Mostrar mensagens com a etiqueta Amizades. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Amizades. Mostrar todas as mensagens

2011-12-01

Um Verão em fotos

O Verão já terminou e ficaram as boas e más lembranças de um período tão agitado como foi o deste ano.
Recebemos amigos e familiares que partilharam connosco muitos momentos bonitos.
Mostrámos a nossa represa preferida, que fica no Teixo ...


... e onde estivemos a nadar num dia de grande calor




Nasceu uma ninhada de patos bravos






Fizemos vários petiscos regionais e também cozemos pão no forno antigo

 
Fomos a Sever do Vouga visitar a Feira do Mirtilo

Nesta feira vendiam plantas envasadas, frutos embalados, licor, doce, gelado, bolo, tarte à base de mirtilo e onde prestavam imensa informação sobre a cultura e as diversas aplicações destas bagas.
Tivemos uma ninhada de patos mudos.  A segunda foto mostra uma lição de natação dada pela jovem mãe J


Terminámos o trabalho do milho que já está devidamente guardado



Nasceram 2 faisões


... e 6 pavões



Levámos os nossos amigos a Óbidos à Feira Medieval


Fizemos as nossas colheitas de tomate, cebola, pimento, beringela, physalis, malagueta, abóbora, pepino, feijão-verde, melancia, melão, maçã, pêra, morango, pêssego, cereja, ameixa, amora, framboesa…

Aproveitando a fartura para fazermos doces



Tivemos visitas inesperadas


Fizemos as nossas cirurgias caseiras como no caso de um borrego que fez uma ferida profunda na cabeça e que poucos dias depois, com o calor excessivo,  abrigava uma família de larvas gigantes de mosca-varejeira. 

Antes de injectarmos o animal com um produto que iria destruir esses parasitas que se alimentam e crescem dentro de tecidos vivos, fotografamos essas duas, junto ao ferimento, para poderem ver o tamanho de tais animais que iriam ocasionar a morte do borrego, comendo-o em vivo.


Nasceram também dois gansinhos

Fomos visitar o Festival de Jardins em Ponte de Lima que este ano tinha como tema “O Jardim e a Floresta”
Para o ano 2012, o tema será “Jardins para Comer” o que nos motiva a fazer de novo esta viagem

E agora perguntarão por que razão dissemos logo no início que tinham ficado as boas e más lembranças, quando tudo parece bom como demonstram as fotos.

É que o ano foi péssimo para as criações: os patinho bravos foram desaparecendo sem deixar rasto ou aparecendo mortos. Sobreviveram apenas 6 da ninhada de 18.  Os patinhos mudos foram os mais resistentes e só morreram 2 deles. Os faisões morreram dias depois da foto. Os gansos também. Aos pavões aconteceu o mesmo tendo apenas sobrevivido um dos novos. Os pintos peludos desapareceram, só restando uma franga. Mas estes temos a certeza que foram apanhados pela raposa ou pelo gato-bravo por termos encontrado um monte de peninhas brancas num sítio distante da capoeira.

Este tipo de vida faz-nos estar em constante contacto com a vida e a morte dos animais e não há meio de nos adaptarmos a esse facto da Natureza L

Só falta mostrar a foto do Tony Silva, trabalho feito pela criançada e que ainda se mantém a descansar ao sol e à chuva

Agora com o frio, andamos a apanhar azeitona, já comemos os dióspiros, já passou o tempo da castanha, que este ano veio cedo demais, e já temos as nozes ensacadas.

A produção de noz é cada vez menor devido à quantidade de esquilos que foi introduzida nas matas e que, segundo nos informaram, tem a ver com a tentativa de dar algum alimento aos animais selvagens. Não sabemos se a razão é essa mas o que é certo é que a introdução de novos animais, qualquer que seja a finalidade, se não tiver depois o devido acompanhamento, pode dar origem a pragas que não conseguimos controlar. No nosso caso vamos ficando sem as nozes L
E como não tivemos tempo para preparar um texto melhor, ficamos assim pela apresentação das fotos que resumem de alguma forma o que foi este Verão aqui na quinta.

2011-05-04

Adeus Tanit Amiga!...


A Tanit entrou na nossa família mais o seu irmão gémeo Thor em 1997 ao colo do Pai Natal.

Cresceram cheios de energia e num instante tornaram-se nos nossos guardas pessoais.


Todos os cães são dedicados aos seus donos. Mas estes eram de uma dedicação e de uma obediência impressionantes.

