2007-03-27

O album de recortes

Andarilhar pela casa sem poder sair, obrigou-me a dar uma vista de olhos pelos livros que ainda não li, pelas pastas que aguardam uma pausa para poderem ser organizadas e até por antigos álbuns de fotografias. Descobri um que fiz há muitos anos e onde guardei fotos, cartas, postais, poemas, tudo aquilo que marcou de alguma maneira a minha infância e a minha adolescência. Ao folheá-lo caíram-me 2 recortes do antigo jornal Diário Popular que noticiava a existência do grupo ao qual pertenci e que tinha o nome de GAAM-Grupo Amador de Astronomia e Missilismo.
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Era um pequeno grupo, unido pelo desejo de conseguir lançar foguetes que pudessem transportar e regressar com pequenos animais vivos. Passávamos muitas tardes de domingo em acesas discussões nas reuniões que se faziam na minha casa. A minha função no grupo além de disponibilizar a casa e quintal para o que fosse preciso era a de fornecer os ratos que infestavam a capoeira, tratar da correspondência e da divulgação do grupo, enfim todo um trabalho de secretariado uma vez que não percebia nada de física nem de química. Lembrei-me das experiências feitas no meu quintal, com latas velhas que disparavam no ar com o estrondo de bombas no meio de grande gritaria e assobios, o que fazia os vizinhos virem espreitar à janela, assustados.
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Uma das misturas propulsoras era feita com açúcar e enxofre não me conseguindo lembrar das percentagens. Também recordei a sensação horrível que senti ao visitar um dos elementos do grupo que sofrera um acidente com uma explosão que só não o cegou por acaso e ao entrar no quarto, reconhecer os ratos que oferecera vivos, semanas antes, embalsamados e espetados na parede como decoração. Aqueles não sentiram a glória de terem sido lançados para o espaço
Mas, ao ver as fotografias e reler os recortes, lembrei-me do cientista Bettencourt Faria que tinha construído, quase só pelas próprias mãos um observatório astronómico em Mulemba-Angola, e que aceitou simpaticamente ser padrinho do nosso grupo.

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Eu escrevera-lhe para pedir informações e contactos que nos fossem úteis aqui em Portugal e a partir daí gerou-se uma grande amizade entre nós os dois. Ainda conservo algumas, apenas três, das suas cartas e um postal enviado da Polónia, que são um exemplo da simplicidade dos homens grandes. Um homem que com o seu tempo todo preenchido por mil e uma actividades, ainda arranjava disponibilidade para escrever à máquina longas cartas e procurar cartazes com temas espaciais para enviar a uma miúda com 15 ou 16 anos que ainda andava no mundo a “apanhar bonés”. E sempre que passava por Portugal continental (na altura Angola ainda era uma colónia portuguesa) ia sempre visitar-me, conversar comigo e dar pequenos passeios a pé.
Lamentavelmente, a idade que eu tinha não era propícia ao reconhecimento do valor do homem que me escrevia e visitava.
Ao pesquisar na net encontrei o blog:
http://amateriadotempo.blogspot.com/2006/05/bettencourt-faria-e-o-seu-centro.html do qual tirei alguma informação que publico com a devida autorização do seu autor:
“Carlos Mar Bettencourt Faria, de seu nome completo, foi um autodidacta genial, dotado de um notável dinamismo e de uma enorme capacidade de trabalho. Ergueu com as suas próprias mãos aquilo a que chamou Centro Espacial da Mulemba. Neste Centro, ele deu largas à sua paixão pela exploração do Espaço, pela Rádio e pela Astronomia, construindo aparelhos de detecção remota, telescópios, antenas, etc. Dada a sua fraca capacidade económica, ele não podia dar-se ao luxo de comprar as coisas já feitas; fazia-as ele mesmo, aproveitando materiais usados, como foi o caso das agulhas de que falei acima. Mas não eram só agulhas de seringas que ele aproveitava; por exemplo, as grandes antenas que ele construiu foram feitas com sucata ferroviária.
Num tempo em que a Terra ainda não estava rodeada por satélites de comunicações, a NASA tinha necessidade de dispor de uma rede de colaboradores espalhados pelo mundo, que recolhessem os dados enviados pelos satélites e que estabelecessem contacto com os astronautas, servindo de "ponte" entre o Espaço e a sede da NASA. O Centro Espacial da Mulemba, em Angola, era o único observatório em todo o continente africano a fazer essa "ponte". Nenhum outro existia em África.
Para tal, Bettencourt Faria dispunha de um estúdio, pejado de aparelhagem, onde ele recebia e descodificava os sinais enviados pelos satélites e onde entrava em contacto com os astronautas. Tive a oportunidade de ouvir uma gravação de uma conversa que ele teve com o astronauta Neil Armstrong na Lua.
Era desse mesmo estúdio que Bettencourt Faria falava para o público, através de um programa de rádio do malogrado Sebastião Coelho (falecido no ano passado na Argentina), explicando de modo simples e claro o que se ia passando no campo da exploração espacial. Neste aspecto, ele fazia, em Angola, o mesmo que fazia em Portugal um outro notável autodidacta, inventor e apaixonado pelo Espaço, chamado Eurico da Fonseca. Ouvir um deles era quase o mesmo que ouvir o outro.
Não se pense, porém, que Bettencourt Faria se interessava apenas pelo Espaço e pela Astronomia. Os seus interesses eram muitos e variados. Fez investigação etnológica, tendo publicado livros sobre usos e costumes tradicionais de Angola. Era um profundo conhecedor de conchas marinhas, de que possuía uma notável colecção. Inventou máquinas de diversos tipos, entre as quais uma espécie de helicóptero individual, com o qual, aliás, sofreu um acidente e partiu vários ossos. Pintava quadros. Tocava piano. Era radioamador. Apetece perguntar onde é que aquele homem arranjava tempo para poder fazer tantas coisas diferentes.…”


Também na minha casa, várias vezes tocou piano para mim, dedicando-me as suas composições, dizendo que aprendera a tocar sozinho e que nunca tivera uma aula de música.
Não consigo resistir a publicar aqui um excerto de uma das suas cartas:
“O que diferencia as pessoas não é ser bonito ou feio, não é ser rico ou pobre, não é ser católico ou protestante, inteligente de mais ou de menos. É uma simples coisinha que muita gente não atina: a capacidade de determinação, de persistência, aquela espécie de febre que não desce no termómetro quando encontra pela frente as dificuldades inerentes e imediatas a quem se quer guindar a um muro muito alto. Não faltará quem puxe as pernas, quem atire pedras, quem ponha cacos de vidro de garrafa das mais diversas origens no topo do muro. Mas sacudindo as pernas, cortando as mãos e os braços, suando pelo pescoço abaixo, que alegria é chegar ao outro lado, querida Ana! E não é o dinheiro, não são as glórias, nada, a não ser a incomensurável satisfação de ter chegado - onde os outros não chegaram - pelos seus próprios meios! Toda a vida fui um solitário (ainda hoje o sou e muito mais penoso é à medida que os anos passam) Nunca tive ninguém que me auxiliasse, e no entanto o que não tenho feito sozinho! É caso para envaidecer? Claro que não! É caso para eu sentir, sempre sozinho, uma felicidade tão grande que até às vezes me dá vontade de chorar!”
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De pesquisa em pesquisa encontrei este link:
http://apaa.online.pt/bettencourt%20faria.pdf, cujo autor é o Luís Filipe Bettencourt Faria, seu sobrinho, e que escreve assim:
Em 1976 o Centro Espacial da Mulemba, com um património de 200 mil contos e com uma reputação e actividades de âmbito internacionais invejáveis, entra numa fase difícil com o advento da Independência de Angola e com a consequente ordem de nacionalização desta instituição. Bettencourt Faria, então com 52 anos, passou algumas semanas numa tristeza profunda. Acusado de espionagem e de ter um arsenal de armas em casa, sendo-lhe confiscadas até as potentes espingardas de ar comprimido de caça submarina, com a sua correspondência e telefone vigiados, a estação de rádio amador CR6 CH selada, pessoal estranho ao serviço a querer saber como tudo funcionava, foi na tarde de domingo de 4 de Julho de 1976, traiçoeiramente degolado ao baixar o vidro do carro, quando cumprimentava o “segurança” de serviço no portão principal das suas próprias instalações.

