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2011-06-11

Um Santo António muito atarefado

Ando há umas semanas tristíssima com a perda de um brinco que herdei de um familiar querido.

Fiquei quase em estado de choque quando ao mirar-me ao espelho na rotineira higiene matinal, me apercebi que tinha uma orelha nua.

Pensei que o tivesse perdido enquanto dormia e por isso corri a desmanchar a cama e depois procurei  pelo chão, dentro dos sapatos, nas bainhas das calças, nos bolsos das camisas... em todos aqueles sítios onde poderia ter ficado retido. 

Não o encontrei em lado nenhum!

Como também o podia ter perdido nos passeios pela mata quando levo a Camila a fazer exercício por causa da sua displasia, passei a caminhar curvada, perscrutando atentamente se por entre as terras arenosas que brilham e rebrilham devido ao quartzo e à mica, vislumbrava a pequena pecinha de ourivesaria feita em ouro branco e com uma pedra de cor vermelha escuro.


Ao ouvir-me lastimar, junto do pessoal, pedindo a sua atenção no decorrer dos trabalhos, a dona Conceição chamou-me de parte para me confidenciar que se eu quisesse, poderia fazer um responso a Santo António e o brinco apareceria muito rapidamente

A minha falta de cultura é tão grande que não fazia a mínima ideia do que era um responso e, cheia de curiosidade, pedi-lhe para o fazer.

A senhora, semicerrando os olhos e colocando as mãos em oração, foi dizendo quase em surdina:

"Se milagre desejais, recorrei a Santo António, vereis fugir o demónio e as tentações infernais. Recupera-se o perdido, rompe-se a dura prisão, e no auge do furacão, cede o mar embravecido. Pela sua intercessão foge a peste, o erro, a morte, O fraco torna-se forte e torna-se o enfermo são.

Recupera-se o perdido brinco da minha patroa. Recupera-se o perdido brinco da minha patroa.

Todos os males humanos se moderam e se retiram. Digam-nos aqueles que o viram. Digam-nos os paduanos.

Recupera-se o perdido brinco da minha patroa. Recupera-se o perdido brinco da minha patroa.

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Assim como era no princípio, agora e sempre. Ámen.

Recupera-se o perdido brinco da minha patroa. Recupera-se o perdido brinco da minha patroa,

Rogai por nós, bem-aventurado Santo António, para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Recupera-se o perdido brinco da minha patroa. Recupera-se o perdido brinco da minha patroa.

Deus eterno e omnipotente. Vós quisestes que o vosso povo encontrasse em Santo António de Lisboa um grande pregador do Evangelho e um intercessor poderoso. Concedei seguir fielmente os princípios da vida cristã, para que mereçamos tê-lo como protector em todas as adversidades. Por Cristo Nosso Senhor. Ámen" 

Depois de uns segundos de silêncio, emergiu daquele momento religioso e disse-me:

- Vai ver que num instante o brinco aparece!

Só que este responso foi feito há 2 semanas e por mais que se procure (sim, porque já percebi que não se pode esperar sentada e tem que se dar uma ajudinha), o brinco continua desaparecido.

Mas ainda ontem dei comigo a pensar que a altura não deve ter sido a melhor, uma vez que o Santo deve andar numa roda-viva com as festas que lhe estão a ser dedicadas durante o mês de Junho, um pouco por todo o país. 

Em Lisboa, no dia 12 vai benzer e ser o padrinho de casamento das 16 noivas de Santo António, tarefa que não deve ser nada fácil, devendo estar presente no Copo de Água, com boa comida, bebida, fadistas, bailarinos, etc. Depois, na noite de 12 para 13 vai estar presente no desfile das marchas populares de Lisboa, participando a seguir na noitada de sardinhas e vinho tinto, largando balões pelo ar e com ofertas de manjericos enfeitados com cravos de papel e quadras populares. 

Ainda por cima vai ter a preocupação de pela manhã do dia 13, estar fresco para participar nas eucaristias feitas na sua igreja de Lisboa, onde ainda se guardam alguns ossos seus, estar presente na grande procissão da tarde, não esquecendo as missas solenes ao meio-dia e depois às 9 da noite no encerramento das festividades.

