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2021-07-10

Um Parêntesis

Hoje vou fazer um parêntesis nesta série de publicações que temos vindo a fazer sobre a quinta, suas plantas e seus animais. Posted by Picasa Certamente já se interrogaram sobre a razão de ser desta fotografia. É muito simples! Apresento-vos os meus pais, o famoso e internacional ilusionista Princ e a sua partenaire Juliette. Pois é verdade, sou filha de artistas de circo! Eram anos difíceis. Milhares de desempregados (sem subsídios), dificuldades várias e muita fome à mistura. O meu pai resolveu enveredar pela vida artística e preparou-se nesta arte. A internacionalidade dele só era verdadeira se pensarmos nos distantes ascendentes espanhóis, pois que nem sequer em Espanha tinha posto os pés. A minha mãe Julieta, alentejaníssima, só conseguia passar por francesa, com a sua tez morena e cabelo frisado, nas tournées pela província onde ainda nem se sonhava que um dia iria aparecer uma coisa chamada televisão. O convívio com as práticas do ilusionismo fez de mim uma mulher céptica que muitas vezes não acredita no que os seus olhos vêem (e muito menos no que vêem os outros), precisamente por saber que a realidade também gosta de pregar partidas, confundindo os nossos sentidos e nem sempre é facilmente visível. Eu era muito miúda e desses tempos apenas tenho curtos momentos memorizados. Lembro-me de dormirmos num palheiro numa das viagens em que o dinheiro não dava nem para uma pensão rasca. Lembro-me de ver o meu pai a passar pelo público e a tirar moedas do nariz das pessoas que ficavam boquiabertas e que logo a seguir elas mesmas se punham a apertar de novo o nariz a ver se saíam mais algumas. Lembro-me do desaparecimento da varinha mágica (muito diferente das que usamos no cozinha), uma peça importante na encenação dos números de ilusionismo e dias depois o seu regresso, atirada pela janela aberta do quarto onde dormiamos nessa noite. talvez por ter decepcionado quem a levou. Lembro-me da aflição da minha irmã ao fazer trabalhos escolares que não iria entregar por ter que mudar de escola no dia seguinte. Lembro-me da criação de rolas, pombos e coelhos, igualmente artistas até no momento em que apareciam cozinhados na mesa. Lembro-me de uma figura que mais tarde foi conhecida por professor Karma que chegou a criar o "Instituto Cosmopsicológico Professor Raul Karma" em Lisboa mas que na altura era o palhaço Raulito (as voltas que a vida dá!...). Lembro-me da azáfama da montagem do circo: os trabalhos de elevação das orcas que depois eram espiadas ao chão, o rideau em chapa envolvendo o circo e protegendo os lugares da bancada da geral. Por fim o chapiteau que era a cobertura em lona. No interior montavam os gradins que fixavam as tábuas dos lugares sentados da geral que era a zona com bilhetes mais baratos, o palanque onde iria actuar a orquestra, preparavam a pista, colocavam as cadeiras para o público mais endinheirado. Lembro-me das tardes mornas, deitada no chão de areia, vendo os trapezistas a treinar por cima de mim, quase em silêncio, ouvindo o zunir das cordas, o som surdo de mãos que agarram mãos com firmeza, a respiração mais ofegante de alguém e, de vez em quando, sobrepondo-se sobre os outros sons, as ordens curtas do trapezista mais experiente. Pequenas memórias que relampejam quando estou triste. Mas o que me ficou mais gravado e que hoje ainda me emociona, foi aquela noite em que esperava que os meus pais arrumassem o material que tinham acabado de usar e fui dar uma volta por entre as roulottes estacionadas de uma forma organizada. Uma delas tinha luz e fui espreitar. Lá dentro estava o Zéquinha Barnabé, o meu palhaço mais querido, o que só fazia disparates e malandrices levando grandes tabefes do outro e que nos fazia rir até às lágrimas. Aquele que passava por nós - pela miudagem - com um sorriso de orelha a orelha e fazia festas nas nossas caras enlevadas. Pois o Zéquinha estava sentado dentro da roulotte e de costas para a porta. Subi o degrau devagarinho e fiquei a espreitá-lo. Ele estava em frente a um espelho a olhar-se. Levou a mão à cara e tirou o nariz encarnado. Fiquei boquiaberta. Acreditam que sempre pensei que ele tinha o nariz assim mesmo? Que as pessoas eram escolhidas para palhaços precisamente por terem nascido com aqueles narizes que davam vontade de rir? Fiquei ainda mais pasmada quando ele levou a mão ao cabelo e, devagar, foi puxando pelo magnífico cabelo ruivo que se foi descolando da cabeça, exibindo uma calvície por entre o cabelo fraquinho e escuro. A seguir pegou num pano que molhou num líquido qualquer e foi passando pela cara, esborratando num esgar aquele sorriso deslumbrante que me encantava. Nesses minutos tão breves, foi entre lágrimas que vi o Zéquinha a encolher, enrolar-se e evaporar-se para sempre do meu imaginário de criança. O espanto sacudiu-me o corpo e o soalho gemeu. O Zéquinha... não, não era o Zéquinha. Aquele homem estranho virou-se para trás e ao ver-me gritou: "Fora daqui, escanzelada!! Desaparece!!!" Fugi dele a soluçar. Acabara de assistir pela primeira vez ao esfarrapar de uma ilusão. Tantas máscaras que continuei a ver cair desde então e sempre com o mesmo desgosto. Enrijeci. Hoje farejo a máscara à distância. E o curioso é que à medida que crescemos (ou que envelhecemos), deixamos de ver palhaços queridos a transformarem-se em pessoas banais, para vermos algumas pessoas que consideravamos queridas a transformarem-se em banais palhaços. Para ti José que já conheces este lamento, fica a promessa de continuar a tentar escrever esta história da qual ainda não consigo distanciar-me o suficiente para a poder contar ao teu público. Dá-me tempo! (Dedicado à minha prima Anica, uma mulher feita de paixões e de sonhos)

2009-07-29

Os Pobrezinhos

Quando eu era menina, aí com os meus 10 anos de idade, tive oportunidade de ter uma experiência fantástica que vou agora partilhar convosco:
Numa manhã fria de Inverno, bateu-nos à porta um homem desgrenhado, mal vestido que vinha pedir uma sopa quente por amor de Deus. Nós também vivíamos com muitas dificuldades mas uma sopa arranjava-se sempre e a minha mãe foi à cozinha e voltou poucos minutos depois com um prato a fumegar que entregou ao homem que balbuciando qualquer coisa, virou-se para a rua e chamou alguém. Reparámos então que era uma pequena família constituída pelo pai, a mãe com uma barriga enorme de grávida e mais duas crianças ranhosas e maltrapilhas. A minha mãe condoeu-se com tanta miséria e preparou pratos de sopa para todos. A família dos pobrezinhos (como ficaram a ser conhecidos) sentou-se nos degraus de madeira do pequeno prédio onde morávamos e comeram ruidosamente.