Não permitiam que ninguém mexesse em nada no nosso espaço quando não estávamos presentes e nem pensar em sair da quinta sem autorização dos donos, principalmente se entravam de mãos vazias e saíam com algum saco ou embrulho :)

Se chegava alguém que desconheciam, ficavam inquietos, rondando-o de sobrolho franzido e muito atentos ao nosso tom de voz.

Afastavam-se quando percebiam que todos estavam calmos ou quando nos ouviam dizer que era amigo, palavra que conheciam muito bem o significado.

Uma vez tivemos que mandar fazer umas obras que iam durar alguns dias. Como o pessoal entrava muito cedo para adiantar os trabalhos, demos a chave do portão a um deles para poderem entrar e começar antes de aparecermos.

Não nos lembrámos que o Thor e a Tanit iriam achar muito estranho uma invasão daquelas e acabaram por impossibilitar o avanço do trabalho por se terem sentado em cima da pilha de tijolos e dos sacos de cimento, rosnando sempre que os homens se aproximavam do material.

Nunca morderam ninguém, limitando-se a avisar as pessoas que estavam ali como guardas das pessoas e bens da casa.

As histórias são imensas e lembro-me de uma vez em que caçaram uma galinha que se tinha evadido da capoeira na nossa ausência.

Quando chegámos, nenhum deles apareceu para nos receber e mantiveram-se deitados dentro do canil. Por acharmos estranho o comportamento que não indiciava nada de bom,  demos uma volta perto da casa e ao passarmos em frente da capoeira, vimos uma galinha morta colocada junto à porta de rede, sem um rasgão ou dentada mas completamente nua, sem uma pena por mais pequena que fosse em qualquer parte do corpo.

A brincadeira devia ter sido divertida para eles e quando se aperceberam que o animal já não se mexia, trataram de o pôr à porta da capoeira talvez na esperança que ele se erguesse e se juntasse aos outros, livrando-os do castigo que sabiam merecer.

Em Setembro de 2006 publiquei uma crónica de saudade quando o Thor partiu na sua derradeira viagem e hoje, passados quase 5 anos, aqui estou a escrever sobre a partida da sua irmã.

Quando chegaram os gémeos Dongo e Nanã, também Leões da Rodésia, e que apresentei neste blog há uns 4 anos atrás, a Tanit adoptou imediatamente o Dongo, acompanhando-o para todo o lado, sempre preocupada com ele e principalmente com a sua apresentação.



A Tanit agora já com 14 anos era bastante idosa. Mas comportava-se ainda como cachorra gostando de brincar e de sorriso estampado no focinho.




Os cães vivem relativamente pouco tempo e por isso vamos assistindo às suas partidas sempre com o coração apertado.

O imenso carinho que sentimos pelos nossos cães, obriga-nos a decidir a pôr fim a uma vida colhida por uma doença incurável e que irá evoluir para um enorme sofrimento.

A doença só foi visível numa fase adiantada e em poucos dias assistimos à perda de apetite, aos ganidos surdos que indicaram o início das dores, à impossibilidade de se erguer da cama…

Como não conseguia erguer-se, transportámo-la para a clínica dentro da sua cama que foi colocada em cima da marquesa. 

Puseram-na a soro e de passo em passo fomos aproximando-nos rapidamente do momento da despedida.

Fiquei junto a ela sorrindo-lhe, fazendo-lhe festas e cantarolando-lhe pequenas palavras no tom de mimo que ela tanto apreciava. Ficou sonolenta com o medicamento que lhe deram e, quando começou a respirar de uma forma bastante calma, fiz sinal à médica para prosseguir, engolindo os soluços que me subiam pela garganta.

A Tanit fitou-me com os seus olhos meigos, num olhar que foi perdendo lentamente o brilho e assim partiu devagarinho e sem sofrimento. 


Adeus, minha linda!



