Estava uma tarde quente de Verão e eu descia a Rua do Alecrim em direcção à estação dos comboios, depois de mais um dia de trabalho no banco.
Parei uns curtos minutos em frente de uma montra para apreciar umas peças de cerâmica e pude dar uma olhadela ao meu aspecto com o cabelo cortado curto recentemente, a minha t-shirt amarela com uma flor bordada com missangas brancas e as calças à marinheiro de ganga também branca. Ao ombro a minha malinha de pano verde e vermelho com tirinhas amarelas, alvo da chacota dos meus colegas.
Sentia-me fresca e leve e por isso continuei a descer a rua num passo descontraído.
Ao chegar ao largo do Cais do Sodré, cujo nome é Praça Duque da Terceira, atravessei a primeira faixa com o sinal verde para os peões para depois atravessar a faixa dos carros eléctricos que entretanto estava com luz vermelha.
O carro eléctrico aproximava-se com velocidade mas dava perfeitamente para atravessar diante dele. E foi o que fiz. Eu e algumas pessoas que pensaram da mesmo forma.
Mas aconteceu um imprevisto: a correia da mala esgueirou-se do ombro e a malinha caiu, ficando no meio dos carris e aí já sem tempo para a poder apanhar. Esperei que o carro passasse para depois a reaver.
O carro eléctrico abrandou a velocidade mas ao passar, arrastou a mala consigo. Percebi que tinha ficado agarrada às peças salientes que o carro tem por baixo. O condutor avançou um pouco, depois fez marcha atrás mas a malinha não caiu mantendo-se presa a ele. O carro eléctrico imobilizou-se.
Olhei para o condutor expectante, para os passageiros debruçados das janelas, para as pessoas que se juntaram à minha volta curiosas com a ocorrência e, suspirando fundo, percebi que tinha que agir rapidamente.
E assim fiz.
Tirei um pedaço de cartão que espreitava de um caixote de lixo ali perto e ajoelhei-me sobre ele para poupar as calças brancas. Mas a correia estava de tal maneira enrodilhada naquelas peças que não tive outro remédio senão deitar-me no chão para poder trabalhar.
Não sei se algum de vós já viu as partes baixas de um carro eléctrico. Aquilo está tudo coberto por uma grossa camada de massa consistente, preta de tanto lixo acumulado e agarrando-se teimosamente a qualquer coisa que lhe toque
Acabei por conseguir soltar a mala e quando me preparava para sair dali, ouvi os gritos lancinantes e estridentes de uma mulher e pensei:
"Não me digam que o facto do carro eléctrico estar aqui parado já deu origem a um acidente grave!..."
Consegui esgueirar-me daquele inferno preto e os berros da mulher pararam como por encanto ao ver-me sair sã e salva. Só então percebi que os gritos eram pela aparência de eu ter sido trucidada pelo veículo.
Já de pé dei-me conta do meu aspecto horrível com camadas grossas de massa presas às mãos, aos braços, aos cabelos agora pesados. O mesmo se passava com a minha t-shirt amarela e com a parte de trás das calças
A mala de pano não se abriu e por isso não perdi nada. Mas o que levava dentro como a caixinha da maquillage mais o pequeno espelho estavam partidos e o livro, que andava a ler na altura, ficou meio cortado.
O condutor tocou para se despedir. Levantou o braço e o carro eléctrico seguiu caminho. As pessoas que se tinham juntado à minha volta, afastaram-se comentando o sucedido.
E eu apanhei o comboio, com montes de gente a olhar, intrigados com o meu aspecto e tendo que fazer a viagem em pé pela impossibilidade de me sentar com a parte de trás toda coberta de massa consistente.
O livro mantenho-o comigo... como troféu.
Mostrar mensagens com a etiqueta Historias cómicas verídicas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Historias cómicas verídicas. Mostrar todas as mensagens
2007-11-27
2006-11-29
Verídica :))
Saí de casa com a intenção de procurar máquinas fotográficas digitais. Pretendia saber preços de uma máquina com zoom - já que a minha não tem - e com a possibilidade de usar lentes macro.
Gostava de conseguir fotos com a espectacularidade de pormenores como as que vejo em alguns blogs.
Talvez devido à linguagem usada e denunciadora da minha falta de experiência em coisas deste género, o empregado perguntou-me o que é que eu pretendia fotografar com uma máquina deste tipo.
- Olhe, queria tirar fotos a flores e a insectos mas de forma a captar pormenores que escapem à vista normal.
O empregado ficou uns segundos a pensar e depois disse com o ar de quem ainda não emergiu totalmente do pensamento:
- Huuummm... estou a perceber... mas olhe que não vai conseguir tirar fotos dessas... quero dizer, consegue tirar às flores... agora aos insectos... acho que não!...
