2008-01-28

O tremoço, este nosso amigo

Há poucas semanas andavamos em arrumações e descobrimos um saco de tremoços esquecido numa prateleira, já com 3 anos e que ainda por cima esteve em tempos numa arca frigorífica para os defender do bicho. Tudo indicava que teriam perdido a sua capacidade germinativa e por isso fizemos um teste e embrulhámos alguns em algodão molhado como fazíamos na escola. Passados 3 dias tinham este belo aspecto e por isso resolvemos lançá-los à terra para obtermos alguma produção.
Posted by Picasa

Dissemos lançar à terra e não semear, porque na verdade o tremoço não gosta de ser enterrado. Se o fizermos, ele torna à superfície, teimosamente, devido à sua maneira de ser que exige ser ele a escolher a forma de se agarrar à terra. Por isso a primeira fase foi esta:
Posted by Picasa

Como se seguiram dias de chuva persistente, num instante os tremoços perderam a sua secura, incharam e escolheram a melhor forma para se segurarem à terra
Posted by Picasa

Poucos dias depois já estavam mais crescidos e incomodados com o chapéu protector ...
Posted by Picasa

... e num instante começaram a livrar-se deles mostrando com alguma cautela a plantinha que vinha a emergir.

Posted by Picasa

Agora vamos ter que esperar uns meses para criarem vagem e depois o amadurecimento da semente para ser colhida, malhada, escolhida e ensacada.
O tremoço pertence à família Fabaceae e à espécie Lupinus
O seu nome teve origem na palavra árabe al-turmus. Na vizinha Espanha é conhecido por altramuz, tramúz, entremozo e chocho.
As primeiras referências a esta planta surgem no Egipto há cerca de 3.000 anos.
O tremoço é utilizado na alimentação humana e na dos animais, no enriquecimento dos solos, na indústria farmacêutica e na fitoremediação
Sempre pensámos que os tremoços eram péssimos para a saúde devido aos resquícios na memória de uma lenda repetidamente ouvida nos nossos tempos de criança em que teriam sido amaldiçoados pela Nossa Senhora.
Fugia a Sagrada Família no seu burrico quando, ao passarem por um campo de tremoceiros já maduros, estes chocalharam ao serem pisados e empurrados pelas patas do animal, denunciando o local de fuga aos seus perseguidores. A santa não lhes perdoou a fraqueza e lançou uma maldição que consistia em nunca matarem a fome a quem os comesse, o que se tornou num bem para as cervejarias e tascas que sabedoras desse castigo continuam a servir pires com tremoços que não matam a fome a ninguém e bem salgadinhos ainda têm a virtude de provocar mais sede e assim aumentarem o consumo das bebidas.
Algumas pessoas não sabem que os tremoços que comemos, foram primeiramente cozidos e depois cobertos de água mudada com frequência por diversos dias até perderem o seu amargo original. Se não houver este procedimento, são completamente intragáveis e altamente tóxicos.
Esse amargor é devido à presença de vários alcalóides como a anagirina (usada como cardiotónica e teratogénica), a esparteína (usado como ocitócico e antiarrítmico) a lupanina, (influenciando os centros respiratórios e vasomotores), a luteona e a wighteona. A intoxicação identifica-se por náuseas, vómitos, tonturas, dores abdominais, mucosas secas, hipotensão, retenção urinária, taquicardia.
Esta toxicidade desaparece após a fervura e o demolhar por vários dias, tornando o tremoço doce e um alimento de eleição beneficiando as pessoas e animais que se alimentem dele.
O tremoço é um excelente adubo em verde quando enterrado nas terras porque tem a faculdade de fixar o nitrogénio do ar, absolutamente necessário para o crescimento de novas plantas o que o torna também responsável pelo aparecimento de novos ecossistemas. As suas raízes conseguem descompactar e reduzir a erosão dos solos, ajudando à infiltração de água. Óptimo para melhorar a estrutura física dos solos. Resistente às geadas, gosta de Invernos húmidos e Verões secos
O tremoço é uma leguminosa tal como o feijão, a fava, o chícharo, o grão de bico, a ervilha, a lentilha, as giestas, os tojos, as olaias, etc
Tem o dobro das proteínas do que a maioria de outras leguminosas. É rico em ferro, fósforo, vitamina E, vitaminas do complexo B, biotina e ácido pantoténico