(Foto oferecida pela Dulce Lázaro para avivar a minha memória)

No final entregaram os pratos quase lambidos, agradeceram e bateram na porta ao lado da nossa vizinha . Não sei o que lhe pediram. O que sei, e que nos fez na altura muita confusão, é que a vizinha mandou-os entrar e dali nunca mais saíram ficando a Pobrezinha a trabalhar dentro de casa e o Pobrezinho a trabalhar fora. Acabámos por nos habituar aos novos vizinhos, vendo as crianças com melhor aspecto e até a frequentarem a escola primária na zona. Mas passados poucos meses, numa bonita tarde de Primavera em que brincava no quintal, percebi uma grande agitação na minha casa e também na dos vizinhos que andavam a correr e a cochichar . Levantei-me precipitadamente para ver o que se passava e percebi palavras como parteira… bebé... e outras que na altura não me davam indicações nenhumas. A minha mãe entrou na cozinha a correr para pôr panelas com água ao lume que na altura eram aquecidas em fogareiros a petróleo e quando entrou na casa da vizinha com a panela de água quente na mão, eu entrei com ela e vi-me num pequeno quarto quase sem luz, onde estava uma cama de casal forrada com folhas de jornais e em cima deles a Pobrezinha de pernas escancaradas, sem cuecas e a gritar. Só então me apercebi que ia nascer o bebé que ela trazia na barriga. A excitação foi tão grande que me quis posicionar nos primeiros lugares da plateia quase competindo com uma mulher que não conhecia mas que percebi pouco depois tratar-se da tal parteira chamada à pressa. A Pobrezinha no intervalo dos gritos reparou na minha presença e certamente na minha cara estupidificada com tudo aquilo e gritou: - Não quero que a Belinha veja! Não quero que a Belinha veja!!! E alguém me empurrou do quarto e me fechou a porta na cara. Mas depois deste aperitivo, já não era possível verem-se livres de mim e, esperando pela oportunidade em que alguém entrasse com mais água ou mais jornais, consegui entrar de novo tendo o cuidado de ficar discretamente encolhida a um canto. Os gritos aumentaram de intensidade e de frequência, ao mesmo tempo que se ouviam os sons espalhafatosos dos puns que nem sequer me deram vontade de rir ao ver que empurravam bocados de cocó castanho que se espalhavam pelos jornais misturando-se com líquidos cor de sangue que borbotavam do pipi com umas dimensões que me deixaram estarrecida... O pequeno quarto cheio de mulherio estava irrespirável de bafos e de cheiros fortes. Após o esforço de um grito mais prolongado vi aparecer uma bola preta na “boca do corpo”, expressão que tinha acabado de aprender ao ouvir uma das vizinhas a falar cerimoniosamente com a parteira. Esta segurou na tal bola e virou-a mudando de posição e depois de mais uns dois ou três berros da mulher, saiu disparada agarrada a um corpo minúsculo que ficou em cima dos jornais praticamente imóvel mas preso por uma tripa ao interior da mãe. Entretanto começou a agitar-se e de repente começou a berrar aflitivamente e todas as mulheres disseram: Bendito seja Deus! A parteira segurou na tal tripa e disse que ainda pulsava e esperou mais uns segundos até achar que o momento já era propício para atar com uma linha que alguém lhe entregou e a seguir cortou com a tesoura da casa, separando a mãe do filho. Todas as mulheres presentes, incluindo eu, seguiam os seus movimentos e explicações com uma atenção desmedida... Depois começou a puxar a tripa devagar até sair um bocado de carne e ali em cima dos jornais abriu-a (lembro-me de ter achado a placenta parecida com uma flor) e disse: Está tudo bem! Duas mulheres lavaram logo o bebé numa tina com água morna, outras enrolaram aqueles jornais cheios de sangue e de fezes e outras trataram de meter a placenta no mesmo balde do lixo. Depois da cama arranjada, a Pobrezinha lavada e vestida com outra camisa e do bebé limpo e agasalhado é que chamaram o marido que entrou envergonhado por estar no meio de tanta mulher e sem saber o que fazer ou dizer. Olhou atarantado para o bebé e a Pobrezinha disse-lhe: É um rapaz! E ele: Ainda bem. O espectáculo daquele nascimento nunca mais me saiu da memória. Muitos anos depois tive a felicidade de ter os meus filhos também. Nasceram nas maternidades do Hospital Particular e do Hospital da Cruz Vermelha em Lisboa, e tanto num caso como noutro, acompanhada pela boa disposição do médico ginecologista que seguiu a gravidez desde o primeiro momento e também pela presença do meu marido que esteve sempre ao meu lado. Nasceram em salas de parto vulgares nos hospitais, não existindo ainda os tais quartos especiais para fazer a mãe esquecer que está num hospital e realmente esqueci-me, completamente entregue áquele momento único. Tive a sorte de serem partos rápidos, normalíssimos e sem uma coisa chamada Epidural. Na altura os bebés não ficavam juntos com a mãe logo após o nascimento. Só os traziam na altura das mamadas podendo a mãe ficar a descansar durante esse curto intervalo. Hoje esta prática foi posta de lado e entende-se que os bébés devem ficar ao lado da mãe desde o primeiro momento para se criarem laços mais fortes entre os dois. Há agora uma corrente defensora daquilo a que chamam de “parto humanizado” (expressão que considero infeliz pela brutalidade com que lança os outros partos para a nebulosidade do desumano) em que acreditam que os ambientes hospitalares e as suas práticas como aqueles onde tive os meus filhos, dão origem a vários traumas e consequentemente a relações dificeis entre mãe e filho no futuro. Mas felizmente connosco tal não aconteceu. Quem nos conhece, sabe que tenho com os meus dois filhos uma relação excelente que nos enche de orgulho, a mim e ao pai. Por isso sou contra a tentativa de convencer as mães para os imensos riscos nas suas opções. Acho que a mãe deve ter acompanhamento médico durante todo o processo da gravidez e que se deve informar devidamente sobre as várias propostas para o acto do nascimento. Mas só ela saberá qual a situação que lhe dará menos preocupações. Por isso pode escolher ter o filho em maternidade hospitalar, com ou sem quarto especial e com o apoio de uma equipa médica ou de o ter em casa assistida ou não por uma parteira experiente. Cada mãe é que sabe em que situação se sentirá mais calma, confortável, acarinhada num momento tão importante como esse em que a Natureza vai permitir que aquele ser especial que vive crescendo no seu interior se liberte para fazer finalmente parte de um mundo que o espera, precisa e conta com ele

2009-04-30

Perdendo pedaços de mim...

Foi com estupefacção que tive conhecimento da tua morte através do curto mail enviado pela tua companheira que nunca conheci. Ficava assim esclarecido o teu silêncio nestes últimos meses, a falta de resposta aos meus telefonemas, a ausência das palavras amigas no dia do meu aniversário.

Fechei os olhos e as recordações foram emergindo...

