2007-05-10

Será que vale a pena?

Se algum de vós ainda tem a ideia de que viver no campo é mais saudável, evita o stress e é mais económico, desiluda-se porque não há nada de mais erróneo, pelo menos quando também se convive com animais de estimação.
Para entenderem melhor a razão de ser desta afirmação, iremos vos pôr ao corrente do que tem acontecido aqui na quinta de há 2 meses a esta parte:
A nossa pneumonia desapareceu para dar lugar a uma gripe que teimosamente não nos abandona, deixando-nos fatigados, tensos e sem disposição para nada. Pensamos que a responsabilidade cabe a estas súbitas mudanças climatéricas.
Entretanto, a potra, filha da Joaninha, morreu no dia seguinte ao seu nascimento. Aqui a vemos umas 5 horas depois de vir ao mundo. Só então é que se conseguiu pôr de pé, o que já indiciava que alguma coisa não estava a ir bem. Nas primeiras horas teve que ser amamentada a biberão com leite ordenhado da mãe até conseguir manter-se de pé. Foi examinada pelo veterinário que não gostou muito da lentidão de todo este processo. Só à noitinha é que conseguiu orientar-se para mamar directamente das tetas. Mas, de qualquer forma, a morte no dia seguinte apanhou-nos completamente desprevenidos. Foi o caseiro que nos avisou, lavado em lágrimas, e ainda assistimos aos últimos momentos do animal tentando evitar o inevitável.
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… quase de seguida, a morte súbita do Tomás, o pavão. Reparámos que fazia muito ruído e que estava numa aflição para respirar. Ainda abrimos o bico para ver se teria a traqueia obstruída, o que não era o caso. Como estávamos de partida para o veterinário, aproveitámos e também o preparámos para ser visto. Mas, ainda nem tínhamos saído da quinta e já o levávamos morto. Pedimos uma autópsia e a causa da morte teria sido uma septicemia, coisa quase inacreditável uma vez que o bicho andava esperto e a comer normalmente.

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… entretanto o Odin, um dos nossos cães castro-laboreiros, apareceu com um fiozinho de sangue a sair de uma narina e que teimava em não parar. Fizeram-lhe testes para a leishmaniose (provocada por um mosquito) e para a erliquia (provocada por uma carraça) e o resultado foi positivo para ambas. A primeira não tem cura e é extremamente grave por interferir com o sistema imunitário e não sabemos se será a responsável pelo hipo-tiroidismo que somou agora ao seu quadro clínico, tendo dores no corpo e descontrole muscular o que faz com que tenha um caminhar trémulo e sofrido. Estamos a tentar tudo por tudo para melhorar os sintomas e darmos uma vida ao animal com alguma qualidade.
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Quando os problemas aparecem sucessivamente, não nos dando tempo para recuperar, damos connosco a pensar se vale a pena continuarmos a insistir numa vida que nos dá tanto desgaste físico, emocional e financeiro.
Este post esteve para não ser feito, tal era o desconforto que sentíamos ao escrevê-lo. Mas não é justo falar-vos só das coisas boas ou curiosas que acontecem neste espaço. As nuvens negras também pairam muitas vezes sobre nós.
Mas como continuamos aqui de pedra e cal, depois deste desabafo de quem sente a vida na sua plenitude, vamos continuar o caminho escolhido.
Ora bem, Mariana a pavoa viúva, acabou também por adoecer com uma coriza e uma manhã vimo-la com este aspecto assustador
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Telefonámos a um dos nossos amigos veterinários que aconselhou a operação, dando-nos as necessárias orientações. Respirámos fundo, com aquela sensação já conhecida do que tem que ser tem muita força, pedimos ajuda ao caseiro e metemos mão à obra com direito a reportagem fotográfica para vos mostrar (e também ao médico) a qualidade do nosso trabalho.

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E depois da cirurgia, a paciente Mariana ficou com este belíssimo aspecto:
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Dias depois tornou a piorar. Deixou de comer, caminhava tropegamente, com as asas a arrastarem no chão, inchou-lhe a mesma face e tivemos que a submeter de novo à operação. Agora duas vezes por dia metemos-lhe bolinhas de ração com umas gotas de antibiótico pelo bico abaixo e limpamos o interior da face com betadine para ir sarando de dentro para fora. Passou a ficar dentro da capoeira onde recolhem as galinhas por ser um local mais aquecido. Vamos a ver se tem melhor sorte que os outros. Para já, está com óptimo aspecto, mais forte, voando para se empoleirar mais alto que as companheiras.
A Joaninha também recebeu de novo a visita do namorado e se estiver prenha (o que saberemos depois da próxima ecografia), daqui a um ano terá de novo um filhote
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E assim, mesmo com todos estes desgostos e desilusões continuamos o nosso trabalho, partilhando convosco os bons e maus momentos. Obrigada pela companhia tão amiga com que nos têm brindado