Estudos feitos na União Europeia, comprovam a sua acção no controlo dos níveis de açúcar no sangue, na redução do apetite, na diminuição da quantidade de colesterol no sangue, nos efeitos sobre a obstipação intestinal e por último ajudando a evitar o aumento da obesidade.
Costumam também ser referidas as suas propriedades emolientes, diuréticas e cicatrizantes, o combate a parasitas intestinais e também o seu estímulo na renovação das células favorecendo a regeneração da pele.
Em França existe um produto comercializado para o fortalecimento capilar utilizando peptídeos, vitaminas e oligoelementos retirados ao tremoceiro.
Há uma série de tratamentos caseiros que aconselham a ingestão de um ou mais tremoços amargos com a água de demolhar (ambos tóxicos) todas as manhãs em jejum para baixar o colesterol, os valores glicémicos ou as dores artríticas, mas nem nos arriscamos a divulgar aqui por ignorarmos o seu impacto nos organismos de cada um.
Depois de várias pesquisas, não conseguimos encontrar muitas receitas utilizando os tremoços. Apenas um rizotto que passamos para aqui:
Derreta manteiga e junte cebola e bacon, até ficarem fritos sem queimar. Junte depois os tremoços, o arroz e refogue bem. Acrescente um pouco de vinho e deixe evaporar. Deite um cubo de caldo de carne e a água suficiente para cozinhar o arroz. Quando estiver cozido, junte um pouco de nata e queijo ralado. Deixe arrefecer um pouco e acrescente um ovo apenas desmanchado.
E uma outra de bolinhos utilizando farinha de tremoço que desconhecemos se é comercializada em Portugal:
Misture muito bem 50 gr de açúcar com 90 gr de manteiga. Junte 100 gr de farinha de tremoço e 50 gr de amêndoas bem trituradas. Mexa energicamente até formar uma pasta homogénea. Faça pequenas bolinhas e coloque em tabuleiro untado. Leve ao forno por 20 a 30 minutos
Também vimos sugestões para introduzir tremoços nas saladas de alface, tomate, agrião ou misturados nas verduras que acompanham o bacalhau, o salmão fumado, com alguns cozidos de carne ou a acompanhar pratos de queijo.
Não queríamos finalizar este texto sem nos referirmos ao grupo de investigadores pertencente ao departamento de Botânica e Engenharia Biológica do Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa que conseguiu criar um fungicida natural de toxicidade nula a partir de uma proteína do tremoço germinado, designada de BLAD (Banda de Lupinus Alpus Doce).
O produto denominado Problad além de uma forte actividade fungicida tem um poderoso efeito bioestimulante sobre as plantas. Pode ser utilizado na vinha, nos relvados desportivos, nas culturas de estufa propícias à proliferação de fungos, na agricultura biológica em geral.
Como pode ser ingerido pelo homem, evita o cumprimento do intervalo de segurança exigido por lei no uso de pesticidas químicos. É um produto completamente inovador a nível internacional e está a ser objecto de homologação nos Estados Unidos e na União Europeia, esperando-se que ainda este ano comece a ser lançado no mercado mundial.

2008-01-09

Ainda sobre os ouriços-cacheiros

Como ficámos muito intrigados com a morte inesperada do simpático ouriço (e também com a de um seu irmão que apareceu após termos recolhido este, não tendo direito a fotos por ser muito mais tímido), escrevemos a Rui Borralho da Naturlink pedindo informação sobre estes animais e explicando o que tinha acontecido, comparando esta situação com uma outra em que conseguimos criar 3 ouricitos encontrados junto da mãe morta, que se deram bem em cativeiro, alimentados com leite, frutas e ovos crus, sendo mais tarde devolvidos à liberdade.
Publicamos aqui o mail de resposta, devidamente autorizado, esperando assim ajudar todos os amigos que se deparem com estes animais em situação de perigo:

“Os ouriços-cacheiros são das poucas espécies de mamíferos que podem hibernar em Portugal no Inverno (sobretudo nas zonas mais frias de clima continental), mantendo-se muitas vezes num estado letárgico de quase total inactividade e muito baixa temperatura corporal. Se, por alguma razão, são forçados a sair desse estado (por exemplo devido a uma perturbação exterior), podem tardar horas até recuperar a temperatura corporal normal e voltar a assumir um comportamento mais activo próximo do habitual, constituindo esta mudança um choque para os animais. Tal eventualmente poderá ter estado na origem do comportamento do animal mais pachorrento.

