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2010-06-04

O que temos andado a fazer

Finalmente podemos falar do trabalho que tivemos em mãos e que nos roubava o pouco tempo disponível para as nossas escritas.

Era uma surpresa que andávamos a preparar para o Mário Portugal: seleccionar, ordenar por ordem cronológica os seus textos do blogue
Engenhocando e oferecer-lhe a sua autobiografia em livro ao qual demos o mesmo nome.

O trabalho ia evoluindo calmamente, interligando textos, salpicando-os de fotos que o Mário nos enviava de vez em quando, telefonando-lhe por vezes, assim como quem não quer a coisa, para obtermos, um elemento ou outro, crucial para a compreensão do texto.

Passados meses, o Mário caíu à cama bastante doente e vimo-lo tão desanimado que acabámos por lhe contar o que andavamos a fazer, na esperança que isso o ajudasse a lutar pela vida.

Nunca vamos saber se essa notícia teve algum peso na cura. O que sabemos é que passados dias tinhamos o Mário ao telefone muito curioso e entusiasmado com a ideia de ser feito um livro com os textos do seu blogue.

Mais tarde, inesperadamente, um simples telefonema do Silvio Leiria, amigo comum, virou-nos a vida de pernas para o ar ao informar-nos que a Associação de Radioamadores do Ribatejo ia fazer uma homenagem ao Mário, no dia 6 de Junho, e que seria interessante se nessa altura se pudesse apresentar o livro.

Achámos que na verdade não haveria uma data mais feliz para o seu lançamento e por isso agarrámo-nos com unhas e dentes ao trabalho que deixou de ser feito nas calmas para avançar num grande stress, com o pânico permanente de não o termos pronto na data prevista.

Depois de concluido o "miolo" do livro, foi o contacto com várias tipografias que apresentavam preços quase inacessíveis e dos 10 exemplares que tinhamos pensado em oferecer como prova de agradecimento por todo o carinho que o Mário nos tem dedicado, inclusivé com a oferta de uma série de curiosos inventos, passámos para a tiragem de várias centenas de exemplares, com o apoio da ARR.

Na semana passada pudemos ver o livro concluído com as suas 430 páginas de relatos divertidos e dramáticos e com a capa muito bem concebida pelo
Augusto Mota.



Foi um momento muito emocionante para nós e também para o Mário quando finalmente viu o livro nas suas mãos.

A todos os amigos deixo aqui o convite para aparecerem às 10 horas da manhã, no próximo domingo dia 6 de Junho, no Cine Teatro de Benavente, onde vai decorrer a festa de homenagem ao Mário, seguida de piquenique no Parque de Campismo da terra, e assim poderem dar um abraço ao homenageado e comprarem o livro que irá ser lançado nesse dia.