A primeira vez que nos vimos foi num treino de judo em Almada. Eras iniciado e o mestre escolheu-me para tua parceira avisando-me para começar no chão. Ensinei-te a posição do Hon-kesa-gatame. Deitaste-te de barriga para cima e eu sentei-me ao lado com as costas juntas ao teu corpo, pernas afastadas à frente, passei o meu braço em volta do teu pescoço, encostei a minha cabeça à tua e disse-te: - Agora vê se sais daí! E tu esperneavas, tentavas virar-te, davas esticões com o corpo e não conseguias sair da imobilização. De repente tive a ideia de te surpreender com um nami-juji-jime. Deslizando sobre ti, sentei-me sobre o teu tronco, de joelhos no chão e apertando-te com as coxas meti as mãos no gola do teu quimono, apertei de forma a bloquear ligeiramente as carótidas e disse-te: - Agora não vais conseguir sair daí. Bate com a mão no chão! E tu com voz sumida: - Para quê? -Para dizeres que desistes! -Não desisto! Mas que bruta!! E eu apertei um pouco mais: -Bate!! - Não bato!! E o grito do mestre: Soremade!! Larguei-te logo. O mestre a correr para nós: - Mas que disparate é esse, ó Ana?!! Nunca senti o tal espírito de judoca que o mestre apregoava e não gostava de estar a ensinar novatos. Mas mais tarde quando o mestre gritava “Randori!” e os novatos podiam escolher os graduados com que queriam lutar, quando levantava os olhos depois de ter ajeitado o quimono e o cinto, já sabia que te ia ter à minha frente de sorriso espalhado no rosto, fazendo a saudação e caminhando decidido para mim dando início ao combate e não permitindo a repetição daquele primeiro dia.

... a pulseira em aço batido, feita por ti e que usei durante anos para te manter junto a mim...

No alto das escarpas da Fonte da Telha, deitados sobre as ervas secas, observávamos as nuvens que deslizavam suavemente fundindo-se umas nas outras. - Aquela ali é um cavalo! – dizias tu de dedo espetado para o céu - Está a transformar-se... olha agora é um barco... estás a ver? E eu acenava que sim -E agora... espera... espera... ah, agora é um pássaro, viste? - E que pássaro? –perguntava eu - Deixa-me ver bem... é um tentilhão! E soltávamos gargalhadas adolescentes que voavam ligeiras em direcção ao mar -Diz-me mais nomes de pássaros… - Milheiras…. felosas… piscos… cachapins…. sabes que passarinho é este que está a cantar? - Um melro! - Oh não! Ainda não aprendeu a reconhecer o rouxinol? E de novo as gargalhadas esvoaçavam sobre nós até se sumirem levadas pela brisa

... as pardelhas que procuravas só para me fazer feliz...

Teste de tuberculina positivo. O médico ligou o radioscópio e quis que eu visse a sombra que se espalhava sobre o teu pulmão. Depois de um abraço carregado de medos, partiste para as terras quentes do teu Alentejo, donde regressaste depois de uma eternidade, mais forte... mais homem

... o pequeno tear que construíste para eu aprender a tecer com junco...

Numa manhã fria e chuvosa, aguardavas a minha passagem meio escondido debaixo de um toldo escuro. O cabelo desgrenhado e a barba escura no teu rosto gelado de lábios arroxeados eram estranhos aos olhos incendiados pela alegria de me ver aparecer. O teu corpo tremia e receei que desmaiasses ali, sem saber o que sentias e o que pretendias. Sentámo-nos à mesa de uma pastelaria e pedimos bebidas quentes. Não disseste nada e eu também não. Pegaste nas minhas mãos e depuseste um beijo morno. Levantaste-te e partiste

...os cestos miniatura que concebias para eu aprender cestaria...

Os teus olhos baixaram comovidos sobre a mesa quando coloquei no teu pulso a minha velha pulseira de prata. Ao nosso lado, a empregada varria o chão atirando para a frente beatas, pacotinhos de açúcar, guardanapos, caricas… - É para usar sempre? - perguntaste. E o rosto iluminou-se com o teu sorriso lindo quando te disse que sim

...os órfãos ouricinhos cacheiros para eu acabar de criar...

Parados no cais com os olhos afundados no Tejo, disseste: - Gostava de fazer uma viagem no meu barco, sem tempo, nem destino. Queres vir comigo? Só os dois? Fixei os teus olhos fundos que se prenderam nos meus numa carícia entristecida e senti no teu abraço quente, um pedido de desculpa.

... a tua insistência para eu reparar na beleza das flores minúsculas que espreitavam dos prados...

Estendidos sobre a relva, olhávamos para uma joaninha que hesitava caminhar sobre a tua mão ou a minha. Preferiu a tua e acelerada trepou o dedo que mantinhas espetado. Com as cabeças juntas cantarolámos baixinho: - Joaninha, avoa.. avoa… E ela abrindo as asas partiu esvoacejando, tal como tu fizeste recentemente levando contigo uma parte de mim que nunca mais irei recuperar.

Post Scriptum: Em Outubro de 2006 num texto que publiquei aqui com o nome “As saudades de um amigo”, terminaste deste modo o teu comentário “Ainda assim tomara que alguém escreva um texto tão bonito quando eu morrer como o que escreveste sobre o Thor”

Sinto uma tristeza imensa por não ter conseguido escrever à altura do que mereces, Fernando. Mas deixo aqui expresso o enorme carinho que sempre senti por ti e o desgosto desmedido por teres partido definitivamente da minha vida, apenas suavizado por tão doces recordações

2008-11-17

Não te esqueci, meu amigo

No meu tempo de adolescente uma das maneiras para se iniciar correspondência com alguém desconhecido era ler vários anúncios publicados nos jornais diários.
Foi assim que um dia resolvi responder a um pedido de um jovem brasileiro que pretendia corresponder-se com uma menina de Portugal dando início a um contacto que em breve daria origem a uma grande amizade que se prolongou por uns vinte anos.
Entrámos praticamente juntos na crise de uma adolescência partilhando todas as nossas alegrias e decepções.
Relia à noite as suas enormes cartas em que comentava a situação do Brasil de então, as dificuldades para se arranjar um emprego, os seus problemas para se manter na faculdade.
Imaginava-o fechado no seu quarto, ao entardecer, escrevendo-me cartas e postais enquanto contemplava distraído o evolar do fumo do seu cigarro.
Tratava-me carinhosamente por Emi e no meu aniversário, mais semana, menos semana, recebia um postal bonito e as palavras quentes de quem se sente ligado pelo coração.
Sujeitávamo-nos ao roubo constante de pequenos nadas que enviávamos dentro dos sobrescritos que eram continuamente violados, nunca percebi se aqui em Portugal ou lá no Brasil.
Chamava-se Meinardo, nome de flor, e foi sempre um companheiro presente, através de carta, nos grandes momentos da minha vida como foi o do casamento e nascimento dos meus filhos.
Ao fim de todos estes anos perdi as suas cartas e apenas guardo os postais com paisagens diversas do Brasil incluindo João Pessoa, zona onde vivia.
E também as fotos. As primeiras ainda muito menino e depois mais tarde já um homem de aspecto bondoso e olhar sonhador.
As cartas foram diminuindo em tamanho e frequência.. A minha nova vida de empregada bancária, o casamento, os filhos, o recomeçar dos meus estudos, não me permitia a disponibilidade necessária para continuar a escrever as longas cartas de outrora.
Mas houve uma altura em que deixei de receber a sua correspondência não respondendo sequer à insistência das minhas cartas que exigiam uma resposta breve. Vários meses se passaram até que um dia recebi um envelope debruado com as cores do Brasil que depois de aberto deixou cair um pequeno embrulhinho no meu colo e onde alguém escrevera “Abrir só depois de ler a carta”.
Saltando de linha em linha, fui lendo o relato plangente feito por um seu irmão que me contava de forma breve mas cautelosa, a morte de Meinardo no mar ao tentar salvar um primo arrastado pela ondulação forte quando brincava na praia .
Abri finalmente o embrulhinho que nada mais era que um pequeno cartão com a sua fotografia, a data de nascimento, 23.11.49 e a do seu falecimento, 3.3.80 (quatro dias antes do meu aniversário)
Li dificilmente entre lágrimas este elogio fúnebre: Ele descansa em paz. Seu nome hoje se encerra mas em nossos corações há-de permanecer. Cumpriu nobre missão sobre a face da terra: foi bom filho, bom irmão, bom tio, bom primo e bom amigo. Soube amar e sofrer.
Ainda hoje, quando folheio o álbum onde guardo as minhas recordações de menina, sorrio ao olhar uma foto que exibe o seu doce rosto e que tem escrito no verso uma frase que o tempo conseguiu dissipar a sua risibilidade “Basta me esquecer quando esta foto falar”