2007-04-25

A voluptuosidade da dama-da-noite

O Cestrum nocturnum, mais conhecido por dama-da-noite é um arbusto que pode atingir os 4 metros, com ramos sinuosos e pendentes e umas modestas florzinhas ligeiramente campanuladas de cor branco-esverdeado formando pequenos cachos. A modéstia das flores é apenas aparente porque ao fechar a tarde e durante toda a noite, as florzinhas abrem e deixam sair um perfume doce e muito intenso.
Conhecemos esta planta há muitos anos, numas férias passadas em Altura-Algarve no jardim da moradia que alugámos. De dia não se dava por ela, mas quando começava a noite, o aroma entrava sorrateiramente pela janela aberta do quarto onde dormíamos e quando nos apercebíamos já estávamos envoltos num perfume denso que nos despertava do sono e da moleza do corpo.
A proprietária da casa ofereceu-nos várias estacas e uma delas desenvolveu-se no nosso pequeno jardim de S. Pedro do Estoril. Cresceu imenso e era sempre com um enorme prazer que sentíamos o seu perfume avançar lentamente, invadindo todo o espaço envolvente nas quentes noites de verão
Mais tarde espetei várias estacas aqui na quinta mas sem nenhum sucesso.
No Verão passado ao vê-la num horto algarvio, trouxe-a envasada. com este ar saudável e com as flores abertas revelando imediatamente que o dia tinha chegado ao fim.
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Manteve-se assim bonita até chegar o Inverno. Mas o frio atingiu valores tais nesta zona que a pobrezinha preparada para os climas tropicais de onde é originária, acabou por “melar” - ainda que recolhida - e ficou entre a vida e a morte. Agora está a dar sinais de querer recuperar.
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Muito recentemente é que soubemos que não aguenta temperaturas inferiores a 5º e neste Inverno descemos muito abaixo dos 0º. Teremos que pensar numa forma de a proteger futuramente.
O facto de só libertar o perfume à noite, não é por se preocupar em criar ambientes sensuais nos quartos de cada um, mas sim para atrair os seus insectos polinizadores que por sinal são nocturnos.
Há muitas pessoas que não apreciam o aroma forte e doce da dama-da-noite, provocando-lhes até dores de cabeça. Felizmente não é o nosso caso.
As folhas secas em infusão são usadas para combater a epilepsia mas é preciso ter muito cuidado porque é uma planta altamente tóxica, podendo provocar náuseas, vómitos, alucinações, distúrbios do comportamento, etc
O óleo essencial extraído das suas flores é usado para manter o vigor sexual.
Fizemos uma série de pesquisas ao lermos algures que os antigos costumavam ofertar a dama-da-noite nas homenagens a Vénus mas não conseguimos obter mais informações sobre o assunto.
A palavra perfume deriva do latim “per fumum” que significa “pelo fumo” ou “através do fumo”.
O perfumar seria um acto religioso em que através da combustão de madeiras e de plantas odoríferas, os pedidos e orações subiriam com o fumo até à morada dos deuses.
Mais tarde alguns aromas serviriam para purificar, afastando os demónios e só muito mais tarde é que foram usados de uma forma profana como meio de sedução ou de embelezamento.
Achámos este tema de tal maneira interessante que em breve voltaremos a ele para falarmos sobre os vários processos de recolha de substâncias odoríferas, suas aplicações e a preferência de determinados aromas no evoluir da História.

2007-04-13

A Primavera e o cuco

A Primavera anda um bocado arredia aqui da zona. Ainda não se vêem os campos floridos de amarelo que é a primeira cor a impor-se nesta estação. As manhãs continuam a revelar um fino manto de geada, confundindo as plantas e todos nós.
Entretanto estamos preocupados com o silêncio do cuco. Diz o ditado: A três de Abril o cuco há-de vir e se não vier a oito, está preso ou morto. Ora já estamos a 13!...
O cuco tem o nome científico de Cuculus canorus e pertence à família dos cuculídeos.
Como todos sabem, o cuco europeu não faz ninho, aproveitando os ninhos de outras aves para a postura.
Os ovos são diferentes de indivíduo para indivíduo uma vez que estão preparados para parasitar os ninhos da mesma espécie dos seus pais adoptivos, pondo ovos idênticos aos seus.
A fêmea vai vigiando atentamente a azáfama junto aos ninhos das outras aves e quando se apercebe que se iniciou a postura, aproveita rapidamente uma ausência delas, conseguindo pôr um ovo e eliminar outro (para as contas darem certas) em apenas 10 segundos.
Vai pondo um ovo de 2 em 2 dias em ninhos diferentes até terminar a postura (8 a 12 ovos).
A incubação é muito curta sendo de apenas 12 a 14 dias e assim o cuco nasce normalmente muito antes dos seus companheiros de ninho.
Na foto abaixo pode ver-se um cuco acabado de nascer junto a dois ovos de dimensões muito mais reduzidas.
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O cuco recém-nascido e ainda cego, está preparado para não permitir mais ninguém no ninho. As patas são formadas por 4 dedos, dois na frente e dois atrás que funcionam como garras e tem uma pujança tal que consegue eliminar a concorrência: ovos e pássaros.
Na foto seguinte podemos reparar no esforço hercúleo de um recém-nascido que consegue levantar os ovos para os poder expulsar.
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Por vezes nascem 2 cucos ao mesmo tempo e no mesmo ninho - de ovos postos por 2 fêmeas - e a luta pelo lugar acontece de uma forma muito mais violenta porque ambos são possantes e determinados, podendo ocasionar a morte dos dois por extenuação.
Os ninhos parasitados são sempre de aves insectívoras que é a alimentação base do jovem cuco: insectos, lagartas, aranhas e até sementes se for a alimentação dos pais adoptivos.
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Os mais vitimados são os rouxinóis, ferreirinhas, pegas, carriças, piscos, alvéolas, pardais, andorinhas, etc.
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Se estas pequenas aves tivessem que alimentar além do cuco (que é extremamente voraz) a sua própria prole, não conseguiriam resistir à fadiga.
O cuco é uma ave migratória. Os adultos partem no mês de Julho para a África equatorial onde passam o Inverno. Os jovens partem mais tarde em Agosto, Setembro para as mesmas zonas sem serem guiados pelos pais, nem adoptivos, nem biológicos. Partem de noite, isoladamente, demonstrando uma capacidade inata de orientação.
Para finalizar, podemos dizer que o cuco tem a vantagem de evitar o desenvolvimento exagerado de algumas pragas, alimentando-se também de larvas e crisálidas da processionária.
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E é óptimo para informar as moças solteiras do número de anos que se vão manter sem casar. Para isso basta perguntar o seguinte:
- Cuco da Ribeira, quantos anos me dás de solteira?
Depois contam-se as vezes que ele faz cuc-cuu, um ano por cada vez. É muito simples!

