos da minha vida como foi o do casamento e nascimento dos meus filhos.
Ao fim de todos estes anos perdi as suas cartas e apenas guardo os postais com paisagens diversas do Brasil incluindo João Pessoa, zona onde vivia.
E também as fotos. As primeiras ainda muito menino e depois mais tarde já um homem de aspecto bondoso e olhar sonhador.
As cartas foram diminuindo em tamanho e frequência.. A minha nova vida de empregada bancária, o casamento, os filhos, o recomeçar dos meus estudos, não me permitia a disponibilidade necessária para continuar a escrever as longas cartas de outrora.
Mas houve uma altura em que deixei de receber a sua correspondência não respondendo sequer à insistência das minhas cartas que exigiam uma resposta breve. Vários meses se passaram até que um dia recebi um envelope debruado com as cores do Brasil que depois de aberto deixou cair um pequeno embrulhinho no meu colo e onde alguém escrevera “Abrir só depois de ler a carta”.
Saltando de linha em linha, fui lendo o relato plangente feito por um seu irmão que me contava de forma breve mas cautelosa, a morte de Meinardo no mar ao tentar salvar um primo arrastado pela ondulação forte quando brincava na praia .
Abri finalmente o embrulhinho que nada mais era que um pequeno cartão com a sua fotografia, a data de nascimento, 23.11.49 e a do seu falecimento, 3.3.80 (quatro dias antes do meu aniversário)
Li dificilmente entre lágrimas este elogio fúnebre: Ele descansa em paz. Seu nome hoje se encerra mas em nossos corações há-de permanecer. Cumpriu nobre missão sobre a face da terra: foi bom filho, bom irmão, bom tio, bom primo e bom amigo. Soube amar e sofrer.
Ainda hoje, quando folheio o álbum onde guardo as minhas recordações de menina, sorrio ao olhar uma foto que exibe o seu doce rosto e que tem escrito no verso uma frase que o tempo conseguiu dissipar a sua risibilidade “Basta me esquecer quando esta foto falar”

2007-05-10

Será que vale a pena?

Se algum de vós ainda tem a ideia de que viver no campo é mais saudável, evita o stress e é mais económico, desiluda-se porque não há nada de mais erróneo, pelo menos quando também se convive com animais de estimação.
Para entenderem melhor a razão de ser desta afirmação, iremos vos pôr ao corrente do que tem acontecido aqui na quinta de há 2 meses a esta parte:
A nossa pneumonia desapareceu para dar lugar a uma gripe que teimosamente não nos abandona, deixando-nos fatigados, tensos e sem disposição para nada. Pensamos que a responsabilidade cabe a estas súbitas mudanças climatéricas.
Entretanto, a potra, filha da Joaninha, morreu no dia seguinte ao seu nascimento. Aqui a vemos umas 5 horas depois de vir ao mundo. Só então é que se conseguiu pôr de pé, o que já indiciava que alguma coisa não estava a ir bem. Nas primeiras horas teve que ser amamentada a biberão com leite ordenhado da mãe até conseguir manter-se de pé. Foi examinada pelo veterinário que não gostou muito da lentidão de todo este processo. Só à noitinha é que conseguiu orientar-se para mamar directamente das tetas. Mas, de qualquer forma, a morte no dia seguinte apanhou-nos completamente desprevenidos. Foi o caseiro que nos avisou, lavado em lágrimas, e ainda assistimos aos últimos momentos do animal tentando evitar o inevitável.
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… quase de seguida, a morte súbita do Tomás, o pavão. Reparámos que fazia muito ruído e que estava numa aflição para respirar. Ainda abrimos o bico para ver se teria a traqueia obstruída, o que não era o caso. Como estávamos de partida para o veterinário, aproveitámos e também o preparámos para ser visto. Mas, ainda nem tínhamos saído da quinta e já o levávamos morto. Pedimos uma autópsia e a causa da morte teria sido uma septicemia, coisa quase inacreditável uma vez que o bicho andava esperto e a comer normalmente.