2007-11-27

Só faltaram as fadas

Estava uma tarde quente de Verão e eu descia a Rua do Alecrim em direcção à estação dos comboios, depois de mais um dia de trabalho no banco.
Parei uns curtos minutos em frente de uma montra para apreciar umas peças de cerâmica e pude dar uma olhadela ao meu aspecto com o cabelo cortado curto recentemente, a minha t-shirt amarela com uma flor bordada com missangas brancas e as calças à marinheiro de ganga também branca. Ao ombro a minha malinha de pano verde e vermelho com tirinhas amarelas, alvo da chacota dos meus colegas.
Sentia-me fresca e leve e por isso continuei a descer a rua num passo descontraído.
Ao chegar ao largo do Cais do Sodré, cujo nome é Praça Duque da Terceira, atravessei a primeira faixa com o sinal verde para os peões para depois atravessar a faixa dos carros eléctricos que entretanto estava com luz vermelha.
O carro eléctrico aproximava-se com velocidade mas dava perfeitamente para atravessar diante dele. E foi o que fiz. Eu e algumas pessoas que pensaram da mesmo forma.
Mas aconteceu um imprevisto: a correia da mala esgueirou-se do ombro e a malinha caiu, ficando no meio dos carris e aí já sem tempo para a poder apanhar. Esperei que o carro passasse para depois a reaver.
O carro eléctrico abrandou a velocidade mas ao passar, arrastou a mala consigo. Percebi que tinha ficado agarrada às peças salientes que o carro tem por baixo. O condutor avançou um pouco, depois fez marcha atrás mas a malinha não caiu mantendo-se presa a ele. O carro eléctrico imobilizou-se.
Olhei para o condutor expectante, para os passageiros debruçados das janelas, para as pessoas que se juntaram à minha volta curiosas com a ocorrência e, suspirando fundo, percebi que tinha que agir rapidamente.
E assim fiz.
Tirei um pedaço de cartão que espreitava de um caixote de lixo ali perto e ajoelhei-me sobre ele para poupar as calças brancas. Mas a correia estava de tal maneira enrodilhada naquelas peças que não tive outro remédio senão deitar-me no chão para poder trabalhar.
Não sei se algum de vós já viu as partes baixas de um carro eléctrico. Aquilo está tudo coberto por uma grossa camada de massa consistente, preta de tanto lixo acumulado e agarrando-se teimosamente a qualquer coisa que lhe toque
Acabei por conseguir soltar a mala e quando me preparava para sair dali, ouvi os gritos lancinantes e estridentes de uma mulher e pensei:
"Não me digam que o facto do carro eléctrico estar aqui parado já deu origem a um acidente grave!..."
Consegui esgueirar-me daquele inferno preto e os berros da mulher pararam como por encanto ao ver-me sair sã e salva. Só então percebi que os gritos eram pela aparência de eu ter sido trucidada pelo veículo.
Já de pé dei-me conta do meu aspecto horrível com camadas grossas de massa presas às mãos, aos braços, aos cabelos agora pesados. O mesmo se passava com a minha t-shirt amarela e com a parte de trás das calças
A mala de pano não se abriu e por isso não perdi nada. Mas o que levava dentro como a caixinha da maquillage mais o pequeno espelho estavam partidos e o livro, que andava a ler na altura, ficou meio cortado.
O condutor tocou para se despedir. Levantou o braço e o carro eléctrico seguiu caminho. As pessoas que se tinham juntado à minha volta, afastaram-se comentando o sucedido.
E eu apanhei o comboio, com montes de gente a olhar, intrigados com o meu aspecto e tendo que fazer a viagem em pé pela impossibilidade de me sentar com a parte de trás toda coberta de massa consistente.

O livro mantenho-o comigo... como troféu.
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2007-09-10

A visita

Ainda estava naquela indolência de deixar passar os minutos, as horas, a olhar para tudo como se o tempo tivesse parado e não houvesse nada urgente para fazer quando fui surpreendida pelo ciciar de uma sombra, um sopro quase etéreo, uma sensação estranhamente indefinida, arrastando a incerteza que algo tivesse acontecido. Alheei-me da leitura que fazia e fiquei suspensa esperando que alguma coisa se repetisse. Passaram uns segundos e de novo a sombra, sim porque foi uma sombra que perpassou por mim, volteando, silenciosa mas pesada. Só podia ser um pássaro, pensei. E de novo sulcou o ar quase roçando o meu rosto. Desta vez consegui segui-lo com os olhos entrando na salinha onde poisou no velho sofá. Fui buscar a máquina fotográfica. Não era nenhum pássaro como poderão ver na foto, mas sim um surpreendente morcego (para mim são sempre surpreendentes estes mamíferos alados). Poderia tentar mais fotos mas o facto de saber que não são cegos e que havia a possibilidade de voar de salto ao assustar-se com a minha aproximação, acrescida da possibilidade de embater na minha cara podendo provocar uma histeria que não me é muito comum, foi perfeitamente dissuasor. Por isso apenas uma foto e já está muito bem.
 