2007-03-10

Tentando atrair enxames

Em primeiro lugar vamos ter que esclarecer a razão desta tão grande ausência. Depois de termos passado um largo período a recolher informações para um novo post, a doença bateu-nos à porta sob a forma de uma pneumonia e obrigou-nos a estar quietinhos, abafadinhos e sem disposição para nada.
Ainda mal recuperados mas já em condições para estarmos algum tempo sentados ao computador, resolvemos fazer um post com tema diferente daquele em que trabalhávamos há semanas atrás para vos pôr ao corrente do que entretanto se passou aqui na quinta.
Constatámos com muita tristeza que as nossas 3 colmeias estavam mortas.
Como diz Lars Gustafsson no seu livro A Morte de um Apicultor: “Quando um enxame morre, parece que é como se morresse um animal. É uma personalidade de que sentimos a falta, quase como um cão, ou pelo menos um gato.”
Comprar uma colmeia a funcionar é um bocado dispendioso, sendo os preços aqui na zona na ordem dos 20 a 30 contos.
Entretanto um vizinho quis fazer a seguinte troca connosco: oferecia-nos uma colmeia bem povoada e ainda um pavão com 2 anos se lhe oferecêssemos um casalinho de borregos. Aceitámos a troca e o senhor veio uma manhã buscar os borregos e simpaticamente ofereceu-se para nos ensinar a preparar caixas vazias e cortiços também vazios para captar enxames novos que procurassem um local para estabelecer as novas colónias.
Pudemos verificar que vinham prevenidos para este trabalho trazendo uma panelinha com um líquido endurecido que ao ser aquecido no fogão espalhou no ar um aroma almiscarado, misturado com alecrim, alfazema e também um toque de vinho aquecido que seria vinho branco fabricado sem a adição de nenhum produto químico, segundo nos informaram.
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Esfregaram as caixas e os cortiços por dentro com alecrim, alfazema, rosmaninho e uma erva desconhecida para mim a que chamaram salpor do mato. Depois molharam ramos de alecrim na tal poção mágica e aspergiram a caixa da colmeia e os cortiços.
 
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As frestas laterais dos cortiços que estavam há muitos anos sem uso, foram tapadas com barro tirado à lagoa.
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Depois de estar tudo devidamente preparado, foi só escolher o local que acharam mais de acordo para capturar enxames em deslocação que ao que parece seguem rotas bem determinadas
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Agora é só esperar que algumas obreiras se encantem com tão bonitas e perfumadas casas e levem as restantes obreiras que aguardam suspensas envolvendo as rainhas, a ter a mesma opinião, estabelecendo os seus enxames na colmeia velha e nos cortiços para depois nós transferirmos para colmeias novas que aguardam já limpas no colmeal.
Durante este trabalho pudemos verificar que cada apicultor tem os seus segredos e não é fácil arrancar-lhes toda a informação. Os conhecimentos empíricos misturam-se com lendas e mitos de uma forma fascinante. Por este vizinho ficámos a saber que as abelhas “conhecem” o dono e poupam-no na sua agressividade. Mas, para isso há que ter alguns cuidados como pendurar roupa interior muito suada perto das colmeias para elas reconhecerem o cheiro do seu corpo. E quando a colmeia enxameia, por estar demasiadamente povoada, o enxame sai e fica pendurado num tronco perto da colmeia esperando a vinda do apicultor amigo. Quando este não aparece, então parte para outras zonas.
Mas para não confundirmos os leitores menos conhecedores dos hábitos das abelhas, resolvemos fazer um trabalho que publicámos abaixo deste, onde nos preocupámos em pesquisar várias informações sobre o comportamento das abelhas na colmeia. Esperamos que leiam com o mesmo interesse que sentimos ao escrevê-lo.
À noite chegou a colmeia oferecida que vinha vedada para não haver fuga das abelhas mas ao ser colocada no colmeal foi devidamente aberta para as abelhas de manhã prosseguirem os seus trabalhos, por certo espantadíssimas com a mudança.
Tentaremos ir relatando as várias fases deste processo já que nunca falámos aqui das nossas crestas (colheita do mel) e da centrifugação dos quadros.
Sobre o pavão que já faz parte dos membros da quinta, falaremos futuramente, uma vez que ainda nem o vimos pela proibição de sair de casa, a que ainda estamos sujeitos.

As Abelhas

A técnica de explorar o mel produzido pelas abelhas existe desde 2.400 antes de Cristo. Normalmente era um tipo de pilhagem destruindo completamente o enxame. No séc XIX o apicultor Lorenzo Langstroth desenvolveu as bases da apicultura moderna inventando a colmeia com quadros móveis o que facilitou o seu manejo, melhorou a produção e a extracção do mel.
A abelha é um insecto que pertence à ordem dos himenópteros e à família dos apídeos.

Existem 3 categorias de abelhas: as sociais que são aquelas que vivem em enxames com divisão de trabalhos, separação de castas e que vai ser o tema deste trabalho; as solitárias que constroem ninhos no chão, nas fendas das pedras e árvores e onde a abelha fecundada coloca o ovo em cima de uma quantidade de alimento, fecha o ninho e nunca mais se preocupa com ele; as parasitas que conseguem pôr os seus ovos nas células prontas de outras abelhas deixando que estas se encarreguem do desenvolvimento das larvas ou roubando a outros enxames o material necessário para construirem os seus ninhos.
A abelha comum pertence à espécie Apis mellifera mellifera, mas há a Apis mellifera ligustica (abelha italiana), a Apis mellifera caucásica (abelha caucasiana), a Apis mellifera adansoni (abelha centro-africana) etc. São conhecidas cerca de vinte mil espécies diferentes e até já é distinguida a Apis mellifera ibérica que como o nome indica, uma espécie de abelha mais comum na Península Ibérica.
A colmeia é constituída pela abelha-rainha, obreiras e zangãos
A rainha é a figura mais importante da colmeia, sem a qual esta não tem hipótese de sobrevivência. Mas, ainda que rainha, não tem qualquer função de comando. Após o 5º dia de vida, a rainha começa a fazer voos de reconhecimento e a partir do 9º já está preparada para fazer o voo nupcial, o que fará somente uma vez na vida, saindo da colmeia e sendo fecundada durante o voo por 4 a 8 zangãos que conseguem fertilizá-la, sendo o líquido seminal depositado num saco chamado espermateca que mantém os espermatozóides vivos praticamente durante quase todo o tempo de vida da rainha, 3 a 6 anos. A partir deste momento a sua função principal é a de pôr ovos, 1.500 a 2.000 por dia . Não põe ovos de uma forma casual. As obreiras fabricam os alvéolos de acordo com as necessidades da colmeia e a rainha antes de pôr o ovo tem que inspeccionar o tamanho do alvéolo. Se for mais pequeno é porque se destina à criação de larvas de obreiras e então a rainha mete o seu abdómen no alvéolo e comprime-o de forma a libertar os espermatozóides que irão fecundar o ovo. Se for um alvéolo maior é porque se destina à criação de zângãos e então ela introduz o abdómen mas não comprime a sua espermateca, uma vez que os zangãos nascem de ovos não fecundados. As células reais têm um formato diferente dos hexagonais que formam os favos e localizam-se nos bordos destes. Têm que ser fecundados pela rainha e são depois guardados pelas obreiras para evitar que a rainha mate as futuras rivais. Tem um ferrão liso com o qual localiza os favos onde vai fazer a postura e só o usa como arma nas lutas com outras rainhas, conseguindo injectar veneno sem ficar estropiada como acontece com as obreiras. Uma rainha mal nasce tem o instinto de eliminar as criações reais ainda não nascidas ou tendo um encontro de morte com alguma que tenha nascido ao mesmo tempo. Segrega uma ferormona chamada “substância-de-rainha”que as obreiras recolhem lambendo-a e distribuindo-a depois por todas as outras obreiras criando um ambiente de harmonia dentro da colmeia ao mesmo tempo que impede o desenvolvimento dos órgãos sexuais das obreiras, evitando que sejam reprodutoras. O corpo é maior do que o das obreiras não possuindo as glândulas que as obreiras necessitam para desempenharem as suas funções. Toda a vida é alimentada unicamente com geleia-real
Na colmeia não existe uma divisão de trabalhos mas uma relação entre a idade das obreiras e o trabalho que executam durante a sua curta vida (cerca de 2 meses)
Do 1º dia de vida até ao 3ª dedicam-se à limpeza dos alvéolos, chão e paredes da colmeia. Do 3º dia ao 7º passam a ingerir pólen, mel e água, regurgitando este produto nos alvéolos para alimentação das larvas mais velhas. Do 7º dia ao 14º, devido ao desenvolvimento das suas glândulas hipofaríngeas, conseguem transformar o alimento comum em geleia-real e passam a alimentar as larvas mais novas das obreiras até ao 3º. dia, as larvas dos zângãos, as larvas das princesas e a alimentar a própria rainha . Do 14º ao 20º dia com o atrofiamento das glândulas hipofaríngeas e o desenvolvimento das glândulas cerígenas, passam a construir os favos, a produzir mel, guardando-o nos favos e operculando-os (fechando-os com umas tampinhas), fazendo também a guarda da colmeia. A partir do 21º dia e até ao final das suas vidas passam a trabalhar no exterior, colectando pólen com os pelinhos das patas e armazenando nas bolsas que têm nas patas posteriores chamadas de corbículas, transportam agua para a colmeia com a vesícula melífera que também serve para transformar o néctar em mel. Recolhem ainda néctar e própolis.
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São as obreiras que constroem as células necessárias para a criação de obreiras, zângãos e rainhas. E a rainha cumpre as necessidades da colmeia. Elas inspeccionam os nascimentos e quando uma abelha sai do seu ninho, destacam-se 2 ou 3 obreiras que a lambem, escovam, dão-lhe mel enquanto a examinam minuciosamente. Se lhe encontram algum defeito de conformação que possa representar incapacidade, ainda que mínima, para o trabalho, sacrificam-na implacavelmente.
São também as obreiras que decidem quando é a altura de sair um enxame da colmeia por já estar demasiadamente povoada. Um grupo numeroso de obreiras enche os estômagos com mel, avisam a rainha da viagem e sai uma nuvem de abelhas protegendo a sua rainha, acompanhadas por alguns zangãos. Pousam numa arvore formando uma espécie de pinha gigante enquanto outro grupo vai inspeccionar os arredores para escolher um bom local. Se o local for aceite pelo grupo, começam a construção de um novo ninho, dando início a uma nova colónia.
As obreiras usam cortesias curiosas no trato com a rainha. Uma delas é que em qualquer deslocação ou movimento, nunca se viram de traseiro para a real personagem, conseguindo actuar de forma a manterem-se sempre de frente. Talvez seja essa a razão para não usarem o ferrão quando é decidido eliminá-la por já estar envelhecida. Neste caso rodeiam-na formando uma bola compacta com o seus corpos, acabando por a sufocar sem que a rainha ofereça resistência, aceitando a sua sina.
A rainha não permite a existência de outras rivais mas quando as obreiras decidem que é a altura de preparar um enxame para sair da colmeia com a sua rainha, não permitem que as duas rainhas se defrontem.
Quando a rainha morre e não há substituta, as obreiras começam a pôr ovos nos alvéolos numa tentativa desesperada de refazer a colmeia. Mas, como não são fecundadas, os ovos só irão dar origem a zângãos, formando uma colmeia “zanganeira” que irá perecer em pouco tempo
As abelhas que trabalham no exterior usam vários tipos de dança para poderem informar as suas companheiras sobre a localização do alimento descoberto. Se a dança é feita em círculo é porque se encontra a poucas dezenas de metros. Se é feita formando oitos, o ângulo que faz com o sol indica a direcção a tomar, a rapidez da dança indica a distância e o tempo que leva a dançar indica a abundância do material descoberto.
Os zângãos nascem de ovos não fecundados e não possuem ferrão. Atingem a sua maturidade sexual aos 12 dias de vida. A sua única função é fecundar as rainhas jovens, o que fazem em voo. A duração da sua vida é de 80 a 90 dias desde que não tenham tido o privilégio de fecundar a rainha. Após a cópula o seu órgão genital fica preso no corpo dela, mutilando-os e originando a sua morte. O resto do tempo permanecem inactivos sendo alimentados pelas obreiras. Quando termina a época da abundância são expulsos das colmeias e morrem de fome e frio no exterior.
Os produtos que se podem extrair de uma colmeia são os seguintes:
Mel - conhecido desde a antiguidade foi sendo substituído gradualmente à medida que se iam conhecendo os açúcares refinados extraídos da cana-de-açúcar e da beterraba, mais baratos, mas de qualidade incomparavelmente inferior. O mel é o único adoçante que contém proteínas, sais minerais e vitaminas essenciais à alimentação. É altamente energético e com conhecidas propriedades medicinais sendo um poderoso bactericida;
Geleia-real - produto fabricado por abelhas jovens que contém proteínas, lípidos, vitaminas, hormonas, enzimas. É estimulante do organismo, aumenta o apetite, tem efeito anti-gripal, actua no crescimento, na longevidade, na reprodução das espécies;
Pólen - produto muito rico em vitaminas A e P, proteínas e hormonas. Parece ser eficaz na anemia, no bom funcionamento do intestino, abre o apetite, aumenta a capacidade de trabalho, baixa a tensão arterial, actua nos transtornos da gravidez e menopausa, estimula o pâncreas combatendo a diabetes, aumenta a virilidade e fertilidade;
Própolis - constituída por resinas vegetais que as abelhas colectam de certas árvores, cera, pólen, ácidos e gorduras. As abelhas usam-na para calafetar as colmeias, soldar peças e para envolverem invasores mais corpulentos que tenham sido mortos dentro das colmeias, mumificando-os e retardando o processo de putrefacção por vários anos. Além de ter propriedades antibióticas, tem também acção imunológica, anestésica, cicatrizante e anti-inflamatória;
Cera - utilizada na confecção das velas, na composição de produtos de limpeza, cosmética, impermeabilização, isolamento na indústria eléctrica e em odontologia;
Veneno ou Apitoxina – em grandes proporções é letal para o homem mas em doses pequenas tem sido utilizada no tratamento do reumatismo, nevrites, nevralgias, redução do colesterol, doenças oftalmológicas. Pode ser administrada através das picadas naturais das abelhas mas também por injecções subcutâneas, pomadas, inalações ou comprimidos.

