2007-08-15

Agosto e o ruibarbo

O facto de termos a casa cheia de gente, a criançada barulhenta e traquinas, os serões com montes de histórias para ouvir e contar, a permanência mais longa na cozinha experimentando pitéus, pratos novos, doces diversos no meio de risadas que se soltam daqui e dali, faz com que o mês de Agosto seja sempre muito divertido e enriquecedor com tanta experiência nova.

Enquanto pensamos se devemos fazer um post sobre a festa do pepino, vamos explicar-vos como se faz um doce rápido de ruibarbo. Não há pesos nem medidas.. é tudo feito “a olho”.,

Primeiro a apresentação da planta de ruibarbo com as suas grandes folhas no centro da foto
 
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Escolheram-se as folhas com melhores caules
 
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Depois descascaram-se os talos
 
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Aproveitou-se o momento para se dar a provar aos mais pequenos que parece não terem ficado grandes clientes desta fase
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A seguir partiram-se em pedaços e deitou-se açúcar (passe a publicidade)…
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… um pequeno gole de água…
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… e deixou-se ferver. Os pedaços de ruibarbo foram deitando mais líquido e desfazendo-se aos poucos.
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No final ficou com este aspecto
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E já havia gulosos apressados para molhar o pão no doce
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Atenção que o tipo de confecção descrito aqui não é o de um doce para ser guardado muito tempo. A intenção é a de ser comido na altura, quentinho ou frio conforme o gosto. Mas pode-se guardar no frigorífico por algumas semanas. Espero que gostem porque tem um leve toque de acidez que é uma delícia. Os nossos agradecimentos à Lieve por nos ter preparado um lanche diferente com sabor e aroma aos campos da Bélgica.

2007-07-28

O sorriso da Albizia

Ao consultarmos um livro com fotos de árvores de jardim, ficámos rendidos a uma belíssima Albizia julibrissin, também conhecida por Acácia-de-Constantinopla ou Árvore-da-Seda. Não descansámos enquanto não comprámos uma jovem árvore que plantámos no relvado. Ficou meia esquecida e foi crescendo modestamente, sem exigir tratamento nenhum especial. Um dia ficámos intrigados ao vermos uma pena rosada que se encontrava presa na folhagem. Que pássaro teria penas cor-de-rosa? E ao aproximarmo-nos pudemos constatar que não se tratava de uma pena, mas sim de uma frágil flor, a primeira, que a acácia nos oferecia. Tornou-se numa árvore adulta mimoseando-nos nestes últimos anos com uma floração muito abundante, o que nos dá um enorme prazer. A madeira é muito macia e os ramos partem-se facilmente se sujeitos ao peso dos garotos nas suas brincadeiras e tropelias.
 
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Tudo nesta árvore é gracioso: o porte, a folhagem idêntica à dos fetos, as flores de perfume suave, compostas por tufos de fios de seda rosados e cremes, de uma delicadeza extraordinária.
Pertence à extensa família das Leguminosas e à divisão das Mimosoideae, tal como a acácia-mimosa. Começámos a ficar um pouco apreensivos ao vermos surgir algumas novas acácias nos canteiros e no próprio relvado. Lemos mais tarde o post do Pedro na Sombra Verde que informa não estar a Acácia de Constantinopla referenciada como invasora, embora o seja nos Estados Unidos da América, nos estados do Sudeste onde foi introduzida no séc. XVIII. Vamos ver como é que as coisas evoluem..


Entretanto enquanto escrevíamos este post, recebemos um mail com várias fotos de bonsais. Uma delas parecia ser mesmo de uma albizia julibrissin o que nos deu uma tristeza enorme. Só quem não nos conhece é que pode pensar que temos algum prazer perante o espectáculo de um bonsai. Não conseguimos suportar a contemplação de árvores de grande porte condenadas à miniaturização em que o grande feito é torná-la o mais minúscula possível. Ver um bonsai dá-nos uma sensação de angústia e claustrofobia. Não conseguimos sentir a obra de arte, mas sim o acto em que se sacrifica a árvore, condenada a viver num vaso ridículo, ainda que a receber atenções extremas com grande frequência. Por incapacidade nossa, não conseguimos acompanhar o misticismo que dizem envolver o bonsai e não conseguimos evitar o espanto quando ouvimos dizer que a “arte” necessária para fazer um bonsai exige um grande amor pelas plantas e o respeito pela natureza. Aos nossos amigos que são apaixonados por esta técnica (e que já conhecem sobejamente este nosso discurso) diremos, mais uma vez, que para nós, o amor e o respeito pela Natureza são completamente estranhos a este tipo de práticas.