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Tentei descobrir de que espécie seria mas foi completamente impossível. De asas abertas talvez atingisse a envergadura de uns 15 a 20 cm. Pedi ajuda mas, com uma foto tão limitada, também ninguém o conseguiu fazer. Abri a janela, acendi a luz no exterior e deixei-o sozinho. Dali a pouco ao entrar cautelosamente e com as mãos à frente da cara, percebi que ele já se tinha orientado seguindo o seu caminho.
Os morcegos existem há mais de 40 milhões de anos, podem viver entre 10 a 30 anos conforme as espécies e constituem bandos mais ou menos numerosos com comportamentos muito curiosos. Uma das coisas que nos surpreende é a forma de dormir pendurados de cabeça para baixo. Algumas teorias defendem que isso se deve ao facto de terem os dedos demasiadamente grandes das patas dianteiras, as que se transformaram em duas membranas funcionando como asas. Outras defendem que é pelo facto de terem patas traseiras tão pequenas e subdesenvolvidas que não suportam o peso sobre elas, embora aguentem a suspensão. E outras ainda pelo facto de ser mais fácil iniciarem o voo a partir desta posição uma vez que dificilmente conseguem voar a partir do chão pela falta de impulso das suas asas. Para ficarem suspensos de cabeça para baixo, não necessitam de nenhum esforço adicional. O próprio peso do corpo força a fechar os tendões que estão ligados às garras, não precisando de contrair nenhum músculo, por isso não cairá caso morra nessa posição :)) Quando quiser iniciar o voo é que necessitará de movimentar alguns músculos que abrirão as suas garras. Todos sabemos que se orientam nas suas caçadas nocturnas através de um sistema de ecolocação que consiste na localização das suas presas através dos ecos que recebem depois de emitirem ultra-sons pela boca ou pelo nariz e daí pensar-se que seriam cegos. Mas alguns até têm uma visão excelente. Normalmente têm só uma cria cuja gestação leva entre 2 a 7 meses conforme a espécie e são amamentadas com o leite materno. Caso haja o risco da cria nascer num período em que os alimentos sejam demasiado escassos, conseguem interromper o crescimento embrionário, para poderem hibernar e garantirem que o nascimento ocorra numa altura em que o alimento seja mais abundante. Nos primeiros dias, as crias são transportadas pelas mães nas saídas nocturnas, no saco interfemoral. Quando começam a ficar pesadas passam a ficar numa espécie de creche onde se juntam todos os bebés do bando. No regresso da caçada, as mães conseguem localizar os sinais sonoros dos seus filhotes entre milhares. No tempo frio, enrolam-se nas asas para se manterem quentes. Conta-se também que quando um morcego adoece e não pode sair para caçar, outros elementos do mesmo bando encarregam-se de obter comida para ele. Existem cerca de 1.000 espécies em todo o mundo e quase 30 em Portugal, a maioria em vias de extinção ou em risco. Os seus alimentos são diferentes de espécie para espécie, havendo os que comem insectos (um bando consegue devorar toneladas de insectos durante um ano, sendo óptimos para controle de pragas), os que comem néctar e pólen (importantes para a polinização das flores nocturnas), os que comem fruta (responsáveis pelo reflorestamento de algumas áreas através das sementes que caem com os seus excrementos), os que comem aves e pequenos mamíferos, incluindo morcegos de outras espécies, os que comem peixes e crustáceos e outros que se alimentam de sangue (apenas 3 espécies e nenhuma em Portugal).

E já agora conto-vos uma pequena história: Quando era menina, um amigo ofereceu-me um morcego preto, já morto. Podem estranhar a oferta mas eram outros tempos e tudo era divertido. Com o animal na mão – e sem pensar nas várias doenças com que me poderia infectar só pelo facto de o manusear sem luvas – resolvi embalsamá-lo. Tinha lido um pequeno livro sobre esta técnica e embora não tivesse nem instrumentos nem produtos necessários para o fazer, ainda assim, na minha ligeireza mental de adolescente, resolvi meter mãos à obra. Abri-o de lado com uma lâmina de barbear Nacet, com uma pinça puxei para fora todas as vísceras, lavei-o por dentro com água e sal, depois enchi-o com bolinhas de algodão que modificaram um pouco o formato inicial do seu corpo. No fim de tudo isto, cosi-o. Tirei-lhe os olhos e no seu lugar coloquei duas pequenas bolinhas de vidro de um velho ursinho de peluche. Procurei uma tábua envernizada que estava esquecida no quintal e coloquei-o em cima dela, de asas abertas, presas com preguinhos pequenos. Podem não acreditar mas ficou bonito.
E tudo ficaria por aqui se não entendesse que o deveria oferecer à minha escola para o colocarem na vitrina das ciências naturais. Mostrei-o ao meu professor de Português que era também o director da escola e que ficou tão encantado com o meu trabalho que foi logo colocá-lo na tal vitrina ao lado de outros pequenos animais metidos em frascos com formol. Foi um dos meus grandes sucessos na escola. Toda a gente parava para admirar o morcego de asas abertas até que a curiosidade esmoreceu e o morcego foi caindo no esquecimento. Meses mais tarde fui rever o meu trabalho. Estava esticado como eu o deixara mas com uma aparência um bocado estranha. Os olhos de vidro tinham-se afundado na cabeça, o pêlo outrora brilhante estava baço, o corpo tinha perdido a graça anterior e reparei numa aguadilha estranha que escorria manchando a tábua. Percebi que quando abrissem a vitrina deveria soltar-se um cheiro nauseabundo que iria destruir definitivamente o prestígio que eu adquirira. Felizmente era o último dia em que iria frequentar aquela escola.

2007-04-02

Adenda ao post anterior

Respondendo ás perguntas que nos têm feito sobre o que sucedeu ao grupo amador de astronomia e missilismo, devo acrescentar o seguinte:
Um dos últimos projectos do grupo foi a construção de um foguete com 1,20m de comprimento e a funcionar com combustível sólido. O projecto acabou por ser boicotado pelo Centro de Estudos Astronáuticos da Mocidade Portuguesa. A Embaixada dos EUA e a própria NASA tinham prometido apoios que acabaram por ser desviados para a Mocidade Portuguesa. Entretanto esta viria a convidar os elementos mais entusiastas do GAAM para trabalharem em conjunto no seu Centro de Estudos. Os elementos do grupo de astronomia conseguiram delicadamente recusar o convite uma vez que não estava nos seus projectos virem a trabalhar com indivíduos da Mocidade Portuguesa, mais conhecidos pelos “piolhos verdes”. Mais tarde, Victor Manuel Castelo e José Manuel Silva foram convidados pelos americanos para completarem os estudos nos EUA o que não foi possível aceitar por ser proibido pelo regime salazarista a ida para o estrangeiro de jovens em idade militar. E aos poucos tudo foi esmorecendo até à extinção do grupo.
Sobre Carlos Bettencourt Faria, consultando um dos links indicados no post abaixo, só posso acrescentar o seguinte:
Nasceu em Lisboa a 13 de Fevereiro de 1924. A sua juventude foi passada em S. Miguel-Açores, numa localidade chamada Ginetes, onde o seu avô era médico. Frequentou o liceu de Ponta Delgada demonstrando muito interesse pela óptica astronómica e tecnologia de rádio. Ainda adolescente foi viver para a Ilha da Madeira com um tio cónego, grande entusiasta de rádio, astronomia e biologia marítima, com quem desenvolveu os seus conhecimentos. Com 27 anos de idade viajou para Angola, onde 6 anos depois fundou o Observatório Astronómico da Mulemba num terreno situado nos arredores de Luanda com uma área de 10.000m2, estando igualmente em preparação a instalação de rádio telescópios, motivada pela fraca expansão da rádio astronomia no mundo. A Associação Astronómica de Angola, fundada em 8/8/64 foi considerada Instituição de Utilidade Pública, podendo assim usufruir de subsídios estatais e privados que foram decisivos para o desenvolvimento e construção de infra-estruturas para a Biblioteca Técnica, Museu da Mulemba, Estação de Satélites, Rádio Astronomia, Estação Solar e Laboratório de Electrónica para o desenvolvimento de equipamentos, fazendo deste complexo, um dos mais importantes do mundo, no género, dando especial relevo à cooperação internacional no rastreio da satélites artificiais e trabalhos astronómicos no âmbito solar.