2007-02-12

O prometido é devido - A Chanfana

A chanfana conhecida praticamente em todo o País, é no entanto um prato típico das Beiras e há pelo menos duas povoações que entendem ser as criadoras desta confecção: Miranda do Corvo que se auto-denomina Capital da Chanfana e Vila Nova de Poiares que se auto-denomina Capital Universal da Chanfana.
Vila Nova de Poiares tem uma instituição muito conhecida que é a Confraria da Chanfana, cujo objectivo é divulgar a cultura gastronómica da região e certificar a chanfana cuja origem se perde nos tempos. O seu logotipo representa um forno de lenha, com caçoilos de barro preto e a cabra símbolo da pastorícia. Promovem vários eventos como a semana da chanfana em que vários restaurantes disputam anualmente o título de “Restaurante recomendado pela Confraria da Chanfana” para dar a conhecer os profissionais de gastronomia que melhor garantam a autenticidade e a qualidade deste prato ou como “A chanfana à mesa com as nossas crianças” para dar a conhecer às crianças em idade escolar, todo o processo deste prato com o intuito de as sensibilizar para a preservação da gastronomia da região, entre outros.
Mas, não querendo magoar os amigos de Vila Nova de Poiares, a verdade é que não se pode ficar indiferente à lenda que envolve a presumível origem da chanfana em Miranda do Corvo, mais precisamente no Convento de Semide já referido neste blog a propósito do doce chamado “Nabada do Convento”.
Até finais do séc. XIX, o Convento recebia dos moradores do seu couto - agricultores e rendeiros - o pagamento dos foros. A maior parte das vezes esses pagamentos eram feitos com galinhas, azeite, ovelhas, cabras, vinho, etc. E ao que parece seria feito pelo mês de Agosto até finais de Setembro o que ocasionava uma entrada excessiva de animais num curto período de tempo. As freiras teriam resolvido então cozinhar a carne de cabra que seria a mais comum, mergulhadas no vinho (que também recebiam em grande quantidade) nos fornos a lenha. As carnes cozidas assim ficavam cobertas por um molho gorduroso que solidificava e mantinha-as em condições de consumo por muitos meses.
Mas ainda defendem outra lenda e esta tem a ver com as invasões francesas. Alguém se teria lembrado de envenenar as fontes (não sabemos se os franceses para matar os portugueses ou se os portugueses para matar os franceses). Na impossibilidade de usar água das fontes, ter-se-ia inventado cozinhar com vinho. O facto das águas estarem impróprias para beber teria dado origem a uma grande mortandade na pastorícia e o animal mais resistente seria a cabra que se defendia mantendo-se em zonas altas e áridas. Durante a Batalha do Buçaco, o medo de usar a água de qualquer nascente e a quantidade de cabras velhas sobreviventes aliadas à quantidade de vinho armazenado teria levado à invenção deste prato que poderia ser escondido nas caves por tempo prolongado
A receita antiga seria confeccionada mais ou menos assim:
Carne de cabra velha partida aos bocados que se colocava numa panela de barro à qual se juntava azeite, banha, dentes de alho com casca e esmagados, pimenta, colorau, salsa, louro, sal, noz moscada, tudo coberto com vinho tinto bem encorpado. Ficava nesta marinada de um dia para o outro (ou por 2 dias). No dia seguinte aquecia-se bem o forno de cozer o pão, deixando as brasas para se manter por mais tempo, metia-se lá dentro a panela (ou caçoilo) tapada com folhas de couve, estancava-se a porta do forno com cinza ou farinha em pasta e deixava-se cozinhar durante 3 horas ou mais, até o forno esfriar (noutras versões durante um dia e uma noite). Servia-se a partir do dia seguinte à confecção, aquecendo-se dentro do mesmo caçoilo numa trempe junto à lareira, acompanhada com batatas cozidas com ou sem casca e com grelos também cozidos. Hoje adaptou-se a receita mas no geral é muito semelhante.
Há quem faça com carne de ovelha (e julgo que as freiras também fariam uma vez que recebiam ovelhas e cabras), há quem faça com a panela em cima do fogão a gás, há quem use carne de vaca e até... pasmem-se... com carne de coelho.
O animal não deverá ser novo para a carne poder aguentar tantas horas de cozimento sem se desfazer. Aliás deveriam ser animais velhos que as freiras recebiam como pagamento dos foros, uma maneira dos agricultores e pastores se defenderem mantendo os mais novos para si.
Mas já que falei da chanfana a propósito do aproveitamento da carne de cabra, vou falar também em 2 pratos consequentes: a Sopa de Casamento e os Negalhos.
Se pensarmos um pouco, quando as carnes eram totalmente consumidas deveria sobrar muito molho. O espírito aproveitador das freiras deu origem à seguinte invenção: num caçoilo de barro, punham uma camada de couves cozidas, depois uma camada da fatias de pão, depois outra camada de couves cozidas, a seguir o pão e assim sucessivamente sendo que a última camada deveria ser de couves. Regavam tudo com o molho da chanfana, enfeitavam com as sobras de carne e ia ao forno para apurar e tostar um pouco. Chamavam (e ainda se chama): Sopa de Casamento.
Com as tripas e o bucho (estômago para quem não souber) das cabras faziam os Negalhos: Lavavam muito bem o bucho (cortado em bocados grandes) e as tripas (cortadas em bocados pequenos) e deixavam ficar em limão e sal por algumas horas. Temperavam depois com sal, colorau e picante. Dentro de cada bocado de bucho, colocavam bocadinhos de tripa, de toucinho, uma rodelinha de chouriço se houvesse (não esquecer que se estava num período muito carenciado durante a 3ª. invasão francesa) e uma folha de hortelã. Fechavam como se fosse uma trouxa e cosiam com linha ou atavam com um bocado de tripa bem lavada. Iam a cozer no forno de lenha cobertos com vinho tinto e temperados com louro, alho, banha, azeite, malaguetas, por umas 4 ou 5 horas. Serviam acompanhados com batatas cozidas e legumes
Actualmente fazem-se os negalhos recheados com chouriço, salpicão, linguiça, entremeada, pedaços de febra de porco, colorau, cebola, hortelã, tomilho.