2009-06-14

A Amizade na Blogosfera

O Paixão dos Sentidos embora seja escrito apenas por mim, tem o imenso contributo de todas as pessoas que vivem ou trabalham comigo. Quando não estou em condições de escrever, quando perco esta vontade de vir aqui ao fim do dia para vos contar uma ou outra história que nos tocou, ele pára mesmo.
Este fim de semana antecedido por feriados, serviu para uma grande reflexão sobre a relação das pessoas e a amizade em todas as suas nuances que a Internet pode proporcionar.
Pensámos na quantidade de amigos tão queridos que nos foram contactando desde que há 3 anos demos vida a este blog, e que apenas conhecemos através da sua escrita, ou nos comentários ou nos mails que nos fazem chegar com alguma frequência. Alguns até com ideia aproximada de como são, pelas fotos que igualmente nos enviam.
Pensámos na quantidade de amigos tão especiais que conhecemos já pessoalmente graças a esta permanente troca de ideias: o Ezequiel, a Dulce, o Américo Rodrigues, o Americo Jorge, o Armando Lopes, o Luis Barros, o Rodrigo Lazcano, a Nuria, o Joaquim Santos, o Carlos Gonçalves, o Alberto Alves, o Miguel Ângelo, o Sílvio Leiria...
Pensámos nos tupinambos que finalmente crescem na horta graças à simpatia da Elsa Gonçalves e da Caryn, na série de vasos com arvorezinhas tropicais e ervas aromáticas oferecidas pelo Filipe, no “jardim do Augusto”, que é como baptizámos um espaço repleto de vasos com as plantas mais diversas que nos tem chegado através dele, assim como uma série de apetrechos de jardinagem.
E o Mário que depois nos ter convidado este fim de semana para visitarmos a sua casa em Benavente, tinha à nossa espera uma série de pequenos inventos muito úteis feitos por ele, mais uma máquina de lavar roupa que deixou de lavar para ter uma jante de mota soldada ao motor de centrifugação, permitindo assim o movimento de um cabo de aço entre esta jante e uma outra colocada num local distante com o intuito que esse cabo ao girar e levando uma série de fitas coloridas penduradas, pudesse espantar a passarada que tem vindo a dizimar as nossas plantações. E ainda o surpreendente Robot-Miguel, espantalho curiosíssimo, que possivelmente nem sequer irá para o campo espantar os corvos, tal é o carinho que sentimos por ele para não o expôr ao desgaste das intempéries e que, muito sinceramente, nem soubemos arranjar palavras para expressar o nosso agradecimento ao Mário por tamanha oferta.


Por todas estas manifestações de tanto carinho e amizade, resolvemos não publicar o texto já alinhavado para o encerramento definitivo deste blog. Em sua substituição publicamos este, acompanhado de um fortísssimo abraço a todos aqueles que nos estão a ler neste momento.
E vamos seguir em frente. Obrigada a todos!


2009-04-30

Perdendo pedaços de mim...

Foi com estupefacção que tive conhecimento da tua morte através do curto mail enviado pela tua companheira que nunca conheci. Ficava assim esclarecido o teu silêncio nestes últimos meses, a falta de resposta aos meus telefonemas, a ausência das palavras amigas no dia do meu aniversário.

Fechei os olhos e as recordações foram emergindo...

A primeira vez que nos vimos foi num treino de judo em Almada. Eras iniciado e o mestre escolheu-me para tua parceira avisando-me para começar no chão. Ensinei-te a posição do Hon-kesa-gatame. Deitaste-te de barriga para cima e eu sentei-me ao lado com as costas juntas ao teu corpo, pernas afastadas à frente, passei o meu braço em volta do teu pescoço, encostei a minha cabeça à tua e disse-te: - Agora vê se sais daí! E tu esperneavas, tentavas virar-te, davas esticões com o corpo e não conseguias sair da imobilização. De repente tive a ideia de te surpreender com um nami-juji-jime. Deslizando sobre ti, sentei-me sobre o teu tronco, de joelhos no chão e apertando-te com as coxas meti as mãos no gola do teu quimono, apertei de forma a bloquear ligeiramente as carótidas e disse-te: - Agora não vais conseguir sair daí. Bate com a mão no chão! E tu com voz sumida: - Para quê? -Para dizeres que desistes! -Não desisto! Mas que bruta!! E eu apertei um pouco mais: -Bate!! - Não bato!! E o grito do mestre: Soremade!! Larguei-te logo. O mestre a correr para nós: - Mas que disparate é esse, ó Ana?!! Nunca senti o tal espírito de judoca que o mestre apregoava e não gostava de estar a ensinar novatos. Mas mais tarde quando o mestre gritava “Randori!” e os novatos podiam escolher os graduados com que queriam lutar, quando levantava os olhos depois de ter ajeitado o quimono e o cinto, já sabia que te ia ter à minha frente de sorriso espalhado no rosto, fazendo a saudação e caminhando decidido para mim dando início ao combate e não permitindo a repetição daquele primeiro dia.

... a pulseira em aço batido, feita por ti e que usei durante anos para te manter junto a mim...

No alto das escarpas da Fonte da Telha, deitados sobre as ervas secas, observávamos as nuvens que deslizavam suavemente fundindo-se umas nas outras. - Aquela ali é um cavalo! – dizias tu de dedo espetado para o céu - Está a transformar-se... olha agora é um barco... estás a ver? E eu acenava que sim -E agora... espera... espera... ah, agora é um pássaro, viste? - E que pássaro? –perguntava eu - Deixa-me ver bem... é um tentilhão! E soltávamos gargalhadas adolescentes que voavam ligeiras em direcção ao mar -Diz-me mais nomes de pássaros… - Milheiras…. felosas… piscos… cachapins…. sabes que passarinho é este que está a cantar? - Um melro! - Oh não! Ainda não aprendeu a reconhecer o rouxinol? E de novo as gargalhadas esvoaçavam sobre nós até se sumirem levadas pela brisa

... as pardelhas que procuravas só para me fazer feliz...