Por tudo isto, vou ter que aguardar pacientemente que os festejos terminem para então apanhar o santo mais disponível para localizar o meu brinco, ainda que tenha caído aqui um temporal de chuva e granizo que arrastou terras e pedras acumulando-as em quase todos os caminhos que mais utilizo nas andanças dentro da quinta :(

2008-04-12

O círculo dos cogumelos

Para iniciar este post começamos por afirmar que temos horror ao consumo de cogumelos apanhados por pessoas que se dizem experientes na matéria.
Limitamo-nos a comprar Cogumelos de Paris, frescos, em estabelecimentos que nos inspirem confiança, ainda que o pessoal que aqui trabalha apanhe sacos de míscaros que levam para casa com a condição de não os dizimarem completamente.
Há alguns anos fomos almoçar a um restaurante que tinha como um dos pratos do dia, arroz de míscaros. Resolvi esquecer o terror dos cogumelos e como nunca tinha provado míscaros, confiei na casa e pedi um prato para mim que realmente estava uma delícia, já não sei se dos míscaros ou se das carnes.
No final ficámos a conversar um pouco com um dos donos que já conhecemos há muitos anos e perguntei onde é que eles se iam abastecer de míscaros. Fiquei apavorada quando o ouvi dizer que compravam a umas senhoras que apanhavam pelos pinhais e que os iam entregar em cestos logo pela manhã. Só me restava esperar que não tivesse havido erro nenhum na colheita e que essas senhoras percebessem muito mais de míscaros do que eu, o que felizmente aconteceu.
Lembrámo-nos de escrever sobre cogumelos porque temos andado intrigados com um tipo de cogumelos pequenos e brancos, parecidos com os de Paris, que se dispõem ao longo de uma linha circular.
A foto abaixo foi a possível. Mostra o início da formação de um desses círculos que são sempre destruídos com a passagem continua dos animais.

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Depois de várias leituras ficámos a saber o seguinte:
O cogumelo é apenas a parte visível de um fungo. É o seu corpo de frutificação que pode soltar milhões e milhões de esporos por dia. Por sua vez o fungo desenvolve-se subterraneamente, constituído por finas ramificações denominadas hifas, a cujo conjunto se dá o nome de micélio e cuja função é a de conseguir os nutrientes necessários. Alastra-se circularmente a partir de um ponto no centro, aumentando o diâmetro do círculo de ano para ano, se as condições foram satisfatórias, podendo ir de poucos centímetros até dezenas de metros.
Mais tarde encontrámos uma foto na Net que dá uma óptima ideia de como o fungo se pode alastrar se não encontrar nenhum elemento que prejudique a sua expansão.