- Ah sim? E porquê??
- Então, pense bem... quando a senhora se aproximar com a máquina, o insecto foge!...
Não é que não tinha pensado nisto? E se amarrar o insecto por uma pata??
Gostava de conseguir fotos com a espectacularidade de pormenores como as que vejo em alguns blogs.
Talvez devido à linguagem usada e denunciadora da minha falta de experiência em coisas deste género, o empregado perguntou-me o que é que eu pretendia fotografar com uma máquina deste tipo.
- Olhe, queria tirar fotos a flores e a insectos mas de forma a captar pormenores que escapem à vista normal.
O empregado ficou uns segundos a pensar e depois disse com o ar de quem ainda não emergiu totalmente do pensamento:
- Huuummm... estou a perceber... mas olhe que não vai conseguir tirar fotos dessas... quero dizer, consegue tirar às flores... agora aos insectos... acho que não!...
- Ah sim? E porquê??
- Então, pense bem... quando a senhora se aproximar com a máquina, o insecto foge!...
Não é que não tinha pensado nisto? E se amarrar o insecto por uma pata??
2006-11-12
E tu? Tens os braços do mesmo tamanho?
Ontem estava à espera da minha vez num consultório médico. Na sala só estava eu e uma senhora de meia idade que me olhava frequentemente. Como sou muito distraída, tornei a olhar para ela atentamente, não fosse alguém conhecido e que assim à primeira não estivesse a reconhecer.
Percebi depois que era o sinal que a senhora esperava. Fez um grande sorriso e disse-me assim:
- A gente passa tanto tempo enfiada nestes sítios. Mas tem que ser. A saúde está primeiro que tudo.
- Sim, isso é verdade! - e tentei escolher uma revista diferente daquelas que têm os cantos inferiores das páginas mais escuros, moles e meio enrolados pelo passar de centenas de dedos sebentos e molhados com cuspo..
- Olhe, eu já tenho a minha conta em médicos e hospitais. Inda agora vim da farmácia. Tenho ali uma sacada de remédios que eu sei lá. E nem tive dinheiro para os pagar. A minha sorte é ser conhecida e as pessoas confiarem em mim. Mas já passei muito nesta vida. Estive em Lisboa, sabe? Tive um cancro. Entrei na máquina 30 vezes para ser queimada. Mas sempre tive muita fé na Virgem e foi ela que me salvou!
Sorri para a senhora abanando a cabeça, num sinal de compreensão.
Li as letras gordas de uma notícia sobre o divórcio de uma artista portuguesa qualquer. Mas, ao perceber que a senhora não me ia largar mais, pousei a revista.
- Sabe? Eu sou uma pessoa muito boa e tenho muita fé na Virgem. E também uso os meus poderes para tratar das pessoas!..
Achei estranha esta afirmação uma vez que estavamos as duas no consultório médico à espera de sermos atendidas. Comecei a interessar-me e alimentei a conversa:
- Ah, não sabia! E trata as pessoas de quê ?
- Olhe, trato do buchinho revirado, da espinhela caída…
Espantei-me com os termos.
- Buchinho revirado? Nunca ouvi falar! O que é isso?
A senhora olhou para mim com o sobrolho franzido tentando perceber se eu estava a gracejar ou se realmente era uma ignorante destes males.
- Não sabe o que é o buchinho revirado? Atão, é aquilo que dá nas crianças pequenas. Começam a gomitar e nada lhes pára no estômago!
- Palavra que nunca tal tinha ouvido. E como é que a senhora sabe que a criança tem o bucho dessa maneira?
- Ora essa, levanto a criança no ar segurando-a por baixo dos braços. Por acaso ultimamente nem tenho tido muita força nos meus. Vê-se logo aquele alto por cima da barriga. Não há que enganar!
Preocupada com o assunto, perguntei a medo:
- E como é que a senhora trata desses bebés?
- Com rezas, minha filha! O tratamento é feito com rezas porque eu tenho muita fé nos santos.
- Ah, ainda bem! – respondi aliviada – Mas falou-me noutro problema que também consegue curar!
- Sim. Também trato da espinhela caída. Mas isso acontece mais aos crescidos. São maus-jeitos que se dão, percebe?
- E como é que a senhora sabe que o doente tem a espinhela caída?
Sacudindo os ombros, naquele gesto que quer dizer “Aparece-me cada uma!...” respondeu-me lentamente a marcar bem as sílabas, a pretender fazer-me sentir completamente burra.
- Mando levantar os braços das pessoas, com os polegares assim (e por pouco espetava-me os polegares nos olhos). Os braços têm que ter o mesmo tamanho, não é verdade? Se um estiver mais pequeno que o outro é sinal que tem a espinhela caída. Entendeu?