2007-03-27

O album de recortes

Andarilhar pela casa sem poder sair, obrigou-me a dar uma vista de olhos pelos livros que ainda não li, pelas pastas que aguardam uma pausa para poderem ser organizadas e até por antigos álbuns de fotografias. Descobri um que fiz há muitos anos e onde guardei fotos, cartas, postais, poemas, tudo aquilo que marcou de alguma maneira a minha infância e a minha adolescência. Ao folheá-lo caíram-me 2 recortes do antigo jornal Diário Popular que noticiava a existência do grupo ao qual pertenci e que tinha o nome de GAAM-Grupo Amador de Astronomia e Missilismo.
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Era um pequeno grupo, unido pelo desejo de conseguir lançar foguetes que pudessem transportar e regressar com pequenos animais vivos. Passávamos muitas tardes de domingo em acesas discussões nas reuniões que se faziam na minha casa. A minha função no grupo além de disponibilizar a casa e quintal para o que fosse preciso era a de fornecer os ratos que infestavam a capoeira, tratar da correspondência e da divulgação do grupo, enfim todo um trabalho de secretariado uma vez que não percebia nada de física nem de química. Lembrei-me das experiências feitas no meu quintal, com latas velhas que disparavam no ar com o estrondo de bombas no meio de grande gritaria e assobios, o que fazia os vizinhos virem espreitar à janela, assustados.
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Uma das misturas propulsoras era feita com açúcar e enxofre não me conseguindo lembrar das percentagens. Também recordei a sensação horrível que senti ao visitar um dos elementos do grupo que sofrera um acidente com uma explosão que só não o cegou por acaso e ao entrar no quarto, reconhecer os ratos que oferecera vivos, semanas antes, embalsamados e espetados na parede como decoração. Aqueles não sentiram a glória de terem sido lançados para o espaço
Mas, ao ver as fotografias e reler os recortes, lembrei-me do cientista Bettencourt Faria que tinha construído, quase só pelas próprias mãos um observatório astronómico em Mulemba-Angola, e que aceitou simpaticamente ser padrinho do nosso grupo.

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Eu escrevera-lhe para pedir informações e contactos que nos fossem úteis aqui em Portugal e a partir daí gerou-se uma grande amizade entre nós os dois. Ainda conservo algumas, apenas três, das suas cartas e um postal enviado da Polónia, que são um exemplo da simplicidade dos homens grandes. Um homem que com o seu tempo todo preenchido por mil e uma actividades, ainda arranjava disponibilidade para escrever à máquina longas cartas e procurar cartazes com temas espaciais para enviar a uma miúda com 15 ou 16 anos que ainda andava no mundo a “apanhar bonés”. E sempre que passava por Portugal continental (na altura Angola ainda era uma colónia portuguesa) ia sempre visitar-me, conversar comigo e dar pequenos passeios a pé.
Lamentavelmente, a idade que eu tinha não era propícia ao reconhecimento do valor do homem que me escrevia e visitava.
Ao pesquisar na net encontrei o blog:
http://amateriadotempo.blogspot.com/2006/05/bettencourt-faria-e-o-seu-centro.html do qual tirei alguma informação que publico com a devida autorização do seu autor:
“Carlos Mar Bettencourt Faria, de seu nome completo, foi um autodidacta genial, dotado de um notável dinamismo e de uma enorme capacidade de trabalho. Ergueu com as suas próprias mãos aquilo a que chamou Centro Espacial da Mulemba. Neste Centro, ele deu largas à sua paixão pela exploração do Espaço, pela Rádio e pela Astronomia, construindo aparelhos de detecção remota, telescópios, antenas, etc. Dada a sua fraca capacidade económica, ele não podia dar-se ao luxo de comprar as coisas já feitas; fazia-as ele mesmo, aproveitando materiais usados, como foi o caso das agulhas de que falei acima. Mas não eram só agulhas de seringas que ele aproveitava; por exemplo, as grandes antenas que ele construiu foram feitas com sucata ferroviária.
Num tempo em que a Terra ainda não estava rodeada por satélites de comunicações, a NASA tinha necessidade de dispor de uma rede de colaboradores espalhados pelo mundo, que recolhessem os dados enviados pelos satélites e que estabelecessem contacto com os astronautas, servindo de "ponte" entre o Espaço e a sede da NASA. O Centro Espacial da Mulemba, em Angola, era o único observatório em todo o continente africano a fazer essa "ponte". Nenhum outro existia em África.
Para tal, Bettencourt Faria dispunha de um estúdio, pejado de aparelhagem, onde ele recebia e descodificava os sinais enviados pelos satélites e onde entrava em contacto com os astronautas. Tive a oportunidade de ouvir uma gravação de uma conversa que ele teve com o astronauta Neil Armstrong na Lua.
Era desse mesmo estúdio que Bettencourt Faria falava para o público, através de um programa de rádio do malogrado Sebastião Coelho (falecido no ano passado na Argentina), explicando de modo simples e claro o que se ia passando no campo da exploração espacial. Neste aspecto, ele fazia, em Angola, o mesmo que fazia em Portugal um outro notável autodidacta, inventor e apaixonado pelo Espaço, chamado Eurico da Fonseca. Ouvir um deles era quase o mesmo que ouvir o outro.
Não se pense, porém, que Bettencourt Faria se interessava apenas pelo Espaço e pela Astronomia. Os seus interesses eram muitos e variados. Fez investigação etnológica, tendo publicado livros sobre usos e costumes tradicionais de Angola. Era um profundo conhecedor de conchas marinhas, de que possuía uma notável colecção. Inventou máquinas de diversos tipos, entre as quais uma espécie de helicóptero individual, com o qual, aliás, sofreu um acidente e partiu vários ossos. Pintava quadros. Tocava piano. Era radioamador. Apetece perguntar onde é que aquele homem arranjava tempo para poder fazer tantas coisas diferentes.…”


Também na minha casa, várias vezes tocou piano para mim, dedicando-me as suas composições, dizendo que aprendera a tocar sozinho e que nunca tivera uma aula de música.
Não consigo resistir a publicar aqui um excerto de uma das suas cartas:
“O que diferencia as pessoas não é ser bonito ou feio, não é ser rico ou pobre, não é ser católico ou protestante, inteligente de mais ou de menos. É uma simples coisinha que muita gente não atina: a capacidade de determinação, de persistência, aquela espécie de febre que não desce no termómetro quando encontra pela frente as dificuldades inerentes e imediatas a quem se quer guindar a um muro muito alto. Não faltará quem puxe as pernas, quem atire pedras, quem ponha cacos de vidro de garrafa das mais diversas origens no topo do muro. Mas sacudindo as pernas, cortando as mãos e os braços, suando pelo pescoço abaixo, que alegria é chegar ao outro lado, querida Ana! E não é o dinheiro, não são as glórias, nada, a não ser a incomensurável satisfação de ter chegado - onde os outros não chegaram - pelos seus próprios meios! Toda a vida fui um solitário (ainda hoje o sou e muito mais penoso é à medida que os anos passam) Nunca tive ninguém que me auxiliasse, e no entanto o que não tenho feito sozinho! É caso para envaidecer? Claro que não! É caso para eu sentir, sempre sozinho, uma felicidade tão grande que até às vezes me dá vontade de chorar!”
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De pesquisa em pesquisa encontrei este link:
http://apaa.online.pt/bettencourt%20faria.pdf, cujo autor é o Luís Filipe Bettencourt Faria, seu sobrinho, e que escreve assim:
Em 1976 o Centro Espacial da Mulemba, com um património de 200 mil contos e com uma reputação e actividades de âmbito internacionais invejáveis, entra numa fase difícil com o advento da Independência de Angola e com a consequente ordem de nacionalização desta instituição. Bettencourt Faria, então com 52 anos, passou algumas semanas numa tristeza profunda. Acusado de espionagem e de ter um arsenal de armas em casa, sendo-lhe confiscadas até as potentes espingardas de ar comprimido de caça submarina, com a sua correspondência e telefone vigiados, a estação de rádio amador CR6 CH selada, pessoal estranho ao serviço a querer saber como tudo funcionava, foi na tarde de domingo de 4 de Julho de 1976, traiçoeiramente degolado ao baixar o vidro do carro, quando cumprimentava o “segurança” de serviço no portão principal das suas próprias instalações.