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Estava assim explicada a razão dos círculos destes cogumelos que aparecem frequentemente nas nossas zonas de pastagem.
Estas formações fazem no entanto parte da mitologia celta e também do imaginário colectivo duma série de países da Europa, mais acentuado nos países escandinavos. São os chamados Anéis das Fadas ou Rodas das Bruxas.
Estes círculos seriam visitados por uma série de figuras maravilhosas pertencentes ao mundo das florestas: fadas, bruxas, elfos, duendes, etc. que se reuniriam e dançariam em noites de lua cheia. É interessante ler as mil e uma orientações publicadas na Net sobre este assunto.
Sendo um mundo estranho e invisível para o homem, este também poderá assistir ao espectáculo se der 9 voltas ao circulo no sentido dos ponteiros do relógio. Deve vestir uma roupa leve e esvoaçante se tiver intenções de participar destes encontros mágicos. Ficámos a saber que se fizer um pedido junto ao anel das fadas, tem-se a garantia de vir a ser satisfeito. Deve ter-se o cuidado de nunca urinar para dentro do círculo o que provocará uma doença venérea grave. Ficámos a saber também que tipo de comida ou guloseimas são do agrado destes seres. Deve evitar-se pôr os dois pés dentro do círculo porque poder-se-á entrar no mundo das fadas e sem hipótese de regresso… a não ser que alguém tenha assistido ao acontecimento e que após 7 anos, do nosso tempo real, para 1 dia do tempo mágico, se coloque junto a um desses círculos numa noite de lua cheia e esperar pela dança para poder depois puxar com toda a força a pessoa perdida, não colocando obviamente os seus 2 pés dentro do anel.
Por curiosidade andámos a ler diversos contos tradicionais portugueses num livro de Consiglieri Pedroso que compilou uma série de contos junto de uma população muito diversificada que repetia lendas e contos ouvidos pela boca dos seus antepassados, quando a oralidade era o meio usado para a difusão de informações. O livro foi editado em 1910 apoiando-se também numa compilação feita em 1883 por Teófilo Braga e noutra mais antiga ainda feita em 1879 por Adolfo Coelho. Muitos desses relatos importados pelo contacto com povos indo-europeus, sofreram várias adaptações ao nosso meio e cultura. Mas muitos têm características unicamente ibéricas.
Estávamos com esperança de ler alguma história que se referisse a estes Anéis de Fadas, mas não encontrámos nenhuma referência nas dezenas de contos que estivemos a ler.
Pudemos também constatar que as fadas dos nossos contos não são seres esvoaçantes, luminosos e de uma beleza indescritível. A fada entra no conto essencialmente para cumprir a sua função, sem se perder tempo com descrições do seu aspecto físico. A bruxa é apenas uma fada maléfica.
Também nos pareceu curioso saber que alguns cogumelos eram usados em certas cerimónias religiosas devido ao seu efeito alucinogénio que provocava sonhos estranhos repletos de movimentos de luzes com várias cores, precisamente as características descritas pelas pessoas que afirmam já ter visto fadas num dado momento da sua vida.

Este assunto interessou-nos de tal maneira que voltaremos a ele quando dispusermos de mais informação
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2006-11-24

Figueiredo das Donas e o crocus romano

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Fomos visitar Figueiredo das Donas pertencente ao concelho de Vouzela. Tirámos várias fotos às ruínas de uma casa senhorial e a seguir fomos procurar a via romana que liga Carregal, Figueiredo das Donas, Bandavises e Fataúnços que foi o que motivou a nossa visita. Este troço fazia parte de uma estrada romana que ligava a cidade (civitas) de Viseu ao litoral. O caminho estava em muito bom estado e ainda era utilizado pelos locais nas suas deslocações. Tinha uns 3 metros de largura e como era costume nestas zonas, devido à abundância, era calcetado com o aproveitamento das rochas de granito que emergiam da terra.
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Estavamos sentados num murete (muito mais recente) a usufruir do perfume do ar e do silêncio quando reparámos neste crocus que luzia por entre a folhagem. Perguntámo-nos se seria um Crocus sativus ou um Crocus autumnale, que é como quem diz um Colchicum autumnale. Não chegámos a conclusão nenhuma pois não somos nenhuns entendidos. Mas talvez a segunda hipótese. O Crocus sativus, já conhecido e usado pelos gregos e romanos, é donde se extrai o verdadeiro açafrão a partir dos estigmas e estiletes secos da flor, percebendo-se a razão de ser do seu preço elevadíssimo. Digo verdadeiro açafrão porque o que costumamos comprar a um preço acessível é feito a partir do rizoma de uma planta da família do gengibre e por isso de cor amarelada enquanto que o verdadeiro é vermelho alaranjado.
E este post terminaria aqui, se não tivéssemos andado a pesquisar outras informações sobre a origem de Figueiredo das Donas. Ficámos a saber que as ruínas às quais tirámos algumas fotos, Posted by Picasa tinham a seguinte história:

No séc. VIII, um cavaleiro chamado Guesto Ansur e natural da zona de Lafões, juntamente com outros cavaleiros, tentaram libertar 6 donzelas que levadas pelos mouros iam ser entregues ao Emir de Córdova, fazendo parte de um pacto em que este emir receberia 100 donzelas todos os anos. O confronto deu-se num figueiral ou figueiredo, tendo o cavaleiro Ansur continuado a luta com uma pernada de figueira ao ficar sem a sua espada. Os mouros acabaram por fugir deixando as donzelas. Daí o nome de Figueiredo das Donas. Ansur acabou por casar com uma delas que já seria sua noiva e construíram um paço: as ruínas fotografadas. Posted by Picasa