Aqui fica outra foto da nossa Albizia, uma árvore feliz

 
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2007-07-08

O Monstro de Fogo

Nestes últimos dias de intenso calor, não conseguimos evitar a preocupação de virmos a sofrer novamente a devastação dos incêndios.
A primeira vez que deparámos com uma calamidade destas, estávamos completamente desprevenidos. Vimos, uma hora antes, uma coluna de fumo negro ao longe e sem nos dar tempo a pensar como agir, assomou à nossa porta, entrando e devastando mais de metade da floresta. Dezenas de vizinhos apareceram a correr com as caras tapadas com lenços sujos de cinza, amarrados atrás das orelhas e munidos com o que havia à mão: moto-serras, enxadas, ramos de árvore, etc. Todos eles, assim como o meu marido e os filhos entravam naquela cortina negra e desapareciam deixando-nos numa angústia atroz. Desesperada por não saber o que estava a acontecer fora das nossas vistas, entrei também naquele inferno de chamas e fumo negro.
Lá dentro, os gritos dos homens que orientavam outros, tinham um soar diferente e estranho. A luz do dia desaparecera para dar lugar a uma luminosidade irreal. O ar que se respirava era insuficiente. O calor era insuportável.
Dirigi-me com dificuldade a um vulto e, entre lágrimas, balbuciei-lhe para desistirem... que deixassem arder... que não queria ver ninguém morrer ali...
O vulto pôs-me a mão no ombro e gritou para sair. Que eles sabiam o que estavam a fazer e que ajudaria muito se fosse para junto da casa e estivesse atenta às fagulhas que podiam dar origem a novos incêndios.
As chamas altas dilaceravam as pobres árvores que gemiam, deixando cair os ramos incandescentes no chão abrasador. O fogo estacou diante de mim tentando seduzir-me na sua resplandecência. Mirámo-nos olhos nos olhos. De repente deu um urro, um urro animalesco e saltou por cima das copas dos pinheiros, começando a devorar tudo atrás de nós, cercando-nos com mãos de chamas. O vulto, que nunca cheguei a saber de quem era, agarrou-me por um braço e arrastou-me com ele conseguindo fugir por entre as árvores transformadas em tochas. Os pêlos dos braços, as sobrancelhas, os cabelos, encolheram-se e encaracolaram-se crespos, queimados pelo calor intenso. O pensamento de que poderíamos ficar ali estendidos a qualquer momento, perseguiu-me durante a fuga em que fui chocando com outros corpos meio cegos que também tentavam desesperadamente sair daquela armadilha. Felizmente todos conseguimos sair ilesos.
Quando recuperei desses momentos de terror, segui o conselho e com uma mangueira na mão, perto de casa, fui afogando as fagulhas que mal caíam começavam logo a morder fosse o que fosse. O fogo arrastava o vento consigo e o vento ajudava o fogo a mudar de direcção, ora esquivando-se, ora encurralando, como no jogo do gato e do rato
Foi um dia de aflição, de pânico, de impotência, de raiva!
À noite, o incêndio estava extinto, diziam… mas os buracos denunciadores das árvores ausentes, chispavam com o vento e reacendiam pequenas fogueiras aqui e ali como se houvesse ainda alguma coisa para devorar. De madrugada ainda transportavamos, completamente exaustos, vasilhas com água e vertíamos dentro desses buracos de fogo que conseguia resistir-nos.
Os dias seguintes foram de desolação ao ver a quantidade de árvores desaparecidas ou completamente negras e sem vida. Coelhos mortos e quase irreconhecíveis. No terreno ao lado, um javali jazia numa posição estranha.