Post Scriptum: Pode ver algumas fotos desta bonita homenagem

2008-10-16

A Horta do Thomé

Não conseguimos evitar de vos dar a conhecer um pouco do livro “A Horta do Thomé”, escrito por João da Motta Prego, ilustrado por João Alves de Sá, pertencente à "Biblioteca dos Meus Filhos" e publicado em 1909 pela Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira & Cta. Por incrível que possa parecer nos dias de hoje, era um livro destinado ás creanças.
Num arrabalde da cidade, vivia com grandes difficuldades uma família constituída pelo pae que era carpinteiro, a mãe que tratava das comidas, das roupas, da casa e de 10 filhos, sendo Thomé o mais velho com 12 annos de edade e que os paes dispensavam algumas horas para poder ir à escola e adeantar os estudos. O livrinho que mais o apaixonava e que lia e relia sempre que podia, era um que ensinava a tratar da terra e das plantas que o seu professor, o mestre tio Salomão, lhe emprestára.
Um dia o Thomé recebeu meio-tostão para pagamento de um pequeno trabalho e como era a primeira moeda que recebia, resolveu aplicá-la bem. Foi à cidade e depois de muitas hesitações resolveu comprar um pacotinho de sementes de Alface Loira Gigantea. Preparou um terreno no quintal, semeou, cuidou, e mais tarde com a venda destas alfaces arranjou dinheiro para comprar sementes diferentes e vamos assistindo à grande aventura deste jovem hortelão e dos seus irmãos, conhecendo as técnicas usadas na altura, sabendo os nomes das variedades semeadas, numa zona desconhecida do país onde o tempo favorecia sempre as culturas não dando origem a surprezas desagradáveis :)
Entretanto o Thomé fez 13 annos, e fica distincto no exame de instrucção primaria. O seu mestre aconselhou os paes a não gastar mais dinheiro com livros e mestres. “As lettras custam caras e rendem pouco à gente pobre. O rapaz tem geito mas é para hortelão. Lá por ahi há-de fazer caminho. Verão que não se arrependem”
Com as economias que vae fazendo, compra um burro chamado Figueiredo que é uma óptima ajuda no transporte dos productos pelas ruas da cidade, e à medida que o tempo passa compra um casal de coelhos para criação destinado à venda e ao consumo da casa, o bezerro Moysés para ajudar na faina quando crescido e um porco para engordar com as lavaduras da casa e detrictos da horta e matar-se pelo Natal para regalo da família, altura em que os mais novos tinham direito a beber uma pinguita de vinho branco.



As terras eram enriquecidas com estrume fabricado com o lixo da casa, detrictos da cozinha que se juntavam numa cova juntando aparas miúdas de madeira, folhas, hervas secas, cinzas da fornalha e da lareira e também com uma parte dos despejos líquidos da casa, n’uma altura em que o saneamento básico era um conceito desconhecido. Esses despejos líquidos eram guardados n’uma barrica vazia de petróleo, destamparada de um lado, collocada a um canto do seu terreno e destemperados com água quando usados directamente nas regas.
A lista das culturas é ennorme, explicando sempre a melhor forma de semear ou plantar: Cerefólio, Beldroegas, Raponcio, Funcho de Florença, Inhame, Lentilha, Mostarda, Rutabagas, Pastinagas, Escariola, Pimpinela, Escorcioneira, Salsifis, Aveia, Trigo, Cenoura Semi-Comprida de Nantes e Fusiforme, Rabanete Redondo e Semi-Comprido Rosa, Tomate commum, Beringella Violeta Comprida e Branca da China, Alho de sopa (alho francês) Monstruoso de Carentan, Salsa, Coentros, Segurelha, Tupinambos Vermelho e Amarello, Batatas Marjolin ou Franceza, Saucisse e Magnum Bonum, Cebola de Guimarães, Nabos de S. Cosme e de Guimarães, Feijão de trepar Vermelho e Mesclado, Manteiga-Marfim, d’Argel Preto; Feijões anões: Princeza, Amarello do Canadá, Preto d’Argel, Manteiga-Branco e Flageolet-Manteiga, Couve de Milão, Murciana, Gallega, de Cortar, Penca e Tronchuda. E os repolhos: Gigante das Hortas, Pão de Assucar, Coração de Boi, Saboya; Couve Flor Imperial, Broculo Branco Temporão, Exalotas, Ervilhas de trepar Príncipe Alberto, de casca ou de quebrar (ou come-lhe tudo) de trepar: Manteiga e Chifre de Carneiro, Beterraba Vermelha de Castelnaudary, Estragão, Melão Cavaillon, Cantaloup Prescott, Negro dos Carmelitas, Melancias Vermelhas de Aveiro e Santarém, Abóbora de Água ou Colombro, Napolitana (cucurbita moschata), Gerimu Parisiense, Porqueira do Norte, Chila, Cardo de Tours, Pimentão doce de Hespanha ou Catalão, Pimento picante vermelho comprido, Malagueta, ...

... Morangos de Meaux, Dr. Morère, Jucunda, Marguerite Lebreton, Capron Framboeza, sempre ajudados nos trabalhos pelo Tio Salomão, grande enthusiasta pelas cousas da lavoura.