No site Figueiredo das Donas encontrámos uma cantiga de amor supostamente escrita por Ansur e dedicada à sua amada:

No figueiral figueiredo
a no figueiral entrey,
seis ninas encontrara
seis ninas encontrey
para ellas andára
para ellas andey
lhorando as achára
lhorando as achey
................
las ninas furtára
las ninas furtey
La que a mi falára
nalma la chantey

2006-11-02

A estrela dos lagos

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Hoje tivemos o prazer de sermos orientados pelo prof. Jorge Paiva numa visita ao Jardim Botânico de Coimbra, uma divulgação feita pelos responsáveis do site Dias-com-Árvores correspondendo ao convite feito pelo prof. Mário Tomé.
O entusiasmo do prof. Paiva contagiou o grupo que pôde ver atentamente todas as raridades do jardim como a Erythrina crista-galli, Cryptomeria japónica, Cunninghamia sinensis, a colecção de Eucalyptus, a Ginkgo biloba, a sequóia gigante da Califórnia, as várias palmeiras, a figueira da Austrália, os plátanos, choupos, ulmeiros, as cores que começam a pintar o Acer japonicum, o Liquidambar sytraciflua, o ambiente de penumbra poética criado pelo magnifico bambuzal de grande porte de Phyllostachys bambusoides e ainda com uma visita final ao Museu Botânico.
Mas como decidimos falar apenas de uma planta, escolhemos por unanimidade a Victoria amazonica ou Victoria régia. É uma planta aquática flutuante, pertencente à família das Nymphaeacea, originária da zona equatorial da América do Sul.
As suas folhas que parecem bandejas redondas podem atingir os 2m de diâmetro. Possui nervuras na sua parte inferior, ajudando-a a flutuar, tendo uma borda de 5 a 10cm que evita a entrada da água que poderia provocar o seu apodrecimento. Para evitar encher-se com a água das chuvas, possui um canal a meio da folha que orienta a água até 2 fendas que tem na borda. Possui também uma série de espinhos na parte inferior da folha para evitar assim os predadores, como os peixes e crocodilos.
Agora o curioso é termos podido ver uma das suas flores aberta. É que ela fora do seu ambiente natural só floresce uma vez por ano e a flor só dura 48 horas.
A flor é branca abre a meio da tarde até à manhã seguinte, exalando um perfume que atrai os besouros polinizadores. Depois fecha aprisionando os insectos que só tornam a sair a meio da tarde desse dia quando ela tornar a abrir com uma cor rósea e já devidamente polinizada. No terceiro dia adquire uma cor mais escura, a flor fecha, mergulha e o fruto amadurece na água, cerca de seis semanas depois da floração.
Existe uma história lindíssima entre os índios da Amazónia que explica o aparecimento da Victoria amazonica. Conta a lenda que uma índia chamada Naiá apaixonou-se por Jaci, a lua. Acreditava que Jaci em noites de lua cheia, descia à terra procurando uma virgem, transformando-a depois em estrela para lhe fazer companhia. Naiá queria a todo o custo tornar-se também numa estrela para brilhar ao lado de Jaci.
Atraídos pela sua beleza, os homens tentavam cortejá-la na esperança de virem a ser escolhidos. Naiá a todos recusava apenas preocupada em ser escolhida por Jaci. Passava as noites sentada mirando a lua e quando amanhecia, corria no sentido oposto ao sol para tentar alcançá-la. Mas uma noite, exausta, acabou por adormecer à beira de um lago. Quando acordou, exultou de felicidade ao ver a lua reflectida e julgando ser o momento tão esperado, mergulhou nas águas profundas acabando por se afogar.
Jaci, ao ver o sacrifício de Naiá, resolveu fazer-lhe a vontade e transformá-la numa estrela, mas uma estrela dos lagos: a bela Victoria régia, abrindo as suas pétalas ao luar para finalmente reflectir a luz de Jaci. Posted by Picasa