A partir dessa altura, passámos a ter mais preocupação com a limpeza do terreno: lavrar uma faixa em toda a volta, junto à vedação com uns 8 metros de largura; limpar todo o mato seco ou verde dentro da quinta; pedir licença (por vezes sem ela por não se saber a quem pertencem alguns terrenos) e limpar também os restos de mato pelo lado de fora; substituir por carvalhos, sobreiros e outras, os pinheiros e eucaliptos mortos; ter pontos de água em locais mais castigados pelo fogo e mangueiras iguais às dos bombeiros, resistentes ao calor das chamas e preparadas para molharem a pessoa que as maneja, refrescando-a e protegendo-a do ambiente intensamente quente.
O próximo passo é adaptarmos um jipe velho para poder transportar água até às zonas onde as mangueiras não conseguem chegar.
Passada uma semana deste grande incêndio, vi uma pequena coluna de fumo a sair dum monte de terra onde tinha andado o fogo. Preocupada, agarrei num garrafão de água e fui até lá. Subi o monte e senti os pés quentes. Atirei com a água e levantou-se uma nuvem grossa de vapor. Percebi que o fogo continuava a desenvolver-se por baixo do chão, lentamente, teimosamente, procurando alguma coisa que o animasse a sair de novo. Com as solas dos ténis meias derretidas e a colarem-se ao chão, levei uma mangueira até lá e passei a tarde a encharcá-lo, a tentar exterminá-lo. E consegui.
Passaram-se uns anos e com a experiência adquirida, com a quinta limpa daquilo que nos parecia combustível, um novo incêndio surgiu na zona e o fogo conseguiu arrastar-se por 20 Km até chegar aqui. Queria ajustar contas connosco. Desta vez entendi-o bem. Apareceu à nossa beira, soberbo, cheio de força, como um gigante de poder imenso.
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Na foto podem ver a sua magnificência, a diabólica forma como se apresentou diante de nós. A casinha que está à direita é uma eira que todos pensávamos que iria desaparecer mas que felizmente conseguiu-se proteger mantendo-se tão branca como está na foto. Do lado esquerdo consegue-se ver um telhado por entre as árvores que é o estábulo onde se guardavam alguns animais e também uma centena de fardos de palha que foram empapados em água para evitar a acção das fagulhas.
Nós já o esperávamos com o coração apertado, o estômago contorcido mas decididos na contenda. Tínhamos as mangueiras estendidas, zonas alagadas, a ajuda de uma dezena de pessoas que aqui se encontravam para um almoço de família e pouco depois a vinda de dezenas e dezenas de vizinhos, sempre generosos, preparados para o que desse e viesse.
As terras lavradas pouco antes, tinham algum restolho que embora baixo foi o suficiente para permitir que ele se arrastasse como um verme e atingisse a zona de pinhais. Onde não conseguiu chegar arrastando-se, ergueu-se e saltou de copa em copa, rugindo como um monstro feroz. O vento ajudava-o na façanha.
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Foi outra luta enraivecida. Os homens combatendo as chamas e as mulheres na retaguarda, protegendo as zonas menos perigosas. Estávamos constantemente a mudar de local os animais aterrorizados, conforme a evolução da situação. A égua e a burra corriam em pânico de um lado para o outro com pequenas chamas sobre o pêlo que se ateavam mais com a correria e que eram provenientes de chispas que caíam a arder em cima delas, felizmente sem perigo. Quando conseguíamos enfraquecer o fogo numa zona, logo se fortalecia noutra, qual Hefesto sempre renascido. Felizmente as mangueiras em zonas estratégicas evitaram o pior. Nem as casas, nem os animais foram prejudicados. A meio da noite, a fera desistia da peleja, mudando de rumo e caminhando para outro povoado, ainda que debilitada e cheia de mazelas. Entretanto deixou uma série de bocas rosnando e chispando nos buracos que nós enchíamos de água, enfraquecendo-as até conseguirmos eliminá-las.
No dia seguinte o mesmo espectáculo consternador. Um cheiro a cinzas e a morte.
Mas sabemos que ele vai tentar de novo. Não vai desistir de avançar na sua destruição. Assim o desleixo e os interesses mesquinhos dos homens o permitam!