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… entretanto o Odin, um dos nossos cães castro-laboreiros, apareceu com um fiozinho de sangue a sair de uma narina e que teimava em não parar. Fizeram-lhe testes para a leishmaniose (provocada por um mosquito) e para a erliquia (provocada por uma carraça) e o resultado foi positivo para ambas. A primeira não tem cura e é extremamente grave por interferir com o sistema imunitário e não sabemos se será a responsável pelo hipo-tiroidismo que somou agora ao seu quadro clínico, tendo dores no corpo e descontrole muscular o que faz com que tenha um caminhar trémulo e sofrido. Estamos a tentar tudo por tudo para melhorar os sintomas e darmos uma vida ao animal com alguma qualidade.
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Quando os problemas aparecem sucessivamente, não nos dando tempo para recuperar, damos connosco a pensar se vale a pena continuarmos a insistir numa vida que nos dá tanto desgaste físico, emocional e financeiro.
Este post esteve para não ser feito, tal era o desconforto que sentíamos ao escrevê-lo. Mas não é justo falar-vos só das coisas boas ou curiosas que acontecem neste espaço. As nuvens negras também pairam muitas vezes sobre nós.
Mas como continuamos aqui de pedra e cal, depois deste desabafo de quem sente a vida na sua plenitude, vamos continuar o caminho escolhido.
Ora bem, Mariana a pavoa viúva, acabou também por adoecer com uma coriza e uma manhã vimo-la com este aspecto assustador
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Telefonámos a um dos nossos amigos veterinários que aconselhou a operação, dando-nos as necessárias orientações. Respirámos fundo, com aquela sensação já conhecida do que tem que ser tem muita força, pedimos ajuda ao caseiro e metemos mão à obra com direito a reportagem fotográfica para vos mostrar (e também ao médico) a qualidade do nosso trabalho.

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E depois da cirurgia, a paciente Mariana ficou com este belíssimo aspecto:
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Dias depois tornou a piorar. Deixou de comer, caminhava tropegamente, com as asas a arrastarem no chão, inchou-lhe a mesma face e tivemos que a submeter de novo à operação. Agora duas vezes por dia metemos-lhe bolinhas de ração com umas gotas de antibiótico pelo bico abaixo e limpamos o interior da face com betadine para ir sarando de dentro para fora. Passou a ficar dentro da capoeira onde recolhem as galinhas por ser um local mais aquecido. Vamos a ver se tem melhor sorte que os outros. Para já, está com óptimo aspecto, mais forte, voando para se empoleirar mais alto que as companheiras.
A Joaninha também recebeu de novo a visita do namorado e se estiver prenha (o que saberemos depois da próxima ecografia), daqui a um ano terá de novo um filhote
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E assim, mesmo com todos estes desgostos e desilusões continuamos o nosso trabalho, partilhando convosco os bons e maus momentos. Obrigada pela companhia tão amiga com que nos têm brindado

2006-12-10

As bênçãos do senhor Francisco

Posted by Picasa O senhor Francisco era um homem conhecido num raio de acção de muitas dezenas de quilómetros. Tudo nele era singular. Usava o cabelo caído pelos ombros, uma barba grande que esvoaçava sobre o peito, um terço gigante que trazia pendurado ao pescoço. Sempre que passava por uma igreja ou capela, saía da sua bicicleta, entrava e passava uns minutos em oração. Nas missas dominicais antecipava-se ao padre, só se mantendo em silêncio nas homilias que ouvia respeitosamente. Comungava todo nu, escondendo as suas partes pudibundas num cobertor que enrolava em volta de si. Vivia numa pobreza extrema, habitando numa barraquita de madeira e com partes forradas a chapa de alumínio para evitar a entrada do vento e da chuva, dividindo o seu espaço com uma burra sua companheira de solidão, uma vez que tinha sido abandonado pela mulher e filhos. Era um homem doce. Quando me via ao longe acenava-me cheio de alegria, chamando pelo meu nome e, ao aproximar-me, via-o erguer a mão à minha frente, dando forma a uma cruz com a qual me benzia. Sentia-me bem quando o encontrava porque me dizia coisas magníficas: “Ai que bom é vê-la senhora dona Ana, uma senhora tão linda e tão boa!” E depois baixando os olhos dedicava-me um padre-nosso ou ave-maria conforme as circunstâncias ou a inspiração do momento. Várias vezes lhe dei trabalho na quinta e nunca quis receber o dinheiro. Apenas aceitava roupa e comida, desde que não fosse carne que recusava por muita fome que tivesse. Um dia apareceu aqui à hora do almoço. Perguntei-lhe se já tinha almoçado e disse-me que sim. Conhecendo a delicadeza do senhor, disse-lhe que então ia almoçar outra vez comigo o que ele não rejeitou. Apareceu também o meu filho que vinha comer à pressa para depois sair e continuar com as suas tarefas profissionais. Quando pus a comida nos pratos, o senhor Francisco baixou a cabeça e começou uma oração de graças que respeitámos ainda que nenhum de nós fosse religioso. Mas a oração foi sendo cada vez mais aumentada e abrangente. Da comida passou para os donos da casa, para os filhos dos donos da casa, para os familiares, para os amigos, para os animais, para as pessoas da cidade, para a paz no mundo e sucediam-se padres-nossos, aves-marias e uma série de orações que desconhecia… quase o tempo de uma missa. A comida arrefeceu no prato. O meu filho olhava discretamente para o relógio, até que por fim ouvimos o amém final e pudemos começar a comer. Terminada a refeição assustámo-nos quando o senhor Francisco baixou de novo a cabeça mas foi apenas um curto agradecimento pela refeição. Estava uma tarde de imenso calor e ele vestido com um fato grosso e por cima um sobretudo que eu lhe tinha oferecido há uns meses atrás. O que tapa do frio, tapa do calor! Era a sua afirmação. Levou umas sandes para o lanche, despediu-se de mim com as bênçãos do costume e no final com os olhinhos a brilhar insistiu: “Ai que senhora tão linda!” E foi a última vez que me visitou. Uma tarde vi-o a pedalar pela estrada fora e buzinei-lhe. Ele acenou-me e pelo espelho retrovisor consegui aperceber-me do sinal da cruz desenhado no ar, o qual agradeci levantando o braço. Passados alguns meses perguntei por ele às senhoras que trabalham aqui nas terras. - Ah, não sabe? O senhor Francisco morreu! - Oh!... morreu? Coitadito... não sabia! Mas morreu de quê? - Olhe, morreu todo queimado. Acendeu uma fogueira dentro da barraca para se aquecer, deve ter adormecido e o fogo agarrou-se às vestes, às barbas. Ainda saiu aos gritos mas quando os vizinhos chegaram já estava todo queimado e a morrer. Fiquei sem saber o que dizer. Durante muitos dias fartei-me de pensar na morte horrível que teve e na sua vida tão miserável apenas iluminada quando encontrava alguém amigo ou quando recolhia em oração. Gostava das suas visitas e das atenções que tinha para comigo, que mais não fosse por aquela mão erguida oferecendo bênçãos. Tenho saudades daquele “Ai que senhora tão linda!” que me animava o coração