(Faziam grelar as batatas-doces nos estufins para as plantarem em Abril ao ar livre)

Semeavam Fava commum e Fava de Sevilha e regavam diversas vezes com o líquido da barrica. Luiza ficava atenta às faveiras para quando florissem cortar a ponta dos novos rebentos e assim terem favas mais cêdo e mais gradas.
Nas Couves de Bruxellas apparecem muitos repolhinhos pequenos pelo tronco acima e que se desenvolvem muito depressa quando se corta a cabeça da couve. De modo que não se devia cortar a cabeça a todas ao mesmo tempo para a colheita ser mais prolongada
Chicorea Frisada de Maux, da Itália ou Fina de Verão, semeada em alfôbres, depois transplantadas para os canteiros e quando já não cresciam mais, estiolavam-se, enleando a planta com uma fita de palha, deixando só de fóra o extremo das folhas ou fechando-as e amontoando terra em volta, de modo a só apparecer no tôpo dos montículos assim formados, as pontas das folhas. As plantas assim preparadas não tomavam a côr verde e ficavam de um amarello esbranquiçado, muito tenras e appetitosas
Espargos da Hollanda e de Argenteuil. Semeavam em Março. No Outono preparavam-se as valas com estrume bem curtido. Na Primavera armava-se a espargueira transplantando do viveiro. Floresciam de Junho a Julho. Davam umas bagas vermelhas que seriam colhidas em Outubro. No mez de Novembro cortavam-se os troncos a uma altura de 15 cm. Descavavam-se as plantas e estrumavam-se na raiz cobrindo de novo com terra
Aipo Pleno Branco também estiolado atando as folhas com 3 laços de palha: um perto da base, outro a meia altura, e o último no tôpo, amontoando e aconchegando terra em volta até à primeira atadura e regando em seguida. Oito dias depois amontoavam até à segunda atadura e passados mais 8 dias outra amontoa até à terceira atadura. Mal estivessem branqueados era preciso colhel-os, senão estragavam-se.
Alcachofra Gigante de Laon e Violeta Precoce. Deixavam só uma cabeça em cada haste, supprimindo as secundarias. Depois da colheita cortavam rente à terra as hastes que produziram e os extremos das folhas que se entrelaçavam, para que o sol pudesse penetrar.
Espinafre commum, Monstruoso de Viroflay. As sementes eram metidas em água durante 6 horas e ao fim de 6 dias já as plantas nasciam. Deixavam para semente as plantas mais perfeitas, tendo o cuidado, como umas só dão flôr macho e outras flôr femea, colher d’umas e d’outras para se poderem reproduzir
E os conselhos continuavam:
Barba de Capuchinho: Em Abril semeavam Chicorea Selvagem ou Almeirão. Em Junho/Julho cortavam algumas folhas para consumo. Em Outubro/ Novembro arrancavam algumas raízes e depois de supprimir todas as folhas à altura de 1 cm, no collo da raiz, atal-as-iam em pequenos molhos tendo o cuidado de deixar ao mesmo nível o collo da raiz. Depois collocavam n’uma loja sem luz sobre uma camada de 30 cm de excremento de cavallo. As molhadas eram ahi dispostas verticalmente encostadas umas ás outras e mettidas no estrume até aproximadamente um terço da sua altura. Regavam 2 vezes ao dia até as folhas começarem a rebentar e baixando depois a frequencia das regas para as folhas não apodrecerem. Ao fim de 15 a 20 dias as folhas tornavam-se muito compridas, de côr branca amarellada e estariam promptas para consumo, chamando-se barba de capuchinho e fazendo uma belíssima salada.

Os Espinafres da Nova Zelândia têem as folhas sumarentas, ramificações tenras, sabor fino e agradável, dão esparregados de primeira ordem. E para sôpas, misturados com grão ou feijão?!... Uma delícia. Semeados em terra bem estrumada e sempre fresca, é chegar aqui e todos os dias colher um braçado d’elles como quem vae de caminho. E depois, não precisam de mais tratamento. As próprias sementes cahindo na terra, os reproduzem. Não são muito conhecidos; mas verás… quem uma vez os provar, fica freguez. Para os animar, dá-lhes de vez em quando uma réga com o líquido da barrica.