Teste de tuberculina positivo. O médico ligou o radioscópio e quis que eu visse a sombra que se espalhava sobre o teu pulmão. Depois de um abraço carregado de medos, partiste para as terras quentes do teu Alentejo, donde regressaste depois de uma eternidade, mais forte... mais homem

... o pequeno tear que construíste para eu aprender a tecer com junco...

Numa manhã fria e chuvosa, aguardavas a minha passagem meio escondido debaixo de um toldo escuro. O cabelo desgrenhado e a barba escura no teu rosto gelado de lábios arroxeados eram estranhos aos olhos incendiados pela alegria de me ver aparecer. O teu corpo tremia e receei que desmaiasses ali, sem saber o que sentias e o que pretendias. Sentámo-nos à mesa de uma pastelaria e pedimos bebidas quentes. Não disseste nada e eu também não. Pegaste nas minhas mãos e depuseste um beijo morno. Levantaste-te e partiste

...os cestos miniatura que concebias para eu aprender cestaria...

Os teus olhos baixaram comovidos sobre a mesa quando coloquei no teu pulso a minha velha pulseira de prata. Ao nosso lado, a empregada varria o chão atirando para a frente beatas, pacotinhos de açúcar, guardanapos, caricas… - É para usar sempre? - perguntaste. E o rosto iluminou-se com o teu sorriso lindo quando te disse que sim

...os órfãos ouricinhos cacheiros para eu acabar de criar...

Parados no cais com os olhos afundados no Tejo, disseste: - Gostava de fazer uma viagem no meu barco, sem tempo, nem destino. Queres vir comigo? Só os dois? Fixei os teus olhos fundos que se prenderam nos meus numa carícia entristecida e senti no teu abraço quente, um pedido de desculpa.

... a tua insistência para eu reparar na beleza das flores minúsculas que espreitavam dos prados...

Estendidos sobre a relva, olhávamos para uma joaninha que hesitava caminhar sobre a tua mão ou a minha. Preferiu a tua e acelerada trepou o dedo que mantinhas espetado. Com as cabeças juntas cantarolámos baixinho: - Joaninha, avoa.. avoa… E ela abrindo as asas partiu esvoacejando, tal como tu fizeste recentemente levando contigo uma parte de mim que nunca mais irei recuperar.

Post Scriptum: Em Outubro de 2006 num texto que publiquei aqui com o nome “As saudades de um amigo”, terminaste deste modo o teu comentário “Ainda assim tomara que alguém escreva um texto tão bonito quando eu morrer como o que escreveste sobre o Thor”

Sinto uma tristeza imensa por não ter conseguido escrever à altura do que mereces, Fernando. Mas deixo aqui expresso o enorme carinho que sempre senti por ti e o desgosto desmedido por teres partido definitivamente da minha vida, apenas suavizado por tão doces recordações