(fotos retiradas do http://www.alrfoto.com/ )

2007-04-02

Adenda ao post anterior

Respondendo ás perguntas que nos têm feito sobre o que sucedeu ao grupo amador de astronomia e missilismo, devo acrescentar o seguinte:
Um dos últimos projectos do grupo foi a construção de um foguete com 1,20m de comprimento e a funcionar com combustível sólido. O projecto acabou por ser boicotado pelo Centro de Estudos Astronáuticos da Mocidade Portuguesa. A Embaixada dos EUA e a própria NASA tinham prometido apoios que acabaram por ser desviados para a Mocidade Portuguesa. Entretanto esta viria a convidar os elementos mais entusiastas do GAAM para trabalharem em conjunto no seu Centro de Estudos. Os elementos do grupo de astronomia conseguiram delicadamente recusar o convite uma vez que não estava nos seus projectos virem a trabalhar com indivíduos da Mocidade Portuguesa, mais conhecidos pelos “piolhos verdes”. Mais tarde, Victor Manuel Castelo e José Manuel Silva foram convidados pelos americanos para completarem os estudos nos EUA o que não foi possível aceitar por ser proibido pelo regime salazarista a ida para o estrangeiro de jovens em idade militar. E aos poucos tudo foi esmorecendo até à extinção do grupo.
Sobre Carlos Bettencourt Faria, consultando um dos links indicados no post abaixo, só posso acrescentar o seguinte:
Nasceu em Lisboa a 13 de Fevereiro de 1924. A sua juventude foi passada em S. Miguel-Açores, numa localidade chamada Ginetes, onde o seu avô era médico. Frequentou o liceu de Ponta Delgada demonstrando muito interesse pela óptica astronómica e tecnologia de rádio. Ainda adolescente foi viver para a Ilha da Madeira com um tio cónego, grande entusiasta de rádio, astronomia e biologia marítima, com quem desenvolveu os seus conhecimentos. Com 27 anos de idade viajou para Angola, onde 6 anos depois fundou o Observatório Astronómico da Mulemba num terreno situado nos arredores de Luanda com uma área de 10.000m2, estando igualmente em preparação a instalação de rádio telescópios, motivada pela fraca expansão da rádio astronomia no mundo. A Associação Astronómica de Angola, fundada em 8/8/64 foi considerada Instituição de Utilidade Pública, podendo assim usufruir de subsídios estatais e privados que foram decisivos para o desenvolvimento e construção de infra-estruturas para a Biblioteca Técnica, Museu da Mulemba, Estação de Satélites, Rádio Astronomia, Estação Solar e Laboratório de Electrónica para o desenvolvimento de equipamentos, fazendo deste complexo, um dos mais importantes do mundo, no género, dando especial relevo à cooperação internacional no rastreio da satélites artificiais e trabalhos astronómicos no âmbito solar.

2007-03-27

O album de recortes

Andarilhar pela casa sem poder sair, obrigou-me a dar uma vista de olhos pelos livros que ainda não li, pelas pastas que aguardam uma pausa para poderem ser organizadas e até por antigos álbuns de fotografias. Descobri um que fiz há muitos anos e onde guardei fotos, cartas, postais, poemas, tudo aquilo que marcou de alguma maneira a minha infância e a minha adolescência. Ao folheá-lo caíram-me 2 recortes do antigo jornal Diário Popular que noticiava a existência do grupo ao qual pertenci e que tinha o nome de GAAM-Grupo Amador de Astronomia e Missilismo.
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Era um pequeno grupo, unido pelo desejo de conseguir lançar foguetes que pudessem transportar e regressar com pequenos animais vivos. Passávamos muitas tardes de domingo em acesas discussões nas reuniões que se faziam na minha casa. A minha função no grupo além de disponibilizar a casa e quintal para o que fosse preciso era a de fornecer os ratos que infestavam a capoeira, tratar da correspondência e da divulgação do grupo, enfim todo um trabalho de secretariado uma vez que não percebia nada de física nem de química. Lembrei-me das experiências feitas no meu quintal, com latas velhas que disparavam no ar com o estrondo de bombas no meio de grande gritaria e assobios, o que fazia os vizinhos virem espreitar à janela, assustados.
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Uma das misturas propulsoras era feita com açúcar e enxofre não me conseguindo lembrar das percentagens. Também recordei a sensação horrível que senti ao visitar um dos elementos do grupo que sofrera um acidente com uma explosão que só não o cegou por acaso e ao entrar no quarto, reconhecer os ratos que oferecera vivos, semanas antes, embalsamados e espetados na parede como decoração. Aqueles não sentiram a glória de terem sido lançados para o espaço
Mas, ao ver as fotografias e reler os recortes, lembrei-me do cientista Bettencourt Faria que tinha construído, quase só pelas próprias mãos um observatório astronómico em Mulemba-Angola, e que aceitou simpaticamente ser padrinho do nosso grupo.