2007-06-26

Vermelhos resplandecentes

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Aproveitámos estes últimos dias sem chover para colhermos alguns frutos. Começámos pelos pêssegos de S. João que já estão a abandonar a árvore-mãe fazendo as delícias dos ouriços-caixeiros nos seus piqueniques nocturnos. Depois dos pêssegos seguiram-se os morangos que têm um perfume e sabor deliciosos. Já nos íamos embora quando reparámos na groselheira que dava nas vistas com as suas bagas faiscando ao sol da tarde.
Preparámos um prato para ir à mesa e ficou tão bonito que não resistimos a tirar uma foto para vos mostrar.
A maioria dos pêssegos vão ser comidos ao natural, outros vão ser cortados aos bocados e postos na máquina de sumos com leite e mel, fazendo um delicioso batido para o pequeno almoço ou lanche. Outros ainda depois de cortados em pedaços vão ser mergulhados num bom vinho tinto adoçado com açúcar amarelo (tem que se deixar embebedar os pêssegos por algumas horas). E se tivermos tempo e paciência talvez ainda nos aventuremos na compota e no licor
Os morangos serão comidos ao natural, servidos em batidos feitos da mesma forma como os de pêssego, ou mergulhados em chantilly, ou em iogurte, ou em vinho do Porto ou em chocolate derretido (huummm). Não serão suficientes para o doce que é magnífico e ainda menos para o licor que felizmente ainda temos do ano passado, pela simples razão de nem sempre ir à mesa pôr o ponto final numa boa refeição.
Agora o busílis eram as bagas de groselha. Que fazer com elas? Os batidos entraram logo na lista. Devem ser tão bons quanto os de framboesa que este ano não temos, devido ao falecimento do framboeseiro. Como nos disse o Filipe “Comer a groselha em estado natural, é uma bela maneira de não gostar de groselha, a maior parte é realmente muito ácida, tem que se deixar macerar em açúcar ou então fazer sumos. Tem um alto teor em vitamina C. Em compota também resulta muito bem”
Portanto restava macerá-las em açúcar já que eram poucas para compota.
Um amigo falou-me entretanto da cidade francesa Bar-le-Duc que ao que parece tem orgulho de fabricar a melhor geleia de groselha do mundo sendo servida desde o séc. XIV nas mesas mais distintas e exigentes, tendo um preço proibitivo.
Ainda hoje preparam as bagas de groselha da mesma maneira artesanal, extraindo as sementes com o bico de uma pena de pato ou de ganso, sem perderem uma gotinha de sumo. São mulheres especializadas neste trabalho chamadas “épépineuses” que conseguem preparar um quilo de bagas ao fim de 3 horas de trabalho minucioso mas veloz.

Quando voltávamos para casa com pouca luz do dia, reparámos numas coisinhas minúsculas que saltavam diante dos nossos pés. Eram sapinhos bebés às dezenas… às centenas! A partir dali mal conseguíamos caminhar, apavorados com a possibilidade de esmagarmos aquelas simpáticas criaturas. Aproveitámos e tirámos também uma foto a um dos sapinhos que depois da sessão fotográfica foi de novo colocado no mesmo local de onde o tínhamos recolhido.