Por outro lado, tratam-se de mamíferos da ordem Insectivora, alimentando-se em liberdade sobretudo de invertebrados (apesar de terem por vezes uma alimentação inesperadamente variada), pelo que talvez a ração dos cães contivesse alguma componente que não se adequasse ao processo digestivo dos ouriços.

Os casos de recolha de ouriços e da sua morte depois de passarem algum tempo em cativeiro são relativamente comuns, creio que devido sobretudo ao stress da captura e cativeiro e a alimentação inadequada, pelo que recomendamos que quando as pessoas encontram ouriços, mesmo que pequenos, não os levem para casa, limitando-se a afastar alguma eventual ameaça (como a presença de um cão), ainda que a situação anterior que refere dos ouriços encontrados junto da mãe morta requeresse realmente a sua alimentação em cativeiro caso contrário os animais provavelmente morreriam.

Se desejar, poderá aceder a uma ficha com informação sobre a espécie através do seguinte link:
http://www.naturlink.pt/canais/Artigo.asp?iArtigo=4315

Curiosidade: Um ouriço-cacheiro hibernado apenas respira uma vez de seis em seis minutos, em vez das mais de trinta vezes por minuto que normalmente respira durante o período de actividade.

2007-12-29

É só para dizer...

É só para dizer que este amiguinho que já vos apresentei há dias e que afinal não chegou a hibernar mais parecendo um animalzinho de estimação por gostar de andar sobre nós apreciando o calor dos nossos corpos, metendo o focinhito dentro das nossas mangas ou na gola quente das camisolas…
 
Posted by Picasa

… estando cada vez mais confiante nas nossas mãos…
 
Posted by Picasa

… e adormecendo facilmente em qualquer posição...
Posted by Picasa

... apareceu morto na noite de Natal dentro da caixinha onde dormia.

2007-12-19

Uma história quase de Natal

O frio veio tarde mas apareceu com toda a força. No início só o sentíamos ao cair da noite deixando os dias encherem-se de sol e a manterem-se demasiadamente quentes, o que dava origem a violentos choques térmicos.
Os eucaliptos que começam a invadir as zonas próximas após o devastador incêndio de há 2 anos, não conseguiram manter as suas folhas verdes após estas mudanças bruscas de temperaturas e têm este aspecto muito idêntico a uma nova passagem do fogo

Posted by Picasa

Mas agora o frio já se faz sentir de noite e de dia, pondo fim à infestação de lagartas e outros bicharocos que nos estavam a dizimar a horta.
Com a chegada das primeiras chuvas, ainda que muito fraquinhas, resolvemos semear um terreno de pasto para corte (para fazer fardos). O saco de sementes diversas custou tão caro que temos receado semeá-lo com um tempo demasiado seco. Mas, como não se pode esperar indefinidamente, resolvemos arriscar e preparámos as terras.
O dia da sementeira é um dia de alegria para as dezenas de corvos que já conhecem o trabalho do tractor perseguindo-o e já sabedores que após este trabalho segue-se aquele momento extraordinário em que se atiram sementes para a terra que embora cobertas com outra passagem do tractor, muitas ficam à superfície fazendo as delícias de qualquer corvo mesmo pouco guloso.
Por isso, e como sempre, após a sementeira seguiu-se a invasão dos corvos. Esperamos que as sementes dêem para eles e para nós que as pagámos.
Mas o trabalho das lavras no terreno, preocupa-nos sempre porque desconcertam temporariamente o habitat de uma série de pequenos animais. Aquele pelo qual sentimos um maior carinho, é o ouriço-cacheiro.
Como estivemos e estamos ainda a preparar terrenos para outras sementeiras, pode acontecer destruirmos as tocas dos ouriços que nesta altura devem estar a hibernar defendendo-se deste frio intenso.
Uma noite destas, depois do passeio tardio com os nossos cães, reparámos que a Nanã não parava de ladrar olhando fixamente para o chão. Fomos ver o que era e vimos um ouriço ainda muito jovem, todo enrolado e sem se mexer.
Pegámos-lhe com muito jeito, mais por nós do que por ele, e trouxemo-lo connosco. Devia ser um dos tais desalojados porque não estava tempo para um animal hibernante andar a passear pelos terrenos.
Pusemo-lo numa gaiola com palha e deixámo-lo coberto com ela deixando também pedaços de maçã e um pequeno ovo. No dia seguinte a comida estava intacta e ele continuava enrolado no mesmo local.
Ao fazermos uma panelada de comida para os cães, espalhou-se o vapor da cozedura pelo espaço, aquecendo-o. O nosso pequeno amigo ao sentir aquele ar quentinho, começou a espreguiçar-se muito lentamente... primeiro o pescoço, depois as patas da frente, num vagar mesmo de preguiça, depois as patinhas de trás esticando-se completa e longamente (sentimos um desgosto enorme de não termos a máquina connosco para registarmos este momento tão engraçado), começando depois a farejar o ar e a andarilhar pela gaiola.
Ficámos muito preocupados porque na realidade a chegada da Primavera era só uma aparência, não distinguida por um ouriço inexperiente destas coisas da Natureza.
Assim que apagámos o fogão e o ar arrefeceu de novo, o animal começou a enrolar-se e tremer de frio. E agora que fazer? Mantê-lo numa temperatura que lhe fosse cómoda até à chegada real da Primavera ou deixá-lo perceber que afinal ainda estávamos no Inverno?
Trouxemo-lo para casa e ao sentir o calor das nossas mãos, o ouriço estava cada vez mais descontraído, abrindo-se facilmente e deixando fazer-lhe festas no focinho.
Posted by Picasa