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Eu escrevera-lhe para pedir informações e contactos que nos fossem úteis aqui em Portugal e a partir daí gerou-se uma grande amizade entre nós os dois. Ainda conservo algumas, apenas três, das suas cartas e um postal enviado da Polónia, que são um exemplo da simplicidade dos homens grandes. Um homem que com o seu tempo todo preenchido por mil e uma actividades, ainda arranjava disponibilidade para escrever à máquina longas cartas e procurar cartazes com temas espaciais para enviar a uma miúda com 15 ou 16 anos que ainda andava no mundo a “apanhar bonés”. E sempre que passava por Portugal continental (na altura Angola ainda era uma colónia portuguesa) ia sempre visitar-me, conversar comigo e dar pequenos passeios a pé.
Lamentavelmente, a idade que eu tinha não era propícia ao reconhecimento do valor do homem que me escrevia e visitava.
Ao pesquisar na net encontrei o blog:
http://amateriadotempo.blogspot.com/2006/05/bettencourt-faria-e-o-seu-centro.html do qual tirei alguma informação que publico com a devida autorização do seu autor:
“Carlos Mar Bettencourt Faria, de seu nome completo, foi um autodidacta genial, dotado de um notável dinamismo e de uma enorme capacidade de trabalho. Ergueu com as suas próprias mãos aquilo a que chamou Centro Espacial da Mulemba. Neste Centro, ele deu largas à sua paixão pela exploração do Espaço, pela Rádio e pela Astronomia, construindo aparelhos de detecção remota, telescópios, antenas, etc. Dada a sua fraca capacidade económica, ele não podia dar-se ao luxo de comprar as coisas já feitas; fazia-as ele mesmo, aproveitando materiais usados, como foi o caso das agulhas de que falei acima. Mas não eram só agulhas de seringas que ele aproveitava; por exemplo, as grandes antenas que ele construiu foram feitas com sucata ferroviária.
Num tempo em que a Terra ainda não estava rodeada por satélites de comunicações, a NASA tinha necessidade de dispor de uma rede de colaboradores espalhados pelo mundo, que recolhessem os dados enviados pelos satélites e que estabelecessem contacto com os astronautas, servindo de "ponte" entre o Espaço e a sede da NASA. O Centro Espacial da Mulemba, em Angola, era o único observatório em todo o continente africano a fazer essa "ponte". Nenhum outro existia em África.
Para tal, Bettencourt Faria dispunha de um estúdio, pejado de aparelhagem, onde ele recebia e descodificava os sinais enviados pelos satélites e onde entrava em contacto com os astronautas. Tive a oportunidade de ouvir uma gravação de uma conversa que ele teve com o astronauta Neil Armstrong na Lua.
Era desse mesmo estúdio que Bettencourt Faria falava para o público, através de um programa de rádio do malogrado Sebastião Coelho (falecido no ano passado na Argentina), explicando de modo simples e claro o que se ia passando no campo da exploração espacial. Neste aspecto, ele fazia, em Angola, o mesmo que fazia em Portugal um outro notável autodidacta, inventor e apaixonado pelo Espaço, chamado Eurico da Fonseca. Ouvir um deles era quase o mesmo que ouvir o outro.
Não se pense, porém, que Bettencourt Faria se interessava apenas pelo Espaço e pela Astronomia. Os seus interesses eram muitos e variados. Fez investigação etnológica, tendo publicado livros sobre usos e costumes tradicionais de Angola. Era um profundo conhecedor de conchas marinhas, de que possuía uma notável colecção. Inventou máquinas de diversos tipos, entre as quais uma espécie de helicóptero individual, com o qual, aliás, sofreu um acidente e partiu vários ossos. Pintava quadros. Tocava piano. Era radioamador. Apetece perguntar onde é que aquele homem arranjava tempo para poder fazer tantas coisas diferentes.…”


Também na minha casa, várias vezes tocou piano para mim, dedicando-me as suas composições, dizendo que aprendera a tocar sozinho e que nunca tivera uma aula de música.
Não consigo resistir a publicar aqui um excerto de uma das suas cartas:
“O que diferencia as pessoas não é ser bonito ou feio, não é ser rico ou pobre, não é ser católico ou protestante, inteligente de mais ou de menos. É uma simples coisinha que muita gente não atina: a capacidade de determinação, de persistência, aquela espécie de febre que não desce no termómetro quando encontra pela frente as dificuldades inerentes e imediatas a quem se quer guindar a um muro muito alto. Não faltará quem puxe as pernas, quem atire pedras, quem ponha cacos de vidro de garrafa das mais diversas origens no topo do muro. Mas sacudindo as pernas, cortando as mãos e os braços, suando pelo pescoço abaixo, que alegria é chegar ao outro lado, querida Ana! E não é o dinheiro, não são as glórias, nada, a não ser a incomensurável satisfação de ter chegado - onde os outros não chegaram - pelos seus próprios meios! Toda a vida fui um solitário (ainda hoje o sou e muito mais penoso é à medida que os anos passam) Nunca tive ninguém que me auxiliasse, e no entanto o que não tenho feito sozinho! É caso para envaidecer? Claro que não! É caso para eu sentir, sempre sozinho, uma felicidade tão grande que até às vezes me dá vontade de chorar!”
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De pesquisa em pesquisa encontrei este link:
http://apaa.online.pt/bettencourt%20faria.pdf, cujo autor é o Luís Filipe Bettencourt Faria, seu sobrinho, e que escreve assim:
Em 1976 o Centro Espacial da Mulemba, com um património de 200 mil contos e com uma reputação e actividades de âmbito internacionais invejáveis, entra numa fase difícil com o advento da Independência de Angola e com a consequente ordem de nacionalização desta instituição. Bettencourt Faria, então com 52 anos, passou algumas semanas numa tristeza profunda. Acusado de espionagem e de ter um arsenal de armas em casa, sendo-lhe confiscadas até as potentes espingardas de ar comprimido de caça submarina, com a sua correspondência e telefone vigiados, a estação de rádio amador CR6 CH selada, pessoal estranho ao serviço a querer saber como tudo funcionava, foi na tarde de domingo de 4 de Julho de 1976, traiçoeiramente degolado ao baixar o vidro do carro, quando cumprimentava o “segurança” de serviço no portão principal das suas próprias instalações.