2006-12-18

Parêntesis de Natal

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Na minha casa de infância não se vivia o Natal religioso. Era um Natal pagão com a figura do Pai Natal que premiava igualmente as boas acções mas nunca sendo mãos largas por muito bonzinhos que tentassemos ser.
As recordações mais antigas, a partir dos meus 3 ou 4 anos, não me trazem a imagem do velho de vermelho e longas barbas. Éramos pobres e sem dinheiro para este tipo de disfarces. Não havia Ceia de Natal e jantávamos simplesmente como todos os dias, os mesmos de sempre: eu, a minha irmã e os meus pais. O jantar era um momento de grande tensão: eu era muito vagarosa a comer por nunca ter apetite e, naquelas noites, com a perspectiva da visita de tão ilustre personagem, a comida ainda mais demorava a escorregar pela garganta. Os meus pais andavam de volta de mim já desesperados, ameaçando com a ausência do velhinho face à minha lentidão a comer. Quanto mais diziam, mais me enervavam e menos conseguia engolir… Por fim, rendidos à minha falta de energia, tiravam-me o prato da frente e mandavam-nos, a mim e à minha irmã, para o quarto. Ali ficávamos com o coração aos pulos até ouvir aqueles murros na porta de entrada e uma voz rouco-esganiçada a perguntar se era ali que morava a menina Ana e a menina São. A minha mãe respondia que sim. E elas têm-se portado bem? - perguntava a voz assustadora.  E a minha mãe: Sim, sim, senhor Pai Natal!  E a voz num tom mais alto para se fazer ouvir no quarto: Bom, trago-lhes aqui algumas coisas e digam à menina Ana que se continua a comer como come, se calhar para o ano não apareço por cá!.
Quando ouvíamos a porta fechar com estrondo, saíamos do quarto a correr. Os presentes eram normalmente coisas que precisávamos: uma camisola que chegava aos joelhos para acompanhar o nosso rápido crescimento ou uns sapatos dois números acima pelas mesmas razões. Mas havia sempre qualquer coisinha que fazia os meus encantos: um pato bebé que passava a ser a minha companhia diária, dormindo comigo e tomando banho no mesmo alguidar que eu, fugindo de casa logo que estava grande e gordo, não conseguindo relacionar o desaparecimento do bicho e a canjinha oferecida nesse mesmo dia… ou um ratinho cinzento olhando para mim dentro da caixa de sabão, ainda meio esfalfado pela correria que teve que fazer no corredor da casa tentando evitar ser capturado.
Mais tarde, a partir dos meus 5 anos, já aparecia o velhinho todo marreco, vestido de vermelho, de barbas brancas meio descoladas que cheirava a Vick Vaporub que tresandava (substância pastosa que serve para fixar o algodão por breves minutos). Eu mantinha-me respeitosamente a alguma distância, respondendo às perguntas que ele me fazia, olhando curiosa para as luvas pretas que escondiam as mãos. De vez em quando aproximava a cabeça meio confundida por reconhecer nele o cheiro do corpo da minha mãe... outras vezes do corpo do meu pai. Mas a dúvida assim como aflorava também se dissipava logo a seguir. Horas depois era um deles que continuava a cheirar a vick. Sabe-se lá porquê.
Hoje temos muitas crianças na família, felizmente. E, ao jantar, ouço-as combinar entre si o que vão fazer ao Pai Natal: apalpar-lhe a roupa para ver se a barriga é a sério… puxar-lhe as barbas para ver se são verdadeiras... ameaças proferidas entre risos pelas mais velhas causando admiração e respeito das mais novitas. Mas depois do jantar, esperam ansiosamente por ele esborrachando os narizes nos vidros das janelas e soltam gritos histéricos quando vêem lá ao longe uma figura a caminhar por entre as árvores da mata com uma lanterna na mão e a repenicar uma sineta. Logo a seguir todas ficam em silêncio, de boca aberta quase deixando ouvir os seus coraçõezinhos a bater desordenadamente. E o vulto caminha meio desorientado,  ora aproximando-se, ora afastando-se mais, procurando a casa no meio da escuridão, tarefa difícil por estar quase às escuras, apenas iluminada por algumas velas para criar uma penumbra expectante como convém e 
fazendo a criançada desesperar.  Quando finalmente ele assoma à janela com as barbas erguendo-se ao vento e apontando para cada um de nós com o feixe de luz da lanterna, o nervosismo dos miúdos é tal que nem se atrevem a abrir-lhe a porta, quanto mais apalpá-lo ou puxar-lhe pelas barbas. São os adultos que abrem a porta ao velhinho ao som do "Joy to the World" e, sempre à luz das velas, somos chamados um a um, recebemos uma festa na cabeça, um conselho e um presente. Dizia o mais pequenito no ano passado: - Ó Pai-Natal, mas não faças ho-ho-ho porque eu tenho muito medo!
E ele não fez.
Saber que afinal o Pai Natal não existe, não é motivo de traumas. Quando se informa o mais crescido que o Pai Natal somos todos nós e que ele foi o escolhido para representar essa figura no próximo ano, a alegria é enorme e começa logo a magicar no que irá fazer para enganar os outros miúdos. As interpretações cénicas são tão bem feitas e divertidas que obrigam os adultos a fazer um esforço danado para não desatarem a rir perante o ar espantado dos mais novinhos.

É tão bom acreditarmos no Pai Natal que não nego essa alegria aos miúdos, antes pelo contrário. Sei que um dia se irão recordar destas cenas com muita saudade, tal como eu.

A todos os nossos amigos, companheiros e visitantes anónimos, os desejos de um Bom e Feliz Natal.