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2007-06-08

Farinelli e os castrati

Este fim de semana estivemos a rever o filme “Farinelli” de Gerard Corbiau que conta a vida do célebre cantor castrado baptizado com o nome de Carlo Broschi, nascido em Andria-Nápoles em1705 e tendo morrido em Bolonha em 1782. Embora muitos estudiosos ficassem decepcionados com o filme por entenderem que a aparência do Farinelli seria muito diferente da do actor Stefano Dionisi e, que ao contrário da maioria dos cantores castrados com sucesso, seria uma pessoa muito humilde, com uma postura diferente da representada e sem interesse pelo sexo, vale a pena ver o filme que nos dá uma ideia muito aproximada do ideal estético da época barroca. A castração já era praticada na Antiguidade por povos vitoriosos para evitar a reprodução dos inimigos capturados, em alguns cultos pagãos que exigiam a auto-emasculação dos seus sacerdotes, como punição por crimes de violação, no mundo árabe que se servia dos eunucos para guarda das mulheres do sultão, pelo Império bizantino utilizando-os nos cânticos das igrejas, etc Perante a proibição pelo Vaticano das mulheres cantarem no coro sacro, seguindo à letra uma epístola de S. Paulo que diz que as mulheres devem permanecer em silêncio na igreja, houve necessidade de resolver a falta de vozes agudas que não era totalmente preenchida com as vozes das crianças com menos vigor por não terem um corpo maduro, pelo pouco tempo que conseguiam mantê-la e pela falta de expressividade impossível de se manifestar nestas idades. A solução encontrada foi a de mutilar infelizes rapazinhos entre os 7 e os 11 anos, de forma a evitar a puberdade e assim manterem o timbre de voz. No período compreendido entre os séculos XVII e XVIII, fizeram-se cerca de 4.000 castrações/ano só em Itália que via nos castrados também um produto de exportação. Muitas famílias pobres e com uma prole numerosa aceitavam a castração de um dos seus filhos, quando o mestre de capela achava que a criança tinha uma voz promissora, tentando libertá-lo de uma vida de miséria ao mesmo tempo que poderiam vir a receber rendas por conta dos ganhos do futuro cantor. Mas a grande maioria das crianças castradas, perdia-se no anonimato, numa vida infeliz plena de complexos de inferioridade e de fracasso, perdendo mesmo a voz ou cantando em pequenos coros de igrejas locais. Segundo algumas estimativas, apenas 10 a 15% das crianças castradas conseguiam subsistir à custa da sua voz. E destas, apenas 1% é que atingia o sucesso. Estas cirurgias eram desempenhadas mais frequentemente pelos barbeiros da terra e podemos facilmente imaginar as condições em que eram feitas. Para anestesia usava-se uma bebida de ópio (por vezes fatal devido a uma dosagem demasiadamente elevada) ou então pressionando as carótidas de forma a deixar a criança inconsciente. A imersão em leite facilitava o amolecimento dos tecidos e a água gelada adormecia um pouco mais a sensação de dor além de evitar as grandes hemorragias. A intervenção podia consistir simplesmente no esmagamento dos testículos até os romper, não sendo necessário nenhum golpe cirúrgico, no corte dos cordões espermáticos originando o atrofiamento dos testículos ou extraindo estes por uma incisão feita na virilha, cortados com uma faca e ligando seguidamente os canais. Este último processo dava origem a uma maior mortandade devido a graves hemorragias e septicemias. A ablação dos testículos impedia a puberdade e por isso o desenvolvimento normal da laringe masculina que não descia, mantendo o registo normal de uma voz infantil. Dava origem também ao desenvolvimento do tórax, criando uma apreciável caixa de ressonância com cordas vocais de pequena dimensão. Mas as transformações não eram apenas na voz: Os castrados tinham uma estatura superior à normal uma vez que as cartilagens continuavam a funcionar por mais tempo dando origem ao aumento do tamanho dos ossos. Não tinham maçã-de-adão. A obesidade depositava-se tal como no corpo das