Andava tão à vontade que nos permitia visualizar uma série de pulgas caminhando pelo seu corpo. Também deviam estar desorientadas sem saber se haviam de abandoná-lo que de tão frio parecia estar prestes a morrer ou manterem-se até o seu aquecimento.
O processo arranjado para as eliminar foi retirá-las com uma pinça, um trabalho a exigir muita perícia com uma forte dose de paciência e golpe de vista.
Passado algum tempo reparámos que já não tremia de frio e pusemo-lo na caixa com palha para vermos qual a sua decisão. E ele tomou a mais acertada: foi-se afundando com as patas, remexendo na palha, até ficar todo coberto e deu início de novo à sua hibernação.
Agora é só deixarmos pedaços de fruta para ele poder comer quando a fome apertar um pouco, mesmo nesta fase de letargia.
Prometemos ir dando notícias deste novo inquilino

Aproveitamos este post para deixarmos os votos de Boas Festas e Feliz Ano Novo para todos os amigos

2007-11-27

Só faltaram as fadas

Estava uma tarde quente de Verão e eu descia a Rua do Alecrim em direcção à estação dos comboios, depois de mais um dia de trabalho no banco.
Parei uns curtos minutos em frente de uma montra para apreciar umas peças de cerâmica e pude dar uma olhadela ao meu aspecto com o cabelo cortado curto recentemente, a minha t-shirt amarela com uma flor bordada com missangas brancas e as calças à marinheiro de ganga também branca. Ao ombro a minha malinha de pano verde e vermelho com tirinhas amarelas, alvo da chacota dos meus colegas.
Sentia-me fresca e leve e por isso continuei a descer a rua num passo descontraído.
Ao chegar ao largo do Cais do Sodré, cujo nome é Praça Duque da Terceira, atravessei a primeira faixa com o sinal verde para os peões para depois atravessar a faixa dos carros eléctricos que entretanto estava com luz vermelha.
O carro eléctrico aproximava-se com velocidade mas dava perfeitamente para atravessar diante dele. E foi o que fiz. Eu e algumas pessoas que pensaram da mesmo forma.
Mas aconteceu um imprevisto: a correia da mala esgueirou-se do ombro e a malinha caiu, ficando no meio dos carris e aí já sem tempo para a poder apanhar. Esperei que o carro passasse para depois a reaver.
O carro eléctrico abrandou a velocidade mas ao passar, arrastou a mala consigo. Percebi que tinha ficado agarrada às peças salientes que o carro tem por baixo. O condutor avançou um pouco, depois fez marcha atrás mas a malinha não caiu mantendo-se presa a ele. O carro eléctrico imobilizou-se.
Olhei para o condutor expectante, para os passageiros debruçados das janelas, para as pessoas que se juntaram à minha volta curiosas com a ocorrência e, suspirando fundo, percebi que tinha que agir rapidamente.
E assim fiz.
Tirei um pedaço de cartão que espreitava de um caixote de lixo ali perto e ajoelhei-me sobre ele para poupar as calças brancas. Mas a correia estava de tal maneira enrodilhada naquelas peças que não tive outro remédio senão deitar-me no chão para poder trabalhar.
Não sei se algum de vós já viu as partes baixas de um carro eléctrico. Aquilo está tudo coberto por uma grossa camada de massa consistente, preta de tanto lixo acumulado e agarrando-se teimosamente a qualquer coisa que lhe toque
Acabei por conseguir soltar a mala e quando me preparava para sair dali, ouvi os gritos lancinantes e estridentes de uma mulher e pensei:
"Não me digam que o facto do carro eléctrico estar aqui parado já deu origem a um acidente grave!..."
Consegui esgueirar-me daquele inferno preto e os berros da mulher pararam como por encanto ao ver-me sair sã e salva. Só então percebi que os gritos eram pela aparência de eu ter sido trucidada pelo veículo.
Já de pé dei-me conta do meu aspecto horrível com camadas grossas de massa presas às mãos, aos braços, aos cabelos agora pesados. O mesmo se passava com a minha t-shirt amarela e com a parte de trás das calças
A mala de pano não se abriu e por isso não perdi nada. Mas o que levava dentro como a caixinha da maquillage mais o pequeno espelho estavam partidos e o livro, que andava a ler na altura, ficou meio cortado.
O condutor tocou para se despedir. Levantou o braço e o carro eléctrico seguiu caminho. As pessoas que se tinham juntado à minha volta, afastaram-se comentando o sucedido.
E eu apanhei o comboio, com montes de gente a olhar, intrigados com o meu aspecto e tendo que fazer a viagem em pé pela impossibilidade de me sentar com a parte de trás toda coberta de massa consistente.

O livro mantenho-o comigo... como troféu.
Posted by Picasa

2007-11-06

Um milho quase tradicional

Todos os anos semeamos meio hectare de milho para fazer face aos reforços na alimentação dos galináceos, ovinos e equinos.
Há cerca de 6 anos comprámos um saco de 5 quilos de milho híbrido e tivemos uma belíssima produção de óptima qualidade. Em Abril semeamos sempre milho da produção anterior.
Acontece que de ano para ano, a produção tem vindo a decrescer sendo o próprio grão muito mais fraco.
Ficámos então a saber que é uma característica do milho híbrido, a produção ir decaindo nas gerações seguintes e, para manter os mesmos níveis de produção é necessário adquirir semente nova por cada sementeira.
Mostro-vos uma foto com algumas maçarocas deste ano onde podem reparar que há muitas falhas no grão e este tem vários tamanhos e formas, parecendo-se cada vez mais com o milho tradicional.
Posted by Picasa

O milho é uma planta da familia Gramineae e da espécie Zea mays. Originária da América Central. Tem uma grande capacidade de adaptação e por isso é cultivada praticamente em todo o mundo. É um dos alimentos mais nutritivos que se conhece. Como o grão conserva a sua casca, é muito rico em fibras.
A planta do milho é bastante curiosa. É monóica o que quer dizer que tem flores masculinas (bandeira ou pendão) e flores femininas onde estão as conhecidas barbas e onde se vai desenvolver a maçaroca .
Posted by PicasaFoto de bmf_a

Por norma a planta não se auto fecunda o que daria maçarocas muito raquíticas. Para isso não acontecer, as flores masculina e feminina na mesma planta, amadurecem em tempos diferentes em que o desprendimento do pólen da bandeira não coincide com a capacidade de fecundação da flor feminina.
Por isso se diz que o milho é uma planta de polinização cruzada por fecundar as plantas perto de si através de agentes externos, especialmente por correntes aéreas.
Os milhos híbridos usados até aqui eram manipulados de uma forma simplificada, obtendo-se a partir do cruzamento de plantas de milho com outras variedades de milho mais resistentes ou com maior produção.

Ao chegarmos a este ponto temos necessidade de diferenciar os milhos híbridos dos transgénicos também conhecidos por híbridos de 2ª.geração.