Outros tempos, outros recursos.

2007-02-04

Pinheiros - Serpente

Há umas semanas atrás, entrei por acaso no blog PILRITEIRO e fui surpreendida com a série de fotos espectaculares dos Pinheiros- Serpente da Mata Nacional de Pedrógão que eu desconhecia totalmente a sua existência. Fiquei tão impressionada com o tema que contactei o seu autor Augusto Mota que me deu mais informações sobre o assunto. Inclusivé enviou-me um pps com fotos dramáticas tiradas por ele na Praia Velha, em S. Pedro de Moel a outros pinheiros-serpente que mais tarde viriam a ser vandalizados e destruídos, acompanhando as fotos com um magnífico poema de Afonso Lopes Vieira.
Perante o meu interesse em publicar o seu trabalho, teve a gentileza de transformar o pps de forma a poder inseri-lo aqui.



Se tiverem dificuldades em ler as legendas, cliquem sobre "View All Images" logo abaixo da exibição dos slides

2007-01-19

Chá de Príncipe

Posted by Picasa No Verão passado, a minha irmã ofereceu-me um vasinho com um pequeno pé de uma planta chamada Príncipe ou Chá de Príncipe (mesmo antes da sua infusão).
É uma planta herbácea da família das Poaceae (gramíneas), nativa das regiões tropicais da Índia, conhecida pela designação latina de Cymbopogon citratus e com um aroma a limão que lembra a Lúcia-lima, Bela-Luísa ou Limonete (Aloysia triphylla), uma vez que ambas têm um componente químico denominado citral.
Além do citral também tem mirceno, ácido acético e outros e por isso é usada em medicina caseira como analgésica , anti-pirética, bactericida, estomacal, expectorante, estimulante lácteo, hepato-protector, estimulante da circulação periférica, calmante e anti-depressiva.
Era um desejo antigo, conseguir adaptá-la a este clima com geadas muito intensas e nada suportáveis para uma planta habituada ao calor e à humidade. A nossa primeira preocupação foi mudá-la para um vaso maior onde se sentisse mais confortável e a partir daí tem vindo a ser apaparicada inclusive abrigando-a dentro de casa quando chega a noite. Gostou da mudança do vaso e criou uma série de novos pés cheios de força como podem ver na foto.

Os Sentidos da Memória

Conhecia perfeitamente aquela dificuldade em respirar, aquela força invisível que lhe apertava dolorosamente o peito. E lembrou-se da menina com olhos inocentes que imaginava o seu mundo grandioso, perfumado, doce, macio e melodioso, e daquele dia/noite, em que esse mundo magnífico foi invadido pelo espanto e pelo medo, ficando para sempre corrompido. Reconhecia estes tentáculos que desde então emergiam do fundo de si, torturando-a durante dias até se desvanecerem lentamente. Olhava frequentemente o relógio, ansiando pelo momento da saída.
Ao chegar à rua viu-o no carro, esperando-a: Desculpa mas estou muito em baixo, só me apetece desaparecer daqui. Vou para casa.
E ele disse apenas: Eu levo-te!
Sentou-se no carro, fechou os olhos e seguiram calados. Passado algum tempo, o carro parou...


Ela abriu os olhos sentindo um cheiro forte no ar: Onde estamos? No Guincho!- respondeu ele - Vem que tenho uma surpresa para ti.
Estava um cair de tarde agradável com um vento morno que vinha do mar e se roçava em tudo e em todos. Ele abriu a porta do seu lado e baixando-se tirou-lhe os sapatos, tirando os dele também. Foi ao porta bagagens e pegou numa mochila que pôs às costas. Deu-lhe a mão e escorregaram pelas dunas de areia, de pés descalços em direcção ao mar. Este com os seus ímpetos revoltos desabava toneladas de água que faziam estremecer o solo. Ela parou ao vê-lo andar para a frente e para trás como se procurasse algo. De repente ele disse: Ficamos aqui!
Pôs-se de joelhos, começou a escavar a areia, depois amontoou-a e alisou-a por cima fazendo uma espécie de banca. Abriu a mochila tirou uma toalha branca guarnecida com pequenas cerejas vermelhas bordadas à mão que estendeu sobre a mesa de areia, passando-lhe a mão por cima. E disse: Senta-te! E ela sentou-se esboçando o primeiro sorriso desse dia.
Tornou a abrir o saco e tirou duas chávenas de porcelana branca com uma grinalda de folhinhas verdes e douradas pintada no topo, colocou-as em cima dos pires e estes em frente de cada um deles. A seguir apareceu um açucareiro de vidro com cubos de açúcar, duas colherzinhas, uma lata azul com biscoitos de canela, a depois um rádio a pilhas que sintonizou na Antena 2.


…e por fim um termo que continha um chá fumegante que verteu em cada uma das chávenas. Um aroma jovial entrou pelas suas narinas. Que chá é este, tão perfumado? É chá de Príncipe! Bebe e vais sentir-te feliz!
E ficaram os dois calados, olhando o mar grandioso, sorvendo pequenos goles de chá que exalava um perfume cítreo, saboreando a doçura dos bolinhos, com os pés enterrados na areia macia e ouvindo o Amanhecer de Peer Gynt com um sorriso enorme desenhado em cada um dos nossos rostos.

(Dedicado ao meu amigo Didi)