mulheres. Não tinham barba mas o cabelo era forte e espesso. A pilosidade no corpo era quase inexistente, desenvolvendo-se mais na região púbica. Podiam ter erecções e até emissão de plasma seminal uma vez que mantinham outras glândulas em funcionamento, mas obviamente sem espermatozóides. Aqueles que conseguiam recuperar da cirurgia, iam para conservatórios durante 10 anos onde trabalhavam a voz de uma forma intensíssima e com uma disciplina extremamente rigorosa. A Igreja não permitia as castrações, uma vez que havia uma lei do direito canónico e civil que proibia a amputação deliberada de qualquer parte do corpo, mas paradoxalmente, aceitava os castrados para cantarem nos seus coros. O próprio Papa Clemente VIII autorizava a castração desde que fosse feita para a glória de Deus. Normalmente não se confessava a verdadeira razão que iria alterar o desenvolvimento físico do adolescente. A desculpa era quase sempre uma doença grave, um acidente, uma hérnia, qualquer pretexto acobertado pelo médico, evitando a excomunhão, convencendo a sociedade local e até o próprio que a maior parte das vezes desconhecia o porquê do seu problema físico. O gosto pelo virtuosismo, fazia com que houvesse um fascínio generalizado pelos cantores castrados que tinham uma voz assexuada a que chamavam “angelical” e que interpretavam personagens de deuses e heróis, tanto em papéis masculinos como em femininos. Hoje é difícil saber como seria realmente o tipo de voz de um cantor castrado. Existem gravações do último castrado Alessandro Moreschi (1858-1922) que não são agradáveis de ouvir devido ao facto do cantor já não estar na sua melhor forma quando a técnica permitiu as gravações e também devido à precariedade da mesma que originava muitas distorções no som No filme Farinelli conseguiu-se por digitalização, fundir as vozes do contratenor Derek Lee Ragin com a da soprano Ewa Mallas-Godlewska para atingir uma tessitura de três oitavas, impossível de se conseguir actualmente de uma forma natural mas que ao que parece era possível em alguns castrados. Muitas das peças escritas na época para eles, são impossíveis de se cantar pelos cantores actuais. Conta-se que Farinelli conseguia emitir 250 notas num minuto e sem respirar. Conta-se também que numa actuação em Londres, os músicos da orquestra não conseguiam concentrar-se nas suas partituras, impressionados com o seu extraordinário virtuosismo Deixamos aqui um pequeno registo do filme Farinelli no momento em que Handel vingativamente o esclarece sobre a sua castração (momento também duvidoso), seguindo-se a interpretação da ária “Lascia Ch'io Pianga” (Deixa que eu chore) da ópera Rinaldo composta pelo próprio Handel Não confundir os cantores castrados com os contratenores que têm um timbre muito parecido com o das mulheres, graças a uma técnica especial na emissão da voz. Já existiam no período barroco mas o fascínio na época pela voz dos castrados não permitia o sucesso daqueles. Em 1902, o Papa Leão XIII proíbe definitivamente a presença dos castrados no canto sacro. As árias escritas na época para cantores castrados, são hoje cantados por contratenores ou sopranistas (homens) ou mezzo sopranos (mulheres) Uma tarde em que estávamos a conversar sobre os cantores castrados, nem nos apercebemos da presença do Pedrinho, um menino com 10 anos que nos ouvia atentamente. A seguir estivemos a ouvir um Cd de árias antigas interpretadas pela Cecília Bartoli e fomos surpreendidos com a sua pergunta: - E a este? Também lhe arrancaram os tomates?! Para finalizar, aqui fica mais um video para ouvir o timbre angelical das crianças Consultas: “História dos Castrados” de Patrick Barbier; http://www.kindsein.com/es/8/educacion/227/?ST1=Full_text&ST_T1=Article&ST_PS1=6&ST_AS1=0&ST_LS1=0&ST_max=1 http://marianmus.wordpress.com/2007/04/03/contratenores-y-castrati/ http://atacada.wordpress.com/2007/01/21/farinelli-il-castrato/ http://www.npdi.dcc.ufmg.br/workshop/wti2001/pdf/nazario.pdf http://www.geocities.com/operacalli/i_castrati.htm