2008-11-17

Não te esqueci, meu amigo

No meu tempo de adolescente uma das maneiras para se iniciar correspondência com alguém desconhecido era ler vários anúncios publicados nos jornais diários.
Foi assim que um dia resolvi responder a um pedido de um jovem brasileiro que pretendia corresponder-se com uma menina de Portugal dando início a um contacto que em breve daria origem a uma grande amizade que se prolongou por uns vinte anos.
Entrámos praticamente juntos na crise de uma adolescência partilhando todas as nossas alegrias e decepções.
Relia à noite as suas enormes cartas em que comentava a situação do Brasil de então, as dificuldades para se arranjar um emprego, os seus problemas para se manter na faculdade.
Imaginava-o fechado no seu quarto, ao entardecer, escrevendo-me cartas e postais enquanto contemplava distraído o evolar do fumo do seu cigarro.
Tratava-me carinhosamente por Emi e no meu aniversário, mais semana, menos semana, recebia um postal bonito e as palavras quentes de quem se sente ligado pelo coração.
Sujeitávamo-nos ao roubo constante de pequenos nadas que enviávamos dentro dos sobrescritos que eram continuamente violados, nunca percebi se aqui em Portugal ou lá no Brasil.
Chamava-se Meinardo, nome de flor, e foi sempre um companheiro presente, através de carta, nos grandes momentos da minha vida como foi o do casamento e nascimento dos meus filhos.
Ao fim de todos estes anos perdi as suas cartas e apenas guardo os postais com paisagens diversas do Brasil incluindo João Pessoa, zona onde vivia.
E também as fotos. As primeiras ainda muito menino e depois mais tarde já um homem de aspecto bondoso e olhar sonhador.
As cartas foram diminuindo em tamanho e frequência.. A minha nova vida de empregada bancária, o casamento, os filhos, o recomeçar dos meus estudos, não me permitia a disponibilidade necessária para continuar a escrever as longas cartas de outrora.
Mas houve uma altura em que deixei de receber a sua correspondência não respondendo sequer à insistência das minhas cartas que exigiam uma resposta breve. Vários meses se passaram até que um dia recebi um envelope debruado com as cores do Brasil que depois de aberto deixou cair um pequeno embrulhinho no meu colo e onde alguém escrevera “Abrir só depois de ler a carta”.
Saltando de linha em linha, fui lendo o relato plangente feito por um seu irmão que me contava de forma breve mas cautelosa, a morte de Meinardo no mar ao tentar salvar um primo arrastado pela ondulação forte quando brincava na praia .
Abri finalmente o embrulhinho que nada mais era que um pequeno cartão com a sua fotografia, a data de nascimento, 23.11.49 e a do seu falecimento, 3.3.80 (quatro dias antes do meu aniversário)
Li dificilmente entre lágrimas este elogio fúnebre: Ele descansa em paz. Seu nome hoje se encerra mas em nossos corações há-de permanecer. Cumpriu nobre missão sobre a face da terra: foi bom filho, bom irmão, bom tio, bom primo e bom amigo. Soube amar e sofrer.
Ainda hoje, quando folheio o álbum onde guardo as minhas recordações de menina, sorrio ao olhar uma foto que exibe o seu doce rosto e que tem escrito no verso uma frase que o tempo conseguiu dissipar a sua risibilidade “Basta me esquecer quando esta foto falar”

2007-10-22

Quando os homens da ciência também falam de compotas…

Há umas semanas atrás, recebemos um mail de um senhor chamado Mário Portugal que explicou ter-nos conhecido através do post de Março deste ano onde falamos do cientista Bettencourt Faria... e que era seu irmão.
As grandes surpresas da blogosfera !
A partir desse momento iniciou-se uma troca diária de mails.
O Mário é uma pessoa extremamente delicada e generosa, fazendo parte da grande família de radioamadores. Tem um saber imenso sobre múltiplos assuntos relacionados com a ciência. Uma curiosidade desmedida sobre o funcionamento de tudo o que é novo. Um gosto enorme pela vida e uma alegria que transpira em tudo o que escreve Os seus mails lêem-se e relêem-se absorvendo todas as informações e memórias que ele adora partilhar.
Entre tanta informação variadíssima, fomos surpreendidos pela gentileza do envio de uma receita ainda manuscrita pela sua falecida mulher.
Em sua homenagem demos-lhe o nome de “Doce de Figo da D. Alice”
Como a nossa figueira ainda tinha uns figos meio maduros, resolvemos experimentar a receita de imediato. É facílima de fazer e posso garantir-lhes que é um doce de comer e chorar por mais. Para os interessados (e estamos a pensar no Luciano) aqui segue a receita.

Primeiro lavam-se os figos e depois faz-se em cada um, 2 ou 3 furinhos com um palito.
Posted by Picasa

A seguir pesam-se e põem-se num tacho, juntando igual peso em açúcar. Cobrem-se com água e deixa-se ficar a descansar de um dia para o outro.
Posted by Picasa

No dia seguinte põe-se o tacho ao lume e vai-se deixando ferver lentamente mexendo com cuidado por uma hora ou mais
Posted by Picasa

de forma a ficar um caramelo não muito espesso.
Se por acaso engrossar demasiado, como nos aconteceu, junte um pouco de água com precaução porque vai espirrar pela certa.
Posted by Picasa

Depois de pronto é só deixar arrefecer e pôr em frascos de boca larga
Posted by Picasa


Comem-se assim inteirinhos e bem regados de caramelo.
Se ainda têm alguns figos maduros ou meio maduros nas vossas figueiras, não hesitem e experimentem. Depois agradeçam esta partilha ao cientista Mário Portugal :))

2007-01-19

Os Sentidos da Memória

Conhecia perfeitamente aquela dificuldade em respirar, aquela força invisível que lhe apertava dolorosamente o peito. E lembrou-se da menina com olhos inocentes que imaginava o seu mundo grandioso, perfumado, doce, macio e melodioso, e daquele dia/noite, em que esse mundo magnífico foi invadido pelo espanto e pelo medo, ficando para sempre corrompido. Reconhecia estes tentáculos que desde então emergiam do fundo de si, torturando-a durante dias até se desvanecerem lentamente. Olhava frequentemente o relógio, ansiando pelo momento da saída.
Ao chegar à rua viu-o no carro, esperando-a: Desculpa mas estou muito em baixo, só me apetece desaparecer daqui. Vou para casa.
E ele disse apenas: Eu levo-te!
Sentou-se no carro, fechou os olhos e seguiram calados. Passado algum tempo, o carro parou...