2007-01-10

O que tem que ser... tem muita força

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A gata Maria foi-me oferecida há mais de 10 anos juntamente com dois filhotes. Estes que já eram praticamente adultos, desapareceram passadas umas semanas e ela manteve-se sempre aqui tomando conta das ninhadas seguintes que escondia no palheiro até nos mostrar as crias já com os olhitos abertos, bamboleando-se nas patas e com as caudas espetadas para o ar. Nunca foi uma gata de colo, gostando de marcar as distâncias que existiam entre ela e nós. Mas ainda que tão arisca, sempre foi uma gata simpática.
Um dia estavamos a sair para mostrar os arredores a um grupo de amigos e vimos a Maria caminhando com muita dificuldade na nossa direcção. Saímos dos carros e fomos ver o que se passava. Tinha uma das patas traseiras com fractura exposta e a pele da barriga com uma série de cortes profundos o que dava a entender que teria caído numa armadilha para coelhos.
Com a ajuda e as opiniões de todos, pusemos uma tala na pata feita com pedaços da cana cortada, envolta em algodão e gaze para não magoar, tratámos os ferimentos da barriga com Betadine, pusemo-la no caixote onde costumava dormir e saímos mais descansados.
Todos os dias desinfectavamos as feridas que começaram a sarar rapidamente. Agora a pata é que estava a preocupar-nos porque a gata parecia inquieta, sempre a tentar lamber, sinal que as coisas não estavam bem.
Resolvi ir ver o que se passava. Consegui que a Maria permanecesse deitada (era engraçado que ela sabia muito bem que estava a ser tratada e nessas alturas não fugia) e tirei as ligaduras, as canas e o espectáculo que vi deixou-me arrasada: o osso não tinha consolidado, as duas partes da pata estavam só ligadas por uns fios grossos e brancos que deviam ser os tendões e o cheiro a podre que emanava da pata, não prenunciava nada de bom.
Fiquei a olhar para o animal e fui-lhe fazendo festinhas enquanto pensava nas hipóteses que tinha. De repente decidi actuar. Fui buscar algodão, gaze, água oxigenada, Betadine e uma tesoura que tinha comprado há poucos dias.
Chamei um rapaz que trabalhava na quinta, moço com vinte e poucos anos e que além do trabalho que fazia aqui, ainda era jardineiro por conta própria e bombeiro voluntário. Quando ele apareceu junto de mim, pedi-lhe para agarrar bem na gata Maria pelo cachaço de forma a ficar com as patas penduradas.
Segurei-lhe na pata esfacelada e com um movimento rápido de tesoura, cortei-lhe os tendões de uma só vez. A gata deu um berro que se deve ter ouvido a uma distância enorme e parte da pata caiu no chão. Reparei que o animal baloiçava perigosamente e quando olhei para o rapaz, este estava de olhos revirados, com o corpo a oscilar perigosamente e em risco de me deixar cair a Maria no chão.
Dei-lhe um grito:
-Ei!!! Mas que é isso, homem?? Segure lá na gata como deve ser!! Ai, mas que raio de bombeiro tenho aqui?!!
Ele recuperou quase de imediato. Olhou para mim de olhos esbugalhados com a cara mais branca que um lençol, entregou-me a gata e desatou a fugir.
Ainda me deixei rir com a bicha ao colo. Deitei-a em cima do muro, desinfectei-lhe o corte que nem sequer sangrou, tive o cuidado de cheirar a pele que não cheirava a podre como a parte decepada, pus-lhe uma gaze ensopada em Betadine e, para a poder seguir durante a convalescença, abriguei-a no sótão com um caixotinho forrado com uma manta, um prato com pedaços de carne, outro com leite e uma tigela com água fresca. E depois de uma cirurgia tão traumatizante, a gata Maria comeu a carne, bebeu o leite e deitou-se no caixotinho a ronronar, agradecida.
Foi muito rápida a recuperação. O corte fechou completamente e com o tempo até se cobriu de pêlo. Passados poucos dias já a Maria corria feliz atrás das lagartixas.

2007-01-07

Uma Boa Notícia

Posted by Picasa Um blog é realmente uma ponte muito forte ligando as pessoas que o escrevem às que o lêem de uma forma completamente imprevisível.
Comentámos isso ao recebermos há pouco a seguinte mensagem de um senhor que não conhecemos:
“Boa noite Ana,
Pois fique sabendo que brevemente este Paço de Figueiredo das Donas será recuperado, como merece, depois de tantos anos de abandono. Estou a concluir o processo de aquisição e em breve começarei com as obras. Se ainda mantiver o blog virei aqui convidá-la para a inauguração, como forma de agradecer o seu interesse por esta pequena parcela de história.”
A satisfação que sentimos foi enorme. Pela notícia em si e pelo cuidado que este senhor teve em nos informar da grande volta que o Paço vai ter em breve no sentido da recuperação e que esperamos muito sinceramente com a preocupação de respeitar a traça antiga e os seus espaços exteriores.
Tirou-nos um peso de cima dos ombros pois desde a visita que relatámos aqui no Post intitulado “Figueiredo das Donas e o Crocus Romano”, ficámos com aquele bichinho infiltrado: Será que um dia poderemos adquirir o Paço e restaurá-lo de uma forma condigna? Era um sonho daqueles muito longínquos mas que nos fazia sorrir durante o sono :))))

Muitos parabéns pela feliz aquisição e teremos muito prazer em corresponder ao convite para visitarmos o Paço quando estiver completamente recuperado.
Um abraço

2007-01-05

A Passagem de Ano e a Sombra do General

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Desta vez não nos apeteceu fazer a Passagem de Ano com os amigos, conversando, comendo, bebendo, dançando, tudo festejado com grandes sorrisos e francas risadas. Queríamos estar calmos, em reflexão, pensando na vida e naqueles que recentemente se ausentaram em definitivo da nossa companhia. Resolvemos sair de casa e passar o ano sozinhos num sítio simpático. Escolhemos o Hotel Astória em Coimbra, um hotel antigo, modesto mas com uma cozinha divinal. Não havia Réveillon. Jantámos numa sala cheia de pessoas com as mesmas aspirações que nós. O jantar foi óptimo como era esperado e, enquanto conversavamos sobre tudo, íamos saboreando os pitéus, calmamente, até chegar a meia-noite e recebermos as passas e o espumante para assim entrarmos no Novo Ano como manda a tradição. Depois de um brinde geral, viemos até à rua e estranhámos que Coimbra não comemorasse esta passagem, nem com fogo de artifício, nem com nada. Uma cidade completamente alheada do momento festivo. A nós que também estávamos pouco festivos, não incomodou. Mas via-se o desconsolo na cara das pessoas que jantaram connosco e que esperavam qualquer coisa com luz, cor e estrondo.
Ficámos no quarto 109 do hotel, um quarto pequeno, que segue o contorno arredondado do edifício. Que tem de especial o quarto 109? Nada que pareça de muito interesse, a não ser o facto de ter sido neste quarto que o General Humberto Delgado descansou antes de falar ao povo de Coimbra em plena campanha de 1958. Do lado de fora do edifício e por baixo da estreita varanda que serve este quarto, tem uma placa que diz assim: Desta varanda, Humberto Delgado falou à população de Coimbra em 31 de Maio de 1958.
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Estava-se em plena campanha eleitoral. O General Craveiro Lopes terminara o seu mandato. Salazar deixou de confiar nele e resolveu apoiar a candidatura do Almirante Américo Tomás. Humberto Delgado decidiu candidatar-se como independente à Presidência. Foi uma campanha ferozmente perseguida e reprimida pela PIDE e as manifestações de apoio eram massacradas pela PSP e GNR.
No seu programa como candidato, H. Delgado propunha vários pontos com evidentes marcas liberais: reintegração dos funcionários afastados do serviço por motivos políticos, liberdade de expressão e de associação, amnistia a todos os presos políticos, eleições gerais livres a curto prazo e moralização dos costumes políticos e da administração pública.
As eleições presidenciais tiveram lugar a 8 de Junho de 1958. Américo Tomás foi eleito, embora muita gente acreditasse que teria sido à custa de actos fraudulentos. Entretanto começaram a surgir represálias cada vez mais apertadas. H. Delgado pede asilo político ao Brasil, o que lhe foi concedido. Mais tarde entra clandestinamente em Portugal acompanhado pela secretária Arajaryr Moreira Campos com a intenção de se juntar aos conspiradores que preparavam uma revolta em Beja na passagem do Ano. Fracassada a revolta, H. Delgado conseguiu fugir para Espanha, mais tarde parte para a Checoslováquia e depois para Argel. Entretanto a PIDE começou a organizar uma armadilha, aliciando indivíduos que se fizessem passar por exilados políticos para assim ganharem a confiança de H. Delgado. Este não se apercebeu do logro e marcou uma reunião em Badajoz para 13 de Fevereiro de 1965. H .Delgado saiu de Argel com Arajaryr e dirigiram-se para o local de encontro hospedando-se num hotel. Entretanto saiu um carro de Lisboa com destino também a Badajoz e com 4 elementos da PIDE. Quando os dois carros se encontraram num ponto isolado da estrada entre Badajoz e Olivença, H. Delgado saiu do carro, confiante, sendo imediatamente abatido com um tiro na cabeça. A seguir mataram a secretária. Os corpos foram metidos nos porta-bagagens dos carros, levados para uma zona próxima de Villanueva del Fresno e depois de despidos e despojados de documentação, lançados a uma vala, cobertos com cal viva, regados com ácido sulfúrico e enterrados.

Mais tarde, em 1990 foi nomeado a título póstumo, Marechal da Força Aérea e os seus restos mortais, vindos de Villanueva del Fresno, depositados no Panteão nacional.