2007-05-10

Será que vale a pena?

Se algum de vós ainda tem a ideia de que viver no campo é mais saudável, evita o stress e é mais económico, desiluda-se porque não há nada de mais erróneo, pelo menos quando também se convive com animais de estimação.
Para entenderem melhor a razão de ser desta afirmação, iremos vos pôr ao corrente do que tem acontecido aqui na quinta de há 2 meses a esta parte:
A nossa pneumonia desapareceu para dar lugar a uma gripe que teimosamente não nos abandona, deixando-nos fatigados, tensos e sem disposição para nada. Pensamos que a responsabilidade cabe a estas súbitas mudanças climatéricas.
Entretanto, a potra, filha da Joaninha, morreu no dia seguinte ao seu nascimento. Aqui a vemos umas 5 horas depois de vir ao mundo. Só então é que se conseguiu pôr de pé, o que já indiciava que alguma coisa não estava a ir bem. Nas primeiras horas teve que ser amamentada a biberão com leite ordenhado da mãe até conseguir manter-se de pé. Foi examinada pelo veterinário que não gostou muito da lentidão de todo este processo. Só à noitinha é que conseguiu orientar-se para mamar directamente das tetas. Mas, de qualquer forma, a morte no dia seguinte apanhou-nos completamente desprevenidos. Foi o caseiro que nos avisou, lavado em lágrimas, e ainda assistimos aos últimos momentos do animal tentando evitar o inevitável.
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… quase de seguida, a morte súbita do Tomás, o pavão. Reparámos que fazia muito ruído e que estava numa aflição para respirar. Ainda abrimos o bico para ver se teria a traqueia obstruída, o que não era o caso. Como estávamos de partida para o veterinário, aproveitámos e também o preparámos para ser visto. Mas, ainda nem tínhamos saído da quinta e já o levávamos morto. Pedimos uma autópsia e a causa da morte teria sido uma septicemia, coisa quase inacreditável uma vez que o bicho andava esperto e a comer normalmente.

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… entretanto o Odin, um dos nossos cães castro-laboreiros, apareceu com um fiozinho de sangue a sair de uma narina e que teimava em não parar. Fizeram-lhe testes para a leishmaniose (provocada por um mosquito) e para a erliquia (provocada por uma carraça) e o resultado foi positivo para ambas. A primeira não tem cura e é extremamente grave por interferir com o sistema imunitário e não sabemos se será a responsável pelo hipo-tiroidismo que somou agora ao seu quadro clínico, tendo dores no corpo e descontrole muscular o que faz com que tenha um caminhar trémulo e sofrido. Estamos a tentar tudo por tudo para melhorar os sintomas e darmos uma vida ao animal com alguma qualidade.
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Quando os problemas aparecem sucessivamente, não nos dando tempo para recuperar, damos connosco a pensar se vale a pena continuarmos a insistir numa vida que nos dá tanto desgaste físico, emocional e financeiro.
Este post esteve para não ser feito, tal era o desconforto que sentíamos ao escrevê-lo. Mas não é justo falar-vos só das coisas boas ou curiosas que acontecem neste espaço. As nuvens negras também pairam muitas vezes sobre nós.
Mas como continuamos aqui de pedra e cal, depois deste desabafo de quem sente a vida na sua plenitude, vamos continuar o caminho escolhido.
Ora bem, Mariana a pavoa viúva, acabou também por adoecer com uma coriza e uma manhã vimo-la com este aspecto assustador
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Telefonámos a um dos nossos amigos veterinários que aconselhou a operação, dando-nos as necessárias orientações. Respirámos fundo, com aquela sensação já conhecida do que tem que ser tem muita força, pedimos ajuda ao caseiro e metemos mão à obra com direito a reportagem fotográfica para vos mostrar (e também ao médico) a qualidade do nosso trabalho.

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E depois da cirurgia, a paciente Mariana ficou com este belíssimo aspecto:
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Dias depois tornou a piorar. Deixou de comer, caminhava tropegamente, com as asas a arrastarem no chão, inchou-lhe a mesma face e tivemos que a submeter de novo à operação. Agora duas vezes por dia metemos-lhe bolinhas de ração com umas gotas de antibiótico pelo bico abaixo e limpamos o interior da face com betadine para ir sarando de dentro para fora. Passou a ficar dentro da capoeira onde recolhem as galinhas por ser um local mais aquecido. Vamos a ver se tem melhor sorte que os outros. Para já, está com óptimo aspecto, mais forte, voando para se empoleirar mais alto que as companheiras.
A Joaninha também recebeu de novo a visita do namorado e se estiver prenha (o que saberemos depois da próxima ecografia), daqui a um ano terá de novo um filhote
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E assim, mesmo com todos estes desgostos e desilusões continuamos o nosso trabalho, partilhando convosco os bons e maus momentos. Obrigada pela companhia tão amiga com que nos têm brindado