Ela abriu os olhos sentindo um cheiro forte no ar: Onde estamos? No Guincho!- respondeu ele - Vem que tenho uma surpresa para ti.
Estava um cair de tarde agradável com um vento morno que vinha do mar e se roçava em tudo e em todos. Ele abriu a porta do seu lado e baixando-se tirou-lhe os sapatos, tirando os dele também. Foi ao porta bagagens e pegou numa mochila que pôs às costas. Deu-lhe a mão e escorregaram pelas dunas de areia, de pés descalços em direcção ao mar. Este com os seus ímpetos revoltos desabava toneladas de água que faziam estremecer o solo. Ela parou ao vê-lo andar para a frente e para trás como se procurasse algo. De repente ele disse: Ficamos aqui!
Pôs-se de joelhos, começou a escavar a areia, depois amontoou-a e alisou-a por cima fazendo uma espécie de banca. Abriu a mochila tirou uma toalha branca guarnecida com pequenas cerejas vermelhas bordadas à mão que estendeu sobre a mesa de areia, passando-lhe a mão por cima. E disse: Senta-te! E ela sentou-se esboçando o primeiro sorriso desse dia.
Tornou a abrir o saco e tirou duas chávenas de porcelana branca com uma grinalda de folhinhas verdes e douradas pintada no topo, colocou-as em cima dos pires e estes em frente de cada um deles. A seguir apareceu um açucareiro de vidro com cubos de açúcar, duas colherzinhas, uma lata azul com biscoitos de canela, a depois um rádio a pilhas que sintonizou na Antena 2.


…e por fim um termo que continha um chá fumegante que verteu em cada uma das chávenas. Um aroma jovial entrou pelas suas narinas. Que chá é este, tão perfumado? É chá de Príncipe! Bebe e vais sentir-te feliz!
E ficaram os dois calados, olhando o mar grandioso, sorvendo pequenos goles de chá que exalava um perfume cítreo, saboreando a doçura dos bolinhos, com os pés enterrados na areia macia e ouvindo o Amanhecer de Peer Gynt com um sorriso enorme desenhado em cada um dos nossos rostos.

(Dedicado ao meu amigo Didi)