Acenei que sim enquanto olhava para ela com os braços esticados ao alto. Depois pousou as mãos sobre a mala e continuou:
- Uma vez dei um jeito à minha espinha e pensei que não me ia mexer mais. Pedi ao meu filho e ele ajudou-me a levantar e a segurar-me à parte de cima da porta do meu quarto. Fiquei pendurada e pedi-lhe para me puxar um pouco para baixo para aliviar a dor. Mas olhe, até parece que ouvi um estalinho. Tive muito azar. Acabei por ficar de cama durante 3 meses com duas hérnias discais. Passei bem mal dessa vez!...
Felizmente ouvi chamar pelo meu nome e consegui sair a tempo de esconder um sorriso divertido que ameaçava alargar-se pela cara toda
Percebi depois que era o sinal que a senhora esperava. Fez um grande sorriso e disse-me assim:
- A gente passa tanto tempo enfiada nestes sítios. Mas tem que ser. A saúde está primeiro que tudo.
- Sim, isso é verdade! - e tentei escolher uma revista diferente daquelas que têm os cantos inferiores das páginas mais escuros, moles e meio enrolados pelo passar de centenas de dedos sebentos e molhados com cuspo..
- Olhe, eu já tenho a minha conta em médicos e hospitais. Inda agora vim da farmácia. Tenho ali uma sacada de remédios que eu sei lá. E nem tive dinheiro para os pagar. A minha sorte é ser conhecida e as pessoas confiarem em mim. Mas já passei muito nesta vida. Estive em Lisboa, sabe? Tive um cancro. Entrei na máquina 30 vezes para ser queimada. Mas sempre tive muita fé na Virgem e foi ela que me salvou!
Sorri para a senhora abanando a cabeça, num sinal de compreensão.
Li as letras gordas de uma notícia sobre o divórcio de uma artista portuguesa qualquer. Mas, ao perceber que a senhora não me ia largar mais, pousei a revista.
- Sabe? Eu sou uma pessoa muito boa e tenho muita fé na Virgem. E também uso os meus poderes para tratar das pessoas!..
Achei estranha esta afirmação uma vez que estavamos as duas no consultório médico à espera de sermos atendidas. Comecei a interessar-me e alimentei a conversa:
- Ah, não sabia! E trata as pessoas de quê ?
- Olhe, trato do buchinho revirado, da espinhela caída…
Espantei-me com os termos.
- Buchinho revirado? Nunca ouvi falar! O que é isso?
A senhora olhou para mim com o sobrolho franzido tentando perceber se eu estava a gracejar ou se realmente era uma ignorante destes males.
- Não sabe o que é o buchinho revirado? Atão, é aquilo que dá nas crianças pequenas. Começam a gomitar e nada lhes pára no estômago!
- Palavra que nunca tal tinha ouvido. E como é que a senhora sabe que a criança tem o bucho dessa maneira?
- Ora essa, levanto a criança no ar segurando-a por baixo dos braços. Por acaso ultimamente nem tenho tido muita força nos meus. Vê-se logo aquele alto por cima da barriga. Não há que enganar!
Preocupada com o assunto, perguntei a medo:
- E como é que a senhora trata desses bebés?
- Com rezas, minha filha! O tratamento é feito com rezas porque eu tenho muita fé nos santos.
- Ah, ainda bem! – respondi aliviada – Mas falou-me noutro problema que também consegue curar!
- Sim. Também trato da espinhela caída. Mas isso acontece mais aos crescidos. São maus-jeitos que se dão, percebe?
- E como é que a senhora sabe que o doente tem a espinhela caída?
Sacudindo os ombros, naquele gesto que quer dizer “Aparece-me cada uma!...” respondeu-me lentamente a marcar bem as sílabas, a pretender fazer-me sentir completamente burra.
- Mando levantar os braços das pessoas, com os polegares assim (e por pouco espetava-me os polegares nos olhos). Os braços têm que ter o mesmo tamanho, não é verdade? Se um estiver mais pequeno que o outro é sinal que tem a espinhela caída. Entendeu?
Acenei que sim enquanto olhava para ela com os braços esticados ao alto. Depois pousou as mãos sobre a mala e continuou:
- Uma vez dei um jeito à minha espinha e pensei que não me ia mexer mais. Pedi ao meu filho e ele ajudou-me a levantar e a segurar-me à parte de cima da porta do meu quarto. Fiquei pendurada e pedi-lhe para me puxar um pouco para baixo para aliviar a dor. Mas olhe, até parece que ouvi um estalinho. Tive muito azar. Acabei por ficar de cama durante 3 meses com duas hérnias discais. Passei bem mal dessa vez!...
Felizmente ouvi chamar pelo meu nome e consegui sair a tempo de esconder um sorriso divertido que ameaçava alargar-se pela cara toda
Subscrever:
Mensagens (Atom)