2007-03-10

Tentando atrair enxames

Em primeiro lugar vamos ter que esclarecer a razão desta tão grande ausência. Depois de termos passado um largo período a recolher informações para um novo post, a doença bateu-nos à porta sob a forma de uma pneumonia e obrigou-nos a estar quietinhos, abafadinhos e sem disposição para nada.
Ainda mal recuperados mas já em condições para estarmos algum tempo sentados ao computador, resolvemos fazer um post com tema diferente daquele em que trabalhávamos há semanas atrás para vos pôr ao corrente do que entretanto se passou aqui na quinta.
Constatámos com muita tristeza que as nossas 3 colmeias estavam mortas.
Como diz Lars Gustafsson no seu livro A Morte de um Apicultor: “Quando um enxame morre, parece que é como se morresse um animal. É uma personalidade de que sentimos a falta, quase como um cão, ou pelo menos um gato.”
Comprar uma colmeia a funcionar é um bocado dispendioso, sendo os preços aqui na zona na ordem dos 20 a 30 contos.
Entretanto um vizinho quis fazer a seguinte troca connosco: oferecia-nos uma colmeia bem povoada e ainda um pavão com 2 anos se lhe oferecêssemos um casalinho de borregos. Aceitámos a troca e o senhor veio uma manhã buscar os borregos e simpaticamente ofereceu-se para nos ensinar a preparar caixas vazias e cortiços também vazios para captar enxames novos que procurassem um local para estabelecer as novas colónias.
Pudemos verificar que vinham prevenidos para este trabalho trazendo uma panelinha com um líquido endurecido que ao ser aquecido no fogão espalhou no ar um aroma almiscarado, misturado com alecrim, alfazema e também um toque de vinho aquecido que seria vinho branco fabricado sem a adição de nenhum produto químico, segundo nos informaram.
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Esfregaram as caixas e os cortiços por dentro com alecrim, alfazema, rosmaninho e uma erva desconhecida para mim a que chamaram salpor do mato. Depois molharam ramos de alecrim na tal poção mágica e aspergiram a caixa da colmeia e os cortiços.
 
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As frestas laterais dos cortiços que estavam há muitos anos sem uso, foram tapadas com barro tirado à lagoa.
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Depois de estar tudo devidamente preparado, foi só escolher o local que acharam mais de acordo para capturar enxames em deslocação que ao que parece seguem rotas bem determinadas
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Agora é só esperar que algumas obreiras se encantem com tão bonitas e perfumadas casas e levem as restantes obreiras que aguardam suspensas envolvendo as rainhas, a ter a mesma opinião, estabelecendo os seus enxames na colmeia velha e nos cortiços para depois nós transferirmos para colmeias novas que aguardam já limpas no colmeal.
Durante este trabalho pudemos verificar que cada apicultor tem os seus segredos e não é fácil arrancar-lhes toda a informação. Os conhecimentos empíricos misturam-se com lendas e mitos de uma forma fascinante. Por este vizinho ficámos a saber que as abelhas “conhecem” o dono e poupam-no na sua agressividade. Mas, para isso há que ter alguns cuidados como pendurar roupa interior muito suada perto das colmeias para elas reconhecerem o cheiro do seu corpo. E quando a colmeia enxameia, por estar demasiadamente povoada, o enxame sai e fica pendurado num tronco perto da colmeia esperando a vinda do apicultor amigo. Quando este não aparece, então parte para outras zonas.
Mas para não confundirmos os leitores menos conhecedores dos hábitos das abelhas, resolvemos fazer um trabalho que publicámos abaixo deste, onde nos preocupámos em pesquisar várias informações sobre o comportamento das abelhas na colmeia. Esperamos que leiam com o mesmo interesse que sentimos ao escrevê-lo.
À noite chegou a colmeia oferecida que vinha vedada para não haver fuga das abelhas mas ao ser colocada no colmeal foi devidamente aberta para as abelhas de manhã prosseguirem os seus trabalhos, por certo espantadíssimas com a mudança.
Tentaremos ir relatando as várias fases deste processo já que nunca falámos aqui das nossas crestas (colheita do mel) e da centrifugação dos quadros.
Sobre o pavão que já faz parte dos membros da quinta, falaremos futuramente, uma vez que ainda nem o vimos pela proibição de sair de casa, a que ainda estamos sujeitos.

As Abelhas

A técnica de explorar o mel produzido pelas abelhas existe desde 2.400 antes de Cristo. Normalmente era um tipo de pilhagem destruindo completamente o enxame. No séc XIX o apicultor Lorenzo Langstroth desenvolveu as bases da apicultura moderna inventando a colmeia com quadros móveis o que facilitou o seu manejo, melhorou a produção e a extracção do mel.
A abelha é um insecto que pertence à ordem dos himenópteros e à família dos apídeos.