2006-12-10

As bênçãos do senhor Francisco

Posted by Picasa O senhor Francisco era um homem conhecido num raio de acção de muitas dezenas de quilómetros. Tudo nele era singular. Usava o cabelo caído pelos ombros, uma barba grande que esvoaçava sobre o peito, um terço gigante que trazia pendurado ao pescoço. Sempre que passava por uma igreja ou capela, saía da sua bicicleta, entrava e passava uns minutos em oração. Nas missas dominicais antecipava-se ao padre, só se mantendo em silêncio nas homilias que ouvia respeitosamente. Comungava todo nu, escondendo as suas partes pudibundas num cobertor que enrolava em volta de si. Vivia numa pobreza extrema, habitando numa barraquita de madeira e com partes forradas a chapa de alumínio para evitar a entrada do vento e da chuva, dividindo o seu espaço com uma burra sua companheira de solidão, uma vez que tinha sido abandonado pela mulher e filhos. Era um homem doce. Quando me via ao longe acenava-me cheio de alegria, chamando pelo meu nome e, ao aproximar-me, via-o erguer a mão à minha frente, dando forma a uma cruz com a qual me benzia. Sentia-me bem quando o encontrava porque me dizia coisas magníficas: “Ai que bom é vê-la senhora dona Ana, uma senhora tão linda e tão boa!” E depois baixando os olhos dedicava-me um padre-nosso ou ave-maria conforme as circunstâncias ou a inspiração do momento. Várias vezes lhe dei trabalho na quinta e nunca quis receber o dinheiro. Apenas aceitava roupa e comida, desde que não fosse carne que recusava por muita fome que tivesse. Um dia apareceu aqui à hora do almoço. Perguntei-lhe se já tinha almoçado e disse-me que sim. Conhecendo a delicadeza do senhor, disse-lhe que então ia almoçar outra vez comigo o que ele não rejeitou. Apareceu também o meu filho que vinha comer à pressa para depois sair e continuar com as suas tarefas profissionais. Quando pus a comida nos pratos, o senhor Francisco baixou a cabeça e começou uma oração de graças que respeitámos ainda que nenhum de nós fosse religioso. Mas a oração foi sendo cada vez mais aumentada e abrangente. Da comida passou para os donos da casa, para os filhos dos donos da casa, para os familiares, para os amigos, para os animais, para as pessoas da cidade, para a paz no mundo e sucediam-se padres-nossos, aves-marias e uma série de orações que desconhecia… quase o tempo de uma missa. A comida arrefeceu no prato. O meu filho olhava discretamente para o relógio, até que por fim ouvimos o amém final e pudemos começar a comer. Terminada a refeição assustámo-nos quando o senhor Francisco baixou de novo a cabeça mas foi apenas um curto agradecimento pela refeição. Estava uma tarde de imenso calor e ele vestido com um fato grosso e por cima um sobretudo que eu lhe tinha oferecido há uns meses atrás. O que tapa do frio, tapa do calor! Era a sua afirmação. Levou umas sandes para o lanche, despediu-se de mim com as bênçãos do costume e no final com os olhinhos a brilhar insistiu: “Ai que senhora tão linda!” E foi a última vez que me visitou. Uma tarde vi-o a pedalar pela estrada fora e buzinei-lhe. Ele acenou-me e pelo espelho retrovisor consegui aperceber-me do sinal da cruz desenhado no ar, o qual agradeci levantando o braço. Passados alguns meses perguntei por ele às senhoras que trabalham aqui nas terras. - Ah, não sabe? O senhor Francisco morreu! - Oh!... morreu? Coitadito... não sabia! Mas morreu de quê? - Olhe, morreu todo queimado. Acendeu uma fogueira dentro da barraca para se aquecer, deve ter adormecido e o fogo agarrou-se às vestes, às barbas. Ainda saiu aos gritos mas quando os vizinhos chegaram já estava todo queimado e a morrer. Fiquei sem saber o que dizer. Durante muitos dias fartei-me de pensar na morte horrível que teve e na sua vida tão miserável apenas iluminada quando encontrava alguém amigo ou quando recolhia em oração. Gostava das suas visitas e das atenções que tinha para comigo, que mais não fosse por aquela mão erguida oferecendo bênçãos. Tenho saudades daquele “Ai que senhora tão linda!” que me animava o coração

2006-10-03

As saudades de um amigo

Posted by Picasa
Hoje senti muitas saudades tuas, Thor. Há já uns meses que fizemos a nossa última viagem. Deixaste de dormir no teu canil com os outros companheiros da matilha para viveres a meu lado, noite e dia, deitado na tua cama e atento a todos os meus movimentos dentro de casa. Julgo que foste muito feliz nessas últimas semanas em que finalmente pudeste guardar-me durante 24 horas. De manhã levantavas o focinho e acordavas-me com o beijinho de bons-dias. Eu arranjava-me em frente ao teu olhar vigilante e depois empurrava a tua cama até à porta para te ajudar a levantar e poderes sair, cheirar o ar e as ervas e fazeres as tuas necessidades em posições cada vez mais difíceis devido à amputação da pata. Poderiamos ter evitado essa operação mas o prognóstico era tão pessimista desde que te foi detectado o sarcoma ósseo, que para evitar abreviar-te a vida sem sabermos se seria cedo demais e esperançados na cirurgia e quimioterapia, resolvemos tentar tudo por tudo para te salvar. Recuperaste bem da intervenção e aprendeste a andar com as 3 patas, saltitante. A quimioterapia também não te deitou abaixo e viamos-te com ar sossegado, sem dores e feliz por estares perto de nós. Foram semanas de ligação diária muito forte. Passavas o dia deitado perto de mim, interessado em tudo o que eu fazia, dando uns suspiros de satisfação que me davam um grande bem estar. Á noite dava-te o jantar na cama e depois arrastava-a para o meu quarto para dormires ao meu lado. Sempre que acordava, perguntava-te baixinho: "Tudo bem, Thor?" E ouvia a cauda a responder alegremente. Mais tarde começaste a ressentir-te de uma das patas traseiras. Mudança de tratamento e melhoria nos movimentos. Mas foi sol de pouca dura. Uma noite ao virares-te na cama, não conseguiste virar o corpo por igual e acordei com os teus ganidos. Ajudei-te na posição mas percebi que tudo se estava a complicar. Todas as manhãs era um esforço enorme para mim e para ti, tirar-te da cama para te colocar no jardim. Passei a arrastar o cobertor contigo em cima, arrastando os teus 40 e tal quilos pela relva, tentando não magoar-te. Mas a dada altura já te queixavas de qualquer movimento e falei para o veterinário que foi muito claro: a partir dali não ia haver melhorias e irias passar a sofrer. Não era nada disso que queria para ti, meu amigo. Por isso preparei-te um pequeno almoço de leite com nestum que tu lambeste sôfrego de prazer. Pedi ajuda e metemos-te com a cama no carro. Ias satisfeito porque já tinhas percebido que a ida ao veterinário te melhorava sempre de qualquer mal-estar. Era um sábado cheio de sol. O médico e a menina ajudaram-me a levar-te para a marquesa. Puseram-te a soro. Todos falavamos contigo como sempre o fizemos e com muitas carícias. Sei que já consideravas aqueles profissionais como grandes amigos esperando sempre o biscoito de prémio. Estavas muito sereno, segundo o médico me disse depois de te ter auscultado. Abracei-te e pousaste a cabeça no meu braço como fazias sempre que iamos ao tratamento. Cantarolei baixinho uma cantiga de ninar. O médico começou a anestesiar-te e tu fechaste os teus olhos doces, suspiraste e partiste. Só nesse momento permiti-me chorar.
Adeus Thor! Tenho tantas saudades tuas