As Chayotas ou chuchus, colhidas um pouco verdes, cozidas em água e sal e comidas com molho branco… são de ressuscitar um morto!

E esta precciosidade: Pegou na alface, lavou-a, sacudiu-a com força, e rasgou-lhe as folhas transversalmente à mão. Depois deitou-a na saladeira. Depennou os cheiros e espalhou-os por cima: quebrou com os dedos o cebolinho em pedacitos de três centímetros, cortando-lhe a raiz. aproveitando-o até aos dois terços da sua altura e lançando fora essa parte superior. Deitou n’uma colher um pouco de sal fino que derreteu, enchendo a colher até ás bordas de vinagre forte que logo despejou, espalhando-o sobre a salada. Encheu a mesma colher duas vezes com um azeite que parecia oiro líquido e que do mesmo modo espalhou sobre o pitéu. Cortou uma codita de pão, atirou com ella para a saladeira e depois… toca a mexer. Voltas e mais voltas. O verde da alface tornava-se lustroso como o azeite; o cebolinho e os cheiros agarravam-se às folhas; e por toda a casa era um perfume!... “Hás-de esperar até que a côdea do pão esteja bem ensopada de azeite e vinagre!” respondeu o Tio Salomão ”Esse é o signal de que a salada está mexida como deve ser”. Finalmente elle retirou a côdea, examinou-a cuidadosamente, comeu-a e serviu uma pratada a transbordar do appetitoso pitéu
No final os ensinamentos mais complicados:
Preparar Calda Bordaleza: 88 litros de água, 6 kilos de cal e 6 kilos de sulfato de cobre
Preparação de adubo químico: Em 100 litros de água, misturar 30 grammas de phosphato de ammoniaco, 45 grammas de nitrato de potassa, 15 grammas de nitrato de soda, 10 grammas de sulfato de ammoniaco. Oito dias depois as plantas regadas com este adubo differençavam das outras. E, depois de meia dúzia de regas apresentavam um tal vigor que todos estavam extasiados. E o Tio Salomão explicou às creanças: As plantas precisam de azoto, ácido phosphórico, potassa e cal. Os nossos terrenos são ricos em cal. No phosphato de ammoniaco há o azoto e o phosphoro; no nitrato de potassa há o azoto e a potassa; no nitrato de soda há o azoto e no sulfato de ammoniaco há o azoto e também o enxofre que as couves apreciam muito. Os estrumes tornam a terra mais tempo fértil e permeável ao ar, penetrando a água também melhor. Os adubos actuam mais depressa e o efeito é menos duradouro e a terra não fica tão porosa, tão leve.
Construção de estufins: caixas sem fundo com 4 m de comprimento por 1,33 de largura. A sua altura do lado elevado era de 33 cm e do lado mais baixo 26, cobertas de vidraças de caixilhos de ferro ou de madeira. As vidraças podiam levantar-se ou abaixar-se por meio de duas hastes dentadas, de madeira, collocadas verticalmentre entre a borda superior da caixa e o caixilho.
Faziam uma ruma (pilha) de estrume de 65 ou 70 cm de altura, 1,93 de largura e 4,60 de comprimento. O estrume devia ser fresco e era calcado com os pés de modo a ficar comprimido. Depois regava-se cuidadosamente para ficar todo humedecido e sem deixar a água correr para fora. Feito isto, lançavam sobre o estrume uma camada de terriço da espessura de 18 a 20 cm e cobriam com o estufim. O estrume fermentava e principiava a aquecer. Este calor comunicava-se aos 18 ou 20 cm de terra que o cobriam e ao ar do interior do estufim. Faziam as sementeiras directamente na terra ou, melhor ainda, em vasos que enterravam até dois terços de sua altura n’essa terra e que depois transplantavam para a horta sem que as plantas soffressem da transplantação
A ruma devia ter mais 60 cm de largo e de comprido do que o estufim, ficando descoberta em volta n’uma faixa de 30 cm que serve para fazer o rescaldo. O rescaldo faz-se com uma camada de estrume fresco, que se colloca no espaço livre em volta do estufim até à altura da vidraça; e tem por fim prolongar a temperatura alta, mais tempo, no interior deste. Esta duração mais prolongada da temperatura pode também obter-se por meio de uma espessura maior da cama. Quando o tempo o permittir, como as plantas precisam do renovamento do ar, levanta-se de dia um pouco as vidraças dos estufins. Também são necessárias esteiras que servem para proteger as plantas contra a geada, fazendo com ellas além d’isso uma espécie de toldos ou abrigos sobre os estufins, agasalhando-os contra o frio. Para attenuar os raios de sol no tempo em que são muito fortes, branqueavam os vidros com cal.
A este processo dos estufins chamavam cultura em cama. E distinguiam as camas quentes, tépidas e frias.
Camas quentes eram preparadas com estrume de cavallo, ovelha, etc. Nos primeios dias, depois de armadas, a temperatura elevava-se até 70º descendo depois de 20 a 30º que se conservavam durante 40 a 50 dias. Correspondia ao Verão
Camas tépidas eram feitas com estrumes animaes, folhas, detrictos vegetaes susceptíveis de fermentação ou misturas de estrume de cavallo com estrume já fermentado Forneciam uma temperatura média entre os 12 e 20º durando por 60 a 70 dias Correspondia à Primavera.
As camas frias ou mortas eram construídas ao nível do solo, com materiaes mais ou menos esgotados e cobertas também pelos estufins. Correspondia ao Inverno mas sem geada .
Além dos estufins era preciso comprar redomas de vidro transparentes e de um tom ligeiramente esverdeado, em forma de sino, terminando superiormente por um botão ou pegadeira e tendo na base um diâmetro de 40 cm, para proteger das geadas e dos frios as novas plantas no campo.
No final do livro Thomé tinha 15 irmãos. A família vivia mais desafogada graças às poupanças que conseguiam fazer com a venda dos productos da horta. Os irmãos compraram a propriedade que tinham alugado, augmentaram a casa e adquiriram mais água e terras de horta. Tinham construído uma correnteza de estufas onde faziam a cultura forçada dos primôres. O Thomé continuava a estudar botânica sózinho e era tão intelligente que fazia ensaios com as culturas novas conseguindo reproduzir batatas por semente, obtendo uma variedade que fôra premiada com medalha de oiro na exposição hortícola à qual deu o nome de Batata Salomão em homenagem ao seu mestre.