Existem 3 categorias de abelhas: as sociais que são aquelas que vivem em enxames com divisão de trabalhos, separação de castas e que vai ser o tema deste trabalho; as solitárias que constroem ninhos no chão, nas fendas das pedras e árvores e onde a abelha fecundada coloca o ovo em cima de uma quantidade de alimento, fecha o ninho e nunca mais se preocupa com ele; as parasitas que conseguem pôr os seus ovos nas células prontas de outras abelhas deixando que estas se encarreguem do desenvolvimento das larvas ou roubando a outros enxames o material necessário para construirem os seus ninhos.
A abelha comum pertence à espécie Apis mellifera mellifera, mas há a Apis mellifera ligustica (abelha italiana), a Apis mellifera caucásica (abelha caucasiana), a Apis mellifera adansoni (abelha centro-africana) etc. São conhecidas cerca de vinte mil espécies diferentes e até já é distinguida a Apis mellifera ibérica que como o nome indica, uma espécie de abelha mais comum na Península Ibérica.
A colmeia é constituída pela abelha-rainha, obreiras e zangãos
A rainha é a figura mais importante da colmeia, sem a qual esta não tem hipótese de sobrevivência. Mas, ainda que rainha, não tem qualquer função de comando. Após o 5º dia de vida, a rainha começa a fazer voos de reconhecimento e a partir do 9º já está preparada para fazer o voo nupcial, o que fará somente uma vez na vida, saindo da colmeia e sendo fecundada durante o voo por 4 a 8 zangãos que conseguem fertilizá-la, sendo o líquido seminal depositado num saco chamado espermateca que mantém os espermatozóides vivos praticamente durante quase todo o tempo de vida da rainha, 3 a 6 anos. A partir deste momento a sua função principal é a de pôr ovos, 1.500 a 2.000 por dia . Não põe ovos de uma forma casual. As obreiras fabricam os alvéolos de acordo com as necessidades da colmeia e a rainha antes de pôr o ovo tem que inspeccionar o tamanho do alvéolo. Se for mais pequeno é porque se destina à criação de larvas de obreiras e então a rainha mete o seu abdómen no alvéolo e comprime-o de forma a libertar os espermatozóides que irão fecundar o ovo. Se for um alvéolo maior é porque se destina à criação de zângãos e então ela introduz o abdómen mas não comprime a sua espermateca, uma vez que os zangãos nascem de ovos não fecundados. As células reais têm um formato diferente dos hexagonais que formam os favos e localizam-se nos bordos destes. Têm que ser fecundados pela rainha e são depois guardados pelas obreiras para evitar que a rainha mate as futuras rivais. Tem um ferrão liso com o qual localiza os favos onde vai fazer a postura e só o usa como arma nas lutas com outras rainhas, conseguindo injectar veneno sem ficar estropiada como acontece com as obreiras. Uma rainha mal nasce tem o instinto de eliminar as criações reais ainda não nascidas ou tendo um encontro de morte com alguma que tenha nascido ao mesmo tempo. Segrega uma ferormona chamada “substância-de-rainha”que as obreiras recolhem lambendo-a e distribuindo-a depois por todas as outras obreiras criando um ambiente de harmonia dentro da colmeia ao mesmo tempo que impede o desenvolvimento dos órgãos sexuais das obreiras, evitando que sejam reprodutoras. O corpo é maior do que o das obreiras não possuindo as glândulas que as obreiras necessitam para desempenharem as suas funções. Toda a vida é alimentada unicamente com geleia-real
Na colmeia não existe uma divisão de trabalhos mas uma relação entre a idade das obreiras e o trabalho que executam durante a sua curta vida (cerca de 2 meses)
Do 1º dia de vida até ao 3ª dedicam-se à limpeza dos alvéolos, chão e paredes da colmeia. Do 3º dia ao 7º passam a ingerir pólen, mel e água, regurgitando este produto nos alvéolos para alimentação das larvas mais velhas. Do 7º dia ao 14º, devido ao desenvolvimento das suas glândulas hipofaríngeas, conseguem transformar o alimento comum em geleia-real e passam a alimentar as larvas mais novas das obreiras até ao 3º. dia, as larvas dos zângãos, as larvas das princesas e a alimentar a própria rainha . Do 14º ao 20º dia com o atrofiamento das glândulas hipofaríngeas e o desenvolvimento das glândulas cerígenas, passam a construir os favos, a produzir mel, guardando-o nos favos e operculando-os (fechando-os com umas tampinhas), fazendo também a guarda da colmeia. A partir do 21º dia e até ao final das suas vidas passam a trabalhar no exterior, colectando pólen com os pelinhos das patas e armazenando nas bolsas que têm nas patas posteriores chamadas de corbículas, transportam agua para a colmeia com a vesícula melífera que também serve para transformar o néctar em mel. Recolhem ainda néctar e própolis.