2006-10-03

As saudades de um amigo

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Hoje senti muitas saudades tuas, Thor. Há já uns meses que fizemos a nossa última viagem. Deixaste de dormir no teu canil com os outros companheiros da matilha para viveres a meu lado, noite e dia, deitado na tua cama e atento a todos os meus movimentos dentro de casa. Julgo que foste muito feliz nessas últimas semanas em que finalmente pudeste guardar-me durante 24 horas. De manhã levantavas o focinho e acordavas-me com o beijinho de bons-dias. Eu arranjava-me em frente ao teu olhar vigilante e depois empurrava a tua cama até à porta para te ajudar a levantar e poderes sair, cheirar o ar e as ervas e fazeres as tuas necessidades em posições cada vez mais difíceis devido à amputação da pata. Poderiamos ter evitado essa operação mas o prognóstico era tão pessimista desde que te foi detectado o sarcoma ósseo, que para evitar abreviar-te a vida sem sabermos se seria cedo demais e esperançados na cirurgia e quimioterapia, resolvemos tentar tudo por tudo para te salvar. Recuperaste bem da intervenção e aprendeste a andar com as 3 patas, saltitante. A quimioterapia também não te deitou abaixo e viamos-te com ar sossegado, sem dores e feliz por estares perto de nós. Foram semanas de ligação diária muito forte. Passavas o dia deitado perto de mim, interessado em tudo o que eu fazia, dando uns suspiros de satisfação que me davam um grande bem estar. Á noite dava-te o jantar na cama e depois arrastava-a para o meu quarto para dormires ao meu lado. Sempre que acordava, perguntava-te baixinho: "Tudo bem, Thor?" E ouvia a cauda a responder alegremente. Mais tarde começaste a ressentir-te de uma das patas traseiras. Mudança de tratamento e melhoria nos movimentos. Mas foi sol de pouca dura. Uma noite ao virares-te na cama, não conseguiste virar o corpo por igual e acordei com os teus ganidos. Ajudei-te na posição mas percebi que tudo se estava a complicar. Todas as manhãs era um esforço enorme para mim e para ti, tirar-te da cama para te colocar no jardim. Passei a arrastar o cobertor contigo em cima, arrastando os teus 40 e tal quilos pela relva, tentando não magoar-te. Mas a dada altura já te queixavas de qualquer movimento e falei para o veterinário que foi muito claro: a partir dali não ia haver melhorias e irias passar a sofrer. Não era nada disso que queria para ti, meu amigo. Por isso preparei-te um pequeno almoço de leite com nestum que tu lambeste sôfrego de prazer. Pedi ajuda e metemos-te com a cama no carro. Ias satisfeito porque já tinhas percebido que a ida ao veterinário te melhorava sempre de qualquer mal-estar. Era um sábado cheio de sol. O médico e a menina ajudaram-me a levar-te para a marquesa. Puseram-te a soro. Todos falavamos contigo como sempre o fizemos e com muitas carícias. Sei que já consideravas aqueles profissionais como grandes amigos esperando sempre o biscoito de prémio. Estavas muito sereno, segundo o médico me disse depois de te ter auscultado. Abracei-te e pousaste a cabeça no meu braço como fazias sempre que iamos ao tratamento. Cantarolei baixinho uma cantiga de ninar. O médico começou a anestesiar-te e tu fechaste os teus olhos doces, suspiraste e partiste. Só nesse momento permiti-me chorar.
Adeus Thor! Tenho tantas saudades tuas