2006-12-26

O Pai Natal mudou de perfume













Para todos os amigos que nos escreveram a perguntar como foi o Natal deste ano, aqui fica uma foto que mostra o simpático Pai Natal que encantou todas as crianças com as suas graças e os seus presentes.
Até nós, os adultos, ficámos rendidos à sua simpatia e aos magníficos presentes com que nos mimoseou.
Ah, e desta vez não cheirava a vick mas sim a lavanda :)), o que era muito mais agradável.
Obrigada a todos os amigos que nos seguem com tanta atenção e carinho. Esperamos que todos vós também tenham tido um Natal na companhia de quem mais gostam e num ambiente de Paz e Amor
Um grande abraço

2006-12-18

Parêntesis de Natal

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Na minha casa de infância não se vivia o Natal religioso. Era um Natal pagão com a figura do Pai Natal que premiava igualmente as boas acções mas nunca sendo mãos largas por muito bonzinhos que tentassemos ser.
As recordações mais antigas, a partir dos meus 3 ou 4 anos, não me trazem a imagem do velho de vermelho e longas barbas. Éramos pobres e sem dinheiro para este tipo de disfarces. Não havia Ceia de Natal e jantávamos simplesmente como todos os dias, os mesmos de sempre: eu, a minha irmã e os meus pais. O jantar era um momento de grande tensão: eu era muito vagarosa a comer por nunca ter apetite e, naquelas noites, com a perspectiva da visita de tão ilustre personagem, a comida ainda mais demorava a escorregar pela garganta. Os meus pais andavam de volta de mim já desesperados, ameaçando com a ausência do velhinho face à minha lentidão a comer. Quanto mais diziam, mais me enervavam e menos conseguia engolir… Por fim, rendidos à minha falta de energia, tiravam-me o prato da frente e mandavam-nos, a mim e à minha irmã, para o quarto. Ali ficávamos com o coração aos pulos até ouvir aqueles murros na porta de entrada e uma voz rouco-esganiçada a perguntar se era ali que morava a menina Ana e a menina São. A minha mãe respondia que sim. E elas têm-se portado bem? - perguntava a voz assustadora.  E a minha mãe: Sim, sim, senhor Pai Natal!  E a voz num tom mais alto para se fazer ouvir no quarto: Bom, trago-lhes aqui algumas coisas e digam à menina Ana que se continua a comer como come, se calhar para o ano não apareço por cá!.
Quando ouvíamos a porta fechar com estrondo, saíamos do quarto a correr. Os presentes eram normalmente coisas que precisávamos: uma camisola que chegava aos joelhos para acompanhar o nosso rápido crescimento ou uns sapatos dois números acima pelas mesmas razões. Mas havia sempre qualquer coisinha que fazia os meus encantos: um pato bebé que passava a ser a minha companhia diária, dormindo comigo e tomando banho no mesmo alguidar que eu, fugindo de casa logo que estava grande e gordo, não conseguindo relacionar o desaparecimento do bicho e a canjinha oferecida nesse mesmo dia… ou um ratinho cinzento olhando para mim dentro da caixa de sabão, ainda meio esfalfado pela correria que teve que fazer no corredor da casa tentando evitar ser capturado.
Mais tarde, a partir dos meus 5 anos, já aparecia o velhinho todo marreco, vestido de vermelho, de barbas brancas meio descoladas que cheirava a Vick Vaporub que tresandava (substância pastosa que serve para fixar o algodão por breves minutos). Eu mantinha-me respeitosamente a alguma distância, respondendo às perguntas que ele me fazia, olhando curiosa para as luvas pretas que escondiam as mãos. De vez em quando aproximava a cabeça meio confundida por reconhecer nele o cheiro do corpo da minha mãe... outras vezes do corpo do meu pai. Mas a dúvida assim como aflorava também se dissipava logo a seguir. Horas depois era um deles que continuava a cheirar a vick. Sabe-se lá porquê.
Hoje temos muitas crianças na família, felizmente. E, ao jantar, ouço-as combinar entre si o que vão fazer ao Pai Natal: apalpar-lhe a roupa para ver se a barriga é a sério… puxar-lhe as barbas para ver se são verdadeiras... ameaças proferidas entre risos pelas mais velhas causando admiração e respeito das mais novitas. Mas depois do jantar, esperam ansiosamente por ele esborrachando os narizes nos vidros das janelas e soltam gritos histéricos quando vêem lá ao longe uma figura a caminhar por entre as árvores da mata com uma lanterna na mão e a repenicar uma sineta. Logo a seguir todas ficam em silêncio, de boca aberta quase deixando ouvir os seus coraçõezinhos a bater desordenadamente. E o vulto caminha meio desorientado,  ora aproximando-se, ora afastando-se mais, procurando a casa no meio da escuridão, tarefa difícil por estar quase às escuras, apenas iluminada por algumas velas para criar uma penumbra expectante como convém e 
fazendo a criançada desesperar.  Quando finalmente ele assoma à janela com as barbas erguendo-se ao vento e apontando para cada um de nós com o feixe de luz da lanterna, o nervosismo dos miúdos é tal que nem se atrevem a abrir-lhe a porta, quanto mais apalpá-lo ou puxar-lhe pelas barbas. São os adultos que abrem a porta ao velhinho ao som do "Joy to the World" e, sempre à luz das velas, somos chamados um a um, recebemos uma festa na cabeça, um conselho e um presente. Dizia o mais pequenito no ano passado: - Ó Pai-Natal, mas não faças ho-ho-ho porque eu tenho muito medo!
E ele não fez.
Saber que afinal o Pai Natal não existe, não é motivo de traumas. Quando se informa o mais crescido que o Pai Natal somos todos nós e que ele foi o escolhido para representar essa figura no próximo ano, a alegria é enorme e começa logo a magicar no que irá fazer para enganar os outros miúdos. As interpretações cénicas são tão bem feitas e divertidas que obrigam os adultos a fazer um esforço danado para não desatarem a rir perante o ar espantado dos mais novinhos.

É tão bom acreditarmos no Pai Natal que não nego essa alegria aos miúdos, antes pelo contrário. Sei que um dia se irão recordar destas cenas com muita saudade, tal como eu.

A todos os nossos amigos, companheiros e visitantes anónimos, os desejos de um Bom e Feliz Natal.

2006-12-13

A Nabada do Convento de Semide

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Semide é uma freguesia pertencente ao Concelho de Miranda do Corvo, distrito de Coimbra. Esta povoação nos finais do séc. XI pertencia a D. Anião da Estrada, fidalgo das Astúrias e senhor de Góis. Este teve 3 filhos: D. João de Anaia que foi bispo de Coimbra, D. Martin Anaia que foi cavaleiro nas lutas pela independência e D. Maria Anaia. Os irmãos Anaia, com os bens que dispunham, resolveram construir um mosteiro cuja carta de doação foi passada por D.Afonso Henriques em Abril de 1154 e que se destinava aos monges beneditinos. Em 1183 passou a convento de freiras para receber as descendentes de Martin Anaia. Em Agosto de 1896 extinguiu-se a comunidade beneditina de Santa Maria de Semide com a morte da última freira e as instalações acabaram por ser aproveitadas mais tarde para a Escola Profissional de Agricultura. Deste convento primitivo já nada resta. A parte mais antiga que ainda existe, é o claustro quinhentista, construído em 1540. Infelizmente este monumento foi muito castigado pela série de incêndios que sofreu: o primeiro foi em 1664 destruindo a maior parte do edifício. Os mais recentes foram em 1964 que destruiu a parte poente do convento, depois em 1987 devido a um curto-circuito e o último em 1990 que destruiu o Claustro Velho, a Casa do Capítulo, a sacristia e também vários livros e documentos de valor incalculável. De todo o conjunto é de salientar actualmente a Igreja com um retábulo e cadeiral em madeira dos finais do século XVII, altar-mor também do século XVII, azulejos policromáticos do séc. XVIII, esculturas dos séc. XVII e XVIII e o órgão da segunda metade do séc. XVIII.
Em 2000, durante a empreitada de consolidação das paredes do convento foi descoberta a fornalha de um fogão primitivo embutida no chão em que a combustão se efectuava através de um túnel em tijoleira e que remonta aos séc. XVII e XVIII. Entretanto, devido aos contínuos adiamentos das obras, uma parte do claustro quinhentista abateu não aguentando os sucessivos temporais em Outubro último. E assim com todos estes protelamentos do início das obras de recuperação (a última adiada para 2007), vai desaparecendo aos poucos um monumento que deveria ser urgentemente revisto, como tantos outros em situações idênticas ou ainda piores.
Nas instalações do convento funciona actualmente o CEARTE (Centro de Formação Profissional do Artesanato) com cursos na área da cerâmica, têxteis, carpintaria, marcenaria, encadernação, serralharia artística, restauro de mobiiliário e arte sacra, talha, embutidos, jardinagem, apicultura, doçaria, cestaria, reparação de electrodomésticos, gestão e marketing, formação pedagógica e técnica, etc
E agora que já vos falei um pouco do convento e da sua história, vou então entrar no assunto que me trouxe aqui. Como estamos em plena quadra natalícia e gostamos sempre de apresentar uma mesa com doçaria diversa, aqui vai um doce espectacular que penso que a maioria de vós não conhece: a Nabada do Convento de Semide, um dos doces conventuais mais antigos.
As freiras que eram excelentes doceiras, inventaram um doce feito com nabos cozidos e que é um verdadeiro espanto. A receita mais antiga ainda usa o almíscar, a água de rosas, mas nós fizemos o doce usando uma mais simples e que ficou uma delícia. Para os corajosos, aqui vai a receita:

Nabos – 1 Kg
Açúcar – 500 gr (+/-)
Amêndoas descascadas e raladas- 50 gr

Descascam-se e cortam-se os nabos às rodelas que vão a cozer em água ligeiramente temperada com sal. Depois de cozidos e escorridos, colocam-se as rodelas num recipiente com água fria durante 4 dias, mudando a água diariamente (isto é que tem mesmo que ser. Chama-se a este processo “corar”)
Ao fim dos 4 dias, escorrem-se e espremem-se num pano, pisando depois num almofariz e retirando os fios e partes duras.
Pesa-se este puré que deve rondar os 500 gr.
Põe-se um tachinho ao lume com igual quantidade de açúcar, junta-se um copo de água e ferve até formar ponto de cabelo que é quando escorre da colher em fios fininhos o que deve acontecer quando a temperatura atinge os 105º (é fácil para quem tem um pesa-xaropes: ao atingir os 32º Baumé estamos em pleno ponto de cabelo. Como não tenho, vai mais ou menos a olho, logo que passe a fase anterior de calda fraca)
Quando estiver no ponto, junta-se o puré de nabo e as amêndoas raladas.
Deixa-se o doce ferver até ver o fundo ao tacho quando se passa com a colher de pau.
Depois guarda-se como a marmelada, em tigelas tapadas com papel vegetal molhado em aguardente.
Acreditem que é muito bom
Outro dia falo-vos da chanfana, prato típico das Beiras mas dando azo a grandes discussões sobre a sua origem. Muitos defendem que também surgiu aqui no Convento de Semide. Mas como este post já vai longo, as lendas e as confecções da chanfana ficam para outra altura.

2006-12-10

As bênçãos do senhor Francisco

Posted by Picasa O senhor Francisco era um homem conhecido num raio de acção de muitas dezenas de quilómetros. Tudo nele era singular. Usava o cabelo caído pelos ombros, uma barba grande que esvoaçava sobre o peito, um terço gigante que trazia pendurado ao pescoço. Sempre que passava por uma igreja ou capela, saía da sua bicicleta, entrava e passava uns minutos em oração. Nas missas dominicais antecipava-se ao padre, só se mantendo em silêncio nas homilias que ouvia respeitosamente. Comungava todo nu, escondendo as suas partes pudibundas num cobertor que enrolava em volta de si. Vivia numa pobreza extrema, habitando numa barraquita de madeira e com partes forradas a chapa de alumínio para evitar a entrada do vento e da chuva, dividindo o seu espaço com uma burra sua companheira de solidão, uma vez que tinha sido abandonado pela mulher e filhos. Era um homem doce. Quando me via ao longe acenava-me cheio de alegria, chamando pelo meu nome e, ao aproximar-me, via-o erguer a mão à minha frente, dando forma a uma cruz com a qual me benzia. Sentia-me bem quando o encontrava porque me dizia coisas magníficas: “Ai que bom é vê-la senhora dona Ana, uma senhora tão linda e tão boa!” E depois baixando os olhos dedicava-me um padre-nosso ou ave-maria conforme as circunstâncias ou a inspiração do momento. Várias vezes lhe dei trabalho na quinta e nunca quis receber o dinheiro. Apenas aceitava roupa e comida, desde que não fosse carne que recusava por muita fome que tivesse. Um dia apareceu aqui à hora do almoço. Perguntei-lhe se já tinha almoçado e disse-me que sim. Conhecendo a delicadeza do senhor, disse-lhe que então ia almoçar outra vez comigo o que ele não rejeitou. Apareceu também o meu filho que vinha comer à pressa para depois sair e continuar com as suas tarefas profissionais. Quando pus a comida nos pratos, o senhor Francisco baixou a cabeça e começou uma oração de graças que respeitámos ainda que nenhum de nós fosse religioso. Mas a oração foi sendo cada vez mais aumentada e abrangente. Da comida passou para os donos da casa, para os filhos dos donos da casa, para os familiares, para os amigos, para os animais, para as pessoas da cidade, para a paz no mundo e sucediam-se padres-nossos, aves-marias e uma série de orações que desconhecia… quase o tempo de uma missa. A comida arrefeceu no prato. O meu filho olhava discretamente para o relógio, até que por fim ouvimos o amém final e pudemos começar a comer. Terminada a refeição assustámo-nos quando o senhor Francisco baixou de novo a cabeça mas foi apenas um curto agradecimento pela refeição. Estava uma tarde de imenso calor e ele vestido com um fato grosso e por cima um sobretudo que eu lhe tinha oferecido há uns meses atrás. O que tapa do frio, tapa do calor! Era a sua afirmação. Levou umas sandes para o lanche, despediu-se de mim com as bênçãos do costume e no final com os olhinhos a brilhar insistiu: “Ai que senhora tão linda!” E foi a última vez que me visitou. Uma tarde vi-o a pedalar pela estrada fora e buzinei-lhe. Ele acenou-me e pelo espelho retrovisor consegui aperceber-me do sinal da cruz desenhado no ar, o qual agradeci levantando o braço. Passados alguns meses perguntei por ele às senhoras que trabalham aqui nas terras. - Ah, não sabe? O senhor Francisco morreu! - Oh!... morreu? Coitadito... não sabia! Mas morreu de quê? - Olhe, morreu todo queimado. Acendeu uma fogueira dentro da barraca para se aquecer, deve ter adormecido e o fogo agarrou-se às vestes, às barbas. Ainda saiu aos gritos mas quando os vizinhos chegaram já estava todo queimado e a morrer. Fiquei sem saber o que dizer. Durante muitos dias fartei-me de pensar na morte horrível que teve e na sua vida tão miserável apenas iluminada quando encontrava alguém amigo ou quando recolhia em oração. Gostava das suas visitas e das atenções que tinha para comigo, que mais não fosse por aquela mão erguida oferecendo bênçãos. Tenho saudades daquele “Ai que senhora tão linda!” que me animava o coração

2006-12-05

O estorninho-malhado


Há dias estava entretida a varrer o pátio quando me apercebi de um ruído repetitivo a bater numa vidraça. Fui ver o que se passava. Era um passarito que insistia em passar pelo vidro de uma janela desconhecendo os mistérios dos materiais usados pelos humanos. Estava tão empolgado nessa tentativa que nem se deu conta da minha aproximação e num instante viu-se apanhado por uma coisa estranha que o envolveu e que não o deixava fugir. Não percebo muito de pássaros. Nesta altura do ano vejo-os em bandos de centenas de indivíduos, pousados nos fios da luz e do telefone. Com este desenho nas penas foi fácil identificá-lo com a ajuda de um amigo bom entendedor de passarada. Tratava-se de um estorninho-malhado, mais precisamente um Sturnus vulgaris com a sua roupagem de Inverno, já que no Verão tem as penas mais escuras e brilhantes. É uma espécie muito abundante, gregária fora da época de reprodução, formando enormes bandos. A sua vocalização é variada, incluindo muita imitação de outros cantos e, ao fazer este blog, aprendi que a palavra pissitar se refere ao canto do estorninho. Medem cerca de 20 a 23 cm, vivem perto de jardins, pântanos, sebes e bosques. O bico amarelo no Verão escurece no Inverno. As patas são avermelhadas. Faz o ninho nos buracos das árvores, nos rochedos ou nas caixas-ninho. A fêmea pôe cerca de 7 ovos azuis na Primavera e ao fim de 12 a 15 dias nascem as crias indefesas e penugentas saindo do ninho ao fim de 22 dias. Comem insectos, sementes e, para minha arrelia, também frutos.
Este estava desejoso de se ver livre da minha mão que o aterrorizava.
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Mas depois de muitas carícias e das minhas canções (que têm um efeito hipnógeno-calmante - que o diga a pequena Leonor), acabou por confiar e deixou-se ficar tranquilamente pousado numa mantinha enquanto durou a sessão fotográfica que o viria a tornar num estorninho famoso na blogosfera. Foi uma manhã muito cansativa para um pássaro-modelo e por isso resolvemos restituir-lhe a liberdade, soltando-o ao vento e vendo-o partir num voo forte e directo, rumo ao seu mundo.
Boa sorte, amiguinho!

2006-11-29

Verídica :))

Saí de casa com a intenção de procurar máquinas fotográficas digitais. Pretendia saber preços de uma máquina com zoom - já que a minha não tem - e com a possibilidade de usar lentes macro.
Gostava de conseguir fotos com a espectacularidade de pormenores como as que vejo em alguns blogs.
Talvez devido à linguagem usada e denunciadora da minha falta de experiência em coisas deste género, o empregado perguntou-me o que é que eu pretendia fotografar com uma máquina deste tipo.
- Olhe, queria tirar fotos a flores e a insectos mas de forma a captar pormenores que escapem à vista normal.
O empregado ficou uns segundos a pensar e depois disse com o ar de quem ainda não emergiu totalmente do pensamento:
- Huuummm... estou a perceber... mas olhe que não vai conseguir tirar fotos dessas... quero dizer, consegue tirar às flores... agora aos insectos... acho que não!...
- Ah sim? E porquê??
- Então, pense bem... quando a senhora se aproximar com a máquina, o insecto foge!...
Não é que não tinha pensado nisto? E se amarrar o insecto por uma pata??