Todos os seres vivos têm várias características cujas formas ou funções são determinadas pelos seus genes. São recebidos dos seus progenitores e passados para as gerações seguintes.
Graças a essas diferentes características é que podemos diferenciar os animais das plantas e das pessoas e perceber as diferenças entre os elementos de cada grupo.
Na manipulação tradicional só se podem cruzar espécies idênticas e os genes que eram transferidos neste cruzamento, transportavam com eles características diversas não controladas .
Uma vez que todos os genes tanto humanos, como vegetais, animais ou bacterianos são criados a partir do mesmo material, isso permite que actualmente a modificação genética possa misturar, por exemplo, genes de animais, com os de vegetais ou de bactérias, dando origem a espécies completamente novas e estranhas.
Em Portugal o Governo autorizou a cultura de milho transgénico manipulado com o gene do Bacillus Thuringiensis que contém uma proteína tóxica para as larvas, conhecidas por broca do milho, não havendo necessidade de usar pesticidas para controlar esta praga.
À primeira vista parece que os organismos geneticamente modificados (OGMs) resolveriam muitos problemas actuais:
Actualmente podem-se juntar determinados genes para que as plantas fiquem resistentes ao frio ou ao calor desenvolvendo-se assim uma agricultura ampla durante o ano inteiro independentemente do tempo que fizer; modificou-se o arroz de forma a conter uma série de vitaminas que não entravam na sua composição; criou-se uma soja resistente aos herbicidas; milho com genes de escorpião para evitar o ataque de certos insectos; morangos com genes de peixe de zonas geladas para assim resistirem melhor ao frio; café que amadurece mais rápido; soja com sabor a carne; algodão com genes de uma flor azul, tornando-o também azul de forma a não ser necessário o tingimento das gangas; batata e tomate resistente às pragas de insectos.etc, etc
As manipulações genéticas são hoje quase infinitas dependendo mais do interesse das multinacionais do que da capacidade dos laboratórios.
Os novos genes introduzidos modificam a sequência do DNA, reprogramando-o e por isso dando origem a uma nova espécie.
A natureza tem as suas leis e normalmente reage mal contra os híbridos. É o caso do cruzamento entre o cavalo e a burra ou da égua e o burro, cujas crias são estéreis, o mesmo acontecendo com o cruzamento de algumas aves.
Como vai a Natureza reagir perante esta introdução de novos seres vivos, fabricados no laboratório quase de um dia para o outro sem terem sofrido o efeito da evolução/adaptação?
O que pode acontecer ao ser humano ao ingerir grandes quantidades de agro-tóxicos existentes nos genes introduzidos nas farinhas de milho ou soja, que por sua vez estarão presentes na carne ou peixe de aquacultura alimentados com estas rações?
Os genes resistentes aos herbicidas podem dar origem a novas pragas?
Os genes insecticidas poderão originar resistências nos insectos nocivos ou matar insectos úteis?
O pólen das plantas tornadas estéreis por interesse das multinacionais obrigando assim os agricultores a comprar sementes todos os anos, pode também esterilizar outras plantas na Natureza?
Como reagirá o nosso organismo ao ingerir genes de escorpião ou outros igualmente estranhos?
E as perguntas que nos surgem são imensas.
Nós não somos, para já, contra os transgénicos! Somos sim contra esta corrente de apoio aos transgénicos que não hesita em classificar de burros, ultrapassados ou arautos da desgraça, todos aqueles que dão sinais de terem algumas preocupações.
O que mais nos preocupa é sabermos que presentemente ninguém poderá responder às nossas questões. Tudo o que se diz de parte a parte não passa de conjecturas. Só o tempo nos dará a resposta certa.
Actualmente é obrigatório referir nas embalagens do milho e soja se estes foram geneticamente modificados. No entanto essa referência não existe nas embalagens com várias farinhas como as usadas na alimentação de crianças, ou na carne e peixe de animais alimentados com esse tipo de rações.

E vamos terminar a falar do nosso milho, tal como começámos.
Não temos fotos do início das tarefas que foi o lavrar as terras, o semear, o sachar, o regar, mais tarde cortar as bandeiras e depois as maçarocas. Vamos fazê-lo no próximo ano. Por agora só temos fotos da fase final.
Posted by Picasa

As maçarocas depois de colhidas e desfolhadas ficam uns dias a secar ao sol...
Posted by Picasa

...depois despejam-se os sacos cheios de maçarocas na parte superior da malhadeira e esta arranca o grão, separando-o dos sabugos...
Posted by Picasa

... e por fim o grão fica a secar mais alguns dias ao sol antes de ser ensacado e arrumado para ser utilizado durante o ano.