2006-08-14

O mais belo quadro do mundo

Não nos perguntem pela cidra. Temos tudo a postos mas ainda não iniciámos o processo. Dêem-nos mais uns dias. Prometo depois contar-vos as nossas emoções.
Entretanto recebi notícias vindas do México, da minha amiga Blanca. Falou-me de Adrian, seu filho que ia estudar e trabalhar numa cidade distante. Pude ler a lindíssima carta que lhe escreveu para entregar no momento do último abraço. Não resisti a publicá-la aqui:
… Y era este el momento en que tenias que partir, sin duda es este.
No estoy segura de estar lista para dejarte, y sin embargo me siento fuerte por ti.
Todos los dias desde tu nacimiento estuve preparando este instante en que iba a darte un beso, tocar tu mano, abrir la puerta y decirte: adelante!
Es como hacer un cuadro, el mas bello de los cuadros del mundo. Saber que he puesto en el lo peor y lo mejor de mi, que es parte de mi obra para el mundo. Ahora que tengo que entregarlo siento el orgullo de lo que hice, la tranquilidad de lo que eres, la confianza que te tengo, el calor que hay en mi corazon para darte a la distancia…. Pero voy a extrañarte.
Siento orgullo por nosotros, lo hemos logrado!
Hoy estamos de pie en el quicio de la puerta donde vamos a decir:
-Nos vemos Madre!
-Nos vemos Hijo!
Me fio de ti. Creo en ti. Se que tendras altibajos, que encontraras dificultades, que habra momentos en los que no vas a confiar en ti. Tendras de vez en cuando la idea de que el camino es lento y pesado y que no puedes. Entonces, solo deja las cosas a un lado del sendero, recuesta tu cabeza sobre el cesped y reposa un instante. Toma fuerza de tu naturaleza misma. Date espacio, date permiso de equivocarte, duerme un rato. Y si lo necesitas, recibe con el pensamiento un beso y sienteme. Ahí estare, como cuando eras pequeño.
Si por azares de la vida no consiguieras lo que te propones, no importa para mi, igual eres mi hijo, igual te amo.
Quiero que seas consciente, siempre, de que tienes en tus manos las herramientas, las armas, los elementos para hacer de tu vida lo que tu elijas, para seguir el camino que te marques. Debes esforzarte incluso un poquito por encima de tus limites, porque hasta que no los sobrepasas no sabes donde estan.... Es una forma de conocerte a ti mismo e intentar superarte. Si eres consciente de lo que en verdad eres, tu esencia; si sabes tus limitaciones, tus potenciales; si eres cabal con lo que quieres, si ubicas tu realidad, si eres sensato con lo que posees, si no te escondes de ti mismo; entonces vas a lograrlo todo.
Descanso pensando que asi es, solo debes recordarlo. Yo se todo lo que vales y se de tus debilidades, asi que espero de ti que hagas con todo ello una vida feliz por que eso es lo mas importante en la vida, ser feliz. Disfruta del camino tanto como del destino.
Y quiero que sepas que yo estare siempre para ti cuando me necesites. Estes donde estes, sea lo que sea, sin reservas, apoyandote. Se consciente en todo momento que voy a estar para ti siempre, antes que nadie, antes que para nadie. LLevate eso gravado en el corazon.
Te quiero Adrian, te quiero tanto…
Mama