Ahinda que com algumas reservas em relação a certas practicas e ensinamentos, digam lá se não é um immenso prazer para os sentidos?

2008-07-12

Visitando alfarrabistas

É sempre no Verão que nos afastamos mais da escrita e das visitas aos blogs que achamos mais interessantes.
É altura de levantar a batata, cebola e alhos da terra, de regar e sachar as hortas, colher feijão verde, courgettes, funcho, pepinos, aipo, rabanetes, alface, rucola, ameixas, nêsperas, morangos, maçãs (antes da devastação dos corvos e melros), fazer a rega com aspersores ao milharal, cortar a relva quase semanalmente para mantermos o jardim com melhor aspecto, fazer a segunda poda das alfazemas, regar e adubar os canteiros, cortar as flores secas para assim estimular a produção de muitas mais, tratar dos nossos animais, acompanhar os nascimentos na chocadeira, continuar o ensino aos cães mais jovens e muitas mais tarefas que agora nem nos ocorre. Além disso acompanhar familiares e amigos que aproveitam este período para nos visitar, ficando connosco por períodos mais ou menos longos o que nem sempre significa ter mais braços para ajudar :)))
Mas por vezes conseguimos libertar-nos das tarefas para nos afastar, assistir a alguns espectáculos, visitar alguns amigos, fazer alguns passeios…