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São as obreiras que constroem as células necessárias para a criação de obreiras, zângãos e rainhas. E a rainha cumpre as necessidades da colmeia. Elas inspeccionam os nascimentos e quando uma abelha sai do seu ninho, destacam-se 2 ou 3 obreiras que a lambem, escovam, dão-lhe mel enquanto a examinam minuciosamente. Se lhe encontram algum defeito de conformação que possa representar incapacidade, ainda que mínima, para o trabalho, sacrificam-na implacavelmente.
São também as obreiras que decidem quando é a altura de sair um enxame da colmeia por já estar demasiadamente povoada. Um grupo numeroso de obreiras enche os estômagos com mel, avisam a rainha da viagem e sai uma nuvem de abelhas protegendo a sua rainha, acompanhadas por alguns zangãos. Pousam numa arvore formando uma espécie de pinha gigante enquanto outro grupo vai inspeccionar os arredores para escolher um bom local. Se o local for aceite pelo grupo, começam a construção de um novo ninho, dando início a uma nova colónia.
As obreiras usam cortesias curiosas no trato com a rainha. Uma delas é que em qualquer deslocação ou movimento, nunca se viram de traseiro para a real personagem, conseguindo actuar de forma a manterem-se sempre de frente. Talvez seja essa a razão para não usarem o ferrão quando é decidido eliminá-la por já estar envelhecida. Neste caso rodeiam-na formando uma bola compacta com o seus corpos, acabando por a sufocar sem que a rainha ofereça resistência, aceitando a sua sina.
A rainha não permite a existência de outras rivais mas quando as obreiras decidem que é a altura de preparar um enxame para sair da colmeia com a sua rainha, não permitem que as duas rainhas se defrontem.
Quando a rainha morre e não há substituta, as obreiras começam a pôr ovos nos alvéolos numa tentativa desesperada de refazer a colmeia. Mas, como não são fecundadas, os ovos só irão dar origem a zângãos, formando uma colmeia “zanganeira” que irá perecer em pouco tempo
As abelhas que trabalham no exterior usam vários tipos de dança para poderem informar as suas companheiras sobre a localização do alimento descoberto. Se a dança é feita em círculo é porque se encontra a poucas dezenas de metros. Se é feita formando oitos, o ângulo que faz com o sol indica a direcção a tomar, a rapidez da dança indica a distância e o tempo que leva a dançar indica a abundância do material descoberto.
Os zângãos nascem de ovos não fecundados e não possuem ferrão. Atingem a sua maturidade sexual aos 12 dias de vida. A sua única função é fecundar as rainhas jovens, o que fazem em voo. A duração da sua vida é de 80 a 90 dias desde que não tenham tido o privilégio de fecundar a rainha. Após a cópula o seu órgão genital fica preso no corpo dela, mutilando-os e originando a sua morte. O resto do tempo permanecem inactivos sendo alimentados pelas obreiras. Quando termina a época da abundância são expulsos das colmeias e morrem de fome e frio no exterior.
Os produtos que se podem extrair de uma colmeia são os seguintes:
Mel - conhecido desde a antiguidade foi sendo substituído gradualmente à medida que se iam conhecendo os açúcares refinados extraídos da cana-de-açúcar e da beterraba, mais baratos, mas de qualidade incomparavelmente inferior. O mel é o único adoçante que contém proteínas, sais minerais e vitaminas essenciais à alimentação. É altamente energético e com conhecidas propriedades medicinais sendo um poderoso bactericida;
Geleia-real - produto fabricado por abelhas jovens que contém proteínas, lípidos, vitaminas, hormonas, enzimas. É estimulante do organismo, aumenta o apetite, tem efeito anti-gripal, actua no crescimento, na longevidade, na reprodução das espécies;
Pólen - produto muito rico em vitaminas A e P, proteínas e hormonas. Parece ser eficaz na anemia, no bom funcionamento do intestino, abre o apetite, aumenta a capacidade de trabalho, baixa a tensão arterial, actua nos transtornos da gravidez e menopausa, estimula o pâncreas combatendo a diabetes, aumenta a virilidade e fertilidade;
Própolis - constituída por resinas vegetais que as abelhas colectam de certas árvores, cera, pólen, ácidos e gorduras. As abelhas usam-na para calafetar as colmeias, soldar peças e para envolverem invasores mais corpulentos que tenham sido mortos dentro das colmeias, mumificando-os e retardando o processo de putrefacção por vários anos. Além de ter propriedades antibióticas, tem também acção imunológica, anestésica, cicatrizante e anti-inflamatória;
Cera - utilizada na confecção das velas, na composição de produtos de limpeza, cosmética, impermeabilização, isolamento na indústria eléctrica e em odontologia;
Veneno ou Apitoxina – em grandes proporções é letal para o homem mas em doses pequenas tem sido utilizada no tratamento do reumatismo, nevrites, nevralgias, redução do colesterol, doenças oftalmológicas. Pode ser administrada através das picadas naturais das abelhas mas também por injecções subcutâneas, pomadas, inalações ou comprimidos.