2006-11-24

Figueiredo das Donas e o crocus romano

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Fomos visitar Figueiredo das Donas pertencente ao concelho de Vouzela. Tirámos várias fotos às ruínas de uma casa senhorial e a seguir fomos procurar a via romana que liga Carregal, Figueiredo das Donas, Bandavises e Fataúnços que foi o que motivou a nossa visita. Este troço fazia parte de uma estrada romana que ligava a cidade (civitas) de Viseu ao litoral. O caminho estava em muito bom estado e ainda era utilizado pelos locais nas suas deslocações. Tinha uns 3 metros de largura e como era costume nestas zonas, devido à abundância, era calcetado com o aproveitamento das rochas de granito que emergiam da terra.
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Estavamos sentados num murete (muito mais recente) a usufruir do perfume do ar e do silêncio quando reparámos neste crocus que luzia por entre a folhagem. Perguntámo-nos se seria um Crocus sativus ou um Crocus autumnale, que é como quem diz um Colchicum autumnale. Não chegámos a conclusão nenhuma pois não somos nenhuns entendidos. Mas talvez a segunda hipótese. O Crocus sativus, já conhecido e usado pelos gregos e romanos, é donde se extrai o verdadeiro açafrão a partir dos estigmas e estiletes secos da flor, percebendo-se a razão de ser do seu preço elevadíssimo. Digo verdadeiro açafrão porque o que costumamos comprar a um preço acessível é feito a partir do rizoma de uma planta da família do gengibre e por isso de cor amarelada enquanto que o verdadeiro é vermelho alaranjado.
E este post terminaria aqui, se não tivéssemos andado a pesquisar outras informações sobre a origem de Figueiredo das Donas. Ficámos a saber que as ruínas às quais tirámos algumas fotos, Posted by Picasa tinham a seguinte história:

No séc. VIII, um cavaleiro chamado Guesto Ansur e natural da zona de Lafões, juntamente com outros cavaleiros, tentaram libertar 6 donzelas que levadas pelos mouros iam ser entregues ao Emir de Córdova, fazendo parte de um pacto em que este emir receberia 100 donzelas todos os anos. O confronto deu-se num figueiral ou figueiredo, tendo o cavaleiro Ansur continuado a luta com uma pernada de figueira ao ficar sem a sua espada. Os mouros acabaram por fugir deixando as donzelas. Daí o nome de Figueiredo das Donas. Ansur acabou por casar com uma delas que já seria sua noiva e construíram um paço: as ruínas fotografadas. Posted by Picasa














No site Figueiredo das Donas encontrámos uma cantiga de amor supostamente escrita por Ansur e dedicada à sua amada:

No figueiral figueiredo
a no figueiral entrey,
seis ninas encontrara
seis ninas encontrey
para ellas andára
para ellas andey
lhorando as achára
lhorando as achey
................
las ninas furtára
las ninas furtey
La que a mi falára
nalma la chantey

2006-11-18

Theo Jansen, a criatura e o vento

Há dias falaram-me do artista plástico holandês Theo Jansen que eu não conhecia. Disseram-me que fazia “esculturas cinéticas” e eu não conseguia imaginar que tipo de movimento é que teriam. Simpaticamente enviaram-me alguns vídeos para eu ter uma ideia do tipo de trabalho desse artista. As estruturas são feitas com tubos plásticos levíssimos que quando sujeitas à força do vento ganham uma dinâmica que as fazem movimentar. Parecem criaturas inteligentes graças a sensores que as afastam de obstáculos ou fixando-se ao solo quando se aproxima um vento forte demais. Por ter ficado tão deslumbrada com esta ligação da arte e a técnica, não resisti a publicar um dos vídeos para quem tal como eu ainda não tenha esbarrado com esta maravilha.



E se quiserem ter mais informações podem aceder aqui:http://www.youtube.com/watch?v=gx6fiGwmfzI

2006-11-12

E tu? Tens os braços do mesmo tamanho?

Ontem estava à espera da minha vez num consultório médico. Na sala só estava eu e uma senhora de meia idade que me olhava frequentemente. Como sou muito distraída, tornei a olhar para ela atentamente, não fosse alguém conhecido e que assim à primeira não estivesse a reconhecer.
Percebi depois que era o sinal que a senhora esperava. Fez um grande sorriso e disse-me assim:
- A gente passa tanto tempo enfiada nestes sítios. Mas tem que ser. A saúde está primeiro que tudo.
- Sim, isso é verdade! - e tentei escolher uma revista diferente daquelas que têm os cantos inferiores das páginas mais escuros, moles e meio enrolados pelo passar de centenas de dedos sebentos e molhados com cuspo..
- Olhe, eu já tenho a minha conta em médicos e hospitais. Inda agora vim da farmácia. Tenho ali uma sacada de remédios que eu sei lá. E nem tive dinheiro para os pagar. A minha sorte é ser conhecida e as pessoas confiarem em mim. Mas já passei muito nesta vida. Estive em Lisboa, sabe? Tive um cancro. Entrei na máquina 30 vezes para ser queimada. Mas sempre tive muita fé na Virgem e foi ela que me salvou!
Sorri para a senhora abanando a cabeça, num sinal de compreensão.
Li as letras gordas de uma notícia sobre o divórcio de uma artista portuguesa qualquer. Mas, ao perceber que a senhora não me ia largar mais, pousei a revista.
- Sabe? Eu sou uma pessoa muito boa e tenho muita fé na Virgem. E também uso os meus poderes para tratar das pessoas!..
Achei estranha esta afirmação uma vez que estavamos as duas no consultório médico à espera de sermos atendidas. Comecei a interessar-me e alimentei a conversa:
- Ah, não sabia! E trata as pessoas de quê ?
- Olhe, trato do buchinho revirado, da espinhela caída…
Espantei-me com os termos.
- Buchinho revirado? Nunca ouvi falar! O que é isso?
A senhora olhou para mim com o sobrolho franzido tentando perceber se eu estava a gracejar ou se realmente era uma ignorante destes males.
- Não sabe o que é o buchinho revirado? Atão, é aquilo que dá nas crianças pequenas. Começam a gomitar e nada lhes pára no estômago!
- Palavra que nunca tal tinha ouvido. E como é que a senhora sabe que a criança tem o bucho dessa maneira?
- Ora essa, levanto a criança no ar segurando-a por baixo dos braços. Por acaso ultimamente nem tenho tido muita força nos meus. Vê-se logo aquele alto por cima da barriga. Não há que enganar!
Preocupada com o assunto, perguntei a medo:
- E como é que a senhora trata desses bebés?
- Com rezas, minha filha! O tratamento é feito com rezas porque eu tenho muita fé nos santos.
- Ah, ainda bem! – respondi aliviada – Mas falou-me noutro problema que também consegue curar!
- Sim. Também trato da espinhela caída. Mas isso acontece mais aos crescidos. São maus-jeitos que se dão, percebe?
- E como é que a senhora sabe que o doente tem a espinhela caída?
Sacudindo os ombros, naquele gesto que quer dizer “Aparece-me cada uma!...” respondeu-me lentamente a marcar bem as sílabas, a pretender fazer-me sentir completamente burra.
- Mando levantar os braços das pessoas, com os polegares assim (e por pouco espetava-me os polegares nos olhos). Os braços têm que ter o mesmo tamanho, não é verdade? Se um estiver mais pequeno que o outro é sinal que tem a espinhela caída. Entendeu?
Acenei que sim enquanto olhava para ela com os braços esticados ao alto. Depois pousou as mãos sobre a mala e continuou:
- Uma vez dei um jeito à minha espinha e pensei que não me ia mexer mais. Pedi ao meu filho e ele ajudou-me a levantar e a segurar-me à parte de cima da porta do meu quarto. Fiquei pendurada e pedi-lhe para me puxar um pouco para baixo para aliviar a dor. Mas olhe, até parece que ouvi um estalinho. Tive muito azar. Acabei por ficar de cama durante 3 meses com duas hérnias discais. Passei bem mal dessa vez!...

Felizmente ouvi chamar pelo meu nome e consegui sair a tempo de esconder um sorriso divertido que ameaçava alargar-se pela cara toda

2006-11-09

Cantinhos do meu jardim

Não tenho aparecido porque ando um bocado enchirida (nem sei como escrever o diabo desta palavra tão vulgar aqui na zona) o que quer dizer que ando assim meia tristita, adoentada e sem vontade para nada. O tempo disponível ocupo-o a ler os blogs dos amigos que são de tal maneira interessantes que me limito a usufruir do prazer da leitura. Mas, para não deixar este blog mais tempo parado o que já começa a preocupar os amigos mais próximos, resolvi publicar algumas fotos tiradas no meu jardim.

Um castanheiro generoso













Uma abelha no Callistemon













Salva (Salvia officinalis)














Mangericão (Ocimum basilicum)













Erva-cidreira (Melissa officinalis)












Poejos em flor (Mentha pulegium)