Há duas semanas atrás fomos passar dois dias em Lisboa e aproveitámos para dar uma espreitadela nos alfarrabistas da Rua da Misericórdia.
Temos este gosto estranho de gostar do toque e do cheiro dos livros antigos.
Procurávamos livros da antiga Biblioteca dos Rapazes e Biblioteca das Raparigas para aumentar a nossa biblioteca que faz as delícias dos mais jovens que permanecem connosco nas férias escolares.
Havia poucos livros juvenis mas houve um que ao abrir nos deixou de imediato decididos a adquiri-lo. Chamava-se “as férias” e escrito pela condessa de Ségur, que tinha o nome de Sophie Feodorovna Rostopchine, nascida na Rússia em 1799 e tendo acompanhado seus pais no exílio para Paris onde viria a casar-se com o Conde Eugene Ségur. Começou a escrever aos 58 anos.


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Mas o que nos fez comprar este livro, foi o facto de ter o nome manuscrito da sua proprietária assim como o ano da posse.


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Não sabemos explicar o que nos encanta, de modo a não conseguirmos resistir a este tipo de “marcas”
Outra das aquisições foi um livro mais antigo chamado “ Manual do Jardineiro”

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e desta vez a compulsão foi por termos encontrado um montinho de pequenos recortes que o anterior dono/a do livro foi pacientemente coleccionando e guardando entre as suas páginas.

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Acreditem que sentimos um prazer imenso em manusear estes livros, ler lentamente cada recorte, ficar a admirar os sublinhados feitos a lápis no próprio livro. E principalmente, sentir que os adoptámos, desprezados por alguém que se decidiu pela sua venda por não encontrar neles qualquer interesse que justificasse a sua posse.
E por esta ou aquela razão acabámos por vir com um saco de 8 livros antigos. Agora só é preciso arranjar tempo para podermo-nos deleitar com uma leitura relacionada com costumes e práticas já esquecidas ou abandonadas por nós.
Talvez no Inverno sentados em frente da lareira durante as noites longas e frias.

2008-02-14

Quem é quem?

Andava aqui ás voltas sem saber como começar este texto. Queria homenagear alguém que não conhecendo pessoalmente considero um grande amigo, o Augusto Mota.
O acaso fez com que nos cruzássemos na blogosfera quando encontrei no “Pilriteiro” resposta a muitas questões que me andavam a preocupar, relacionadas com a jardinagem, com a agricultura, com o ambiente em geral.
A amizade foi-se instalando e durante esta simpática ligação fui conhecendo a qualidade artística dos seus “textos transversais” publicados no blog
“Palácio das Varandas”, mas também o caderno de prosa intitulado “quadriculado”, editado em 1959 e o livro “Sujeito Indeterminado” publicado em 2005, composto por pequenos textos num encantador jogo de palavras:
“Em noites de lua cheia enfunava as velas da fantasia e navegava solitário sobre as searas da solidão. A caminho do cabo da boa esperança”
A par da escrita também o desenho, a pintura, o mosaico, autor de diversas ilustrações em livros de poesia, cenógrafo em grupos amadores de teatro, vencedor de 3 primeiros prémios com o seu filme “Variações sobre o mesmo traço”, participou em várias colectivas. Em 1988 recebe da Câmara Municipal de Leiria o galardão do município "pela sua valiosa e multifacetada obra artística e cultural”
Entretanto a Gradiva reeditou há poucas semanas 500 exemplares do álbum de banda desenhada “Wanya - Escala em Orongo” com texto de Augusto Mota e desenho de Nelson Dias, falecido em 1993.
Editado pela primeira vez em Dezembro de 1973 pela Assírio & Alvim com uma tiragem de 5.000 exemplares que viria a esgotar-se rapidamente, acabou por entrar na lista dos livros considerados perigosos pelo anterior regime, situação que ficou resolvida com o 25 de Abril, quatro meses mais tarde.
Segundo Rui Zink trata-se de “um livro-poema generoso, engenhoso e complexo, a obra "Wanya - escala em Orongo" foi inovadora ainda na temática, cruzando ficção científica e o fantástico com uma mensagem de libertação social do Homem.”
Fiz a encomenda pela Internet e neste momento já estou na posse do álbum para o poder ler calmamente, não esquecendo o momento político em que foi escrito... há 35 anos atrás.