2006-12-10

As bênçãos do senhor Francisco

Posted by Picasa O senhor Francisco era um homem conhecido num raio de acção de muitas dezenas de quilómetros. Tudo nele era singular. Usava o cabelo caído pelos ombros, uma barba grande que esvoaçava sobre o peito, um terço gigante que trazia pendurado ao pescoço. Sempre que passava por uma igreja ou capela, saía da sua bicicleta, entrava e passava uns minutos em oração. Nas missas dominicais antecipava-se ao padre, só se mantendo em silêncio nas homilias que ouvia respeitosamente. Comungava todo nu, escondendo as suas partes pudibundas num cobertor que enrolava em volta de si. Vivia numa pobreza extrema, habitando numa barraquita de madeira e com partes forradas a chapa de alumínio para evitar a entrada do vento e da chuva, dividindo o seu espaço com uma burra sua companheira de solidão, uma vez que tinha sido abandonado pela mulher e filhos. Era um homem doce. Quando me via ao longe acenava-me cheio de alegria, chamando pelo meu nome e, ao aproximar-me, via-o erguer a mão à minha frente, dando forma a uma cruz com a qual me benzia. Sentia-me bem quando o encontrava porque me dizia coisas magníficas: “Ai que bom é vê-la senhora dona Ana, uma senhora tão linda e tão boa!” E depois baixando os olhos dedicava-me um padre-nosso ou ave-maria conforme as circunstâncias ou a inspiração do momento. Várias vezes lhe dei trabalho na quinta e nunca quis receber o dinheiro. Apenas aceitava roupa e comida, desde que não fosse carne que recusava por muita fome que tivesse. Um dia apareceu aqui à hora do almoço. Perguntei-lhe se já tinha almoçado e disse-me que sim. Conhecendo a delicadeza do senhor, disse-lhe que então ia almoçar outra vez comigo o que ele não rejeitou. Apareceu também o meu filho que vinha comer à pressa para depois sair e continuar com as suas tarefas profissionais. Quando pus a comida nos pratos, o senhor Francisco baixou a cabeça e começou uma oração de graças que respeitámos ainda que nenhum de nós fosse religioso. Mas a oração foi sendo cada vez mais aumentada e abrangente. Da comida passou para os donos da casa, para os filhos dos donos da casa, para os familiares, para os amigos, para os animais, para as pessoas da cidade, para a paz no mundo e sucediam-se padres-nossos, aves-marias e uma série de orações que desconhecia… quase o tempo de uma missa. A comida arrefeceu no prato. O meu filho olhava discretamente para o relógio, até que por fim ouvimos o amém final e pudemos começar a comer. Terminada a refeição assustámo-nos quando o senhor Francisco baixou de novo a cabeça mas foi apenas um curto agradecimento pela refeição. Estava uma tarde de imenso calor e ele vestido com um fato grosso e por cima um sobretudo que eu lhe tinha oferecido há uns meses atrás. O que tapa do frio, tapa do calor! Era a sua afirmação. Levou umas sandes para o lanche, despediu-se de mim com as bênçãos do costume e no final com os olhinhos a brilhar insistiu: “Ai que senhora tão linda!” E foi a última vez que me visitou. Uma tarde vi-o a pedalar pela estrada fora e buzinei-lhe. Ele acenou-me e pelo espelho retrovisor consegui aperceber-me do sinal da cruz desenhado no ar, o qual agradeci levantando o braço. Passados alguns meses perguntei por ele às senhoras que trabalham aqui nas terras. - Ah, não sabe? O senhor Francisco morreu! - Oh!... morreu? Coitadito... não sabia! Mas morreu de quê? - Olhe, morreu todo queimado. Acendeu uma fogueira dentro da barraca para se aquecer, deve ter adormecido e o fogo agarrou-se às vestes, às barbas. Ainda saiu aos gritos mas quando os vizinhos chegaram já estava todo queimado e a morrer. Fiquei sem saber o que dizer. Durante muitos dias fartei-me de pensar na morte horrível que teve e na sua vida tão miserável apenas iluminada quando encontrava alguém amigo ou quando recolhia em oração. Gostava das suas visitas e das atenções que tinha para comigo, que mais não fosse por aquela mão erguida oferecendo bênçãos. Tenho saudades daquele “Ai que senhora tão linda!” que me animava o coração

2006-10-03

As saudades de um amigo

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Hoje senti muitas saudades tuas, Thor. Há já uns meses que fizemos a nossa última viagem. Deixaste de dormir no teu canil com os outros companheiros da matilha para viveres a meu lado, noite e dia, deitado na tua cama e atento a todos os meus movimentos dentro de casa. Julgo que foste muito feliz nessas últimas semanas em que finalmente pudeste guardar-me durante 24 horas. De manhã levantavas o focinho e acordavas-me com o beijinho de bons-dias. Eu arranjava-me em frente ao teu olhar vigilante e depois empurrava a tua cama até à porta para te ajudar a levantar e poderes sair, cheirar o ar e as ervas e fazeres as tuas necessidades em posições cada vez mais difíceis devido à amputação da pata. Poderiamos ter evitado essa operação mas o prognóstico era tão pessimista desde que te foi detectado o sarcoma ósseo, que para evitar abreviar-te a vida sem sabermos se seria cedo demais e esperançados na cirurgia e quimioterapia, resolvemos tentar tudo por tudo para te salvar. Recuperaste bem da intervenção e aprendeste a andar com as 3 patas, saltitante. A quimioterapia também não te deitou abaixo e viamos-te com ar sossegado, sem dores e feliz por estares perto de nós. Foram semanas de ligação diária muito forte. Passavas o dia deitado perto de mim, interessado em tudo o que eu fazia, dando uns suspiros de satisfação que me davam um grande bem estar. Á noite dava-te o jantar na cama e depois arrastava-a para o meu quarto para dormires ao meu lado. Sempre que acordava, perguntava-te baixinho: "Tudo bem, Thor?" E ouvia a cauda a responder alegremente. Mais tarde começaste a ressentir-te de uma das patas traseiras. Mudança de tratamento e melhoria nos movimentos. Mas foi sol de pouca dura. Uma noite ao virares-te na cama, não conseguiste virar o corpo por igual e acordei com os teus ganidos. Ajudei-te na posição mas percebi que tudo se estava a complicar. Todas as manhãs era um esforço enorme para mim e para ti, tirar-te da cama para te colocar no jardim. Passei a arrastar o cobertor contigo em cima, arrastando os teus 40 e tal quilos pela relva, tentando não magoar-te. Mas a dada altura já te queixavas de qualquer movimento e falei para o veterinário que foi muito claro: a partir dali não ia haver melhorias e irias passar a sofrer. Não era nada disso que queria para ti, meu amigo. Por isso preparei-te um pequeno almoço de leite com nestum que tu lambeste sôfrego de prazer. Pedi ajuda e metemos-te com a cama no carro. Ias satisfeito porque já tinhas percebido que a ida ao veterinário te melhorava sempre de qualquer mal-estar. Era um sábado cheio de sol. O médico e a menina ajudaram-me a levar-te para a marquesa. Puseram-te a soro. Todos falavamos contigo como sempre o fizemos e com muitas carícias. Sei que já consideravas aqueles profissionais como grandes amigos esperando sempre o biscoito de prémio. Estavas muito sereno, segundo o médico me disse depois de te ter auscultado. Abracei-te e pousaste a cabeça no meu braço como fazias sempre que iamos ao tratamento. Cantarolei baixinho uma cantiga de ninar. O médico começou a anestesiar-te e tu fechaste os teus olhos doces, suspiraste e partiste. Só nesse momento permiti-me chorar.
Adeus Thor! Tenho tantas saudades tuas