2007-10-22

Quando os homens da ciência também falam de compotas…

Há umas semanas atrás, recebemos um mail de um senhor chamado Mário Portugal que explicou ter-nos conhecido através do post de Março deste ano onde falamos do cientista Bettencourt Faria... e que era seu irmão.
As grandes surpresas da blogosfera !
A partir desse momento iniciou-se uma troca diária de mails.
O Mário é uma pessoa extremamente delicada e generosa, fazendo parte da grande família de radioamadores. Tem um saber imenso sobre múltiplos assuntos relacionados com a ciência. Uma curiosidade desmedida sobre o funcionamento de tudo o que é novo. Um gosto enorme pela vida e uma alegria que transpira em tudo o que escreve Os seus mails lêem-se e relêem-se absorvendo todas as informações e memórias que ele adora partilhar.
Entre tanta informação variadíssima, fomos surpreendidos pela gentileza do envio de uma receita ainda manuscrita pela sua falecida mulher.
Em sua homenagem demos-lhe o nome de “Doce de Figo da D. Alice”
Como a nossa figueira ainda tinha uns figos meio maduros, resolvemos experimentar a receita de imediato. É facílima de fazer e posso garantir-lhes que é um doce de comer e chorar por mais. Para os interessados (e estamos a pensar no Luciano) aqui segue a receita.

Primeiro lavam-se os figos e depois faz-se em cada um, 2 ou 3 furinhos com um palito.
Posted by Picasa

A seguir pesam-se e põem-se num tacho, juntando igual peso em açúcar. Cobrem-se com água e deixa-se ficar a descansar de um dia para o outro.
Posted by Picasa

No dia seguinte põe-se o tacho ao lume e vai-se deixando ferver lentamente mexendo com cuidado por uma hora ou mais
Posted by Picasa

de forma a ficar um caramelo não muito espesso.
Se por acaso engrossar demasiado, como nos aconteceu, junte um pouco de água com precaução porque vai espirrar pela certa.
Posted by Picasa

Depois de pronto é só deixar arrefecer e pôr em frascos de boca larga
Posted by Picasa


Comem-se assim inteirinhos e bem regados de caramelo.
Se ainda têm alguns figos maduros ou meio maduros nas vossas figueiras, não hesitem e experimentem. Depois agradeçam esta partilha ao cientista Mário Portugal :))

2007-10-03

Os nossos cachorros

Depois de uma ausência justificada por algum cansaço e falta de imaginação para o exercício da escrita, voltámos ao vosso convívio para vos mostrar as fotos dos novos residentes na quinta.
 