 
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Para quem quiser saber mais, poderá consultar o site: http://wanya-escalaemorongo.blogspot.com/

2007-11-27

Só faltaram as fadas

Estava uma tarde quente de Verão e eu descia a Rua do Alecrim em direcção à estação dos comboios, depois de mais um dia de trabalho no banco.
Parei uns curtos minutos em frente de uma montra para apreciar umas peças de cerâmica e pude dar uma olhadela ao meu aspecto com o cabelo cortado curto recentemente, a minha t-shirt amarela com uma flor bordada com missangas brancas e as calças à marinheiro de ganga também branca. Ao ombro a minha malinha de pano verde e vermelho com tirinhas amarelas, alvo da chacota dos meus colegas.
Sentia-me fresca e leve e por isso continuei a descer a rua num passo descontraído.
Ao chegar ao largo do Cais do Sodré, cujo nome é Praça Duque da Terceira, atravessei a primeira faixa com o sinal verde para os peões para depois atravessar a faixa dos carros eléctricos que entretanto estava com luz vermelha.
O carro eléctrico aproximava-se com velocidade mas dava perfeitamente para atravessar diante dele. E foi o que fiz. Eu e algumas pessoas que pensaram da mesmo forma.
Mas aconteceu um imprevisto: a correia da mala esgueirou-se do ombro e a malinha caiu, ficando no meio dos carris e aí já sem tempo para a poder apanhar. Esperei que o carro passasse para depois a reaver.
O carro eléctrico abrandou a velocidade mas ao passar, arrastou a mala consigo. Percebi que tinha ficado agarrada às peças salientes que o carro tem por baixo. O condutor avançou um pouco, depois fez marcha atrás mas a malinha não caiu mantendo-se presa a ele. O carro eléctrico imobilizou-se.
Olhei para o condutor expectante, para os passageiros debruçados das janelas, para as pessoas que se juntaram à minha volta curiosas com a ocorrência e, suspirando fundo, percebi que tinha que agir rapidamente.
E assim fiz.
Tirei um pedaço de cartão que espreitava de um caixote de lixo ali perto e ajoelhei-me sobre ele para poupar as calças brancas. Mas a correia estava de tal maneira enrodilhada naquelas peças que não tive outro remédio senão deitar-me no chão para poder trabalhar.
Não sei se algum de vós já viu as partes baixas de um carro eléctrico. Aquilo está tudo coberto por uma grossa camada de massa consistente, preta de tanto lixo acumulado e agarrando-se teimosamente a qualquer coisa que lhe toque
Acabei por conseguir soltar a mala e quando me preparava para sair dali, ouvi os gritos lancinantes e estridentes de uma mulher e pensei:
"Não me digam que o facto do carro eléctrico estar aqui parado já deu origem a um acidente grave!..."
Consegui esgueirar-me daquele inferno preto e os berros da mulher pararam como por encanto ao ver-me sair sã e salva. Só então percebi que os gritos eram pela aparência de eu ter sido trucidada pelo veículo.
Já de pé dei-me conta do meu aspecto horrível com camadas grossas de massa presas às mãos, aos braços, aos cabelos agora pesados. O mesmo se passava com a minha t-shirt amarela e com a parte de trás das calças
A mala de pano não se abriu e por isso não perdi nada. Mas o que levava dentro como a caixinha da maquillage mais o pequeno espelho estavam partidos e o livro, que andava a ler na altura, ficou meio cortado.
O condutor tocou para se despedir. Levantou o braço e o carro eléctrico seguiu caminho. As pessoas que se tinham juntado à minha volta, afastaram-se comentando o sucedido.
E eu apanhei o comboio, com montes de gente a olhar, intrigados com o meu aspecto e tendo que fazer a viagem em pé pela impossibilidade de me sentar com a parte de trás toda coberta de massa consistente.

O livro mantenho-o comigo... como troféu.
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