2007-02-12

O prometido é devido - A Chanfana

A chanfana conhecida praticamente em todo o País, é no entanto um prato típico das Beiras e há pelo menos duas povoações que entendem ser as criadoras desta confecção: Miranda do Corvo que se auto-denomina Capital da Chanfana e Vila Nova de Poiares que se auto-denomina Capital Universal da Chanfana.
Vila Nova de Poiares tem uma instituição muito conhecida que é a Confraria da Chanfana, cujo objectivo é divulgar a cultura gastronómica da região e certificar a chanfana cuja origem se perde nos tempos. O seu logotipo representa um forno de lenha, com caçoilos de barro preto e a cabra símbolo da pastorícia. Promovem vários eventos como a semana da chanfana em que vários restaurantes disputam anualmente o título de “Restaurante recomendado pela Confraria da Chanfana” para dar a conhecer os profissionais de gastronomia que melhor garantam a autenticidade e a qualidade deste prato ou como “A chanfana à mesa com as nossas crianças” para dar a conhecer às crianças em idade escolar, todo o processo deste prato com o intuito de as sensibilizar para a preservação da gastronomia da região, entre outros.
Mas, não querendo magoar os amigos de Vila Nova de Poiares, a verdade é que não se pode ficar indiferente à lenda que envolve a presumível origem da chanfana em Miranda do Corvo, mais precisamente no Convento de Semide já referido neste blog a propósito do doce chamado “Nabada do Convento”.
Até finais do séc. XIX, o Convento recebia dos moradores do seu couto - agricultores e rendeiros - o pagamento dos foros. A maior parte das vezes esses pagamentos eram feitos com galinhas, azeite, ovelhas, cabras, vinho, etc. E ao que parece seria feito pelo mês de Agosto até finais de Setembro o que ocasionava uma entrada excessiva de animais num curto período de tempo. As freiras teriam resolvido então cozinhar a carne de cabra que seria a mais comum, mergulhadas no vinho (que também recebiam em grande quantidade) nos fornos a lenha. As carnes cozidas assim ficavam cobertas por um molho gorduroso que solidificava e mantinha-as em condições de consumo por muitos meses.
Mas ainda defendem outra lenda e esta tem a ver com as invasões francesas. Alguém se teria lembrado de envenenar as fontes (não sabemos se os franceses para matar os portugueses ou se os portugueses para matar os franceses). Na impossibilidade de usar água das fontes, ter-se-ia inventado cozinhar com vinho. O facto das águas estarem impróprias para beber teria dado origem a uma grande mortandade na pastorícia e o animal mais resistente seria a cabra que se defendia mantendo-se em zonas altas e áridas. Durante a Batalha do Buçaco, o medo de usar a água de qualquer nascente e a quantidade de cabras velhas sobreviventes aliadas à quantidade de vinho armazenado teria levado à invenção deste prato que poderia ser escondido nas caves por tempo prolongado
A receita antiga seria confeccionada mais ou menos assim:
Carne de cabra velha partida aos bocados que se colocava numa panela de barro à qual se juntava azeite, banha, dentes de alho com casca e esmagados, pimenta, colorau, salsa, louro, sal, noz moscada, tudo coberto com vinho tinto bem encorpado. Ficava nesta marinada de um dia para o outro (ou por 2 dias). No dia seguinte aquecia-se bem o forno de cozer o pão, deixando as brasas para se manter por mais tempo, metia-se lá dentro a panela (ou caçoilo) tapada com folhas de couve, estancava-se a porta do forno com cinza ou farinha em pasta e deixava-se cozinhar durante 3 horas ou mais, até o forno esfriar (noutras versões durante um dia e uma noite). Servia-se a partir do dia seguinte à confecção, aquecendo-se dentro do mesmo caçoilo numa trempe junto à lareira, acompanhada com batatas cozidas com ou sem casca e com grelos também cozidos. Hoje adaptou-se a receita mas no geral é muito semelhante.
Há quem faça com carne de ovelha (e julgo que as freiras também fariam uma vez que recebiam ovelhas e cabras), há quem faça com a panela em cima do fogão a gás, há quem use carne de vaca e até... pasmem-se... com carne de coelho.
O animal não deverá ser novo para a carne poder aguentar tantas horas de cozimento sem se desfazer. Aliás deveriam ser animais velhos que as freiras recebiam como pagamento dos foros, uma maneira dos agricultores e pastores se defenderem mantendo os mais novos para si.
Mas já que falei da chanfana a propósito do aproveitamento da carne de cabra, vou falar também em 2 pratos consequentes: a Sopa de Casamento e os Negalhos.
Se pensarmos um pouco, quando as carnes eram totalmente consumidas deveria sobrar muito molho. O espírito aproveitador das freiras deu origem à seguinte invenção: num caçoilo de barro, punham uma camada de couves cozidas, depois uma camada da fatias de pão, depois outra camada de couves cozidas, a seguir o pão e assim sucessivamente sendo que a última camada deveria ser de couves. Regavam tudo com o molho da chanfana, enfeitavam com as sobras de carne e ia ao forno para apurar e tostar um pouco. Chamavam (e ainda se chama): Sopa de Casamento.
Com as tripas e o bucho (estômago para quem não souber) das cabras faziam os Negalhos: Lavavam muito bem o bucho (cortado em bocados grandes) e as tripas (cortadas em bocados pequenos) e deixavam ficar em limão e sal por algumas horas. Temperavam depois com sal, colorau e picante. Dentro de cada bocado de bucho, colocavam bocadinhos de tripa, de toucinho, uma rodelinha de chouriço se houvesse (não esquecer que se estava num período muito carenciado durante a 3ª. invasão francesa) e uma folha de hortelã. Fechavam como se fosse uma trouxa e cosiam com linha ou atavam com um bocado de tripa bem lavada. Iam a cozer no forno de lenha cobertos com vinho tinto e temperados com louro, alho, banha, azeite, malaguetas, por umas 4 ou 5 horas. Serviam acompanhados com batatas cozidas e legumes
Actualmente fazem-se os negalhos recheados com chouriço, salpicão, linguiça, entremeada, pedaços de febra de porco, colorau, cebola, hortelã, tomilho.

Outros tempos, outros recursos.

2007-02-04

Pinheiros - Serpente

Há umas semanas atrás, entrei por acaso no blog PILRITEIRO e fui surpreendida com a série de fotos espectaculares dos Pinheiros- Serpente da Mata Nacional de Pedrógão que eu desconhecia totalmente a sua existência. Fiquei tão impressionada com o tema que contactei o seu autor Augusto Mota que me deu mais informações sobre o assunto. Inclusivé enviou-me um pps com fotos dramáticas tiradas por ele na Praia Velha, em S. Pedro de Moel a outros pinheiros-serpente que mais tarde viriam a ser vandalizados e destruídos, acompanhando as fotos com um magnífico poema de Afonso Lopes Vieira.
Perante o meu interesse em publicar o seu trabalho, teve a gentileza de transformar o pps de forma a poder inseri-lo aqui.



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