Posted by Picasa

Apaixonámo-nos por estes dois manos Leões da Rodésia assim que vimos a ninhada com um belíssimo aspecto denunciando um tratamento cuidado, assim como os seus progenitores.
Leão da Rodésia é uma raça africana, óptima para guarda e que era usada em matilha na caça ao leão.
Nós somos um pouco indiferentes ao pedigree dos cães porque sempre tivemos rafeiros, encontrados abandonados. Mas compreendemos que alguns comportamentos são mais previsíveis em determinadas raças. Não somos muito entendidos no assunto mas há duas delas que fazem parte da nossa paixão. A primeira é o Cão de Castro Laboreiro, uma raça portuguesa muito antiga, que mantém características lupinas. Autóctone de Castro Laboreiro, freguesia no extremo norte de Portugal, pertencente ao concelho de Melgaço, esteve em vias de extinção. Só os esforços de algumas pessoas interessadas na divulgação da raça com características de guarda e pastoreio é que evitaram que tal tivesse acontecido. Foram ao ponto de distribuir cachorros por pastores da zona para tentarem implementar o uso deste tipo de cão. Há muitos anos que temos um enorme carinho por esta raça e esforçamo-nos por os termos na nossa companhia. Com a morte do Odin a que me referi no post “Será que vale a pena?” ficámos apenas com o Baco, aquele cão grande de olhar atento que está deitado aos meus pés esperando que me levante da sesta, no post “É só por um bocadinho”. É um cão de aparência feroz para estranhos mas de uma total dedicação ao dono e muito afectuoso para com as crianças, como bem pode dizer a pequena Leonor que o tem como confidente, abraçando-se ao seu pescoço, enquanto se lastima em grandes prantos, perante a imobilidade e o olhar compreensivo de uma alma canina que percebe o desgosto e lhe dá o apoio da companhia serena.
O Baco não é um cão de pastoreio porque não o soubemos preparar, ignorando que havia a necessidade de o introduzir no estábulo onde deveria comer e dormir para aprender a conviver com as ovelhas desde pequenino. Por isso, sofre do impulso de caçar borregos, muito estimulantes nos seus saltinhos e pequenas correrias. Não vale a pena insistir porque não consegue resistir. Inicia a perseguição com melhor ou pior resultado e a seguir mete-se no canil com um ar muito comprometido. A única forma de evitar esta situação é ter o rebanho afastado das vistas e sempre que possível em pastos protegidos por rede ovelheira.
Depois do Castro Laboreiro, a nossa paixão vai para o Leão da Rodésia ao qual estamos muito ligados desde que tivemos o Thor, a quem dediquei um post de saudade em Setembro do ano passado e a sua irmã Tanit que ainda é viva embora já a ficar velhota e com vários problemas de artrose. Chamava-lhes a minha guarda pessoal.
Os Castros passavam o tempo rondando a quinta por dentro e por fora e as casas, preocupados com todo o movimento estranho. Os Leões pouco se afastavam, preocupados com a guarda dos donos. Quando fazíamos nós as rondas, o Thor ia sempre colado a mim, a Tanit ao meu marido, calados e atentos a todos os ruídos. Faziam uma guarda excessiva aos bens dos donos. Não os podia ter à solta enquanto trabalhavam os homens das obras porque se sentavam em cima da pilha de tijolos e dos sacos de cimento e rosnando impediam que alguém utilizasse os nossos materiais. Outra mania que tinham era a de não aparecerem, embora estivessem atentos, quando alguém entrava na quinta mas presentes, e bem presentes quando saía. E o pior é que carros e bicicletas, depois de entrarem aqui, já não podiam sair… talvez por acharem que passavam a pertencer-nos. Bem, e se a pessoa entrava de mãos vazias e saía com embrulhos, então é que perdiam mesmo a cabeça.
Identificam-se facilmente pela crista no dorso formada por pêlos que crescem no sentido da cauda para a cabeça, ao contrário do que sucede com a restante pelagem e por isso o nome original de Rhodesian Ridgeback como podem reparar na foto abaixo
Posted by Picasa

E então, nós que só íamos ver o aspecto de uma ninhada, acabámos por vir para casa, não com um mas sim com dois cachorros, um casalinho de manos que parecia serem muito unidos.
Aos poucos vão sendo aceites pela matilha residente. Na foto abaixo podemos reparar nas suas brincadeiras perante a indiferença do Baco que se comporta como o líder e da Tanit que já estava cansada de brincar com eles, na sua preocupação de os preparar para futuros guardas.
Posted by Picasa

Apenas a Pandora, que já conhecem do texto “É só por um bocadinho” estando deitada à direita da foto e que gosta de caçar coelhos que oferece depois ao nosso caseiro, é que não está para aturar estas tropelias constantes e ignora-os simplesmente.
Alguém nos disse que era comum dar nomes africanos aos cães desta raça e como temos a mania de dar nomes de deuses antigos, andámos a pesquisar a mitologia africana. Foi difícil mas acabámos por nos decidir por Dongo, o deus do trovão e do fogo e Nanã Buluku (utilizamos só o primeiro nome), divindade hermafrodita, deusa da chuva, protectora dos doentes e idosos.
Na foto abaixo pode-se ver a preocupação deles perante o afastamento dos donos.
Posted by Picasa

O Dongo, que só tem 4 meses, já me acompanha nas caminhadas, com o focinho colado a mim, tal como fazia o saudoso Thor.
São tão traquinas e têm uma tal vitalidade que parece termos o diabo à solta aqui na quinta.

Post-Scriptum: Soubemos hoje que 3 manas desta mesma ninhada ainda esperam por donos dedicados.